sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Sacrum – IV QUATTUOR

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.


Tomás ergueu-se com dificuldade, sentindo dores intensas onde os fragmentos de tijolo o tinham atingido. Esfregou o rosto e sentiu uma humidade viscosa misturada com terra.

A lanterna jazia a alguma distância, ainda acesa. O foco apontava o que parecia ser uma passagem. Cambaleou para lá.

O ar estava frio e húmido.

Apontou a lanterna para o túnel. Não conseguia perceber se a escuridão escondia o fundo ou se a passagem se prolongava por muitos metros.

Direcionou a luz para o cimo do poço e também não conseguia discernir o topo.

As paredes daquele poço estavam cuidadosamente forradas a tijolo desde o topo até cerca de dois metros do chão. Em tempos, águas revoltas tinham passado por ali, escavando a parede e fazendo desmoronar parte do revestimento.

Conseguia perceber o sítio vazio do degrau que cedera e o fizera cair.

Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Estava no fundo de um poço desconhecido, ninguém sabia onde se encontrava e não via maneira de sair. Acima dele, as primeiras gotas de chuva começavam a infiltrar-se.

Andou em volta da parede procurando um ponto de apoio, uma saliência que lhe permitisse colocar um pé ou uma mão e iniciar uma escalada.

Nada. Tudo era terra ou calcário amarelo e escorregadio.

Com os pés e as mãos alisou o chão por baixo do ponto mais próximo do forro de tijolos. Pousou a lanterna a iluminar o local de trabalho. Com pouca convicção, começou a empilhar os tijolos dispersos pelo chão na tentativa de um degrau ou dois que permitisse chegar a algum ponto de apoio.

A luz da lanterna tremeluziu quando ele, a transpirar abundantemente, tinha conseguido erguer um instável palanque de três patéticos degraus.

Subiu a obra e olhou para cima. Era como se não tivesse feito nada…. a sua respiração, acelerada pelo esforço, ganhou ainda mais velocidade.

Gotas de água dispersas começavam a cair do cimo do poço. A chuva devia estar a intensificar-se lá fora.

A luz tremeluziu novamente.

Tomás bateu na lanterna com a palma da mão e o foco estabilizou, mas por pouco tempo. Se a luz morresse, não tornaria o monte de tijolos ou sequer a entrada do túnel.

Apagou a lanterna, sentou-se no chão e acendeu um cigarro com o isqueiro metálico a gasolina, que pertencera ao avô.

Soltou umas baforadas, enquanto a única luz do local era a ponta incandescente que ganhava novo alento a espaços.

Tentava deixar de fumar, mas naqueles momentos de tensão precisava sempre de se refugiar atrás do fumo branco e do cheiro imutável do tabaco.

Inspirou fundo enquanto apagava o cigarro.

Apontou a lanterna para a passagem, a sua única hipótese de sair dali. Na lama do chão distinguiam-se as pegadas de Freixo, seguindo para o interior.

O que o aborrecia era que a passagem tinha uma inclinação descendente.

Tomás praguejou entre dentes e avançou antes que o medo lhe desse outra ordem.

Avançou cautelosamente pelo túnel, enquanto iluminava as paredes de calcário. A maioria da passagem fora aberta pela água; a mão humana limitara-se a alargá-la onde fora necessário.

— Freixo! — Gritou novamente, estremecendo com o eco sufocado que lhe foi devolvido.

Ao fim de alguns minutos o seu caminho bifurcava-se em três possibilidades; duas continuavam a descida e uma parecia subir.

Engoliu em seco. Regressar significava enfrentar o poço uma vez mais; escolher ao acaso podia fazê-lo perder a orientação. Apertou a lanterna com tanta força que os dedos começaram a doer.

O pai falara-lhe muitas vezes de labirintos. Quanto saberia ele sobre aqueles túneis? A proibição tornava-se agora clara: o que existia sob a colina não era novidade para Afonso. Mas teria alguma vez descido até ali? Tomás não duvidava.

“O labirinto não é um lugar onde nos perdemos, mas sim um caminho de introspeção onde nos encontramos” — Dissera-o muitas vezes.

Observou as entradas dos tuneis com atenção e depois percorreu as paredes em volta com a luz. No calcário descobriu um símbolo: três riscos separados em baixo que, ao subir, convergiam num só.

O coração deu-lhe um salto. Reconhecia aquele símbolo. Não eram apenas uns riscos na pedra: era uma orientação.

Com a mão sobre a testa e os olhos fechados fez um esforço para recordar: — A Pata de Ganso, — murmurou — o caminho está indicado… pelo dedo do meio!

Ao sacudir a lanterna, esta apagou-se e ele ficou na absoluta escuridão… exceto… num dos túneis parecia haver uma luz mortiça.

Pelo tato, abriu a lanterna e mexeu com as pilhas, voltando a fechá-la. A luz retornou ao espaço.

O túnel de onde provinha a luz era o da esquerda, que descia, tal como o do centro. O da direita subia e tentava-o, pois poderia ser a saída. Mas o símbolo na parede contradizia-o: indicava o túnel do centro…, mas o da esquerda é que tinha a luz a atraí-lo.

—Espera! — Exclamou. em voz alta. O pai dissera-lhe qualquer coisa sobre caminhos iluminados. “O caminho largo e iluminado é o falso, os caminhos do Senhor são difíceis e escuros.”

Episódio Seguinte - Sacrum – V QUINQUE

By Manuel Amaro Mendonça 16 de Setembro, 2026

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Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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