segunda-feira, 18 de maio de 2026

UM AMOR QUE MORREU PREMATURAMENTE

Por: Maria da Conceição Marques
(Colaboradora do "Memórias...e outras coisas...")


Houve um sentimento que nem chegou a aprender o nome das estrelas.

Morreu ainda no ventre do impossível, antes do primeiro abraço inteiro, antes das mãos criarem raízes uma na outra, antes da vida lhe acender a primeira madrugada nos olhos.

Era um sentimento ainda em estado de semente, mas já trazia dentro de si jardins, riso, gargalhadas livres como pássaros em manhã de verão, e aquela felicidade rara que não se compra, não se herda, não se deposita em bancos, apenas se sente, como chuva morna na alma.

Mas vieram os números, frios e metálicos.

E os sentimentos, tão frágeis diante da ambição, começaram a ser medidos como se o coração pudesse caber numa balança.

De um lado, o ouro, do outro, a ternura.

Há pessoas que preferem o eco das moedas ao som cristalino de uma gargalhada partilhada.

Vestem-se de abundância, mas caminham pobres por dentro, porque nunca compreenderam que há riquezas que não sobrevivem fora do peito.

E assim, o sentimento definhou devagar, como uma vela sufocada antes de incendiar a noite.

Não houve traição de corpos, nem guerras.

Houve algo pior:

a rendição da alma ao valor das coisas.

O sentimento que acabava de nascer morreu prematuramente.

Sem funeral.

Sem flores.

Sem testemunhas.

Morreu porque o mundo ensinou demasiadas pessoas a contar dinheiro, mas não a contar estrelas ao lado de quem nos faz feliz.

Esqueceram-se de que há mãos vazias capazes de oferecer universos inteiros.

Há sentimentos que não morrem, são assassinados antes do primeiro voo.

E deixam no peito uma dor estranha, a dor infinita de tudo aquilo que podia ter sido eternidade, mas foi enterrado vivo pelo peso frio do dinheiro.

M.C.M (São Marques)


Maria da Conceição Marques
, natural e residente em Bragança.
Desde cedo comecei a escrever, mas o lugar de esposa e mãe ocupou a minha vida.
Os meus manuscritos ao longo de muitos anos, foram-se perdendo no tempo, entre várias circunstâncias da vida e algumas mudanças de habitação.
Participei nas coletâneas: Poema-me; Poetas de Hoje; Sons de Poetas; A Lagoa e a Poesia; A Lagoa o Mar e Eu; Palavras de Veludo; Apenas Saudade; Um Grito à Pobreza; Contas-me uma História; Retrato de Mim; Eclética I; Eclética II; 5 Sentidos.
Reunir Escritas é Possível: Projeto da Academia de Letras- Infanto-Juvenil de São Bento do Sul, Estado de Santa Catarina.
Livros Editados: O Roseiral dos Sentidos – Suspiros Lunares – Delírios de uma Paixão – Entre Céu e o Mar – Uma Eterna Margarida - Contornos Poéticos - Palavras Cruzadas - Nos Labirintos do Nó - Uma Paixão Improvável.

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