quinta-feira, 23 de abril de 2026

Guerra e Paz


 A diferença entre um povo que vive em guerra e outro que vive em paz nunca estará nas notícias dos jornais ou nas imagens que passam na televisão, está na forma como cada pessoa acorda de manhã, respira, sonha e enfrenta o dia.

Num povo em paz, a vida constrói-se com confiança. As crianças crescem a acreditar que o amanhã existe. Brincam nas ruas sem medo, aprendem na escola com a certeza e despreocupação de quem pensa no futuro como algo certo e positivo. Os adultos fazem planos, compram casas, criam negócios, pensam em férias, projetam anos à frente, sonham com os netos. Há problemas, claro, há dificuldades, mas existe uma base sólida, a sensação de segurança, de continuidade, de que a vida, apesar de tudo, segue o seu curso.

Já num povo em guerra, essa base, essa aparente segurança, desaparece.

O dia começa sem garantias. Acordar já é, por si só, uma vitória. O som que interrompe o sono pode não ser um despertador, mas uma explosão distante, ou próxima demais. As crianças aprendem cedo aquilo que nenhuma infância deveria ensinar. O medo, a perda, a incerteza. Brincam menos, sonham menos alto, crescem mais depressa do que deveriam. A escola pode não existir, ou pode ser apenas um intervalo entre sirenes.

Enquanto num lugar de paz se constrói o futuro, num lugar em guerra sobrevive-se ao presente.

As prioridades mudam radicalmente. Em paz, discute-se a qualidade de vida, em guerra, luta-se pela própria vida. Em paz, escolhe-se o que comer e quando, em guerra, agradece-se o que houver, quando houver. Em paz, fala-se de carreiras e ambições, em guerra, fala-se de abrigo, de fuga, de quem ainda está vivo.

Mas a diferença, a maior diferença está dentro das pessoas.

A guerra transforma tudo. Rouba a inocência, desgasta a esperança, altera a forma de ver o mundo e os outros. Cria cicatrizes que permanecem muito depois de se calarem as armas. O medo torna-se constante, quase um companheiro. A desconfiança instala-se e o luto repete-se vezes demais.

Por outro lado, também revela uma força humana quase indescritível. Povos em guerra desenvolvem uma resistência impressionante, uma capacidade de adaptação que desafia qualquer lógica. Encontram humanidade no meio do caos, partilham o pouco que têm, protegem-se uns aos outros como podem. Há uma solidariedade crua, essencial, que nasce da necessidade.

Num povo em paz, essa força também existe, mas raramente é posta à prova da mesma forma. A paz permite cultivar outras dimensões da vida. A arte, a cultura, a reflexão, a liberdade de ser e de escolher… de escrever. Permite errar sem que as consequências sejam devastadoras, permite recomeçar sem partir do zero.

A paz dá espaço para viver; a guerra obriga a sobreviver.

A guerra não cria um povo diferente, coloca pessoas comuns, como nós, em circunstâncias extraordinariamente duras.

Quando olhamos para um povo em guerra, não estamos a ver “outros”, estamos a ver aquilo que qualquer sociedade poderia ser, se a paz deixasse de existir.

… E isto, deveria ser suficiente para lembrar o valor imenso, e tantas vezes esquecido, de viver em paz.

HM
23 de Abril de 2026... num mundo em guerra... na busca gananciosa do dinheiro e do poder!.

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