domingo, 12 de março de 2023

VIAGENS — 11 - Malícia outra vez

 A importância do sexo no Nordeste pode aferir-se, creio,  pelo grande número de modos de dizer que uma fêmea (refiro-me aqui a irracionais) se encontra em fase de cio. Certamente os meus Amigos conhecem alguns desses modos: das fêmeas em geral com cio, diz-se que estão aluadas, alevantadas, saídas e até desonestas. Depois há ainda designações para algumas espécies em particular: a porca está berruíça ou borliça, a vaca está touronda, a ovelha está maronda, etc. 
Mas tomemos agora as citadas designações referidas às fêmeas independentemente da espécie: aluada, alevantada, saída e até —imaginem! — desonesta. Aluada’ faz a ponte com o ciclo lunar. ‘Alevantada’ remete para a excitação própria do cio, e o mesmo se poderá dizer de ‘saída’. ‘Desonesta´ é termo mais interessante, porque remete não para instâncias fisiológicas nem psicológicas, mas para instâncias éticas. O apetite sexual é, pois, uma desonestidade que apenas se tolera porque garante a reprodução. E não é difícil transpor dos irracionais para os humanos este ponto de vista. Quando numa conhecida oração nos referimos a Maria como “concebida sem pecado“, o que estamos a dizer, senão que a concepção das outras mulheres é “com pecado”?
Contaremos ainda uma terceira conta de lascívia. Em relação às anteriores, há também uma diferença importante a notar: aqui, a mulher não é inspiradora, mas vítima de uma alegada violação que as suas próprias palavras nos fazem pôr em dúvida. 
Uma vez um homem mandou a filha ao moinho por uma saquita de farinha. A rapariga foi e nunca mais aparecia, e o pai muito ralado. Quando ela chegou, por fim, procura-lhe o pai:

− Então porque é que te demoraste tanto por lá?
− Olhe, meu pai. Eu era para me vir logo embora. Mas o demónio do moleiro não sei o que lhe passou pela cabeça, que agarrou em mim, meteu-me com o cu no farnheiro e, olhe, fez o que quis...
− Fez o que quis? Oh, valha-me aqui São Bartolomeu! E então tu, tontinha, que não gritavas?
− Gritar?!... Olha! E quem podia, com a risa?

Impossível não notar as semelhanças desta conta com o que aconteceu a Lianor Vaz, a alcoviteira da Farsa de Inês Pereira, que narra como foi acometida por um clérigo curioso, que quis à força tirar a limpo se ela era macho ou fêmea. Ela não conseguiu opor resistência, e explica porquê:

Se estivera de maneira
Sem ser rouca, bradar’eu;
Mas logo m’o demo deu
Catarrão e peitogueira, 
Cócegas e cor [vontade] de rir.

O que me autoriza, embora a medo, uma suposição. Será que esta conta, ou semelhante, já corria no tempo de Gil Vicente, e que o mestre dos autos e das farsas se inspirou nela para estes cinco versos de puro humor?  É certo que Gil Vicente expande os motivos por que Lianor Vaz não bradou por socorro: estava rouca, teve um acesso de catarrão e peitogueira — e tudo isso combinado impediu-a de pedir socorro. Como se isso não bastasse, ainda sobrevieram cócegas e vontade de rir. Mas isso é como se se tratasse de variações que Gil Vicente faz sobre um mote alheio, presumivelmente uma conta popular. De toda a maneira, parece-me a suposição supra mais verosímil do que a hipótese contrária, isto é, ter-se inspirado em Gil Vicente o autor anónimo e decerto colectivo da conta. A menos que aceitemos que se trata de uma simples coincidência — o que, convenhamos, é bem mais difícil de aceitar.

(Continua, mas já não com malícia.)

A. M. Pires Cabral

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