terça-feira, 14 de abril de 2026

História Interminável

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 Num turbilhão de luz
Dei por mim sem saber como tinha chegado ali.
E tive consciência de quem era.
Criança inocente brincando com o presente
Acabado de receber.
Sem ter noção das palavras,
Os dias eram de Verão.
O amor dos pais e dos avós,
Era o calor do sol que aquecia.

Com o tempo cresci.
As palavras tornaram-se parte da vida.
Centenas de estranhos atravessaram os meus dias de Primavera
Temperados e doces,
Com os avós guardados numa terna recordação.
Os pais começaram a distanciar-se.
Em plena estação,
O meu coração bateu mais forte
E agarrei o amor com firmeza.
O fim da Primavera aproximava-se
Quando conheci o meu filho.
Era o fim de uma época,
Enquanto ele crescia
E meus pais se afastavam.

Chegaram os dias mornos do Outono,
Salteados pela chuva.
A nova temporada mordeu-me os ossos
E tornou-me mais lento.
O mundo mudou.
A minha rua já não me reconhecia.
Os professores do meu filho
Eram cada vez mais novos.
Os meus amigos, mais distantes
E cada vez menos.
O meu filho cresceu.
Tornou-se um homem.
A estação estava no auge.
Os meus pais eram agora
Uma memória distante
Que ainda me fazia verter uma lágrima.
O Outono aproximou-se do fim.
Os dias tornaram-se frios,
Intermináveis.

As chuvas de Inverno apanharam-me em cheio.
O corpo gelou-se.
Meu filho casou.
Estava feliz.
Longe.
Trouxe-me um neto,
Para que ainda o pudesse conhecer.
Minha esposa,
De cabelos de neve,
Afagava-me o rosto cansado
E suportava, com paciência,
As minhas casmurrices.
Os dias eram infindos e
O ócio embrutecia-me.
Deixava-me sonolento.
E a noite tardava em chegar.
Cada gesto era um esforço,
Mas finalmente os olhos pesaram.
Ajeitei-me para dormir.
Acalmei a cabeça na travesseira,
Perante o olhar cansado,
Mas preocupado,
Do meu amor.
Ela sempre compreenderia antes de mim,
Sem que eu precisasse de falar.
Sorri para a sossegar.
Fechei os olhos com um suspiro.

E é um turbilhão de luz numa paz imensa e celestial.
Dei por mim sem saber como tinha chegado ali.
E tive consciência de quem era.
Criança inocente brincando com o presente acabado de receber.
Sem ter noção das palavras,
Os dias eram de Verão,
O amor dos pais e dos avós,
Era o calor do sol que aquecia.

(Versão revista e corrigida de um texto de 2011.


Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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