(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Fotos de Emídio Galvão
O meu primo Emídio Galvão quase me adivinha os pensamentos. Secretário da Junta de Freguesia, devolve-nos as memórias e ouvem-se de novo as vozes que há muito se calaram.
Andava eu incomodado com o abandono da Fonte de Cima, a fonte de mergulho da minha infância.
- Vê lá se cais à fonte, meu rei! — avisava a velha empregada da casa, quase mãe. Nunca caí à fonte, Sara! Mas tantas vezes me caíram lágrimas, misturadas com as silvas que esplendorosamente ocultavam a fonte e silenciavam o ribeiro que timidamente corria por baixo da ponte, que já não dava passagem para a outra margem.
A obra fez-se… urbanizou-se o espaço e a fonte esquecida renasceu das cinzas… fénix renascida em plena alvorada. O Emídio ia avisando que a obra estava quase pronta. Já vi o arranjo final com olhos marejados… mágoas antigas.
- Não sabia que havia aí uma fonte! — dizem muitos.
Havia uma fonte… há uma fonte… renasce o ribeiro e regressa tanta gente que, de cântaro no braço, vai à fonte… bebem água… dizem segredos em surdina… lavam a roupa, que fica a corar na relva fresca… e é madrugada… e a cegonha passa rasante à beira da saudade.
… e é quase Verão… com segadores… cheios de sede que descansam no aconchego da fonte.
… Obrigado
Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança.
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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