terça-feira, 16 de junho de 2015

O PROFESSOR RIBOM


No princípio, frequentei a primeira classe na aldeia dos três deputados. Então, eu ainda não sabia como era Bragança, muito menos a Escola da Estação.
Lá cheguei, num dia de Outubro, de alma vazia, bisonho, saudoso dos bons belos tempos passados em jogos e folguedos. 
A Dona Aninhas de Castro passou a ser a minha Professora.
Impressionou-me a sua cara sorridente, e os seus cabelos brancos fizeram-me sentir saudades da minha avó. 
Colocou-me numa cadeira ao lado do Romeu Ricardo Gomes, infelizmente já falecido. O Romeu logo encetou conversa comigo; disse-me morar nos Batocos. No intervalo fui rodeado por muito futuros companheiros. Depressa estabeleci amizade com alguns, apesar do meu sotaque suscitar riso e zombaria.
Lembro o António Afonso, já meu conhecido, o Augusto, o Mansilha, o popularmente denominado “Michelin”, o Fernando “Calçada”, e o meu excelente amigo, que é o Francisco Cepeda.
Naquela Escola pontificava a Dona Beatriz Monteiro, senhora a merecer crónica no futuro.
À minha professora concedia estima e consideração por todos os motivos, e ainda porque se preocupava comigo.
Na quarta classe as exigências aumentaram, tendo-se intensificado nos últimos meses do ano lectivo. 
E chegou o dia almejado, de ditosa excitação, de ansiedade e medo. O dia do exame. Um exame ante júri de senhores professores de outros lados, professores muito rigorosos e exigentes, no dizer da irmã de Monsenhor José de Castro.
O presidente do júri seria o Professor Ribom. Ninguém o conhecia. Vinha de Rebordaínhos. Fizemos todo o tipo de conjecturas acerca dele.
Naquele dia, mesmo os mais atreitos ao desleixo, não se esqueceram de cumprir as recomendações da saudosa Mestra, no tocante à higiene.
No tampo de cada carteira, folhas de papel pautado esperavam letra legível, frases sem erros ortográficos e sem borrões. Em cada carteira um aluno.
Enquanto durou a prova escrita, timidamente ousei observar o Professor Ribom. 
O homem pareceu-me alto, enfiado num fato cinzento, com a camisa branca a fazer sobressair a gravata preta. Na face avultavam uns olhos velozes, a percorrerem a sala sem se fixarem em nenhum de nós.
A determinada altura consultou o relógio e mandou-nos entregar as provas. Assim fizemos.
Passados dias, a pauta dava conta de ir à oral.
A preparação da oral consistia em assistirmos às provas dos outros.
As tardes calorentas não nos inibiam de, sossegada e respeitosamente, ouvirmos as perguntas do Professor Ribom.
A Dona Aninhas mandava-nos anotar as mais estranhas ou difíceis.
E chegou a minha vez de enfrentar o senhor professor.
As respostas começaram a fluir sem margem para grandes engasganços até ter ficado enredado da Etiópia.
A viagem de adnumerar os inúmeros títulos do Rei Venturoso parou nas bandas do Mar Vermelho.
O professor tentou por diversas vias desencalhar o navio-memorizado do menino, sem qualquer éxito, diga-se em abono da verdade.
Mansamente, conduziu o exame noutra direcção, o que se traduziu num enorme alívio para mim. Passei.
No entanto, a terra do Prestes João concedeu-me um ralhete à hora do jantar.
Durante anos o Professor Ribom esfumou-se, não passava de uma recordação de exames. Boa recordação, afinal!
Por acasos da itinerância cultural, que não do destino, voltei a encontrar o Professor Ribom. O convívio largo, cerimonioso, não impediu, antes pelo contrário, de ter percebido naquele homem um pedagogo atento às mudanças no domínio da educação e um leitor interessado por múltiplos e variados assuntos.
Um Senhor Professor!

in:Figuras notáveis e notórias bragançanas
Texto: Armando Fernandes
Aguarela: Manuel Ferreira

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