(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Eu tinha doze a treze anos. Não mais; - quando minha mãe, declarou, em derradeiro dia de julho, com largo e bom sorriso, bailando nos finos lábios encarnados: vermelhos e acetinados como cerejas:
- " Este ano vamos passar o mês de agosto a Trás–os-Montes...
A imaginação infantil excitou-se - pelos meus olhos de criança, logo surgiu a pastoril e singela aldeia de minha mãe, esbraseada de sol acariciador, sob o bom e cálido manto azul, do Vale da Vilariça.
Nessa noite - que me pareceu eterna, - percorri as macadamizadas ruas da aconchegante povoação, aninhada nas fraldas da serra de Bornes.
Vi - como vi! - As cacarejantes galinhas, à mistura com pachorrentos marrecos, cevados e esqueléticos cachorros, que livremente circulam pelas calçadas, cobertas de morenas palhinhas, morenas como a gente e o pobre centeio, que vegeta pelas serras.
Vi a desmedida pá do forno comunitário, colhendo das encandecestes brasas, pães redondinhos, estaladiços, saborosos e fumegantes.
Na manhã seguinte parti no ronceiro comboio do Douro, junto à janela, para melhor observar o rio, que, após a Régua, se atravessava a vau.
Em Vila Flor, a Flor das Vilas, como dizia Raul de Sá Correia, o “Rossas" levou-nos, em velha viatura, até à “Quinta do Bem”, onde o prestável feitor, festivamente, nos acomodou.
Pouco depois conheci o Nero. Cãozarrão, guarda da quinta, que após meiga carícia, se afeiçoou a mim.
Sempre que passeava pelo negro asfalto da estrada ou me embrenhava pelos matagais, em vales e montes, o Nero acompanhava-me.
Abandonara, de todo, a obrigação de guarda da Quinta; e era feliz, ladeando-me, e dormindo a sesta, estirado no esfregado soalho.
Certa ocasião ao atravessar olival, e não querendo sujar-me – para não ouvir minha mãe, – deitei-me sobre o pobre animal. Alguém viu, e tirou uma fotografia.
Clarisse Barata Sanches, conhecida como "A poetisa de Góis”, teve conhecimento, e publicou poema no: " Varzeense", acompanhada de foto.
Tenho oitenta e tal anos, mas guardo com saudade, o recorte da gazeta.
Ainda me recordo do amigo Nero, que na hora da despedida: gemeu, chorou, uivou de saudade...
Como seria sua vida após a minha partida?
Os cães também têm sentimentos: também, amam, gemem e choram...
Humberto Pinho da Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG” e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".


Sem comentários:
Enviar um comentário