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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 16 de junho de 2015

O PROFESSOR RIBOM


No princípio, frequentei a primeira classe na aldeia dos três deputados. Então, eu ainda não sabia como era Bragança, muito menos a Escola da Estação.
Lá cheguei, num dia de Outubro, de alma vazia, bisonho, saudoso dos bons belos tempos passados em jogos e folguedos. 
A Dona Aninhas de Castro passou a ser a minha Professora.
Impressionou-me a sua cara sorridente, e os seus cabelos brancos fizeram-me sentir saudades da minha avó. 
Colocou-me numa cadeira ao lado do Romeu Ricardo Gomes, infelizmente já falecido. O Romeu logo encetou conversa comigo; disse-me morar nos Batocos. No intervalo fui rodeado por muito futuros companheiros. Depressa estabeleci amizade com alguns, apesar do meu sotaque suscitar riso e zombaria.
Lembro o António Afonso, já meu conhecido, o Augusto, o Mansilha, o popularmente denominado “Michelin”, o Fernando “Calçada”, e o meu excelente amigo, que é o Francisco Cepeda.
Naquela Escola pontificava a Dona Beatriz Monteiro, senhora a merecer crónica no futuro.
À minha professora concedia estima e consideração por todos os motivos, e ainda porque se preocupava comigo.
Na quarta classe as exigências aumentaram, tendo-se intensificado nos últimos meses do ano lectivo. 
E chegou o dia almejado, de ditosa excitação, de ansiedade e medo. O dia do exame. Um exame ante júri de senhores professores de outros lados, professores muito rigorosos e exigentes, no dizer da irmã de Monsenhor José de Castro.
O presidente do júri seria o Professor Ribom. Ninguém o conhecia. Vinha de Rebordaínhos. Fizemos todo o tipo de conjecturas acerca dele.
Naquele dia, mesmo os mais atreitos ao desleixo, não se esqueceram de cumprir as recomendações da saudosa Mestra, no tocante à higiene.
No tampo de cada carteira, folhas de papel pautado esperavam letra legível, frases sem erros ortográficos e sem borrões. Em cada carteira um aluno.
Enquanto durou a prova escrita, timidamente ousei observar o Professor Ribom. 
O homem pareceu-me alto, enfiado num fato cinzento, com a camisa branca a fazer sobressair a gravata preta. Na face avultavam uns olhos velozes, a percorrerem a sala sem se fixarem em nenhum de nós.
A determinada altura consultou o relógio e mandou-nos entregar as provas. Assim fizemos.
Passados dias, a pauta dava conta de ir à oral.
A preparação da oral consistia em assistirmos às provas dos outros.
As tardes calorentas não nos inibiam de, sossegada e respeitosamente, ouvirmos as perguntas do Professor Ribom.
A Dona Aninhas mandava-nos anotar as mais estranhas ou difíceis.
E chegou a minha vez de enfrentar o senhor professor.
As respostas começaram a fluir sem margem para grandes engasganços até ter ficado enredado da Etiópia.
A viagem de adnumerar os inúmeros títulos do Rei Venturoso parou nas bandas do Mar Vermelho.
O professor tentou por diversas vias desencalhar o navio-memorizado do menino, sem qualquer éxito, diga-se em abono da verdade.
Mansamente, conduziu o exame noutra direcção, o que se traduziu num enorme alívio para mim. Passei.
No entanto, a terra do Prestes João concedeu-me um ralhete à hora do jantar.
Durante anos o Professor Ribom esfumou-se, não passava de uma recordação de exames. Boa recordação, afinal!
Por acasos da itinerância cultural, que não do destino, voltei a encontrar o Professor Ribom. O convívio largo, cerimonioso, não impediu, antes pelo contrário, de ter percebido naquele homem um pedagogo atento às mudanças no domínio da educação e um leitor interessado por múltiplos e variados assuntos.
Um Senhor Professor!

in:Figuras notáveis e notórias bragançanas
Texto: Armando Fernandes
Aguarela: Manuel Ferreira

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