segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Quase poema... ou da minha Sara

Por: Fernando Calado
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)


Hoje passei à tua porta. As memórias doem em sangue vivo... Tantas.

A casa da Sara, a nossa casa.

A Sara envelheceu. Mulher austera, coração de água. Nunca casou. Amores antigos levaram-lhe a juventude, a alma e a alegria.

Aqui viveu com a sua mãe, Guilhermina. Sem filhos, encontrou a maternidade perdida ajudando a minha mãe a criar seis filhos, em tempo de fome e servidão. Eu fui o último a nascer.

Noite velha. Os irmãos, à velada, falavam de almas penadas, bruxas e demónios... e eu tremia.

- Vamos para a nossa casa, meu rei.

A casa da Sara era um paraíso... um lugar seguro.

Foi desta parreira que caí, quando espreitava o ninho altaneiro do pintassilgo. Não parti uma perna para todo o povoado dizer:

- Partiste uma perna... bem feita! Quem te mandou subir à parreira?

Foi desta porta que saiu a nossa gatinha branca. Morreu atropelada. Chorei copiosamente durante toda a noite.

- Não chores, meu rei... Arranjamos outra gata.

- Mas não é a nossa gatinha, Sara...

Envelheci, Sara... Sou mais velho do que tu quando partiste.

E escrevo estas coisas que não interessam a ninguém... para adoçar as mágoas.

...Coisas de idosos.


Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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