quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A festa do Apóstolo no cabeço


 No próximo domingo, 23 de agosto de 2026, às 18h00, a comunidade cristã de Bragança, Samil e aldeias vizinhas une-se na “Capela do Planalto de São Bartolomeu”. Fá-lo para uma celebração que, de forma atípica, antecipa a Solenidade do Apóstolo. É no pulsar da nossa terra que recuperamos a memória de Natanael, o homem a quem Jesus elogiou pela ausência de fingimento («Eis um verdadeiro israelita») e que levou o Evangelho até aos confins do mundo.

Celebrar São Bartolomeu neste altivo planalto é fazer ecoar a liturgia na própria geografia e nas peripécias da nossa história. Olhar para o Monte de São Bartolomeu, erguido a sul da nossa Cidadela e separado do Monte do Sardão pelo compasso do Rio Fervença, é evocar séculos de fé. Mas é também evocar a paciência bragançana.

Reza a lenda popular, documentada por Dias Parente, que naqueles fraguedos habitam três mouras encantadas, uma cobra, um dragão que deita lume e um gigante. Diz-se que o feitiço dura cem anos e um dia, à espera de jovens destemidos que o quebrem à meia-noite.

Olhando de perto para o nosso Planalto e para os tão aguardados melhoramentos que se impõem ao espaço e aos acessos, parece haver ali um verdadeiro encantamento, e não é o das mouras. É o das infraestruturas. Por aquelas bandas, o “já” e o “ainda não” travam uma batalha mais dura do que a do dragão. A requalificação e a valorização teimam em perpetuar a longevidade da lenda, passam os cem anos, passa o tal dia, e a realidade teima em não se desencantar.

A ironia é que o gigante desentorpece da letargia e comunica. O pseudo herdeiro do Cabeço que chegou, viu, venceu, instalou-se e ficou. Pelos vistos, gostou tanto das chouriças, do presunto e do vinho das encostas do Monte que, por artes de um novo encantamento, serve-se já sem rodeios nem compromissos. Lá comunicar, comunica […] mas mais com os seus parceiros comerciais.

Brincadeiras e peripécias à parte, a verdade é que a preservação do nosso património, longe dos holofotes, é uma urgência a materializar. Tal como os jovens destemidos da lenda, a nossa comunidade precisa de ver as melhorias do Planalto libertas do eterno feitiço burocrático-corporativo.

A fé purifica a cultura, e a cultura dá corpo à fé. Na oração coleta deste dia, pedimos ao Senhor que fortaleça em nós a entrega sincera a Cristo. Que essa mesma força nos inspire a zelar pelo que é nosso, os nossos altares, as nossas lendas e o futuro dos nossos lugares sagrados.

Fica o convite a todos os paroquianos e vizinhos para se juntarem à “Eucaristia Solene neste domingo, às 18h00”. Venham celebrar o Apóstolo e, quem sabe, inspirar o destemor necessário para que as obras, as melhorias e o respeito pela nossa terra deixem finalmente de ser um mito brigantino.

Pe. Estevinho Pires

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