sábado, 15 de novembro de 2025

Ausências (Ficção)

Por: Fernando Calado
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)


 A noite estava quente, mas os dois velhos gostavam de ter o lume acesso naquela moleza de quem faz horas para se ir deitar.

- Tivemos uma vida boa!

Dizia o velho para a sua mulher, sentada ao canto do lume, com aquele ar meigo de quem amou até ao infinito e gastou os olhos de tanto olhar para o seu homem.

E a conversa arrastava-se num dizer por dizer, como se as palavras tivessem a magia de adoçar a vida cheia de recordações, de alegrias e de tristezas.

- Tu deves ouvir sempre o que eu te digo, mulher, porque eu tenho duas escolas, a escola primária e a escola da vida...Tu só tens a escola da vida!

Então a velha queixava-se de não saber ler as cartas e os postais que se perdem caídos pelos quatro cantos da casa.

- Tens que ter resignação mulher, como eu que já quase não vejo nada!

- Pois é, coitadinho, já quase não vês!

- Chega de conversa, por hoje...só eu é que devo falar das minhas desgraças!

- Pronto, ficas logo áspero...

Diz a velha sem rancor, na maior serenidade.

- Então quem telefonou hoje?!

Pergunta o velho...sabendo ele que os filhos telefonam sempre ao anoitecer, mas pergunta, naquele alegria íntima de ouvir a mulher dizer o nome dos filhos.

- O nosso João continua na política?!

Perguntou o velho...escondendo a vaidade, pois ele era um amante da democracia, censurando os invejosos que hão-de falar sempre mal de quem trabalha pela educação, pela saúde e pelos velhos.

- Aquele rapaz...com o cursinho dele não precisava nada destas coisas da política...que só trazem desgostos e inimizades...Eu bem o avisei!

Pois é, a mãe bem o tinha avisado que não se metesse na política, mas quê o rapaz trazia no sangue aquele fulgor do seu avô, velho republicano, um homem honrado e são como um pêro, que combateu o Franco e ajudou, a vida toda, os espanhóis que se refugiavam no sossego do Nordeste Transmontano fugindo ao negrume da Guerra Civil.

E a mãe morria de tristeza por causa daquele filho...tinha tantos inimigos o seu menino...Antes de se meter nestas coisas da política, toda a gente lhe queria bem, regressava a casa cedo vindo do seu emprego, saía com a sua namorada e tinha uma vida tão boa...Agora, é este desassossego, esta corrida constante para o Partido, para as reuniões, é este medo desenhado no seu rosto e que a mãe conhece desde pequenino.

- Mas também quem fala mal do nosso rapaz?

Dizia o velho que sem a resposta da sua velha, respondia ele:

- Um, é um vigarista refinado que pára ali pela tasca da viela...fala mal de meio mundo...ri-se muito...tem muita laracha, mas se um homem não acautela a carteira está bem arranjado...Gente de respeito...não conheço nenhum!

Mas a mãe não se resignava e achava que o seu homem também estava muito triste e havia de morrer com aquele desgosto de ver o filho a ser enxovalhado por gente que não vale duas coroas.

- O nosso rapaz anda meio doente!

Teimava a mãe, como quem sabe que a política traz consigo a inveja, o ódio e o prenúncio de todos os males.

- O nosso rapaz é um bom homem...

Dizia o velho reconfortado.

- Pois é...Só é mau para ele...

Dizia a mãe enquanto afagava um sorriso longínquo, lembrando-se de tanta gente a quem o filho ajudou a conseguir emprego, da alegria de meio mundo que encontram no seu filho a disponibilidade de quem está ao serviço dos outros e faz política discretamente...sem se ver...sem traições...nem arranjos calculados na penumbra da vilania.

- Vamos à cama!

Diz o velho como quem cumpriu um dever de esclarecer a sua velha das coisas da vida, pois ele tinha obrigação de o fazer porque num tempo antiquíssimo tinha frequentado a escola primária...e ao longo da vida, fez a magnífica escola de conhecer, primorosamente, as fragilidade da natureza humana.


Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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