Adriano Moreira, que completa hoje 90 anos, diz em entrevista à Lusa que a sua vida «foi a escola» e a política apenas «uma obrigação cívica», que o fez ser ministro do Ultramar, liderar o CDS e passar 14 anos no Parlamento. Nascido a 6 de Setembro de 1922 em Grijó, Macedo de Cavaleiros, Adriano Moreira licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa e doutorou-se pela Universidad Complutense de Madrid e pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).
«Eu tinha ido a África na década de 50 pela primeira vez a pedido do ministro do Ultramar. Eu dava aulas de direito e ele queria fazer a reforma prisional. E eu fui. E tive o que eu chamo a minha primeira queda no mundo. Porque cheguei à conclusão de que a realidade não correspondia àquilo que eu próprio ensinava. E aqui começou a ideia de que o que era necessário era uma escola de ciências sociais porque o mundo que vinha aí exigia não uma formação profissional de administradores coloniais, mas uma escola de ciências sociais que soubesse lidar com as diferenças culturais dos povos e as condições do encontro, muitas vezes conflituoso», conta.
A segunda «queda no mundo» foi nas Nações Unidas, também na década de 1950, quando integrou uma missão portuguesa: «Aí pude ouvir pela primeira vez em liberdade as vozes dos povos que eram tratados como mudos ou como dispensáveis. E isso mais avivou a minha ideia de que tínhamos de transformar completamente o ensino».
À frente do Ministério do Ultramar fez uma série de reformas, sendo a mais simbólica a revogação do Estatuto do Indigenato.
Saiu do Governo em 1963, quando Salazar lhe pediu para mudar uma política que ameaçava a sua permanência à frente do Executivo. «Acaba de mudar de ministro»,respondeu-lhe Adriano Moreira.
«É preciso ver que ele era uma pessoa que nasce e é educada no século XIX e portanto os seus valores são valores do século XIX», diz, em relação ao ditador.
Passou depois pela presidência da Sociedade de Geografia, onde ficou até 1974, e à frente da qual promoveu o Movimento da União das Comunidades de Língua Portuguesa. E manteve-se à frente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (hoje ISCSP), escola que ajudou a reformar introduzindo o estudo de diversas ciências sociais, até ser demitido pelo Governo de Marcelo Caetano em 1969. Regressou ao ISCSP em 1983, quando foi eleito presidente do Conselho Científico.
Após o 25 de Abril de 1974 foi saneado das funções oficiais e perdeu os «direitos políticos» por ter sido ministro durante o Estado Novo.
Em 1980, regressa à actividade política, integrando as listas do CDS nas legislativas daquele ano a convite de Freitas do Amaral e de Adelino Amaro da Costa. Em 1983 é eleito presidente do Conselho Nacional do CDS e em 1986 chega à liderança do partido, à frente do qual se mantém até 1988. No Parlamento ficará 14 anos.
Aos 90 anos, Adriano Moreira, que preside à Academia das Ciências, é considerado um dos «senadores» da sociedade e da política portuguesas e um «histórico do CDS». No entanto, diz preferir ser reconhecido como «académico».
«A minha vida foi a escola, sobretudo. A intervenção política foi mais por obrigação cívica», disse à Lusa, a poucos dias de cumprir 90 anos.
Explica o segundo regresso à política pelo momento especial que vivia o país e a necessidade de defender os «valores» da doutrina social da Igreja naquele contexto. E diz que «nunca quis» ser Presidente da República, porque «tem um papel pouco activo» e «pouco consolidado na opinião pública».
Lusa/SOL
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