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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 11 de março de 2026

UMA HISTÓRIA DE AMOR - O MENINO E O CÃO

Por: Humberto Pinho da Silva 
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 Eu tinha doze a treze anos. Não mais; - quando minha mãe, declarou, em derradeiro dia de julho, com largo e bom sorriso, bailando nos finos lábios encarnados: vermelhos e acetinados como cerejas:

- " Este ano vamos passar o mês de agosto a Trás–os-Montes...

A imaginação infantil excitou-se - pelos meus olhos de criança, logo surgiu a pastoril e singela aldeia de minha mãe, esbraseada de sol acariciador, sob o bom e cálido manto azul, do Vale da Vilariça.

Nessa noite - que me pareceu eterna, - percorri as macadamizadas ruas da aconchegante povoação, aninhada nas fraldas da serra de Bornes.

Vi - como vi! - As cacarejantes galinhas, à mistura com pachorrentos marrecos, cevados e esqueléticos cachorros, que livremente circulam pelas calçadas, cobertas de morenas palhinhas, morenas como a gente e o pobre centeio, que vegeta pelas serras.

  Vi a desmedida pá do forno comunitário, colhendo das encandecestes brasas, pães redondinhos, estaladiços, saborosos e fumegantes.

Na manhã seguinte parti no ronceiro comboio do Douro, junto à janela, para melhor observar o rio, que, após a Régua, se atravessava a vau.

Em Vila Flor, a Flor das Vilas, como dizia Raul de Sá Correia, o “Rossas" levou-nos, em velha viatura, até à “Quinta do Bem”, onde o prestável feitor, festivamente, nos acomodou.

Pouco depois conheci o Nero. Cãozarrão, guarda da quinta, que após meiga carícia, se afeiçoou a mim.

Sempre que passeava pelo negro asfalto da estrada ou me embrenhava pelos matagais, em vales e montes, o Nero acompanhava-me.

Abandonara, de todo, a obrigação de guarda da Quinta; e era feliz, ladeando-me, e dormindo a sesta, estirado no esfregado soalho.

Certa ocasião ao atravessar olival, e não querendo sujar-me – para não ouvir minha mãe, – deitei-me sobre o pobre animal. Alguém viu, e tirou uma fotografia. 

Clarisse Barata Sanches, conhecida como "A poetisa de Góis”, teve conhecimento, e publicou poema no: " Varzeense", acompanhada de foto.

Tenho oitenta e tal anos, mas guardo com saudade, o recorte da gazeta.

Ainda me recordo do amigo Nero, que na hora da despedida: gemeu, chorou, uivou de saudade...

Como seria sua vida após a minha partida?

Os cães também têm sentimentos: também, amam, gemem e choram...


Humberto Pinho da Silva
nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG” e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".

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