Por: António Orlando dos Santos (Bombadas)
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Era tempo de Maio, mês de Festa da Santa Cruz e da Feira das Cantarinhas e a turma da Caleja estava pronta para avançar, já que a feira estava quase finda e a festa no recinto que envolvia o Santuário do Divino Senhor de Cabeça Boa estava no auge.
Nesse ano era mordomo o António Zé das mobílias, que ainda era empregado da Chiquinha e que quando se metia à frente de qualquer empresa popular dava sempre coisa boa e grande. Nosso conhecido de longa data, sendo ele de Cabeça Boa entregou-se de alma e coração ao desafio que era fazer uma festa que não era regular, mas que naquele ano tinha baile, quermesse e leilão das prendas doadas, para além das cerimónias religiosas que levavam muita gente da Cidade ao Santuário.
Pusemo-nos a caminho a meio da tarde e depressa chegámos ao recinto. A distância naquela idade não causava medo pois éramos todos jovens de treze ou catorze anos.
Havia autocarros de carreira dos Bicheiros, mas o preço do bilhete estava na fasquia alta e nós estávamos todos tesos, ou pouco menos.
Chegados e depois de estudarmos a situação, o grupo desintegrou-se e os mais atiradiços trataram de arranjar par para dançarem e os restantes foram ver a festa que estava ao rubro.
Na quermesse havia uma azáfama de fazer suar um cristão e o António Zé, a comandar as operações fazia que as pessoas comprassem as rifas que davam, se premiadas, as prendas que estavam expostas numa espécie de armário e constavam de uma variedade inumerável de utensílios que iam de facas e canivetes a panelas, chapéus de palha e bonecas de trapos. Mas no topo do painel estava a joia da coroa do arraial, uma fila de garrafas de vinho do Porto com o respetivo pão-de-ló, que seriam arrematadas e entregues ao maior lance. À hora que o António Zé pegou no microfone para iniciar o leilão o baile estava animadíssimo.
Foi anunciada a suspensão da música e o pessoal, reclamou um pouco por lhe retirarem o que tanto ajudava a que as meninas suassem com o exercício como os rapazes revirassem a vista com o deleite que as notas do Tango dos Barbudos e dos Corridinhos do Conjunto Maria Albertina lhes ocasionavam e que os pares em tempo de namoro não podiam desperdiçar. Começada a arrematação os pães-de-ló e as garrafas de Três Velhotes e de marca Ferreirinha, iam sendo entregues aos fregueses mais liberais que tinham bolsa mais quente e se retiravam para repartirem com amigos e familiares.
O António Zé incitava o pessoal a licitar e piano, piano já levava a quermesse meio despachada quando entrou na festa um dos nossos, que depois de dar volta por todos conseguiu recolher a módica quantia de Dezassete e quinhentos que era manifestamente insuficiente pois que até ali as licitações depressa ultrapassavam os vinte escudos e subiam em flecha. Encostei-me ao balcão da quermesse, fiz sinal ao António Zé e disse-lhe que estava ali aquela rapaziada toda mas que o capital era pouco e que o pão-de-ló nos fazia jeito pois eram dez da noite e nós estávamos em branco quanto a conduto e assim o pão-de-ló nos daria maneira de matarmos a maligna. Olhou para mim e disse-me: - Com um só, ficais com a mesma fome, vou juntar dois e veremos o que isto dá. Ligou de novo o microfone e levantou dois pães-de-ló e uma garrafa de Ferreirinha. Mandou licitar e quando chegou aos dezassete e quinhentos parou e disse: - Esta já está destinada para a garotada que está faminta e o Senhor de Cabeça Boa matou a fome à multidão com pão e peixes e em sua honra nós matamos-lha com pão-de-ló e Vinho Fino.
Conto-vos hoje está história que aconteceu há muitos anos e que eu guardei para sempre como um exemplo do poder que a amizade tinha no meu tempo de rapaz e também para relembrar um amigo que foi um bragançano com vistas largas, comerciante bem instalado e que merece a minha amizade que nunca lhe retirei.
Conto-vos hoje está história que aconteceu há muitos anos e que eu guardei para sempre como um exemplo do poder que a amizade tinha no meu tempo de rapaz e também para relembrar um amigo que foi um bragançano com vistas largas, comerciante bem instalado e que merece a minha amizade que nunca lhe retirei.
Bragança, 10 de Fevereiro de 2022
A. O. dos Santos
(Bombadas)
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