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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Santa Cruz

 Por: António Orlando dos Santos (Bombadas)
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Era tempo de Maio, mês de Festa da Santa Cruz e da Feira das Cantarinhas e a turma da Caleja estava pronta para avançar, já que a feira estava quase finda e a festa no recinto que envolvia o Santuário do Divino Senhor de Cabeça Boa estava no auge.
Nesse ano era mordomo o António Zé das mobílias, que ainda era empregado da Chiquinha e que quando se metia à frente de qualquer empresa popular dava sempre coisa boa e grande. Nosso conhecido de longa data, sendo ele de Cabeça Boa entregou-se de alma e coração ao desafio que era fazer uma festa que não era regular, mas que naquele ano tinha baile, quermesse e leilão das prendas doadas, para além das cerimónias religiosas que levavam muita gente da Cidade ao Santuário.
Pusemo-nos a caminho a meio da tarde e depressa chegámos ao recinto. A distância naquela idade não causava medo pois éramos todos jovens de treze ou catorze anos.
Havia autocarros de carreira dos Bicheiros, mas o preço do bilhete estava na fasquia alta e nós estávamos todos tesos, ou pouco menos.
Chegados e depois de estudarmos a situação, o grupo desintegrou-se e os mais atiradiços trataram de arranjar par para dançarem e os restantes foram ver a festa que estava ao rubro.
Na quermesse havia uma azáfama de fazer suar um cristão e o António Zé, a comandar as operações fazia que as pessoas comprassem as rifas que davam, se premiadas, as prendas que estavam expostas numa espécie de armário e constavam de uma variedade inumerável de utensílios que iam de facas e canivetes a panelas, chapéus de palha e bonecas de trapos. Mas no topo do painel estava a joia da coroa do arraial, uma fila de garrafas de vinho do Porto com o respetivo pão-de-ló, que seriam arrematadas e entregues ao maior lance. À hora que o António Zé pegou no microfone para iniciar o leilão o baile estava animadíssimo.
Foi anunciada a suspensão da música e o pessoal, reclamou um pouco por lhe retirarem o que tanto ajudava a que as meninas suassem com o exercício como os rapazes revirassem a vista com o deleite que as notas do Tango dos Barbudos e dos Corridinhos do Conjunto Maria Albertina lhes ocasionavam e que os pares em tempo de namoro não podiam desperdiçar. Começada a arrematação os pães-de-ló e as garrafas de Três Velhotes e de marca Ferreirinha, iam sendo entregues aos fregueses mais liberais que tinham bolsa mais quente e se retiravam para repartirem com amigos e familiares.
O António Zé incitava o pessoal a licitar e piano, piano já levava a quermesse meio despachada quando entrou na festa um dos nossos, que depois de dar volta por todos conseguiu recolher a módica quantia de Dezassete e quinhentos que era manifestamente insuficiente pois que até ali as licitações depressa ultrapassavam os vinte escudos e subiam em flecha. Encostei-me ao balcão da quermesse, fiz sinal ao António Zé e disse-lhe que estava ali aquela rapaziada toda mas que o capital era pouco e que o pão-de-ló nos fazia jeito pois eram dez da noite e nós estávamos em branco quanto a conduto e assim o pão-de-ló nos daria maneira de matarmos a maligna. Olhou para mim e disse-me: - Com um só, ficais com a mesma fome, vou juntar dois e veremos o que isto dá. Ligou de novo o microfone e levantou dois pães-de-ló e uma garrafa de Ferreirinha. Mandou licitar e quando chegou aos dezassete e quinhentos parou e disse: - Esta já está destinada para a garotada que está faminta e o Senhor de Cabeça Boa matou a fome à multidão com pão e peixes e em sua honra nós matamos-lha com pão-de-ló e Vinho Fino.
Conto-vos hoje está história que aconteceu há muitos anos e que eu guardei para sempre como um exemplo do poder que a amizade tinha no meu tempo de rapaz e também para relembrar um amigo que foi um bragançano com vistas largas, comerciante bem instalado e que merece a minha amizade que nunca lhe retirei.



Bragança, 10 de Fevereiro de 2022
A. O. dos Santos
(Bombadas)

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