terça-feira, 15 de setembro de 2026

O primo Fernando e a prima Bira

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


Entre os pilares da minha infância ocupam um lugar muito especial os meus primos Fernando e Bira, nome por que todos conheciam a Elvira. Com o filho Mário, formavam uma família a cuja casa eu pertencia sem cerimónia, como se os laços de sangue fossem apenas uma confirmação do afeto.

A prima Bira partilhava uma bisavó com a minha mãe, mas os laços que nos uniam iam muito além das explicações da árvore genealógica. Nascera na Ilha do Costa, tal como a minha mãe. Cresceram juntas, amigas e quase primas, no mesmo pátio onde viviam muitas das figuras que já passaram por estas páginas. As suas infâncias foram contemporâneas e partilharam casas, famílias e histórias, numa vizinhança em que os laços de sangue se confundiam muitas vezes com os de amizade.

Era uma mulher rechonchuda, de rosto afável e de uma ternura quase maternal. O centro da sua vida era o Mário, alguns anos mais novo do que eu, mas havia nela carinho suficiente para todos. Quem entrava na sua casa sentia-se acolhido: havia sempre uma palavra amiga, um gesto de atenção e aquela sensação de aconchego que só algumas pessoas conseguem transmitir.

Por isso, o Mário entrou naturalmente no grupo dos meus companheiros de infância. Juntos vivemos muitas aventuras na Fonte dos Alhos, na praia ou mesmo em casa, onde os dias pareciam não ter fim e a imaginação transformava qualquer recanto em território de descoberta.

À hora do lanche, a Bira entrava em ação. Preparava café com leite e torradas sem descanso. Eu, o Mário e o meu irmão Luís, sentávamo-nos lado a lado, devorando umas atrás das outras, e ela quase não conseguia acompanhar o nosso ritmo. O que mais a encantava era ver o filho comer. Sozinho, o Mário tinha pouco apetite; connosco ao lado, as torradas desapareciam à velocidade com que saíam da torradeira. Ela observava-nos com um sorriso satisfeito, feliz por ver o filho alimentar-se e por sentir a casa cheia daquela alegria simples que as crianças levam consigo.

Hoje, ao tentar descrevê-la melhor, dou por mim com alguma dificuldade. Não porque dela guarde poucas recordações, mas porque a sua presença era feita mais de gestos do que de palavras. Não era dada a grandes afirmações nem a protagonismos. Pertencia a uma geração de mulheres que viveram discretamente, dedicadas à família, à casa e aos cuidados dos outros.

Raramente a ouvi impor a sua vontade ou procurar o centro das atenções. Sentia-se mais confortável nos bastidores da vida familiar, cuidando, servindo, apoiando. Muitas mulheres da sua geração aprenderam desde cedo a falar pouco de si próprias, a colocar as necessidades dos outros à frente das suas e a medir a sua realização pela felicidade da família.

Mas se nunca a vi lutar por lugares de destaque, vi-a, vezes sem conta, encontrar alegria nas pequenas vitórias dos outros. Num filho que finalmente comia bem. Num grupo de crianças feliz durante as férias. Num dia de praia sem sobressaltos. Num lanche partilhado à volta de uma mesa.

O primo Fernando, natural do Marco de Canaveses, era um homem bastante magro, de cerca de um metro e setenta, cabelo forte e escuro e um bigode farfalhudo. Tinha bom humor e algumas expressões muito suas, que davam sabor às viagens. Quando começava aquela chuva miudinha, ainda tímida, mas com promessa de engrossar, anunciava: “Lá vem a Maria das Pernas Compridas.” E, se um condutor vinha em sentido contrário com os máximos ligados, gritava: “Ó urso, fecha os olhos!”, para gáudio da criançada.

Nas férias grandes, era ele quem assumia o comando das nossas expedições. Com uma paciência inesgotável, carregava-nos a todos no pequeno Fiat 600 — eu, o Mário e a prima Bira — e levava-nos até à praia de Matosinhos. Passávamos o dia inteiro numa barraca alugada na concessionária Constança Barbosa, vivendo jornadas que então nos pareciam verdadeiras aventuras.

A praia era muito diferente da que conhecemos hoje. O extenso areal abria-se diante do mar, enquanto nas suas costas se alinhavam várias fumegantes unidades industriais. A avenida marginal era ainda atravessada pelos carris da linha de Leixões, por onde passavam os comboios que, entretanto, desapareceram da paisagem.


Corríamos, saltávamos e brincávamos sem descanso. Mas não valia a pena cavar muito fundo na areia. A cerca de um metro de profundidade surgia uma camada negra e compacta, vestígio do petróleo deixado pelo naufrágio do Jakob Maersk, uma cicatriz escondida sob o areal. Fazia parte da recordação de um ou dois anos antes, os ares se encherem de fumo negro e as labaredas erguerem-se do mar num vislumbre do próprio inferno. Acabada a tragédia, aquela era a solução daqueles tempos; revolvia-se a areia e limpava-se o mar como se podia. Para além da recordação da maré negra nas areias douradas, a proa do navio “embelezou” a fortaleza que dominava a costa, conhecida por Castelo do Queijo.

Ao almoço, a prima Bira preparava as merendas com o mesmo carinho com que fazia tudo na vida. E nós, que já na altura não perdíamos uma oportunidade, tínhamos um truque que repetíamos vezes sem conta. Com a maior inocência do mundo, aparecíamos junto dela a dizer que a chouriça do pão tinha caído à areia. A Bira percebia perfeitamente a manobra. Ralhava connosco, fingindo indignação, mas o sorriso denunciava-a. E lá acrescentava mais algumas rodelas de chouriça ao pão, enquanto nós trocávamos olhares cúmplices de missão cumprida.

O que nos dava não era apenas mais um pouco de chouriça. Era um mimo, um gesto de afeto e uma forma silenciosa de nos dizer que gostava de nos ver felizes.

Depois vinha a interminável espera para fazer a digestão. Quando finalmente recebíamos autorização para entrar na água, a prima Bira repetia as recomendações de sempre. Que tivéssemos cuidado. Que não nos afastássemos. Que permanecêssemos à vista. Dizia-o uma vez, duas vezes, três vezes, até ficar convencida de que tínhamos ouvido.

Depois puxava para fora da barraca uma pequena cadeira e ali se instalava, voltada para o mar. Enquanto nós corríamos pelas ondas, gritávamos, mergulhávamos e inventávamos brincadeiras, ela mantinha-se alerta, com um verdadeiro olhar de águia. Julgávamos que estava distraída, mas não escapava um movimento ao seu campo de visão.

A Bira era assim e aquela vigilância constante era apenas outra forma de amor. Protetora sem ser sufocante. Carinhosa sem fazer alarde disso. Encontrava a sua felicidade nas pequenas coisas: ver o Mário comer uma torrada a mais, ouvir as nossas gargalhadas ou saber-nos seguros enquanto brincávamos.

O Fernando levava para aquele cuidado uma leveza diferente: sereno, descontraído, sempre pronto para mais uma viagem no seu pequeno Fiat 600, para outro desafio ou para um novo dia de praia. Parecia encarar a vida com naturalidade e confiança, como quem espera sempre o que vem a seguir.

A verdadeira herança que me deixaram não foi feita de bens nem de palavras solenes. Foi feita de afeto, de companhia e de memórias felizes. Daquelas que resistem ao tempo e continuam a aquecer o coração muitos anos depois.

A Bira partiu primeiro. Alguns anos depois, o Fernando seguiu-lhe os passos. Mas basta fechar os olhos para voltar a vê-los: a Bira a distribuir torradas, a fingir acreditar que a chouriça tinha caído à areia, sentada na sua cadeirita a vigiar-nos na praia com aquele olhar atento; o Fernando ao volante do Fiat 600, conduzindo aquela pequena multidão rumo a mais um dia de aventura.

A última fotografia que tenho deles foi tirada no dia do meu casamento. Guardo-a com especial carinho. Nela, o Fernando surge com o seu ar tranquilo, olhando para lá do momento, como se os pensamentos já viajassem alguns passos adiante. A Bira está debaixo do meu abraço, com um sorriso de satisfação serena, como quem encontrou naquele instante o lugar onde queria estar.


Ao rever essa imagem, tenho a sensação de que ela captou algo essencial dos dois. O Fernando, voltado para o futuro, disposto a enfrentá-lo. A Bira, mais receosa das mudanças, de pés firmemente assentes no presente, deixando-se arrastar apenas o suficiente para acompanhar quem amava.

Talvez por isso se completassem tão bem.

By Manuel Amaro Mendonça 14 de Setembro, 2026


Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
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