(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
No Chave d’Ouro foi assim durante muitos anos… entre um café de saco e uma laranjada resolviam-se todos os problemas da humanidade… e o Zé Luís, o catedrático dos polidores de calçado, tão perto, com aquele seu sorriso imaterial que enchia a cidade inteira…
…os políticos sussurravam estranhíssimas e silenciosas conversas e a solução de todos os problemas do Nordeste estava ali… na hora rigorosamente certa… só a gente de Lisboa é cega e não quer ver…
…entrava um velho maçom sonhando com a cidade justa e perfeita, riscada a esquadro e compasso… e a sua Loja já não é o que era…
Entrava o meu pai e todos os negociantes do Nordeste na esperança do negócio… e era dia de feira.
Entravam os estudantes… os caixeiros-viajantes… os militares... e as autoridades com mesa marcada.
Entrava a mãe que telefonava para o filho que estava na tropa… e tardava
…entrava uma idosa que acreditava que era desta que encontra a raspadinha que resolve o sufoco da magra reforma… não foi… e ficou mais pobre…
…e entrei eu pela última vez… aconchegando, dolorosamente, as mágoas… chorando as memórias…
… tantas.
… adeus.
Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança.
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.


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