terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sobre os topónimos «Miranda» e «Mirandela»

Por: Rui Rendeiro Sousa
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 Qualquer iniciado em estudos toponímicos, começa logo por aprender sufixos básicos na constituição de «nomes de terras». A título exemplificativo, poderei mencionar os grupos «oso/osa», «edo/eda» ou… «elo/ela». Mais tarde evoluirão para outros conjuntos, como «ide/inde/ende», ou «ufe/ulfe», entre outros exemplos que aqui poderia escalpelizar. Mas isso é para iniciados em estudos toponímicos, não para «mestres»… 

Um iniciado saberá, de imediato, que os nomes de povoações constituídas pelos sufixos «elo/ela» se tratam, à priori, de diminutivos. Isto é, para resgatar municípios mais conhecidos, Vouzela é «vouga pequeno», Vizela é «ave pequena» ou Penela é «penha pequena», algo que também se aplica à «nossa» Pinela. E que também se aplica, a partir de designações outras, às «nossas» Fradizela ou a Cernadela. Ou aos «nossos» rios Tuela e Tinhela. Ou… a Mirandela. Ou a uma qualquer ruela…

Mas isto é para qualquer iniciado… No caso particular deste que escrevinha uns disparates, antes de iniciado, já foi benjamim, tendo passado pelos juvenis, pelos juniores, pelos seniores, estabilizando, agora, nos veteranos. E, já nos veteranos, descobriu que tem de regressar, não aos iniciados, nem aos benjamins, mas, sim, às «escolinhas»… Porque, depois de largas dezenas de anos a queimar pestanas com a toponímia das nossas terras (e de outros lados…), sofreu o desapontamento de ter de regressar ao «infantário». Porque Mirandela, afinal, não é um diminutivo de «Miranda»! Mirandela é uma inconcebível evolução, para quem tenha um mínimo de conhecimentos de Linguística (ou de Filologia), de «Mira + Ledra»! Só que há um problema, entre muitos outros…

O primeiro registo de um topónimo «Mirandela» é do século XI (e não se refere à «nossa» Mirandela)… É proveniente da documentação de uma diocese espanhola que fica um “catchicu’e” longe da nossa região. E essa «Mirandela», a não ser que as «Terras de Ledra» fossem mais extensas do que o conhecido, era um «tantinhu’e» afastada daqui… Já deveria ser, sei lá “c’um catanchu’e”, uma «Mira + Ledra» doutros territórios, mesmo que, etimologicamente, não haja explicação lógica para a fonética evolução…

Centremo-nos, porém, e em modo de «aula» gratuita, «de borla», «pro bono», no topónimo que origem deu ao diminutivo «Mirandela» (ao nosso e ao outro): «Miranda». Topónimo esse que é um «cibinhu’e” mais vetusto, pois surge documentado desde o século X, quer através de um cartulário de um dos mosteiros «portugueses» mais antigos, quer por via da documentação de outra diocese espanhola. Um topónimo («Miranda») que, por entre topónimos principais e microtopónimos, conheço mais de quatro dezenas a norte da região central da península, aí se destacando, naturalmente, a «nossa» Miranda do Douro, mas também Miranda do Corvo e, por terras espanholas, Miranda de Ebro, não esquecendo uma fantástica aldeia designada como Miranda del Castañal. 

E não é unânime a origem do topónimo «Miranda». Ao que parece, nos estudos dos «gajos que não percebem patavina disto», haverá duas vias para explicar o dito topónimo «Miranda». Um mais recente, directamente a partir do Latim, que também daria origem ao verbo «mirar», ou às versões familiares «mirante» ou «mirador». E um outro mais antigo, a partir dos «ignóbeis» autores que, há centenas de anos, se dedicam a estudar uma coisa a que convencionou chamar-se «indo-europeu». E tudo por causa da existência, em Portugal, de um «estúpido» de um «Rio Mira»! Curso fluvial esse que parece ter ido buscar a sua designação a um radical indo-europeu, que evoluiria para um hidrónimo, ou seja, para um designativo relacionado com «água». Por outro lado, há um outro radical indo-europeu, presente no nome de outras terras, que possui o significado de «extremo» ou «limite». Ou seja, «Miranda» poderá ser uma evolução, a partir da conjugação de dois radicais indo-europeus que significaria «água ou rio no limite», «água ou rio no extremo» ou «água ou rio na fronteira». Mas isso são os «ignorantes» Linguistas (ou Filólogos) a afirmar… 

Esses mesmo Linguistas afirmam o «ridículo» de os topónimos «Mirandela» serem um diminutivo da dita expressão «Miranda». O que, para este «gajo» que «não percebe nada da poda», seria lógico. Até perceber que Vouzela, afinal, significa «vouga de ledra», Vizela, «ave de ledra» e Penela, «penha de ledra»… Tal como Mirandela é «Mira + Ledra»… E ruela é «rua de ledra»… Tal como Tinhela é a «tinha de ledra» e o Tuela é o «tu de ledra»… Se, ao invés de «tu», fosse «eu», seria o «Euela», ou seja, «eu + ela»… “Num tânhu sorte niua”… 

E lá passei o dia a enviar dezenas de e-mails e mensagens, acrescidos de dezenas de telefonemas, a informar os meus «ensinadores» que terão de queimar ou refazer os tantos escritos onde já versaram sobre toponímia. Só não sei como contactar os que já não estão entre nós… Da minha parte, já queimei os meus... Ou, como me dizia, há poucos dias, um dos mais eminentes linguistas (e epigrafistas) deste «país à beira-mar plantado»:

«É preciso uma imaginação muito fértil para transformar um diminutivo de Miranda em Miraledra. Porque se rala com isso?». Respondi-lhe: «Porque estou cansado de ver as minhas depauperadas e despovoadas terras, injustiçadas e deturpadas»… É só isso…


Rui Rendeiro Sousa
– Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer. 
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas. 
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana. 
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros. 
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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