domingo, 11 de setembro de 2011

António Ramos Rosa

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso 
ainda que o grito sufoque na garganta 
ainda que o ódio estale e crepite e arda 
sob as montanhas cinzentas 
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço 
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o meu amor 
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.
--------------------------------------------------------------------------------
A noite trocou-me os sonhos e as mãos 
dispersou-me os amigos 
tenho o coração confundido e a rua é estreita 
estreita em cada passo 
as casas engolem-nos 
sumimo-nos 
estou num quarto só num quarto só 
com os sonhos trocados 
com toda a vida às avessas a arder num quarto só 
Sou um funcionário apagado 
um funcionário triste 
a minha alma não acompanha a minha mão 
Débito e Crédito Débito e Crédito 
a minha alma não dança com os números 
tento escondê-la envergonhado 
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente 
e debitou-me na minha conta de empregado 
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar 
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? 
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço 
Soletro velhas palavras generosas 
Flor rapariga amigo menino 
irmão beijo namorada 
mãe estrela música 
São as palavras cruzadas do meu sonho 
palavras soterradas na prisão da minha vida 
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida 
num quarto só
--------------------------------------------------------------------------------
Este homem que pensou 
com uma pedra na mão 
tranformá-la num pão 
tranformá-la num beijo 


Este homem que parou 
no meio da sua vida 
e se sentiu mais leve 
que a sua própria sombra
in:astormentas.com


1 comentário:

  1. Olá Henrique,
    No dia 11 deixei um comentário sobre este texto de António Ramos Rosa. Não sei porque, não ficou. O meu computador anda meio esquisito, deve ser por isso.
    De qualquer forma, volto a postar um comentário sobre o texto para dizer que gosto muito do autor e que o poema é muito bonito.
    Fizeste-me recordar Ramos Rosa o que muito me agradou.
    Obrigada
    Mara Cepeda

    ResponderEliminar