3.2. Guerras Modernas
A administração e defesa militar da Província de Trás-os-Montes organiza-se sobretudo a partir das suas duas mais importantes praças militares, Chaves e Bragança.
As forças militares na Província são constituídas por três corpos, a saber, a tropa regular, que era um corpo militar pago, constituído por cinco regimentos: três de cavalaria e dois de infantaria.
Apenas duas praças militares estavam dotadas desta força militar, Bragança onde estava instalado um regimento de Cavalaria e um regimento de Infantaria e Chaves com dois regimentos de Cavalaria e um de Infantaria.
Existiam ainda, com vocação complementar, os regimentos de Auxiliares que eram denominados Terços.
Em cada uma das cinco praças militares identificadas por Columbano Pinto Ribeiro de Castro estava um Terço de Auxiliares, com a particularidade de nas praças de Moncorvo, Vila Real e Miranda apenas existirem forças auxiliares o que, para o caso de Miranda, terra bem próxima da fronteira, é uma organização defensiva insuficiente, dada a natureza não regular desta tropa miliciana, deixando Miranda à mercê dos inimigos de Castela. Existiam ainda distribuídas por todo o território as Ordenanças, tropa não regular constituída por todos os homens entre os 25 e os 60 anos das terras que eram convocadas para a defesa do território como reforço das tropas regulares se para isso fossem mobilizadas.
A tabela junto dá-nos o quadro da repartição destas forças das Ordenanças e sua repartição pela Província.
Forças militares de toda a Província Transmontana no século XVIII
As Memórias registam alguns testemunhos sobre a real situação das forças militares na época. De um modo geral referem-se ao seu pequeno número e ao desguarnecimento a que algumas partes do território ficam sujeitas quando é preciso destacar ou concentrar as tropas em posições estratégicas ou regiões mais ameaçadas.
O abandono e decadência das fortificações, a inexistência ou inoperabilidade do material bélico e as munições, o sistema das Ordenanças – muitas equiparadas a bandos de camponeses armados – são claros testemunhos da debilidade desta organização militar.
Também nas Memórias é possível recolher alguns testemunhos, individuais e colectivos, sobre a acção e fastos militares, relativos sobretudo a episódios da Guerra da Sucessão.
O maior testemunho vem da Memória da cidade de Miranda que fixa o assalto à cidade e fortaleza de 1710, nestes termos: «Está no mesmo castello huma cisterna de ferro entre o Norte e a cidade na cortina principal do castello, por onde os castelhanos entraram por interpreza no anno de 1710, a tantos de Julho, mediante as intelegencias que dentro tinha o Marquês de Bai [sic por Bay] e o senhoriaram athé 11 de Março de 1711, tempo em que D. João Manoel de Noronha, Conde de Atalia [sic por Atalaia] a citiou com sinco regimentos de cavalaria e 11 de infantaria, sociado este de Monsiur Carli, general de artelharia e passados quatro dias de citio, no dia 15 do dito mês a tomou por capitulação ficando a numaroza gente innimiga prizioneira de guerra» (Memória de Miranda). O relato não deixa de dar eco às traições – e conluios – frequentemente evocados para a fácil entrada dos Castelhanos, um tanto por todo o lado.
Também nas Memórias é possível recolher alguns testemunhos, individuais e colectivos, sobre a acção e fastos militares, relativos sobretudo a episódios da Guerra da Sucessão.
O maior testemunho vem da Memória da cidade de Miranda que fixa o assalto à cidade e fortaleza de 1710, nestes termos: «Está no mesmo castello huma cisterna de ferro entre o Norte e a cidade na cortina principal do castello, por onde os castelhanos entraram por interpreza no anno de 1710, a tantos de Julho, mediante as intelegencias que dentro tinha o Marquês de Bai [sic por Bay] e o senhoriaram athé 11 de Março de 1711, tempo em que D. João Manoel de Noronha, Conde de Atalia [sic por Atalaia] a citiou com sinco regimentos de cavalaria e 11 de infantaria, sociado este de Monsiur Carli, general de artelharia e passados quatro dias de citio, no dia 15 do dito mês a tomou por capitulação ficando a numaroza gente innimiga prizioneira de guerra» (Memória de Miranda). O relato não deixa de dar eco às traições – e conluios – frequentemente evocados para a fácil entrada dos Castelhanos, um tanto por todo o lado.
Mas também ao papel do Conde de Atalaia, D. João Manuel, na reconquista. Aliás um outro, o 4.º Conde Atalaia viria a falecer no ataque e cerco a Alcântara, campanha de 1706. E o 5.º Conde de Atalaia, esse viria a permanecer na Catalunha – depois da derrota das tropas aliadas sob o seu comando e por Stanhope (1707) – tendo acabado os seus dias ao serviço do Imperador, tendo chegado a ser vice_rei da Sardenha.
Mais rica de informação sobre danos e razias da guerra é o relato da Memória de Aldeia Nova, a propósito de cuja guerra se relata um facto milagroso associado às Almas do Purgatorio. «No anno de mil setecentos dez acordam os moradores des[te] lugar que todos os lugares circum-vizinhos tinham sido roubados pelos Castilhanos (por nestes annos trazer este Reino guerras com aquele). Juntos na igreia para a missa conventual por elles foi dito que alli faziam voto a Deos que se por intercesão das Almas do Purgatorio fosem libres das hostelidades, roubos e mortes que nos lugares vezinhos faziam que elles se obrigavam por si, e por seus descendentes fazer hum officio às Benditas Almas do Purgatorio todos os annos in perpetum e asinaram a Junho de mil setecentos e onze. Entraram os Castillianos na Cidade deMiranda aonde asistiram onze meses. E neste tempo sahiram a roubar quintas e lugares a elle vezinhos e como o lugar de Aldea Nova também estava a elle sahiram hum estaquamento [sic, por destacamento] três vezes para roubá-lo; da primeira vez quando hiam chegado ao lugar tiveram medo, e de ali voltaram para Miranda.
Mais rica de informação sobre danos e razias da guerra é o relato da Memória de Aldeia Nova, a propósito de cuja guerra se relata um facto milagroso associado às Almas do Purgatorio. «No anno de mil setecentos dez acordam os moradores des[te] lugar que todos os lugares circum-vizinhos tinham sido roubados pelos Castilhanos (por nestes annos trazer este Reino guerras com aquele). Juntos na igreia para a missa conventual por elles foi dito que alli faziam voto a Deos que se por intercesão das Almas do Purgatorio fosem libres das hostelidades, roubos e mortes que nos lugares vezinhos faziam que elles se obrigavam por si, e por seus descendentes fazer hum officio às Benditas Almas do Purgatorio todos os annos in perpetum e asinaram a Junho de mil setecentos e onze. Entraram os Castillianos na Cidade deMiranda aonde asistiram onze meses. E neste tempo sahiram a roubar quintas e lugares a elle vezinhos e como o lugar de Aldea Nova também estava a elle sahiram hum estaquamento [sic, por destacamento] três vezes para roubá-lo; da primeira vez quando hiam chegado ao lugar tiveram medo, e de ali voltaram para Miranda.
Passaram alguns dias e indo segunda vez à mesma diligencia, fugiram a hum corral de gado imaginando hera esquadrão de gente formada; tronaram terceira vez, dezendo que ou morrer ou roubar o dito lugar. Quando hiam couza de hum tiro de mozquete se lhe fechou tal nevua que elles se não viam huns a outros e neste tempo começaram a ouvir caixas clarins, e outros instromentos velicos em o lugar que timidos voltaram as costas a sua diligencia, sendo que em tal ocazião estavam os moradores fogidos e retirados nas arribas do Douro sem haver em o lugar huma pesoa, por onde se obrigar que estes prodigios todos socederam por intercesão das Almas do Purgatorio».
Na defesa envolvem-se as forças militares a partir das fortalezas ou atalaias mas também as comunidades com a maior ou menor ajuda das praças militares. Na atalaia de Vilarelho da Raia do concelho de Chaves, a defesa é feita pelos moradores e seus homens de ordenanças, com a ajuda e colaboração mais ou menos activa do destacamento da Praça de Chaves. Todos colaboram «a guardar os caminhos com traves e portelos de pedra». O Memorialista refere-se à acção valorosa do pároco António Martim na defesa «na guerra passada (Memória de Vilarelho da Raia, Chaves). Aliás para se aplicarem na defesa dos seus territórios muitas comunidades da raia têm o privilégio de não «irem às parcas» de «auxiliares» para defenderem a terra e as suas passagens (Memórias de Lagoaça, Freixo, Ventuzelos, Mogadouro).
Na defesa envolvem-se as forças militares a partir das fortalezas ou atalaias mas também as comunidades com a maior ou menor ajuda das praças militares. Na atalaia de Vilarelho da Raia do concelho de Chaves, a defesa é feita pelos moradores e seus homens de ordenanças, com a ajuda e colaboração mais ou menos activa do destacamento da Praça de Chaves. Todos colaboram «a guardar os caminhos com traves e portelos de pedra». O Memorialista refere-se à acção valorosa do pároco António Martim na defesa «na guerra passada (Memória de Vilarelho da Raia, Chaves). Aliás para se aplicarem na defesa dos seus territórios muitas comunidades da raia têm o privilégio de não «irem às parcas» de «auxiliares» para defenderem a terra e as suas passagens (Memórias de Lagoaça, Freixo, Ventuzelos, Mogadouro).
continua...
in:repositorium.sdum.uminho.pt
Sem comentários:
Enviar um comentário