terça-feira, 19 de maio de 2026

LITERATURA E POLÍTICA

Por: Ernesto Rodrigues
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

No pretexto do lançamento de GOLPE DE ESTADO, discorri sobre "Literatura e Política" na minha obra (1973-2026).


 LITERATURA E POLÍTICA

Reflicto, desde a estreia em livro, em 1973, sobre as questões do Poder, mais evidentes no teatro, no jornalismo, na cronística e na dezena de romances editados. Inauguro-me, aos 16 anos, com “Poemas em café democrata”. Podemos imaginar o que este qualificativo ‘democrata’ significava junto das autoridades civis, militares e religiosas (como então se dizia) de uma cidade fechada como Bragança. Mas também descrever, em verso solto, o parto de um animal ou o destino de prostituta chocava essas mentalidades. Em 55 anos de versos, reflecti sobre o nuclear, tragédias no Mediterrâneo ou na Indonésia, abandono da Somália ou do Sudão pelas nossas consciências distraídas, derrames do Mal em Gaza, Ucrânia vítima putinesca, etc.

Ainda em 1973, escrevi a primeira de onze peças editadas em 2021. Abre com uma manifestação após funeral de emigrante regressado a casa, cujo filho universitário é perseguido pela polícia política. Nos cartazes, lê-se: «Só queremos respirar!» A última peça, “Pandemia”, fecha esse ciclo de uma arte da respiração, como defino a liberdade. A terceira peça, O Golpe (1975), coloca frente a frente uma direita autocrática no poder minada pela extrema-direita, face a extrema-esquerda pouco menos do que impotente. Alarga-se esse título no romance Golpe de Estado (2026). 

Em 1972, escrevo um primeiro conto sobre a emigração portuguesa em França, o cinismo de quem domina o corpo de outrem e como se faz justiça, minha preocupação maior, pois, citando o livro bíblico dos Provérbios, 14: 34, «A justiça é a grandeza das nações». Ou das pequenas comunidades, como disse na novela de estreia, Várias Bulhas e Algumas Vítimas (1980), ao mostrar a revolta de uma assembleia de freguesia contra junta discricionária que matava os seus à sede. Inspirei-me nas primeiras eleições autárquicas antecipadas que o país conheceu, em 1978, na minha Torre de Dona Chama, e Torre de Dona Chama será título de romance (2013) sobre um jogo de forças com vitória da razão sobre a prepotência. É este o corolário do meu último romance. Antes, porém, um passeio por outras ficções.

Fiz, em A Serpente de Bronze (1989), uma analogia entre o desastre de Alcácer Quibir (1578) e a falhada revolução húngara de 1956, propondo uma União Europeia do Tejo aos confins europeus, concretizada em 2004. Se reconheço uma permanência sebástica no nosso imaginário, esse «príncipe das sombras» é absorvido por outros eventos e heróis de facto, até ao regresso pátrio de Camões cumulado no 25 de Abril, quando termina a acção: «Terna melodia repassa o país.»

A presença turca na Europa do século XVI justificou um nicho de resistentes em Bled, na Eslovénia, entre os quais o nosso primeiro gramático, Fernão de Oliveira, em O Romance do Gramático (2011). Eles preservam a cultura humanista ocidental, enquanto Oliveira, mais tarde regressado de Londres a Lisboa, defende a liberdade de Henrique VIII contra a Inquisição, que o prende nos Estaus.

A História de uma cidade e de momentos altos do país medievo está em A Casa de Bragança (2013), cujo núcleo assenta no casamento de Pedro e Inês nesta cidade.     

Passos Perdidos (2014) denuncia comportamentos de uma Assembleia da República inflada de inúteis e pouco produtiva, quadro a completar com a séria distopia de O Bom Governo (2024), um executivo de cem ministros (do Betão, da Apneia, da Renda de Bilros, da Amnésia, das Boas Intenções, etc.), cada um com cem assessores, quando se exige administração saudável conduzindo ao governo de nós mesmos, sem infantilizar a nação, sem favoritismos, nem desigualdades gritantes.

A presença ocidental no Afeganistão e a saga dos refugiados – presença cínica, desculpando-se em danos colaterais contra civis – estruturam Uma Bondade Perfeita (2016), cuja violência se revê no Moçambique de Um Passado Imprevsível (2018), opondo o tráfico de bebés à paternidade responsável.

As lutas liberais e seus efeitos na abolição da pena de morte, em Portugal, e da escravatura, no Brasil, alicerçam A Terceira Margem (2021), uma história de 266 anos, entre 1756 e 2022, modo de celebrar a independências de uma nação, como independentes devem ser todas. 

Enfim, a invasão da Ucrânia serviu, em Liliputine (2023), para um olhar de conhecedor sobre as vicissitudes centro-europeias desde a morte de Estaline (1953), com os tanques soviéticos em Budapeste e em Praga, a fragmentação da Jugoslávia e, em contraponto, a democracia possível, mas respeitosa, do Ocidente. Biografo o liliputiano Putin, cujo 1,68 se sonha Pedro, o Grande, com 2,03…

Golpe de Estado centra-se num quadro sociológico e político que ameaça a liberdade em cada segundo.     

Florescem grupos e forças políticas revanchistas para os quais a democracia é um estorvo, o pensamento é um luxo inútil, a intimidade exige controlo alheio e a linguagem tem de ser policiada. A mentira, ou desinformação, recobre essa aliança dos que se dizem ‘verdadeiros patriotas’, mas ignoram a História, e, entre vários bodes expiatórios, apontam às mulheres, que visam prender em casa, e às minorias, que sonham pisar, sobretudo se diferentes no género e imigrantes. É a masculinidade tóxica, o supremacismo de aviário, violento, preconceituoso, fanático, dito purificador, cuja hipocrisia deve ser denunciada. Envenenam o Parlamento, defendem grupúsculos nacionalistas de coloração neonazi, invadem alegremente as redes digitais e analógicas. 

Em Golpe de Estado, a manipulação contra a Esquerda serve-se de vidas humanas para maior credibilidade, quando o grupo 1128 já explorara a imigração ilegal e o partido Alto! defendera causas medievais. É um romance na ordem do dia, que augura o pior, mas acredita na justiça em segurança. 

Alegando assumir a dívida externa do país, um oligarca mina a acção do governo. O projecto de reversão democrática falha, não o apoio a grupos neonazis que ensaiam um golpe de Estado, contrariado por deduções de um tradutor e autor policial. Num terceiro momento, esse mentor investe no monopólio da desinformação, ao corroborar as bandeiras da extrema-direita – remigração, insegurança, nacionalismo identitário –, mas crimes antigos levam um inspector a cortar a cabeça desta hidra.

Dezenas de personagens convivem neste tríptico romanesco, alertando para a ascensão de um extremismo sem valores, qual Polifemo de um só olho, impondo a sua verdade, única. Quando a democracia formal se tornar eufemisticamente iliberal, os bárbaros – afirmadas ‘pessoas de bem’, no desprezo das minorias e de quem é contra – entraram na cidadela.

Sem o jogo das relações interpessoais, contudo, este romance seria um libelo. Distopia política (ou talvez não), história de amor e solução detectivesca organizam-se em narrativas de primeira e terceira pessoas segundo montagem cinematográfica apoiada em diálogos vivos, onde a brevidade e secura do verbo não rasuram as emoções que nos alimentam. Desenvolvo o entrecho.

Um narrador-protagonista conta como Nelson C., director e proprietário do semanário digital Última Hora, actua na oposição, e como tão bem conhece os «ângulos de cada traidor togado de ministro. Conhecia-os bem, e demorou-se no da Juventude e Desporto, nem jovem, nem desportista, salvo na treinada ginástica de virar garrafas de champanhe, bebida invasora com perda de divisas. Acendia o cachimbo e a risada em cada parágrafo.» Acolitado pelo chefe de redacção Bernard De Vasconcelos, chantageia o governo de coligação tripartida, servindo-se do ministro das Finanças, a quem oferece entrada em casa eufemisticamente dita de massagens, um segmento do seu vasto império. Simultaneamente, promete saldar a DÍVIDA EXTERNA (título da primeira parte, primeiro golpe), impondo medidas draconianas: reduzir a pressão da água, a potência da luz, o fluxo de gás e a velocidade dos transportes públicos, nestes triplicando o preço dos bilhetes; um imposto sobre os bens de consumo; quintuplicar os vencimentos da polícia e decuplicar o estado policial; e uma série de abusos legais, para recreio dos tudólogos. Rosto de forças desconhecidas, visa, também, a presidência do Banco nacional. 

Não olha a meios, seja mandar matar o ministro da Juventude e Desporto ou o redactor César Ruiz, responsável pelas páginas de Cultura e alegado autor do folhetim Os vendilhões da pátria. Mata-se em causa própria, fazendo crer vingança do Estado, a fim de criar uma atmosfera constrangedora de governação também promíscua na relação sentimental do primeiro-ministro com a líder do segundo partido coligado. Em síntese, «O novo governador do Banco nacional arrastou secretário e guarda-costas: detentor de parte substancial da dívida externa do país, está nas suas sete quintas, após obrigar à demissão do primeiro-ministro (por razões de saúde, segundo comunicado), a que se alcandorou, acumulando, o ministro das Finanças. Em dois meses, minaram o governo e o país.»  

O narrador, estagiário de 25 anos redactor da secção de Lazer e Entretenimento, percebe, através da namorada, Eugénia Santos, estagiária em escritório de advogados, que partem daqui as leis governamentais decididas por Nelson C.; cumpliciado com a designer Eulália Sepúlveda, que o reconhece da comum orfandade em internato, e temendo má sorte, passam-se ao jornal da deputada Giselle Santos Brown, onde, com aquele mesmo título, Os vendilhões da pátria, sai novela-denúncia, que desfaz os projectos do predador. 

Mostrei, em Liliputine, como Ceausescu pôs a dívida externa da Roménia em zero, conjugando os maiores disparates, que um povo faminto não reconheceu, ao fuzilá-lo – a ele e à mulher. Isso, sim, era uma real distopia, de que se aproximam as medidas por mim imaginadas.

Esta primeira parte decorre entre 3 de Janeiro e 15 de Março. 

A segunda, GOLPE DE ESTADO, entre 17 de Março e 1 de Maio; é a reincidência de um predador agora perdedor apoiando neonazis, cujas contradições teóricas (História nacional colectora de imigrantes, ao contrário do que julgam) e práticas (tráfico e prostituição de estrangeiras) aquele narrador desvela, numa prosa mais dialogada. 

Começa com a perseguição do líder do grupo 1128, Marco, a duas imigrantes indocumentadas da Crimeia ocupada, Larysa mãe e Larysa filha, de oito anos. Mal saídas de comboio matinal, fugindo avenida fora, aquela abandona a filha a um transeunte que volta para casa do passeio. É Gonçalo Santos, autor de policiais muito conhecido (ver a emoção da jovem Teresinha e pais), que se socorre do amigo João Meneses – médico, detentor de clínicas associado a uma viúva nórdica, Ingrid –, para consulta à menina abandonada pela mãe. Ingrid Larsen conhece Gonçalo Santos de nome, enquanto tradutor do seu pai, relação que se cimenta até ao final da obra, entre redescoberta do amor, feitos de gratidão e de generosidade no campo da saúde. É na distância – física, temporal, linguística – que ela se reconcilia com o pai.

Essa manhã, contudo, com ataques país fora do partido de extrema-direita Alto! assente em grupelhos supremacistas, é ensaio para algo maior, mais perigoso, anunciado por outras perseguições. Superintende um apelido agora completo, e significativo: Nelson Camarilha. Gonçalo começa a perceber um golpe ao ler, em semanário, textos codificados de incitação à luta armada assinados por Maria Mercês Faustina, uma comunista ex-companheira de faculdade, agora ideóloga neofascista.

A narrativa conta as deduções de Gonçalo e suas diligências para alertar as autoridades, em especial, o director nacional da polícia e o secretário-geral do Serviço de Informações de Segurança. Fá-lo através da amiga e influente Joana Pessanha, separada de João Meneses, enfim colocando o país de sobreaviso contra um golpe de Estado desencadeado, mas falhado. Confirmadas as deduções de Gonçalo, este explicará o seu raciocínio em jantar na casa de João e Joana, de novo reunidos, a que acorrem os responsáveis policiais e o Presidente da República. 

MANIPULAÇÃO vai de 20 de Outubro a 1 de Novembro, ou como comprometer David Brown na alegada morte de uma adolescente, Amanda, filha dos separados Bernard Alvarez de Vasconcelos (filha que não vê há 14 anos) e Olívia de Vasconcelos (antiga aluna de David Brown), neta de Camarilha, que prefere o genro à filha, e Elisabeth, que não acredita no crime de David Brown. A montagem é perfeita, com prisão, julgamento por tenro juiz (no final, corajoso) e termo e residência do ex-docente universitário, cuja filha, Giselle Santos Brown, e o filho adoptivo Victor Guimarães, inspector da Judiciária, vão salvar. 

Sobrepõe-se a guerrilha da desinformação em várias frentes, alimentada por Bernard e pelo jornalista Lucas Evangelista (de facto, Gabriel Martim, falso arcanjo Gabriel), filho de Camila Evangelista, técnica de saúde. Esta personagem revela-se em modo diferido, percebendo-se, então, a sua importância no enredo. Mais presente, Bianca Ruiz, secretária de Camarilha e sobrinha do assassinado jornalista César Ruiz, tem a sua história e um desígnio, felizmente atalhado por Victor Guimarães. As origens de Bianca e de Victor, conhecido de Camarilha e David Brown, são reveladas por este. 

Uma adolescente estrangeira, também sequestrada em quinta, aparece morta. Ainda desaparecida Amanda, a amiga de escola Andrea, filha de Alice Norton, sente-se cúmplice, com remorsos, e sucida-se. Somam-se ataques à Esquerda, representada em David Brown; juntam-se à festa de demolição de carácter os nacionalistas de Camarilha, intermediado pelo também traficante de droga Bernard Alvarez, promotor da trama, melhor, tramóia. 

A pouco e pouco, a investigação policial transmitida pelo inspector a Giselle Brown equilibra o enredo; resolve a equação em risco com uma atenta dona Celestina, vizinha de Lucas Evangelista; ilumina a conspiração e seus motivos. Almoço celebra a sentença judicial, até ao desenlace frente à campa de Eduardo Guimarães, pai do inspector e colega de David Brown… 

Está aprazado almoço natalício com Victor e Bianca, Giselle e pai David Brown, o cunhado Gonçalo Santos e mulher Ingrid, a há muito afastada filha Eugénia Santos e namorado-narrador, «modesto organizador destas prosas». Giselle e Ingrid vão surpreender David com o regresso da esposa separada, assim espelhando a conjugação João Meneses e Joana Pessanha, por arte de Gonçalo Santos. Fez-se justiça, também nas relações familiares.  

Ameaça-nos um reino ubuesco desde a primeira palavra, evocando o MERDRE de Ubu Roi (1898), peça de marionetas de Alfred Jarry (1873-1907), inventor da Patafísica, «la science des solutions imaginaires». É um retrato cru e triste de país invadido pelo turismo, país regularmente leiloado, que tarde se espanta de uma dívida vendida não se sabe a quem: 

O país onde nasci foi leiloado no último conselho de ministros. Diferiam as propostas no tamanho da letra: ganhou o corpo maior, dada a miopia do governo. 

É um executivo de Direita inclinado para a extrema-direita. A Esquerda diverte-se em joguinhos de vaidade. Há sinais de um golpe de Estado neofascista em curso; crêem ingénuos que não.  

Nos termos do clausulado mais legível, a dívida externa será paga em vinte e cinco anos, com sacrifício geral. Costuma ser assim. Segundo uma fonte, «a nação aplaude medida patriótica, antes de aceder ao paraíso na Terra». Neste propósito,  «limpa desvarios e ensaia um novo porvir». E eu que me julgava no jardim das delícias…

A equipa mantém-se em funções, «até falsificar o próximo acto eleitoral, eternizando-se», acrescenta um especialista em sondagens. «É um governo diminutivo, um conselho de ministros que empequenece o nosso dicionário de valores», considera um deputado da oposição. «Merecia ser executado», sussurra colega.  

Este acusa os governantes de crime de lesa-pátria, ao enriquecerem com empréstimos desviados para offshores e entregarem chão limpo ao investimento predador de sociedade sem rosto. «Vão-se os dedos, ficam os anéis dourados», traduziu um joalheiro. Um administrador-delegado vai supervisionar as finanças públicas.

É um país de interior vazio, vendido às praias privatizadas pelo estrangeiro, que, apesar dos esforços criminosos de figurantes canibais, entrará nos eixos, evitando mais sangue e cumprindo justiça. Do mundo inconsequente dos artistas à política de alcova, da promiscuidade entre judiciário balofo e um polícia corrupto, da violência mobilizadora ao comentário unívoco (mas cómico, na dona Gardénia, no professor Zandinga), da encenação religiosa ao jornalismo enganoso vai um passo – e o abismo logo ali.

A moral esconde-se na linguagem hipócrita, censória, exclusiva (mais sensível no tocante à raça e ao género, à distinção entre bons e maus patriotas), alfobre de insultos ideológicos e baixos instintos. Em defesa de um 25 de Abril dignificador, que um estilo irónico e partidário acompanha, vela-se pela liberdade em segurança e combate-se o retrógrado: «Uma deputada do Alto! não conseguia calar a fúria, fervendo em bocas baixas, e, pedindo a palavra, considerou a necessidade de manter a mulher em casa, mãe e educadora, ser corpo amável ao dispor do marido, libertando os empregos, donde viria sustento suficiente.»

Nos meus romances, há um processo de vida dos mesmos romances: a visão oblíqua, à Escher, que nos obriga a um lento recentramento. Não devemos tirar conclusões imediatas, pois o que parece não é. O foco incide sobre todos, mas só ilumina e particulariza a verdade muito à frente. O caso mais evidente é a tensão entre Bianca Ruiz e Victor Guimarães. No final, águas ideológicas bem separadas, faz-se justiça.

Ernesto Rodrigues (Torre de Dona Chama, 1956) é escritor e professor universitário.

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