São Paulo (Brasil)
(Colaborador do Memórias...e outras coisas)

Cornélio Pires
Meus amigos transmontanos: quando eu tinha dez anos de idade, em 1956, tomei contato pela primeira vez com Mark Twain, através da revista "Seleções do Readers Digest", em Português; à época já publicada na cidade do Rio de Janeiro. Como o observei de pronto?
A revista "Seleções", trazia, entre cada texto, artigo ou crônica, além da publicidade, recortes de autores famosos nos EUA, e Mark Twain se destacava, com um humor “acido”, eu diria! Pois é, “dispois que terminei meus estudo”, ou o curso primário, como se dizia à época, quando tive que morar na cidade para completá-lo, pois na escola rural só ensinavam até o terceiro ano; portanto fiz o “quarto ano” orando na cidade.
Quando voltava à vida rural, em alguns fins de semana, além de matar as saudades dos amiguinhos e da vida caipira, eu passei a vasculhar a casa dos donos da fazenda, que haviam ido morar na cidade, devido a terem ficado rico com o café, e terem mais conforto na cidade. Na casa, onde moravam, foram deixados muitos móveis, enormes e pesados, feitos em madeira de lei, que “não cabiam”, nas dependências da casa urbana deles. Percebi, agora que já dominava melhor a língua portuguesa, que em tais móveis, foram deixados muitos objetos que não eram adequados na vida urbana; dentre eles encontrei ao acaso, um armário cheio de jornais, revistas em quadrinhos e uma coleção com algumas dezenas da Revista “Seleções do Readers Digest”, como dito anteriormente.
As piadas, as críticas ácidas e as citações filosóficas de Mark Twain fizeram em mim, um surpreendente estímulo para escrever. Eu sabia que não tinha nenhuma cultura, mas se eu quisesse um dia escrever, queria escrever daquele jeito do Mark Twain! Eu tinha apenas 10 anos de idade, vejam os senhores! Aos 11 anos de idade, meu pai comprou uma “rádio vitrola”, e ganhou de bônus quatro discos de acetato, de 78 rpm; um do cantor brasileiro, Nelson Gonçalves, outro do Pixinguinha, exímio flautista, maestro e arranjador, outro de uma cantora portuguesa, chamada Ester de Abreu, que cantava fados, e um último, um disco do Cornélio Pires, um artista que se apresentava em circos, que o meu pai viu e que o admirava; como ganhou um disco do Cornélio, ficou alegríssimo; pois eu também fiquei; e nunca esqueci.
Agora, às vésperas do meu aniversário de 80 anos e, 69 anos depois, percebo que as ideias não fenecem. Ficam dormindo, latentes; parece não terem seiva, mas num átimo, afloram e meu inconsciente que me faz tentar ser um escrevinhador, aparece volta e meia: por isso, entrei nesse mister de escrever este livro, que estou quase a completá-lo, unindo dois personagens, aos quais me apaixonei à primeira vista!
Depois de uma imensidão de tempo ausente das páginas do MOC, comandado pelo amigo Henrique Martins, em Bragança, volto ao convívio, pelo menos por ora, para relatar aos meus leitores, se houverem ainda, para dar ciência da minha ausência prolongada, com raríssimas participações. Tenho um problema particular com familiar enfermo, que já se arrasta há quase seis anos, o que me toma quase todo o tempo; acrescido por um mar de contrariedades; como estar sem computador, há pelo menos cinco anos! Estou terminando um livro, que vai discorrer de dois personagens; um brasileiro, como eu, outro por um norte americano, que viveram em tempos distintos e em países extintos, porém provindos de regiões parecidas e semelhanças e dissemelhanças em seus respectivos trabalhos literários. Busco aproximá-los numa análise, a mais profunda que meus parcos conhecimentos conseguiram extrair de múltiplas fontes de consultas que realizei, anos a fio!
Por que este autor escreveu sobre esses dois personagens, protagonistas de seu tempo?
Bem, a resposta mais imediata é que não se conhecem detalhes das histórias de vida de Cornélio Pires e de Samuel Lenghorn Clemens. Nos EUA, creio que 99,999999%, desconhecem a saga e legado de Cornélio Pires; assim como 99,0% dos brasileiros não sabem nada sobre o Samuel L. Clemens!
Enquanto, nos EUA, onde a maioria do povo é alfabetizado, na mesma proporção que desconhecem Cornélio Pires. No Brasil, uma porcentagem estimada, por mim, de 80% das pessoas sabe quem é Samuel; se nos dirigirmos a ele como Mark Twain! O fato se observa, por ser os EUA, o campeão mundial da divulgação dos feitos de seus cidadãos, por disporem da hegemonia dos veículos midiáticos, como jornais, rádios, TV e cinema; além da rede mundial de comunicação! A propaganda é a alma do negócio, já dizia P. T. BARNUM, empresário circense americano, no Sec. XIX: "Advertisement of the soul of business”.
Há uma forma muito difundida de se relacionar com o passado que, a rigor, não é a história em si, mas é o que o comentarista consegue "pescar" do passado, os elementos que confirmam sua tese, recorrendo a uma frase dos personagens, uma obra que o pesquisado tenha publicado, vivido um fato, gravado em som ou imagem, ou através de depoimentos publicados de alguma forma, por comentaristas, críticos, ou apenas testemunhas oculares de um evento, que tenha se tornado histórico. Creio isso não ser uma instrumentalização dos mortos, a serviço de causas e disputas entre vivos, vieses, ou posicionamento intelectual político, ou até filosófico. Aqui, o autor é o magistrado, imparcial e isento, que incorpora o comentarista para suprir a falta de memória dos interlocutores, da negligência quase imperceptível, que demonstra falta de experiências já vividas, das respostas já elaboradas, que nos deixa com a sensação, de que temos que recomeçar do zero; além de termos que reavivar a história, para que não seja esquecida.
Li, em algures, um professor da USP, Universidade de São Paulo, o professor Fábio Martinelli Casemiro (doutor em Teoria Literária, pela USP) disse, mais ou menos, o seguinte: “Ser caipira, no século XXI, é reconhecer o poder dessa ancestralidade sertaneja, é saber fundir a tradição com a modernidade; é, em suma, a habilidade de converter simplicidade e irreverência, em método de compreensão do mundo”! Eu, ACAS, creio ser a relação com o passado, uma relação individual, de cada ser, consigo mesmo! Ler o que os homens do passado escreveram, é tentar entender o que eles estavam repercutindo em suas obras e ações, e fazer um diálogo real com o passado!
Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS. É natural de Cravinhos-SP. É Físico, poeta e contista. Tem textos publicados em 9 livros, sendo 4 “solos e entre eles, o Pequeno Dicionário de Caipirês e o livro infantil “A Sementinha” além de cinco outros publicados em antologias junto a outros escritores.
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