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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 18 de outubro de 2026

Sacrum – III TRES

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.


Tomás tentou espreitar para dentro da abertura, iluminando-a com o telemóvel, mas estava tão escuro que a luz produzida era inútil.

O céu era agora uma imensa cobertura de algodão cinzento e os trovões roncavam ao longe. Começavam a cair as primeiras pingas.

— Freixo! — Gritou para o interior. — Freixo, anda cá!

Por uns segundos, apenas o eco lhe respondia, até que, muito longe, conseguiu escutar o ladrar do companheiro.

Ergueu-se e olhou em volta. Podia ir procurar ajuda, mas não havia ninguém na quinta além do caseiro e da mulher e ambos tinham saído para fazer compras na cidade.

Tornou a escutar os ecos do cão a ladrar.

“Posso ligar aos bombeiros…” — Ao pensar isso olhou para o telemóvel e percebeu que estava sem sinal. A tempestade que estava a começar devia interferir com a rede.

— Freixo, vem cá! — Tornou a gritar para o buraco, desta vez sem resultado.

Tinha duas opções: regressar na escavadora até ao outro lado da propriedade, apanhar o carro e ir até à casa tentar o telefone fixo, ou entrar atrás do danado do cão… Freixo podia estar ferido. Cada segundo de silêncio fazia-o imaginar que a abertura o engolia um pouco mais. Esperar por ajuda já não lhe parecia prudência, mas abandono.

Naquele momento, a preocupação com o cão ocupava-lhe a mente, mas também começava já a pensar se as objeções do seu pai estariam relacionadas esta descoberta.

Foi buscar uma lanterna e o capacete e inspirou fundo, antes de começar a avançar quase de joelhos dentro da abertura.

Cá fora, a chuva engrossava, um flash de luz iluminou tudo e o primeiro trovão ecoou nos céus de Tomar.

A abertura revelou-se um túnel irregular de pouco mais de meio metro de altura e tinha uma trajetória descendente. O chão era de terra húmida e o teto de calcário. Devia de ser uma das muitas grutas existentes escavadas pela água e por onde, recentemente, a terra da colina começava a escoar-se para o fundo, sabe-se lá para onde.

Engoliu em seco ao pensar que se fosse um túnel inundável poderia haver uma cheia súbita e seria o seu fim. Possivelmente nunca mais ninguém o encontraria. A mulher e os filhos ficaram na quinta de Coimbra após o funeral e não ficariam preocupados antes de segunda-feira. Talvez o caseiro estranhasse o carro dele ainda no estaleiro… amanhã…

Sacudiu a cabeça para afastar os pensamentos.

— Freixo! — Gritou, a voz abafada pelo teto baixo, mas com o reflexo do eco longínquo. Pareceu-lhe ouvir ladrar, mas não tinha a certeza.

O túnel desembocou a meia altura na parede de um poço com cerca de três metros de diâmetro. A descida era vertical. Blocos sólidos de argila revestiam as paredes e, entre eles, lajes de pedra projetavam-se como degraus. O facho da lanterna desceu de saliência em saliência, mas não encontrou o fundo.

O túnel por onde chegara rompia a parede de tijolo como uma ferida irregular. Em tempos, a água devia ter rompido aquela passagem, arrastando terra e fragmentos do revestimento para o fundo. Acima dele, o poço prosseguia na escuridão; talvez terminasse numa porta ou num alçapão oculto no topo da colina.

— Freixo! — O grito ecoou com força reverbando nas paredes.

Tomás suspirou. Não via o topo, não sabia a profundidade do poço e o único caminho de regresso passava pelo túnel estreito por onde viera. Se caísse ou a água da chuva entrasse por ali em catadupa, ninguém saberia onde procurá-lo.

Olhou para o telemóvel — sem rede. — Pudera, à profundidade a que se encontrava; pelas suas contas descera uns bons três metros, mais os três que a colina tinha até ao topo, estava uns seis ou sete metros debaixo de terra.

Pareceu-lhe escutar o cão a ladrar.

Olhou para trás, para o túnel que subia e depois novamente para a descida do poço. — Raios partam isto… — gemeu, ofegante, antes de colocar o pé no degrau mais próximo e iniciar a descida. — Sou mesmo um idiota…

Era necessária uma certa habilidade para descer aqueles degraus e ele fazia-o, mantendo-se colado à parede, sempre com a lanterna apontada para baixo tentado ver o fundo.

A partir de determinado ponto, a parede apresentava maior estado de degradação, com tijolos soltos ou em falta. O seu grau de alarme subiu de nível quando sentiu um degrau que tremia.

Parou repentinamente.

Era demasiado tarde, porém, a laje soltou-se da parede e ele foi lançado no vazio.

A queda não foi grande, quase não teve tempo de gritar.

Aterrou num monte de terra macio, mas com vários tijolos espalhados em cima.

Magoou-se nos cotovelos e nos joelhos. A lanterna voou para longe da sua mão e o capacete acertou-lhe na cara.

Episódio seguinte - Sacrum – IV QUATTUOR

By Manuel Amaro Mendonça 12 de Setembro, 2026

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Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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