domingo, 15 de março de 2026

REQUIEM

Por: Fernando Calado
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)


 No Chave d’Ouro foi assim durante muitos anos… entre um café de saco e uma laranjada resolviam-se todos os problemas da humanidade… e o Zé Luís, o catedrático dos polidores de calçado, tão perto, com aquele seu sorriso imaterial que enchia a cidade inteira…

…os políticos sussurravam estranhíssimas e silenciosas conversas e a solução de todos os problemas do Nordeste estava ali… na hora rigorosamente certa… só a gente de Lisboa é cega e não quer ver…

…entrava um velho maçom sonhando com a cidade justa e perfeita, riscada a esquadro e compasso… e a sua Loja já não é o que era…

Entrava o meu pai e todos os negociantes do Nordeste na esperança do negócio… e era dia de feira.

Entravam os estudantes… os caixeiros-viajantes… os militares... e as autoridades com mesa marcada.

Entrava a mãe que telefonava para o filho que estava na tropa… e tardava

…entrava uma idosa que acreditava que era desta que encontra a raspadinha que resolve o sufoco da magra reforma… não foi… e ficou mais pobre…

…e entrei eu pela última vez… aconchegando, dolorosamente, as mágoas… chorando as memórias…

… tantas.

… adeus.


Fernando Calado
nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.

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