domingo, 18 de outubro de 2026

... quase poema... ou ainda do comboio

Por: Fernando Calado
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)


A minha avó nunca viu o mar... nem andou de comboio, mas esperou durante uma vida, pacientemente, que chegassem os almocreves, a quem era preciso dar de comer, aquecer ao lume e fazer a cama no amanho da palha nova.

Ouviu dizer que o comboio chegava ao Porto em oito horas e não entendia por que razão os homens tinham tanta pressa, se ela tinha todo o tempo do mundo para viver e ser feliz! Se tinha um ano inteiro para criar os filhos, semear a horta, fiar o linho, tecer a colcha, matar o porco, fazer o fumeiro, aturar o Soto, guardar o Sábado e ser feliz!

És tão linda, Maria Oliveira, minha avó... Hoje vamos passar o serão só nós os dois... Tu bordas uma toalha em ponto de crivo... Talvez uma vizinha se encante e queira comprar... Judia antiga, que nasceu no ritual maior do negócio...

Enquanto tu bordas, eu escrevo coisas que não servem para nada e, assim, passamos a noite!

... Ouvi dizer que agora já se vai de Milhão ao Porto em duas horas... Como os homens têm pressa!

... Mas isso é bom, minha avó... Num serão destes, explico-te porquê, para que a ingratidão não ensombre a nossa alma e possamos sonhar com outros mundos que, ouvi dizer, se perdem de vista lá para os lados da Terra Quente...

... Vamos fazer uma torrada e café no pote. Não te esqueças de lhe deitar uma brasa para que assente!

... És tão bonita!


Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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