terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Pereira


 Há nomes que designam pessoas. E há nomes que designam lugares, memórias, afetos e uma forma inteira de estar na vida. O Pereira era tudo isso. O António Pereira, homem de sorriso aberto e coração ainda maior, tornou-se sinónimo de um espaço, nos arrabaldes de Bragança, que marcou gerações, um refúgio noturno onde a amizade tinha morada certa.

Entrar no Pereira era entrar num ambiente onde as luzes eram ténues, mas o calor humano era intenso. Onde os risos se ouviam madrugada adentro e o tempo parecia abrandar para nos deixar viver mais um pouco. Ali partilhavam-se histórias, confidências, sonhos e até desilusões, sempre acompanhados de um copo levantado em brinde à vida.

E que dizer dos petiscos? O caldo verde de excelência que nos aquecia a alma nas noites frias transmontanas. As feijoadas reconfortantes, os pregos suculentos que sabiam sempre melhor àquela hora improvável, os rissóis de amêijoa ou de berbigão que desapareciam das travessas num instante. 

Mas o verdadeiro coração do espaço não estava nas paredes, nem no balcão, nem nas mesas cheias. Estava nele. No Pereira. Sempre sorridente. Sempre disponível. Sempre paciente com os mais “exagerados” por terem bebido um copo a mais. Nunca um olhar de reprovação, apenas compreensão. Nunca impaciência, apenas empatia. Sabia ouvir, sabia acolher, sabia cuidar, mesmo quando já era muito depois da hora.

Grupos de amigos e amigas ficavam até de madrugada, entre gargalhadas e canções improvisadas. E lá estava ele, de braços abertos, pronto para receber mais um, para servir mais um, para dar mais um abraço. Quando, já envergonhados, pedíamos desculpa por termos ficado até tão tarde, respondia com aquela bonomia tão sua:

- Ora essa, mandai sempre.

E nós sabíamos que era sincero.

Havia também o piano. Ah, o piano… Quantas noites ganharam alma à volta daquelas teclas. Mesmo quem não sabia tocar acabava por se aventurar, porque ali ninguém julgava, todos participavam. O piano unia vozes, desafinadas ou não, e transformava desconhecidos em companheiros de coro. Era música e comunhão.

O Pereira era, e é, um amigo. Um daqueles raros. Um pilar discreto da nossa Bragança. Um ícone que não precisa de estátua porque já está gravado na memória coletiva de todos nós. A sua bondade espalhou-se pelas conversas, pelas histórias que ainda hoje contamos com um sorriso nostálgico.

Obrigado, amigo Pereira.

Obrigado por tudo o que nos aturaste.

Obrigado pela paciência nas noites longas.

Obrigado pelos abraços sinceros e pelo “até amanhã” que soava sempre a promessa de reencontro.

Obrigado por teres feito do teu espaço um lar para tantos.

A nossa Bragança é maior porque tu existes.

E enquanto houver quem recorde aquelas noites, enquanto houver quem fale do caldo verde, do piano, das gargalhadas até de madrugada, o Pereira continuará vivo, mesmo sem as portas abertas.

O Pereira não era apenas um espaço.

Era amizade. Era acolhimento. Era casa.

HM

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