quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

... quase poema... ou dos silêncios

Por: Fernando Calado
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)


 No hospital espera as melhoras que tardam. A aldeia fica deserta. Longos silêncios.... Os santos ainda andam por perto vigilantes nos beirais das casas… ou no murmúrio, ou nos gemidos dos hospitais.

… já vai qualquer coisa melhor! Diz o seu homem.

Ele ficou em casa, parte a lenha, mas o lume não arde… falta o jeito da mulher.

Eu partia a lenha… ela lá a punha no lume!

… eu bem queria fazer-lhe mais visitas...

… vivíamos tão bem!

Às vezes ralhávamos… mas era só como a conta do outro… para dizer alguma coisa.

Tinha duas pitas, ontem uma amanheceu morta… gorda… poedeira!

… o que não acontece a um homem!

Vivíamos tão bem!

Faça-lhe uma visita e as melhoras.

Os vizinhos fazem-me falta… e a soalheira já não amornece a conversa que falta.

Sinto no corpo o frio húmido do hospital e o longo deserto da aldeia.

O vizinho regressa a casa sozinho.

… o que não acontece a um homem!


Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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