domingo, 16 de outubro de 2011

Ary dos Santos

Original é o poeta 
que se origina a si mesmo 
que numa sílaba é seta 
noutro pasmo ou cataclismo 
o que se atira ao poema 
como se fosse um abismo 
e faz um filho ás palavras 
na cama do romantismo. 
Original é o poeta 
capaz de escrever um sismo. 


Original é o poeta 
de origem clara e comum 
que sendo de toda a parte 
não é de lugar algum. 
O que gera a própria arte 
na força de ser só um 
por todos a quem a sorte faz 
devorar um jejum. 
Original é o poeta 
que de todos for só um. 


Original é o poeta 
expulso do paraíso 
por saber compreender 
o que é o choro e o riso; 
aquele que desce á rua 
bebe copos quebra nozes 
e ferra em quem tem juízo 
versos brancos e ferozes. 
Original é o poeta 
que é gato de sete vozes. 


Original é o poeta 
que chegar ao despudor 
de escrever todos os dias 
como se fizesse amor. 
Esse que despe a poesia 
como se fosse uma mulher 
e nela emprenha a alegria 
de ser um homem qualquer. 


Serei tudo o que disserem 
por inveja ou negação: 
cabeçudo dromedário 
fogueira de exibição 
teorema corolário 
poema de mão em mão 
lãzudo publicitário 
malabarista cabrão. 
Serei tudo o que disserem: 
Poeta castrado não! 


Os que entendem como eu 
as linhas com que me escrevo 
reconhecem o que é meu 
em tudo quanto lhes devo: 
ternura como já disse 
sempre que faço um poema; 
saudade que se partisse 
me alagaria de pena; 
e também uma alegria 
uma coragem serena 
em renegar a poesia 
quando ela nos envenena. 


Os que entendem como eu 
a força que tem um verso 
reconhecem o que é seu 
quando lhes mostro o reverso: 


Da fome já não se fala 
- é tão vulgar que nos cansa - 
mas que dizer de uma bala 
num esqueleto de criança? 


Do frio não reza a história 
- a morte é branda e letal - 
mas que dizer da memória 
de uma bomba de napalm? 


E o resto que pode ser 
o poema dia a dia? 
- Um bisturi a crescer 
nas coxas de uma judia; 
um filho que vai nascer 
parido por asfixia?! 
- Ah não me venham dizer 
que é fonética a poesia! 


Serei tudo o que disserem 
por temor ou negação: 
Demagogo mau profeta 
falso médico ladrão 
prostituta proxeneta 
espoleta televisão. 
Serei tudo o que disserem: 
Poeta castrado não!

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