terça-feira, 15 de setembro de 2026

O passado e o futuro das religiões

 Göbekli Tepe, na Turquia, é um dos lugares mais precoces onde os rituais de aproximação ao sagrado terão desencadeado um primeiro monumento em detrimento de altares itinerantes. Em entrevista à National Geographic Portugal, o arqueólogo Necmi Karul defende que estes rituais e construções coincidiram praticamente com os primórdios da agricultura na região.

MEHMET ÇETIN / ALAMY / CORDON PRESS - Considerado pela UNESCO Património Cultural da Humanidade desde 2018, o sítio arqueológico de Göbekli Tepe fica a 20 quilómetros de Sanliurfa, uma cidade de maioria curda no sudeste da Turquia. 

A província de Şanlıurfa, na Turquia, está para o início do Neolítico como Atenas para a origem das civilizações mediterrâneas. Necmi Karul, docente de Pré-História na Universidade de Istambul, dirige ali o Projecto de Investigação de Göbekli Tepe e Karahan Tepe desde 2016 e tem vindo a reescrever a história todos os anos.

A narrativa do sítio principal tem sido contada profusamente nas últimas décadas e começa sempre da mesma maneira. Na década de 1960, uma equipa da Universidade de Chicago fez sondagens na região e descobriu Göbekli Tepe, concluindo porém que o sítio tinha pouco potencial. Estava por cima de uma “catedral” do Neolítico, mas não raspou mais do que a superfície e, por isso, trinta anos mais tarde, o arqueólogo alemão Klaus Schmidt teve a epifania da sua vida, ao retomar os trabalhos e compreender, em poucas campanhas, que estava perante um sítio especial.

Há cerca de 11.000 anos, o Neolítico marca uma ruptura. O nomadismo dá lugar à sedentarização, a agricultura aparece (ou pelo menos intensifica-se, uma vez que permanece vivo o debate sobre a possibilidade de os humanos terem cultivado variedades selvagens que não deixaram registo detectável) e criam-se povoados. Quando Schmidt começou a escavar, a investigação sobre a revolução neolítica estava razoavelmente resolvida. Uma possível amenização do clima permitira a sedentarização na Mesopotâmia, a que se seguira a explosão da agricultura e criação de animais e restantes processos civilizacionais até à fundação de cidades e à invenção da escrita, há cerca de cinco mil anos. A Mesopotâmia era a melhor candidata para epicentro deste sismo cultural.

MINISTÉRIO DA CULTURA E DO TURISMO DA TURQUIA - Göbekli Tepe situa-se na antiga Mesopotâmia, considerada por muitos estudiosos o berço da cultura ocidental. 

“A descoberta de Göbekli Tepe complicou este debate”, diz Karul. “Os processos de sedentarização não são lineares, mas temos aqui evidências de que a agricultura pode ter tido lugar logo no início da monumentalização.” Por outras palavras, perto de Şanlıurfa, criou-se um centro monumental, esculpiram-se baixos-relevos de animais em centenas de colunas enquanto se lançavam à terra as primeiras sementes. A criação de animais e as práticas residenciais são mais tardias e mesmo os indivíduos sepultados não abundam. “Tinha aqui lugar um ritual, mas, até ver, este não era um lugar residencial”, resume o arqueólogo.

“Os processos de sedentarização não são lineares, mas temos aqui [em Göbekli Tepe] evidências de que a agricultura pode ter tido lugar logo no início da monumentalização.”

(Necmi Karul, arqueólogo e investigador)

Desde 2019, a equação complicou-se. Há neste momento nove sítios em escavação num raio de 100 quilómetros e estão identificados outros onze. Em todos os lugares escavados, como em Karahan Tepe, em Sefer Tepe e em Chakmak Tepe, há correspondências monumentais com Göbekli Tepe. “São todos datados do início do Neolítico, de 9600 a.C. a cerca de 8000 a.C. Há ainda um sítio em Gürcü Tepe que recua até 7800 a.C.”

A afinação das cronologias e a diversificação das escavações, conduzidas por 150 pessoas de dezenas de instituições, revelaram outra novidade. “A monumentalização parece ter sido mais sofisticada no início da vida dos sítios, durante o qual o simbolismo foi mais cuidado”, diz Karul. “No final da ocupação, já era mais desleixado.”

O arqueólogo evita usar a palavra religião para descrever a prática que se institucionalizou em Şanlıurfa há cerca de 11 mil anos. “Prefiro chamar-lhe ritual porque só temos prova disso. Já se escreveu muito sobre esta região, chamando-lhe o Vaticano ou a Mesquita Aqsa do Neolítico, mas ainda não o conseguimos compreender na totalidade nem perceber se tinha carácter sagrado. A iconografia pode ter sido só um sistema de escrita para fixação de memória. Ou talvez um mecanismo para evocação de histórias mitológicas, génese de uma nova ordem social. Não sabemos.”

Necmi Karul defende que a agricultura não precedeu a sedentarização na região. “Foi o resultado dela e ocorreu porque a área em redor mostrava-se particularmente fértil. Na história da agricultura, como na religião, as explicações lineares costumam ser frágeis. Acredito que aqui se praticavam rituais populares e que esses rituais, usados como motivação para manter as pessoas agregadas, podem ter inaugurado uma nova ordem social e novas estratégias de ocupação do território. Mas não esqueçamos que a fragilidade dos monumentos na fase final também pode significar o desmoronamento da prática ritual do milénio anterior.”

“A monumentalização parece ter sido mais sofisticada no início da vida dos sítios, durante o qual o simbolismo foi mais cuidado.”

Em 2019, a revista Nature publicou um artigo de vários investigadores, liderados pelo antropólogo Harvey Whitehouse, da Universidade de Oxford. Após analisar dados sobre 415 sociedades humanas dos últimos dez mil anos, o grupo concluía que a complexificação das sociedades precedera a imposição de deuses moralizadores às comunidades. Por outras palavras, as práticas rituais de lugares como os de Şanlıurfa teriam prosperado antes da imposição de crenças religiosas baseadas numa ou mais divindades moralistas e severas.

FEDOR SELIVANOV / ALAMY / CORDON PRESS - An, deus sumério dos céus, é uma das primeiras divindades cuja mitologia se conhece. Emergia do mar com raios de sol emanando dos seus ombros. Pousava o pé no ombro de um humano ajoelhado antes de subir a escadaria que conduzia ao topo do mundo.

Grande parte das religiões de que temos conhecimento a partir da invenção da escrita, há cinco mil anos, introduzem a figura da divindade punitiva, com forte componente moral e ética, que exige sacrifícios, promessas ou oferendas e que castiga os desvios em vida ou após a morte. Sabe-se que a complexificação da vida social associada aos primeiros povoados de grande densidade exigiu normas mais rígidas de conduta e esse papel foi desempenhado pela religião– com frequência fundindo a liderança política com a figura divina ou recolhendo dela a sua legitimidade.

A satisfação do grupo de Whitehouse durou pouco. Menos de dois anos depois, Bret Beheim e mais uma dezena de colegas criticaram o tratamento estatístico da informação e o artigo viria a ser alvo de uma  retractação dos autores. Voltamos por isso à casa de partida: o que sucedeu primeiro – a agregação de população em cidades, sob normas sociais apertadas, ou a imposição de um credo religioso que funcionou como cola social?

caçadores-recolectores... e não só

O investigador e professor americano Matt Rossano acredita que o comportamento ritualizado associado a uma dimensão sagrada foi decisivo para o salto civilizacional da transição das sociedades de caçadores-recolectores para outros modelos. “Fascina-me a história dos lugares à volta de Göbekli Tepe. Não era suposto que os caçadores-recolectores pudessem construir estruturas monumentais, mas fizeram-no. Acredito que o ritual era tão importante para eles que justificou o esforço e o gasto de tempo e energia. Talvez não pudessem funcionar como grupo sem realizarem esses rituais.”

Milénios mais tarde, a introdução das religiões monoteístas mudou de novo as regras do jogo, como sucedeu no Egipto no breve reinado de Akhenaton, com os primeiros profetas de Israel e com o zoroastrismo. “Talvez a ideia de apenas um deus tenha sido um forte factor de diferenciação de um grupo em relação aos outros”, diz Rossano.

“Já na nossa era, foi decerto útil como factor aglutinador do Império Romano nos seus anos finais – um esforço político-religioso para agregar populações de múltiplas proveniências e culturas. Um só deus não está ligado a um espaço ou tempo particulares. E no caso de comunidades como os antigos judeus, frequentemente em movimento, o monoteísmo não os obrigou a assimilar os deuses das novas geografias. Pela primeira vez, podiam 'levar' Deus com eles.”

ANDREI ALEKSANDROV / SPUTNIK - Na região de Gomel (Bielorrússia), ainda se celebra o Dia de Ivan Kupala, uma cerimónia do calendário religioso inspirada em velhas celebrações pagãs associadas ao solstício de Verão.

Lugo é o lugar ideal para perceber como pode ter ocorrido a ruptura entre religiões na Antiguidade. O meu guia de hoje chama-se Gaio Victório Victorino e tem a particularidade de já ter morrido há 1.800 anos. Foi centurião destacado para o Nordeste da Península Ibérica, por volta de 212 d.C. Para aprender com Gaio, tenho de descer duzentos degraus, que correspondem a sete metros entre a cota da rua moderna e a da residência do centurião. Oriundo da Germânia, Gaio foi um soldado bem-sucedido. À superfície, louvava o imperador e a religião oficial de Roma. Na cave de sua casa, construiu um altar consagrado a Mitra, divindade persa malvista, cujo culto se manteve secreto embora reunisse fiéis em todo o Império. O espaço funcionou até ser desmantelado por receio de repressão ou por o culto ter caído em desuso, talvez substituído pelo incipiente cristianismo de então.

Com Mitra, como com o xamanismo pré-histórico, as religiões sucedem-se na diacronia humana porque cumprem umpapel cultural e político, mas também porque satisfazem uma ânsia inscrita no nosso ADN. Talvez sejam elas que nos fazem… humanos.

Artigo publicado originalmente na edição de Agosto de 2024 da revista National Geographic e parte da série "... E o homem criou deus".

Gonçalo Pereira Rosa
Actualizado a 21 de setembro de 2024


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