terça-feira, 6 de outubro de 2026

Há dias de sorte

Por: Carlos Pires
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)


Há porí dez anos, porí, o meu amigo Zé Maria, com aquele feitio bom de deixar sempre o "Doutor" no hospital, entra-me em casa de saquinho na mão e atira: "Vais gostar, são velharias!" Espreitei, eram livros. Mas de momento, palavra puxa palavra, brindámos à vida, e o saquinho por ali ficou. Mesa comida companhia desfeita, ao fim do dia voltei a espreitar. Há dias de sorte, melhor prenda não poderia ter em dia de aniversário! Entre as velharias, a obra "Dialecto Mirandez",  de Albino J. de Moraes Ferreira, editada em 1898, em Lisboa, pela Imprensa de Líbano da Silva. Além de autor de "Gramática Mirandeza", Albino Morais Ferreira foi diretor do Instituto João de Deus, tradutor e propagandista da "Cartilha Maternal" em Espanha. Mas melhor prenda não poderia ter em dia de aniversário porque, perdido eu neste "Dialecto Mirandez", vim a encontrar no seu interior  por enorme felicidade, a fotografia do Abade de Baçal que hoje aqui revelamos, tirada por Serafim Cardoso Pimenta, que em "Memórias... e outras coisas" em boa hora demos a conhecer. No verso desta fotografia, devolvida em 1926 pelo Abade ao seu "bom amigo" tenente Serafim Pimenta  "como preito de admiração pelas suas brilhantes qualidades de artista fotográfico", pode comprovar-se o apreço que o nosso Abade nutria por um dos primeiros e mais marcantes fotógrafos amadores de Bragança. Natural de Longra, Tabuaço,  e colocado no BC3 em 1919, a Serafim Cardoso Pimenta se deve, muito provavelmente, por exemplo - como neste espaço já revelámos -, a primeira fotografia aérea do Castelo de Bragança, premiada com medalha de ouro na I Exposição Fotográfica Internacional do Rio de Janeiro,  em 1922,  e a icónica fotografia de um raio descarregando sobre a Torre de Menagem.

E mais porí não digo. Só espero que o meu amigo Zé Maria, com aquele feitio bom de deixar sempre o "Doutor" no hospital, me traga mais um saquinho sem ser necessário esperar por qualquer aniversário...


Carlos Pires
é natural de Macedo de Cavaleiros, tendo adoptado a pequena aldeia de Meles, onde crestou à  solta nas férias grandes, como o seu verdadeiro berço. Como jornalista, fez parte das Redações do "Tempo", "Portugal Hoje", " Primeira Página", "Liberal", "Semanário" e da revista de economia "Exame" (de que foi editor). Em Bragança, colaborou no semanário "Mensageiro de Bragança" (1970-72), tendo sido co-fundador do semanário "ÈNÍÉ - uma voz do Nordeste Português" (1975) e da publicação  "Domus", da Casa de Cultura da Juventude de Bragança (1977-78).
Foi assessor de imprensa de Maldonado Gonelha, ministro da Saúde (1983-85).
Entrou para o Infarmed em fins de 2000, depois de ter sido assessor de imprensa da ministra Elisa Ferreira, nos dois governos de António Guterres, primeiro no Ministério do Ambiente, depois no Planeamento (1995-2000).
No Infarmed criou o Gabinete de Imprensa, tendo sido porta-voz da instituição durante mais de uma dúzia de anos.
Alguns aspetos marcantes: a iniciativa da realização de um curso para jornalistas (2001), ministrado por peritos do Infarmed, em que os principais órgãos de informação estiveram representados, sobre o ciclo de vida do medicamento; a elaboração do jornal da instituição, "Infarmed Notícias", trimestral (de que é coordenador/editor/redator). A edição especial de Janeiro de 2018, com 120 testemunhos sobre o INFARMED na altura conturbada da ideia controversa da sua deslocalização para o Porto (depois editada em livro); e ainda a publicação de um livro, editado pela Âncora, "Redondilhando", que nasce no seio da instituição e cujo prefácio foi assinado por Ernesto José Rodrigues.

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