sábado, 19 de setembro de 2026

Movimento de cidadãos apresenta 50 ideias concretas para proteger a floresta e travar o fogo

 Mais de 200 cidadãos, organizações da sociedade civil e profissionais ligados ao ordenamento do território e às florestas participaram, entre 2025 e 2026, num processo de auscultação sobre a gestão da floresta e do território. Daí resultou um guia com 50 propostas de ação, dirigidas tanto aos decisores políticos como aos cidadãos.

Foto: Joana Bourgard

Portugal enfrenta incêndios florestais cada vez mais devastadores, num contexto de degradação do território e de uma relação prolongada e exploratória com a floresta. Como resposta a esta realidade, mais de 200 cidadãos de Norte a Sul do país participaram, ao longo de 2025 e 2026, num processo de reflexão promovido pelo movimento reflorestar.pt.

As conclusões deste processo, que incluem 50 ideias concretas dirigidas aos cidadãos para proteger a floresta, regenerar o território e travar o impacto dos incêndios, são apresentadas esta quinta-feira na Culturgest, em Lisboa, durante uma tarde de conversas dedicada ao tema “Fogos ou Florestania?”.

A iniciativa, promovida pela Culturgest e pela associação Reflorestar.Pt, pretende discutir “outras formas de habitar, cuidar e regenerar o território” e responder a uma questão central: que respostas urgentes e estruturais exige a crise dos incêndios em Portugal?

O documento que vai ser agora apresentado resulta de um processo de auscultação das populações, sob a forma de Assembleias Cidadãs pelas Florestas, Encontros Regionais de Organizações e o IV Encontro pelas Florestas.

Deste processo – feito em parceria com o movimento Faixas Vivas e com o movimento Assembleias de Cidadãos de Portugal – nasceu um documento síntese dirigido à sociedade civil e aos decisores políticos. O guia inclui um roteiro de ação para as políticas públicas, mas também várias propostas para uma cidadania mais ativa, procurando responder a uma pergunta que, segundo a Reflorestar.Pt, surge repetidamente: “O que posso fazer?”

“Este guia nasce da compilação do que foram as dezenas de conversas pelo país”, explica o movimento. A intenção é que seja um documento “claro e direto, com várias conclusões que consideramos de relevo” e que gostávamos que chegassem ao máximo de pessoas possível.

Conhecer primeiro o território

Segundo este guia, a ação cidadã deve começar pelo conhecimento do território onde se vive.

A primeira proposta é, por isso, conhecer e mapear o território da própria freguesia, identificando, por exemplo, as linhas de água, as espécies de árvores nativas e as áreas de maior risco de incêndio.

A partir desse conhecimento, o guia propõe um conjunto de ações de regeneração e cuidado dos terrenos. Entre elas estão a organização de dias de limpeza comunitária de linhas de água ou matas, ações de controlo de espécies invasoras, a criação de pequenos viveiros comunitários de árvores e arbustos nativos ou a colocação de estacas e realização de sementeiras de espécies nativas em áreas degradadas.

Também há propostas para favorecer a biodiversidade, como a construção de hotéis para insetos e caixas-ninho para aves e morcegos.

Outra das dimensões propostas é a organização das comunidades locais.

O guia sugere começar por organizar um encontro informal para que as pessoas se conheçam e possam conversar sobre o território onde vivem. Entre as ideias estão ainda a criação de sistemas locais de troca de sementes ou plantas e de um “banco de tempo” dedicado a tarefas de gestão da paisagem.

A Reflorestar.Pt considera igualmente importante reforçar a ligação das populações à terra através da educação e da celebração do território. Para isso, propõe a criação de percursos pedestres sinalizados, workshops práticos e feiras dedicadas aos produtos da terra.

A participação cidadã deverá, no entanto, ir além da intervenção direta no território. O guia apresenta também formas de influenciar as decisões políticas e exigir mudanças, como pressionar as autarquias para que utilizem exclusivamente plantas nativas nos espaços públicos ou apresentar propostas de orçamento participativo para projetos de regeneração comunitária.

Uma floresta diversa e multifuncional

Para a Reflorestar.Pt, estas ações locais devem integrar uma transformação mais profunda na forma como o país gere o território.

O objetivo é conseguir uma floresta “diversa e multifuncional” e uma “economia rural vibrante, onde cuidar do território seja uma profissão digna”.

“Os ecossistemas não são um custo a suportar, mas uma infraestrutura essencial do país”, defendem os promotores da iniciativa.

A necessidade de atuar é ainda maior perante a acumulação de fenómenos extremos. “Um território já fragilizado por incêndios recorrentes perde capacidade de retenção de água e de proteção do solo, amplificando o impacto de tempestades e cheias seguintes; um território já erodido por fenómenos extremos regenera com mais dificuldade após um incêndio.”

A Reflorestar.Pt identifica, contudo, vários obstáculos à participação dos cidadãos, entre eles o sentimento de impotência perante a complexidade legal e uma burocracia considerada asfixiante.

Por isso, defende que é necessário tornar mais simples a participação das comunidades na gestão da paisagem e aproximar a decisão das pessoas que vivem no território.

“O papel da sociedade civil é assumir a responsabilidade pela gestão de proximidade”, escrevem os coordenadores da iniciativa. “Com o apoio e o enquadramento do Estado, são as comunidades locais, os baldios, as cooperativas e os grupos de proprietários que estão em melhor posição para gerir a paisagem de forma adaptativa e resiliente, porque são elas que detêm o conhecimento local e o interesse direto no bem-estar do seu território.”

Restaurar, valorizar e pagar pelos serviços dos ecossistemas

Ao nível nacional, as propostas incluem dar prioridade ao restauro e regeneração dos territórios, criar um programa específico de proteção para carvalhais e outros bosques autóctones raros e valorizar cadeias de valor alternativas associadas à floresta. Entre os exemplos apontados estão o mel, a resina, a cortiça, os cogumelos e a castanha.

O movimento defende ainda a criação de um Sistema Nacional de Pagamento por Serviços de Ecossistema, reconhecendo o valor dos benefícios que os ecossistemas prestam à sociedade.

Outra das propostas é a criação de um Pacto Social pela Floresta Nativa, envolvendo o Estado, o setor privado, a sociedade civil e a comunidade científica numa visão comum para o território.

No centro de todas estas propostas está a ideia de que a resposta aos incêndios não se pode limitar ao combate ao fogo. Exige uma transformação da relação entre sociedade, floresta e desenvolvimento. “Portugal precisa de uma mudança de paradigma na forma como regula, valoriza e governa o seu território”, defende a Reflorestar.Pt.

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