quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Dei-te o possível

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


Dei-te o possível. 

Dei-te uma memória de estórias escritas em fios de silêncio. Todos os poemas que nunca soube contar. Os dedos do horizonte numa frase inventada. A paisagem escondida do que sou. As sombras despidas do que ficaste a saber. A sensível concha de uma respiração consentida, inconcebível, tão inteira. O grito longínquo perdido nos relógios desarrumados do tempo.

Dei-te o mar no profundo do olhar, um porto vencido que não sabia amanhecer. Um murmúrio a aguardar pelo corpo do teu nome na singularidade das palavras por dizer.

As horas, sem fôlego, presas à desordem da vida e a imagem viva nos estilhaços desfeitos do rosto e dos espelhos, dos sonhos sem olhos.

Dei-te a singeleza rubra das rosas nos reflexos espantados dos sorrisos. A luz delirante das prodigiosas imaginações. O primeiro céu caído nos braços lentos da noite e as galáxias perdidas da terra, no regresso dos desejos pela pele transparente da lua. Como um ato de amor onde o sentir foi espaço de outras eras.

Em vão são as últimas lágrimas. O coração, sozinho, solta a ausência, baixinho… Decifra o alfabeto poético de todos os deuses que nos embalaram o incansável assombro. Um dia, pó de universo nascido do único sol onde me perdi.

Dei-te o possível na lânguida claridade dos maiores impossíveis. Pelas estradas que naufragam adormecerei os cansaços do peito onde, hoje, já não te existo. E o amanhã nascerá sem lugar, abandonado, numa voz oculta de submerso para sempre.

⚜ Lázaro Rios ⚜ 
- heterónimo de Paula Freire -


Paula Freire
. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome. 
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua. 
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

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