quinta-feira, 8 de outubro de 2026

CeDRI aproxima empresas da investigação com 120 projetos executados ou em execução

 O Centro de Investigação em Digitalização e Robótica Inteligente (CeDRI) da Universidade Politécnica de Bragança tem 47 projetos em execução e desenvolveu 120 nos últimos cinco anos (nacionais e internacionais), com um valor financeiro de 15 milhões de euros. 


Os números foram avançados ao Mensageiro de Bragança pela investigadora e coordenadora adjunta Ana Pereira, durante o CeDRI Industry Day, realizado na quinta-feira, na Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTiG).

O encontro juntou investigadores, empresas e entidades ligadas ao financiamento da inovação, com o objetivo de aproximar o conhecimento científico das necessidades do tecido empresarial. Incluiu painéis de debate, demonstrações de protótipos e uma visita às instalações do centro.

“Para mim foi um sucesso este evento”, afirmou o coordenador do CeDRI, Paulo Leitão, destacando a participação das empresas e o interesse gerado nas discussões. A intenção era “abrir as portas do centro para mostrar as suas infraestruturas, competências e capacidade de desenvolver soluções tecnológicas, mas também conhecer as necessidades dos parceiros”.

O financiamento, os projetos colaborativos e a transferência de tecnologia estiveram no centro do debate. Paulo Leitão sublinhou a importância de conhecer antecipadamente as regras do próximo programa-quadro europeu, para que empresas e instituições científicas possam preparar candidaturas competitivas.

Uma das aplicações apresentadas foi o iSafety, desenvolvido em colaboração com a Sonae MC para antecipar riscos de acidentes de trabalho. Segundo Ana Pereira, o sistema está a funcionar em cerca de 410 lojas, depois de uma análise de dados históricos da empresa relativos a um universo de aproximadamente 40 mil colaboradores.

A ferramenta combina inteligência artificial e otimização para informar os responsáveis das lojas sobre o risco de acidente em diferentes secções, em quatro períodos do dia: abertura, manhã, tarde e fecho. As previsões abrangem o próprio dia e o seguinte, permitindo orientar ações preventivas para as áreas consideradas mais críticas.

Para proteger o anonimato dos trabalhadores, a análise por secção exige um mínimo de dez colaboradores, explicou a investigadora.

Abel Pires, da Sonae MC, destacou a possibilidade de cruzar dados de ergonomia e segurança com variáveis operacionais e externas, como as condições meteorológicas ou o trânsito. “Aquilo que nós ganhámos foi a transformação de dados, que nós tínhamos muitos, em conhecimento”, afirmou. Esse conhecimento traduz-se em alertas enviados às unidades e em medidas de prevenção.

O responsável ressalvou, porém, que a redução da sinistralidade registada pela empresa não pode ser atribuída isoladamente ao modelo. O iSafety é mais uma ferramenta de gestão, integrada num trabalho que inclui auditorias, investigação de acidentes, acompanhamento e sensibilização dos trabalhadores.

A experiência do CeDRI na análise de dados tem aplicações noutras áreas. Ana Pereira referiu projetos ligados à deteção de incêndios, ao apoio à decisão na atribuição de transplantes de fígado, em colaboração com o Hospital de Santo António, no Porto, e à agricultura, através do cruzamento de informação do solo e das condições meteorológicas.

“O que nós fazemos aqui é desenvolver novas estratégias, novos algoritmos, novas abordagens para que esta decisão seja mais efetiva”, explicou, defendendo a disponibilização dos modelos para utilização e adaptação pelas empresas.

Para Umberto Pellegri, da Catraport, estes encontros ajudam a criar uma cultura de aproximação entre empresários e investigadores. O responsável considera que existe inovação na região, mas que nem sempre é partilhada. “Cada empresário cria a sua inovação, mas não quer partilhar”, observou, defendendo que uma maior ligação entre o trabalho das empresas e o conhecimento do CeDRI pode elevar a capacidade de inovação do território.

Na apresentação sobre financiamento e oportunidades, Ricardo Simões, chefe de Divisão para a Inovação e Competitividade Regional da CCDR-N, salientou a necessidade de um sistema regional de inovação territorialmente mais equilibrado. Entre as prioridades apresentadas estiveram as tecnologias digitais, a inteligência artificial, a robótica, as tecnologias limpas e a biotecnologia.

Ricardo Simões apontou ainda a necessidade de reduzir os obstáculos burocráticos e regulatórios e defendeu uma mudança dos apoios a fundo perdido para instrumentos de empréstimo, acompanhada de maior investimento em investigação, desenvolvimento e inovação.

António G. Rodrigues

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