segunda-feira, 14 de setembro de 2026

UMA MÃE, PODE MORRER MUITAS VEZES ANTES DE MORRER

Por: Maria da Conceição Marques
(Colaboradora do "Memórias...e outras coisas...")


Uma mãe passa uma vida inteira a ser porto, abrigo, colo e casa. Gasta as mãos a cuidar, os olhos a vigiar, o coração a esperar. Guarda os medos dos filhos dentro do próprio peito, como quem esconde espinhos para que eles não se magoem.
E, no fim, quando chega a hora em que o coração já não consegue bater mais, espera apenas um último olhar, alguém que lhe segure a mão na hora da partida.
Mas há filhos mais frios do que a noite.
Filhos que deixam a mãe partir sem uma palavra, sem um beijo, sem um último abraço. E talvez nunca compreendam a violência desse abandono.
Uma mãe pode morrer muitas vezes antes de morrer.
Morre um pouco cada vez que espera por um filho que não vem.
Morre quando olha para a porta e ninguém entra.
Morre quando o telefone permanece mudo.
Morre quando percebe que aqueles a quem deu a vida e o coração já não têm lugar para ela no seu.
Um dia a morte leva a mãe.
E, quando já não houver mãe para telefonar, nem voz para ouvir, nem mãos para beijar, talvez eles compreendam. Talvez passem os dedos no rosto envelhecido de uma fotografia.
Talvez desejem voltar atrás apenas cinco minutos.
Cinco minutos para dizer: “Perdoa-me, mãe”
E nesse dia talvez percebam que algumas portas, quando se fecham, não voltam a abrir.
A mãe já não estará à espera.
Já não haverá aquela voz cansada a perguntar se comeram, se estão bem, se precisam de alguma coisa.
Restará apenas o silêncio.
E o silêncio, às vezes, é o mais pesado dos túmulos.
Há filhos que enterram a mãe no chão, mas outros enterram-na antes disso, no esquecimento, na distância, na frieza, na ausência.
E as mães um dia partem. Levam no peito o amor que deram, as lágrimas que esconderam, as perguntas que nunca tiveram resposta e a última despedida que os filhos lhe negaram.
A morte de uma mãe dói.

M.C.M. (São Marques)


Maria da Conceição Marques
, natural e residente em Bragança.
Desde cedo comecei a escrever, mas o lugar de esposa e mãe ocupou a minha vida.
Os meus manuscritos ao longo de muitos anos, foram-se perdendo no tempo, entre várias circunstâncias da vida e algumas mudanças de habitação.
Participei nas coletâneas: Poema-me; Poetas de Hoje; Sons de Poetas; A Lagoa e a Poesia; A Lagoa o Mar e Eu; Palavras de Veludo; Apenas Saudade; Um Grito à Pobreza; Contas-me uma História; Retrato de Mim; Eclética I; Eclética II; 5 Sentidos.
Reunir Escritas é Possível: Projeto da Academia de Letras- Infanto-Juvenil de São Bento do Sul, Estado de Santa Catarina.
Livros Editados: O Roseiral dos Sentidos – Suspiros Lunares – Delírios de uma Paixão – Entre Céu e o Mar – Uma Eterna Margarida - Contornos Poéticos - Palavras Cruzadas - Nos Labirintos do Nó - Uma Paixão Improvável.

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