segunda-feira, 27 de abril de 2026

Estudo diz que 77% das aves agrícolas reduziram a sua presença na Europa na última década

 Portugal, Espanha, França e Itália são as regiões onde os declínios destas aves tão importantes são maiores, revela novo artigo científico publicado na revista Conservation Biology.

Picanço-barreteiro. Foto: Bouke ten Cate/WikiCommons

Culturas agrícolas, pastagens e outros espaços abertos são habitats que acolhem espécies de aves emblemáticas.

Uma nova investigação do European Bird Census Council, publicada na revista Conservation Biology e liderada pelo CREAF, pelo Institut Català d’Ornitologia (ICO) e pelo Centre Tecnològic Forestal de Catalunya (CTFC), analisou 43 espécies de aves associadas a paisagens agrícolas em todos os países europeus. O estudo alerta que 77% reduziram a sua presença na última década, um dado também relacionado com o declínio das suas populações.

Esta tendência pode ter consequências graves, já que estas aves desempenham funções essenciais, como o controlo natural de pragas e insetos, a dispersão de sementes e, de forma geral, a indicação do estado de saúde dos ecossistemas.

Entre as regiões mais afetadas estão a Península Ibérica, França e Itália, bem como vários países da Europa Central, como a Polónia e a República Checa.

Para desenvolver o estudo, a equipa criou uma ferramenta capaz de gerar mapas de distribuição de aves atualizáveis com elevada frequência, com o objetivo de apoiar políticas de conservação e de restauro.

“O estudo resulta de um trabalho de colaboração extraordinário entre diferentes elementos da comunidade científica, ornitólogos de campo e todas as organizações ornitológicas que monitorizam aves nos países europeus”, comentou, em comunicado Sergi Herrando, presidente do EBCC, investigador do CREAF e do ICO, e autor principal do estudo. “Graças a isso, conseguimos integrar dados que nos permitem saber com grande detalhe onde as populações de aves agrícolas aumentam, diminuem ou se mantêm estáveis”, acrescentou.

Algumas espécies mostram uma regressão clara na Península Ibérica, como o alcaravão (Burhinus oedicnemus) que, “muito provavelmente, está a sofrer os efeitos da intensificação agrícola”, segundo Herrando.

Outras espécies em declínio são o picanço-barreteiro (Lanius senator) e o chasco-ruivo (Oenanthe hispanica).

Em contraste, algumas espécies apresentam melhorias localizadas. É o caso do rolieiro (Coracias garrulus) que, apesar da tendência global negativa, tem registado aumentos em zonas específicas do nordeste da Península Ibérica. “Esta melhoria pode explicar-se, pelo menos em parte, pelos esforços de conservação realizados nessas áreas”, acrescentou Herrando.

Embora as causas do declínio não tenham sido analisadas diretamente neste estudo, os investigadores apontam para uma combinação de fatores. São eles o uso de produtos químicos na agricultura intensiva, o abandono rural — que favorece a expansão da floresta em detrimento dos espaços abertos —, fenómenos climáticos extremos como chuvas torrenciais, que podem destruir ninhos e ovos, e o aumento da temperatura, que dificulta a manutenção das populações de algumas espécies na região mediterrânica.

Os mapas foram elaborados com base em dados recolhidos no âmbito do Pan-European Common Bird Monitoring Scheme (PECBMS). “O resultado é uma resolução muito elevada à escala europeia, de 10×10 km. É como ter uma lupa que nos permite observar as mudanças nas populações de aves a uma escala muito local”, sublinha Guillem Pocull, um dos autores principais deste estudo. A análise incidiu sobre dois períodos de cinco anos: 2013–2017 e 2018–2022.

Os investigadores acreditam que a informação deste estudo é fundamental para orientar medidas de conservação e restauro, bem como para avaliar a sua eficácia.

Um exemplo é o picanço-real (Lanius meridionalis), cuja avaliação do estado de ameaça por parte da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) poderá beneficiar destes novos dados.

Segundo os investigadores, a espécie — que só ocorre na Península Ibérica e no sul de França — encontra-se próxima de uma categoria de ameaça. “Os dados mostram que não só não recuperou nos últimos dez anos, como existem vastas áreas onde perdeu presença de forma significativa.”

Outro caso é o da rola-brava (Streptopelia turtur), que perdeu presença entre 2013 e 2022, mas que apresentou uma recuperação recente após a moratória à caça imposta pela União Europeia. Atualmente, a caça voltou a ser permitida, mas os investigadores sublinham que a nova metodologia permitirá acompanhar a evolução da espécie a curto prazo e identificar rapidamente eventuais novos declínios.

O estudo contou com a participação de dezenas de instituições científicas e organizações ornitológicas de toda a Europa, coordenadas pelo EBCC através do projeto PECBMS.

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