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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 20 de setembro de 2026

A Câmara Municipal é a casa comum de um território


Uma câmara municipal é, antes de tudo, a casa comum de um território. Não é um palco. Não é uma agência de eventos. Não é um salão de festas com orçamento público. É a estrutura mais próxima das pessoas, aquela que toca o quotidiano, o passeio onde se caminha, a escola onde se aprende, o centro de saúde onde se espera, o jardim onde as crianças brincam.

É precisamente por essa proximidade que a responsabilidade é maior.

Há sempre a tentação do brilho fácil. Das festas e festinhas. Dos palcos iluminados, dos cartazes coloridos, dos foguetes que sobem ao céu e das garrafas de champanhe abertas sob aplausos. A fotografia fica bonita nas redes sociais. O discurso passa em alta voz, mas o momento é efémero.

O passeio esburacado mantém-se. A rampa que não existe continua a faltar. O infantário que não foi construído continua a ser um problema diário para dezenas de famílias.

Governar é escolher prioridades. Um euro gasto constitui uma declaração de valores.

Quando uma autarquia decide investir mais em festivais do que em reabilitação urbana básica, está a enviar uma mensagem aos munícipes. A aparência vale mais do que a segurança. Quando se financiam eventos para círculos restritos, para grupos de pseudo elites culturais ou empresariais, enquanto há idosos isolados, famílias sem apoio social, jovens sem oportunidades, está-se a escolher visibilidade em vez de responsabilidade.

Uma cidade não se mede pelo número de palcos que monta no verão. Mede-se pela qualidade de vida que garante no inverno.

É claro que a cultura importa. As festas tradicionais ou umas festas da cidade unem comunidades. Os eventos dinamizam a economia local. Não se trata de abolir celebrações ou festas. Trata-se de equilíbrio. Trata-se de perceber que o essencial vem antes do acessório.

Antes dos foguetes, os passeios. Antes do champanhe, os infantários. Antes da selfie institucional, o apoio social eficaz.

Quantas quedas poderiam ser evitadas com passeios dignos? Quantas mães e pais poderiam trabalhar descansados se houvesse mais creches acessíveis? Quantos jovens poderiam encontrar rumo com investimento consistente em formação, desporto, espaços públicos bem cuidados?

A verdadeira política local não necessita de muitas luzes de palco. Está no esgoto que funciona, na iluminação pública que aumenta a segurança, no transporte que liga aldeias isoladas ao centro urbano, na habitação social bem gerida sem servir apenas as clientelas preguiçosas e oportunistas, na transparência das contas. No entanto é também necessário apostar na divulgação daquilo que se vai fazendo e decidindo na governação do concelho no sentido de termos cidadãos devidamente informados e, se possível, esclarecidos.

Há também uma dimensão ética que não pode ser ignorada. As autarquias administram dinheiro que não é seu, é das pessoas. As decisões devem ser guiadas pelo princípio do bem-estar coletivo, não pela conveniência eleitoral ou pela busca de aplauso imediato.

O poder local é o mais visível e, paradoxalmente, o mais vulnerável à tentação da popularidade. Um grande concerto ou um grande espetáculo, dão votos. Um sistema de drenagem de águas residuais renovado e funcional raramente dá dois votos até ao dia em que uma forte chuvada mostra quem planeou devidamente e quem, levianamente, improvisou.

E há ainda outra prioridade muitas vezes esquecida. Escutar. Escutar quem tropeça no buraco do passeio. Escutar quem espera meses por uma vaga num infantário. Escutar quem vive numa aldeia sem ter transporte. Escutar quem precisa de apoio social mas não tem voz.

Governar não é juntar grupos minoritários em jantares protocolares. É aproximar-se de quem raramente é convidado para a mesa. É dar prioridade aos invisíveis.

O bem-estar das populações constrói-se com decisões difíceis, com planeamento de longo prazo, com coragem para dizer “não” ao supérfluo quando o essencial está por cumprir. Exige transparência, prestação de contas, visão estratégica.

Uma câmara municipal responsável interroga-se diariamente. Estamos a resolver problemas reais? Estamos a reduzir desigualdades? Estamos a melhorar a vida concreta das pessoas?

Se a resposta for substituída por métricas de espectáculo, número de eventos ou de entradas nos museus, no impacto mediático das atividades, fotografias ou vídeos partilhados nas redes sociais, então há alguma coisa não está totalmente certa.

As autarquias são a primeira linha da democracia. São o rosto mais próximo do Estado. Se falham, a confiança perde-se rapidamente. Se cumprem, fortalecem o tecido social.

A escolha é simples, embora nunca seja fácil tomar a decisão. Evento que passa rápido ou estrutura que fica para o futuro?

As populações não vivem de foguetes. Vivem de ruas seguras, escolas acessíveis, serviços eficientes, apoio social justo, transparência, respeito e um custo de vida compatível com os vencimentos que auferem.

É nessa escolha quotidiana que se revela a verdadeira grandeza, ou a pequena estatura, de quem governa.

Este texto é apenas uma reflexão, que penso ser necessária, e de maneira alguma uma crítica a quem quer que seja.

HM
20 de Setembro de 2026

𝗢𝘀 "𝗦𝗮𝗯𝗼𝗿𝗲𝘀 & 𝗧𝗿𝗮𝗱𝗶çõ𝗲𝘀" 𝗱𝗼 𝗰𝗼𝗻𝗰𝗲𝗹𝗵𝗼 𝗱𝗲 𝗙𝗿𝗲𝗶𝘅𝗼 𝗱𝗲 𝗘𝘀𝗽𝗮𝗱𝗮 à 𝗖𝗶𝗻𝘁𝗮 𝗿𝗲𝗴𝗿𝗲𝘀𝘀𝗮𝗺 𝗻𝗼𝘀 𝗱𝗶𝗮𝘀 𝟯𝟬 𝗲 𝟯𝟭 𝗱𝗲 𝗼𝘂𝘁𝘂𝗯𝗿𝗼 𝗲 𝟭 𝗱𝗲 𝗻𝗼𝘃𝗲𝗺𝗯𝗿𝗼

 Relembramos que falta pouco tempo para o concelho de Freixo de Espada à Cinta celebrar mais uma edição do "Sabores & Tradições", o certame enogastronómico que serve de montra privilegiada para valorizar e divulgar o que de melhor se faz e produz no nosso território.
Dias 30 e 31 de outubro e 1 de novembro, junte-se a nós e venha desfrutar dos "Sabores & Tradições" do concelho de Freixo de Espada à Cinta!

Antelgéncia Artefecial

Presidência Aberta em Bragança. Datas: domingo, 15 de fevereiro de 1987 - quinta, 26 de fevereiro de 1987


Balbina Mendes: a artista que encontrou no Porto liberdade para criar

 Balbina Mendes nasceu numa aldeia de Miranda do Douro, cresceu a falar mirandês e fez os primeiros deveres à luz da candeia. Foi no Porto que encontrou a formação artística que não pôde ter quando era jovem. Hoje, a pintora, professora aposentada, mãe e avó leva para as telas as máscaras, os rituais e as histórias da terra onde cresceu.

Balbina Mendes é pintora, professora aposentada, mãe e avó. Nascida em Malhadas, no concelho de Miranda do Douro, construiu no Porto a parte decisiva do seu percurso artístico: frequentou uma escola de pintura e concluiu o mestrado em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Uma das suas séries, Margens Douro Nascente Foz, chegou à Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Palácio de Cristal, depois de acompanhar o rio desde a nascente.

É uma história de persistência tardia, sem a retórica fácil de quem apresenta a vida como uma linha de vitórias. Balbina Mendes não começou por ser artista. Cresceu numa família de agricultores, foi professora em Aveiro e no Funchal, criou duas filhas e só mais tarde entrou em Belas-Artes. Pelo caminho, foi pintando. Primeiro por prazer. Depois porque alguém viu que aqueles trabalhos mereciam ser mostrados.

Hoje vive e tem ateliê em Vila Nova de Gaia. Mas é no Porto que identifica a possibilidade de se formar, de expor e de continuar a ver arte. E é do Porto, também, que olha para uma origem que nunca deixou de atravessar a obra: Malhadas; o mirandês ouvido em casa; os serões de inverno à lareira; e as máscaras rituais do Nordeste Transmontano que acabaram por se transformar numa reflexão sobre o que cada pessoa mostra — e esconde — de si própria.

“Não tem de ser um caminho brilhante para estarmos tranquilos com o nosso percurso.”

Exposição no Mosteiro de ANcede, Centro Cultural (MASC)

Uma aldeia, uma carta e a vontade de estudar

Balbina Mendes nasceu em 1955, em Malhadas. Ficou na aldeia até aos 13 anos. O pai era emigrante na Alemanha; os pais eram agricultores e a família vivia de uma agricultura de sobrevivência. A descrição que faz desse tempo tem dureza, mas não nostalgia cega. Não havia água canalizada nem saneamento. As ruas transformavam-se em lama no inverno. As crianças guardavam animais e aprendiam cedo a defender-se das intempéries.

Ao mesmo tempo, recorda uma infância de liberdade. “As memórias que eu tenho da infância são muito boas”, diz. “São as memórias de quem cresceu em plena liberdade, de quem começou a ganhar autonomia muito cedo.”

Em casa, as coisas discutiam-se à mesa. Nos serões, depois da ceia, os vizinhos juntavam-se à lareira. As mulheres fiavam lã de ovelha; as crianças faziam os deveres ou escutavam os mais velhos. As histórias, algumas fantásticas e fantasmagóricas, iam depois para a cama com elas. “A lareira, as pessoas à volta da lareira, o contar das histórias, enriqueceram o nosso imaginário definitivamente”, conta.

Os primeiros anos de escola foram feitos à luz de uma candeia ou de um lampião, a petróleo ou azeite. A eletricidade chegou à aldeia quando já frequentava a quarta classe. Mas houve uma outra luz que lhe abriu horizontes: a biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian. A carrinha levava livros às aldeias. Balbina requisitava-os e levava-os para o campo, enquanto guardava os animais.

Foi por escrever as cartas que a mãe não podia escrever ao pai, na Alemanha, que encontrou a forma de lhe pedir para continuar a estudar. O pai autorizou. Aos 13 anos, foi para a cidade de Miranda estudar. “Tinha vontade realmente de uma vida diferente”, recorda. Tornou-se boa aluna e seguiu um caminho que os pais não tinham podido fazer.

O Porto como possibilidade

Com 20 anos, saiu de Trás-os-Montes para trabalhar como professora, primeiro no distrito de Aveiro e depois no Funchal. Continuou a estudar enquanto ensinava. Havia, diz, “uma certa inquietação”: a vontade de procurar coisas diferentes, crescer e evoluir.

O Porto apareceu como a cidade onde esse desejo podia ganhar forma. Não foi uma escolha motivada por uma imagem turística ou por uma mudança de vida abstrata. Foi, acima de tudo, uma escolha de formação. Começou por frequentar uma escola particular de pintura no Porto. Ao mesmo tempo que dava aulas, pintava e expunha.

“O Porto tem uma oferta de possibilidades que uma cidade pequena não tem”, diz. “Foi essa a razão que me levou a vir para cá.”

Exposição na Coorporativa Árvore - Porto.

A primeira exposição realizou-se quando vivia em Gaia e estudava pintura no Porto. A artista recorda que as obras foram vendidas e que surgiram encomendas. Não foi uma consagração instantânea; foi o incentivo que precisava para continuar. Mais tarde, já com as filhas encaminhadas na vida, entrou na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto e concluiu o mestrado em Pintura.

O percurso não lhe deu a sensação de atraso. Pelo contrário. “Fui fazendo o percurso degrau a degrau”, afirma. “Cheguei à maturidade com a satisfação de ver um caminho com que estou tranquila. Acho que fiz bem o que me propus fazer e estou bem com a vida.”

Para quem começa hoje, vê no Porto uma cidade com referências e espaços de exposição. Fala de galerias, de museus e de uma necessidade que considera essencial: ver boa arte. “É tão importante para um jovem artista ver boas exposições e boa arte como para um escritor ler bons livros.” Não é uma garantia de carreira. É uma condição para alimentar aquilo que cada pessoa tem para criar.

Livro de Balbina Mendes, um registo do seu percurso artístico

A língua que aprendeu antes do português

Antes de aprender português, Balbina Mendes aprendeu mirandês. Era a língua de casa, da aldeia e das histórias ouvidas nos serões de inverno. “O mirandês é a minha primeira língua materna”, diz. “Foi com mirandês que eu aprendi a falar.”

A entrada na escola alterava essa regra. A professora proibia os alunos de falar mirandês dentro da sala. As aulas, a escrita e a comunicação formal aconteciam em português. No recreio, a outra língua regressava. “As nossas brincadeiras eram em mirandês”, recorda.

Essa experiência está longe de ser um detalhe biográfico. O mirandês, reconhecido em Portugal desde 1999, é parte da forma como Balbina Mendes olha para a cultura e para a pluralidade. A pintora fala dele sem o reduzir a peça de museu ou marca regional. “É uma riqueza, uma mais-valia linguística. Não temos só a língua portuguesa; temos a língua portuguesa e a língua mirandesa. Somos mais ricos, temos mais uma língua.”

No Porto, onde o mirandês é hoje ensinado na Universidade do Porto, esta ligação ganha outra dimensão. A artista chegou à cidade em busca de instrumentos para trabalhar a pintura; trouxe consigo uma língua que, durante a infância, teve de ficar à porta da escola. A formação deu-lhe novas técnicas. A origem continuou a dar-lhe matéria.

As máscaras que guardam uma vida

As telas de Balbina Mendes têm rostos, máscaras e referências aos rituais do Nordeste Transmontano. Não são ilustrações de costumes. São, nas palavras da própria, uma pintura autobiográfica. “Há muito de mim na minha pintura: das minhas vivências, das raízes, da origem, dos rituais em que cresci e das tradições que pratiquei como criança.”

A génese está nas máscaras dos rituais de inverno que conheceu em criança. Com o tempo, essa imagem evoluiu. A máscara tornou-se psicológica e social: a camada que protege, defende e permite que uma pessoa esconda parte do que sente. Também por isso a artista aproxima esta ideia da obra de Fernando Pessoa e da sua “múltipla heteronímia”.

Há uma exigência que atravessa o processo. Para Balbina Mendes, o mais difícil nem sempre é começar uma obra ou expô-la. É saber quando parar. “Há uma parte da obra que já está resolvida, mas há uma parte que não me convence”, explica. Por vezes, deixa a pintura amadurecer, virada ao contrário, antes de voltar a procurar o caminho para a concluir.

Essa disponibilidade para esperar estende-se a quem vê o trabalho. A artista gosta quando alguém encontra numa tela uma ideia que ela própria não tinha identificado. Um bom visitante, diz, pode dar significações inesperadas à obra. “Às vezes trazem-nos agradáveis surpresas.”

"Duplo II, acrílico s/ serapilheira, Double II, acrilyc on burlap, 236x168cm. Col. Maria José Santos" " Duplo III, acrílico e folha de ouro s/ serapilheira, Double III, acrylic and gold leaf on burlap, 198x144cm."

O Douro como ligação

Entre as obras que recorda com maior importância está a série Margens Douro Nascente Foz. Foram 50 pinturas sobre o rio, numa itinerância que começou em Sória, perto da nascente, passou por cidades ribeirinhas e chegou à Galeria da Biblioteca Almeida Garrett, no Palácio de Cristal. A exposição acabaria por seguir para Newark, nos Estados Unidos, a convite da organização do Dia de Portugal naquela cidade.

A série partia do rio para aproximar duas margens e duas culturas. Ao longo do percurso, Balbina explorou o Douro não apenas enquanto paisagem, mas também através da tradição oral e cultural, do património arquitetónico e de elementos comuns aos dois povos ibéricos. A exposição foi descendo o rio, das proximidades da nascente até ao Porto, acompanhando também a própria geografia afetiva da artista.

Depois dessa experiência, outros espaços do Porto e de Vila Nova de Gaia passaram a fazer parte do seu percurso expositivo. Expôs no Palacete Visconde de Balsemão, na Casa-Museu Teixeira Lopes, no Convento Corpus Christi, na Cooperativa Árvore e na Biblioteca Municipal de Gaia, onde recorda especialmente o contacto com os estudantes. Quando tenta escolher uma exposição ou um lugar de que tenha gostado mais, hesita:

“É difícil dizer qual é o melhor, todos foram excelentes.”

Exposição Espaço Corpus Christi

A sua pintura, entretanto, também atravessou fronteiras. Balbina já expôs em sete países, entre a Europa, os Estados Unidos, a Austrália e a Índia. A dimensão internacional não apagou a ligação à origem. Pelo contrário, as referências de Malhadas e do Nordeste Transmontano continuam a reaparecer naquilo que pinta, mesmo quando as telas encontram outros lugares e outros públicos.

O Douro não é, para Balbina Mendes, apenas paisagem. É uma continuidade física entre a aldeia onde nasceu e a cidade onde se tornou artista. “O rio entra em Portugal perto da minha aldeia e chega aqui”, diz. “É um outro Douro, diferente, modificado, como nós vamos modificando ao longo do nosso percurso de vida.”

É essa a imagem que melhor explica a sua história. Não uma rutura entre Malhadas e o Porto, mas um percurso que se transforma sem apagar a nascente.

Momento do Porto & Rafaela Geremia
set 14, 2026

Roteiro pelos museus de Bragança

sábado, 19 de setembro de 2026

Apresentação do Kit Via Azul

 Decorreu hoje a apresentação do Kit Via Azul, uma iniciativa promovida pelo Município de Bragança, em parceria com os Bombeiros Voluntários de Izeda, que pretende tornar o socorro pré-hospitalar mais inclusivo e adaptado a pessoas com Perturbação do Espetro do Autismo.
Uma resposta inovadora e humanizada, pensada para apoiar as equipas de emergência na comunicação e abordagem às vítimas, contribuindo para um atendimento mais seguro, tranquilo e adequado às suas necessidades.

Cadeia de Informação Regional está no ar há 29 anos

 A Cadeia de Informação Regional de Trás-os-Montes e Alto Douro (CIR) nasceu a 14 de setembro de 1997 e completou 29 anos na passada segunda-feira.


Atualmente, a CIR é constituída por quatro rádios locais: a Universidade FM, sediada em Vila Real, a Rádio Terra Quente, em Mirandela, a Rádio Onda Livre, em Macedo de Cavaleiros e a Rádio Montalegre, de Montalegre.

A cadeia transmite dois noticiários diários, às 12h30 e às 18h30, cuja edição é assegurada semanalmente, de forma rotativa, pelas rádios parceiras. Aos sábados, às 10h00, é ainda emitido um semanário com os principais acontecimentos da região.

O principal objetivo da criação desta cadeia informativa foi alargar a cobertura jornalística aos distritos de Vila Real e Bragança e unir esforços perante as limitações das redações locais, muitas vezes com poucos meios e recursos humanos, explicou João Faiões, diretor de informação da Rádio Brigantia e um dos responsáveis pelo projeto, à época.

Considerado pioneiro no país, o projeto jornalístico foi apadrinhado por Arons de Carvalho, então secretário de Estado da Comunicação Social, que marcou presença no lançamento da CIR.

No início deste ano, o número de rádios parceiras foi reduzido, mas o principal objetivo do projeto mantém-se, como explica o diretor da Universidade FM, Luís Mendonça:

“Aquilo que achávamos que era positivo há 30 anos faz ainda mais sentido hoje, num mundo cada vez mais global. É cada vez mais importante sabermos o que se passa no nosso território de Trás-os-Montes e Alto Douro e, da mesma forma, quem está do outro lado, neste caso em Bragança, saber o que acontece em Vila Real.

Parece-nos, por isso, muito importante dar continuidade a este projeto, que tem muitas outras vantagens, nomeadamente ao nível da cobertura dos próprios territórios. As rádios têm cada vez menos pessoas a trabalhar e, desta forma, conseguimos ter uma redação maior do que a própria rádio, porque acabamos por ter jornalistas não apenas no nosso território, mas também nos territórios adjacentes. Assim, conseguimos cobrir Trás-os-Montes e Alto Douro de uma forma diferente.

Considero muito importante continuarmos a trabalhar em conjunto. Estou ligado ao associativismo das rádios há 30 anos e sempre defendi a união, a partilha de conteúdos e até a possibilidade de partilharmos entre nós as nossas mais-valias e os recursos humanos.”

O diretor da Universidade FM recorda que a estação entrou na parceria cerca de um ano após a criação do projeto:

“Nós, em Vila Real, entrámos talvez um ano depois de o projeto ter começado. Havia outra rádio que fazia parte do projeto em Vila Real, mas depois saiu. Houve uma aproximação e acabámos por entrar porque achávamos que fazia sentido as pessoas de Vila Real saberem o que se passa em Bragança e as de Bragança saberem o que acontece em Vila Real. A ideia era criar uma ligação mais forte entre os dois distritos.”

O coordenador de programação da Rádio Terra Quente, Fernando Sérgio, sublinha que, na altura, o projeto foi inédito e inovador, não existindo nada semelhante no país. Ao longo dos anos, o modelo chegou mesmo a ser replicado por outros operadores de rádio, permitindo dar uma nova abrangência à cobertura local e regional.

Quase três décadas depois, a confiança no projeto mantém-se.

“Nós acreditamos no projeto desde a primeira hora, com o empenho total de servir a população e as pessoas da região transmontana. Acreditamos que é um projeto único e coeso, que se mantém.

Continuamos a acreditar no projeto e estamos cá com a mesma força e vontade de sempre. Continua a ser, como no primeiro dia, muito importante para a nossa região como um todo.”

Também o diretor da Rádio Onda Livre, Joaquim dos Santos, considera que continuam a existir vantagens em fazer parte do projeto, tal como há 29 anos.

“Só vejo vantagens, não vejo inconvenientes. Há vantagens em fazermos parte de um grupo de trabalho no qual estamos envolvidos desde o início. O projeto continua a ser o mesmo.“

Ao longo das últimas décadas, as rádios locais têm alcançado várias conquistas ao nível da sua sustentabilidade e do reconhecimento do papel que desempenham nos territórios. Nos últimos dois anos, algumas dessas mudanças resultaram também do trabalho desenvolvido pela Associação Portuguesa de Radiodifusão (APR).

Luís Mendonça, que é também presidente da APR, destaca a criação de apoios específicos para as rádios, nomeadamente uma linha de 300 mil euros destinada a estações afetadas por situações de intempérie.

“Finalmente, nos últimos anos, sobretudo nos últimos dois, vemos que os responsáveis políticos perceberam que as rádios são importantes e começaram a olhar para elas de outra forma. Isso começa agora a traduzir-se em medidas práticas.

Quando há tempestades, e são situações que acontecem cada vez mais, a rádio era uma das componentes que não tinha qualquer apoio. Pela primeira vez, este ano, passámos a ter um programa destinado às rádios afetadas pelo mau tempo.

As rádios afetadas puderam candidatar-se a um programa do Governo, com uma verba de 300 mil euros. Isso representa uma grande vitória para as rádios, porque nunca tinham tido um apoio desta natureza.”

Outra das reivindicações das rádios locais esteve relacionada com os tempos de antena. Desde 1 de julho deste ano, o regime passou a abranger também as eleições presidenciais e legislativas e os referendos nacionais.

“Este ano foi também aprovada uma lei que permite que, quando há eleições, as rádios locais possam transmitir tempos de antena e receber um valor financeiro por esse trabalho.

Existia uma discriminação entre as rádios nacionais, as televisões nacionais e as rádios regionais, que tinham direito a esse valor, enquanto as rádios locais não tinham.

Passámos agora a ter também esse direito, que reivindicávamos há muitos anos. Alguns ouvintes talvez se recordem de campanhas eleitorais que nos recusámos a cobrir como forma de mostrar aos responsáveis políticos o nosso descontentamento.

Finalmente, essa alteração foi aprovada, promulgada pelo Presidente da República e publicada. No próximo momento eleitoral, as rádios locais já poderão beneficiar dessa mais-valia relacionada com a transmissão dos tempos de antena.

As rádios acompanham deputados e candidatos, realizam entrevistas e debates e fazem toda essa cobertura. Faz sentido que também possam ser ressarcidas pela transmissão dos tempos de antena.”

Luís Mendonça acrescenta que a APR encara com satisfação esta mudança na forma como as rádios locais têm vindo a ser consideradas nas decisões políticas. Entre as medidas previstas está também uma linha de financiamento destinada à modernização e reforço da capacidade de resposta das estações.

“Há uma forma diferente de olhar para as rádios, que a Associação Portuguesa de Radiodifusão encara com muita satisfação. Temos também inscritos 18 milhões de euros para as rádios se poderem candidatar e ficarem mais preparadas para situações de intempérie, permitindo, por exemplo, adquirir um gerador, um emissor novo ou uma antena nova.

Esta linha deverá surgir também, em princípio, até ao final do ano. É um programa de apoio que nos vai permitir reforçar as rádios. Passámos muitos anos sem este tipo de apoios, mas mais vale tarde do que nunca. Finalmente, os responsáveis políticos perceberam a importância que as rádios têm para uma construção mais equilibrada do território.”

Ao fim de 29 anos, a Cadeia de Informação Regional mantém a aposta na partilha de informação e na cobertura conjunta de Trás-os-Montes e Alto Douro, através de um meio de comunicação que continua a fazer companhia a milhares de pessoas, muitas delas em territórios mais isolados, e que permanece ligado à proximidade com as comunidades.

Maria João Canadas

Ex-autarca de Mogadouro absolvido de crimes de prevaricação e abuso de poder

O Cantus Noster foi um marcante grupo de música etnográfica de Bragança, fundado no início dos anos 1980.

Braga, num encontro de professores da Associação Nacional de Professores.
Foto 2 - Saint Étienne, França.

Presidência Aberta em Bragança. Datas: domingo, 15 de fevereiro de 1987 - quinta, 26 de fevereiro de 1987


Uma em cada nove espécies de aves migradoras está ameaçada de extinção

 A 6ª edição do Estado das Aves do Mundo, divulgado pela Birdlife International a 11 de setembro na Global Flyways Summit, em Nairobi, foca-se nas aves migradoras e nas suas rotas. As causas do declínio são bem conhecidas. Assim como as soluções de conservação, salientam os peritos.

Abetarda (Otis tarda). Foto: Wirestock Creators/Shutterstock

As aves migradoras empreendem viagens extraordinárias ao viajar por todo o mundo entre áreas de reprodução e de invernada.

Duas vezes por ano, milhões de aves, algumas pesando apenas três gramas, fazem migrações extraordinárias atravessando continentes, oceanos, desertos e montanhas.

Flamingos no Lago Natron, Tanzânia. Foto: Akshita Rabdiya

A andorinha-do-mar-árctica (Sterna paradisaea) voa de pólo a pólo, percorrendo o equivalente a quatro viagens de ida e volta até à Lua durante a sua vida. A narceja-real (Gallinago media) voa quase à altitude do Monte Evereste ao voar sobre o Deserto do Saara e o pequeno colibri-de-garganta-rubi (Archilochus colubris), com apenas três gramas de peso, atravessa o Golfo do México sem parar.

Estas viagens dependem de adaptações muito específicas, incluindo sistemas respiratórios eficientes e reservas de gordura substanciais para garantir um voo longo.

Mas não só. As aves migradoras também têm capacidades sofisticadas de orientação e estratégias de comportamento que lhes permitem navegar vastas distâncias e aproveitar picos de disponibilidade de alimento nos locais onde param para abastecer.

Alguns grupos de aves precisam fazer as migrações de dia, para aproveitar as correntes térmicas, mas outras migram de noite para maximizar as oportunidades de alimentação durante o dia, para evitar predadores ou o calor.

Tendência de declínio

Uma em cada nove espécies de aves migradoras está ameaçada de extinção; sete estão confirmadas ou suspeita-se que se tenham extinguido nos últimos 150 anos. Em 2025, o anúncio oficial da extinção do maçarico-de-bico-fino (Numenius tenuirostris) marca a primeira extinção mundial de uma ave na Eurásia e África nos séculos mais recentes.

Abelharuco (Meros apiaster). Foto: Richard Cff/Shutterstock

Muitas espécies outrora comuns têm agora as suas populações depauperadas e 45% de todas as 1843 espécies migradoras do mundo estão em declínio; 30% estão estáveis, 14% estão a aumentar e 11% não se sabe.

Os declínios são particularmente acentuados em algumas rotas migratórias. Das quatro rotas terrestres, a rota da Ásia-Australásia (que liga a Sibéria e o Norte da Ásia ao Sudeste Asiático e à Austrália) tem a percentagem mais elevada de espécies em declínio (53%); a rota que passa por Portugal (rota africano-euroasiática) regista declínios de 41%.

A situação é especialmente grave para as aves marinhas (49%) e aves costeiras (54%).

“O risco de extinção está a escalar”, alerta a Birdlife International, numa era em que a perda de biodiversidade é um dos maiores desafios para a Humanidade.

Desde 1988, um total de 102 espécies migradoras foram classificadas com maior estatuto de ameaça na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Entre elas estão o maçarico-siberiano (Numenius madagascariensis) – que passou de Vulnerável a Em Perigo de extinção – e o papagaio-do-mar (Fratercula arctica), que passou de Pouco Preocupante para Vulnerável.

As causas são bem conhecidas. As mais graves são as espécies exóticas invasoras e doenças, expansão e intensificação agrícola, alterações climáticas, caça e captura ilegal e poluição. “Estas ameaças já estão a ter impactos profundos em várias rotas de migração”, sublinha a federação de organizações dedicadas às aves selvagens. Muitas espécies migradoras enfrentam múltiplas ameaças, o que causa a acumulação de impactos e uma elevada mortalidade das aves durante as migrações.

Mas as soluções também são bem conhecidas. “Programas de conservação por todo o mundo provam que é possível restaurar habitats, evitar extinções e ajudar populações a recuperar. Neste momento, 120 organizações parceiras da Birdlife International trabalham para para conservar as aves migradoras.”

Andorinhão-preto (Apus apus). Foto: Alex Cooper Photography/Shutterstock

Perante esta situação, os governos, cientistas, organizações de ambiente e instituições financeiras reunidos na cimeira de Nairobi assinaram na sexta-feira passada a Declaração de Nairobi para as Rotas Migratórias, comprometendo-se a proteger aves e habitats ao longo de todo o trajeto da migração. 

“As soluções existem: o que é preciso agora é implementá-las à escala das rotas migratórias”, comentou Stuart Butchart, Cientista Chefe da BirdLife International e editor sénior do relatório Estado das Aves do Mundo.

Para a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA-BirdLife), estes resultados reforçam a urgência de uma ação coordenada também em Portugal. “Portugal desempenha um papel crucial nas rotas migratórias entre a Europa e África”, lembrou, em comunicado, Pedro Neto, diretor-executivo da SPEA-Birdlife. “Proteger zonas húmidas, áreas costeiras e habitats agrícolas é essencial não só para as aves que aqui nidificam, mas também para as que cá passam o inverno, e para os milhões de aves que dependem do nosso território como escala. Precisamos de políticas mais ambiciosas e de uma aplicação eficaz das que já existem.” 

Movimento de cidadãos apresenta 50 ideias concretas para proteger a floresta e travar o fogo

 Mais de 200 cidadãos, organizações da sociedade civil e profissionais ligados ao ordenamento do território e às florestas participaram, entre 2025 e 2026, num processo de auscultação sobre a gestão da floresta e do território. Daí resultou um guia com 50 propostas de ação, dirigidas tanto aos decisores políticos como aos cidadãos.

Foto: Joana Bourgard

Portugal enfrenta incêndios florestais cada vez mais devastadores, num contexto de degradação do território e de uma relação prolongada e exploratória com a floresta. Como resposta a esta realidade, mais de 200 cidadãos de Norte a Sul do país participaram, ao longo de 2025 e 2026, num processo de reflexão promovido pelo movimento reflorestar.pt.

As conclusões deste processo, que incluem 50 ideias concretas dirigidas aos cidadãos para proteger a floresta, regenerar o território e travar o impacto dos incêndios, são apresentadas esta quinta-feira na Culturgest, em Lisboa, durante uma tarde de conversas dedicada ao tema “Fogos ou Florestania?”.

A iniciativa, promovida pela Culturgest e pela associação Reflorestar.Pt, pretende discutir “outras formas de habitar, cuidar e regenerar o território” e responder a uma questão central: que respostas urgentes e estruturais exige a crise dos incêndios em Portugal?

O documento que vai ser agora apresentado resulta de um processo de auscultação das populações, sob a forma de Assembleias Cidadãs pelas Florestas, Encontros Regionais de Organizações e o IV Encontro pelas Florestas.

Deste processo – feito em parceria com o movimento Faixas Vivas e com o movimento Assembleias de Cidadãos de Portugal – nasceu um documento síntese dirigido à sociedade civil e aos decisores políticos. O guia inclui um roteiro de ação para as políticas públicas, mas também várias propostas para uma cidadania mais ativa, procurando responder a uma pergunta que, segundo a Reflorestar.Pt, surge repetidamente: “O que posso fazer?”

“Este guia nasce da compilação do que foram as dezenas de conversas pelo país”, explica o movimento. A intenção é que seja um documento “claro e direto, com várias conclusões que consideramos de relevo” e que gostávamos que chegassem ao máximo de pessoas possível.

Conhecer primeiro o território

Segundo este guia, a ação cidadã deve começar pelo conhecimento do território onde se vive.

A primeira proposta é, por isso, conhecer e mapear o território da própria freguesia, identificando, por exemplo, as linhas de água, as espécies de árvores nativas e as áreas de maior risco de incêndio.

A partir desse conhecimento, o guia propõe um conjunto de ações de regeneração e cuidado dos terrenos. Entre elas estão a organização de dias de limpeza comunitária de linhas de água ou matas, ações de controlo de espécies invasoras, a criação de pequenos viveiros comunitários de árvores e arbustos nativos ou a colocação de estacas e realização de sementeiras de espécies nativas em áreas degradadas.

Também há propostas para favorecer a biodiversidade, como a construção de hotéis para insetos e caixas-ninho para aves e morcegos.

Outra das dimensões propostas é a organização das comunidades locais.

O guia sugere começar por organizar um encontro informal para que as pessoas se conheçam e possam conversar sobre o território onde vivem. Entre as ideias estão ainda a criação de sistemas locais de troca de sementes ou plantas e de um “banco de tempo” dedicado a tarefas de gestão da paisagem.

A Reflorestar.Pt considera igualmente importante reforçar a ligação das populações à terra através da educação e da celebração do território. Para isso, propõe a criação de percursos pedestres sinalizados, workshops práticos e feiras dedicadas aos produtos da terra.

A participação cidadã deverá, no entanto, ir além da intervenção direta no território. O guia apresenta também formas de influenciar as decisões políticas e exigir mudanças, como pressionar as autarquias para que utilizem exclusivamente plantas nativas nos espaços públicos ou apresentar propostas de orçamento participativo para projetos de regeneração comunitária.

Uma floresta diversa e multifuncional

Para a Reflorestar.Pt, estas ações locais devem integrar uma transformação mais profunda na forma como o país gere o território.

O objetivo é conseguir uma floresta “diversa e multifuncional” e uma “economia rural vibrante, onde cuidar do território seja uma profissão digna”.

“Os ecossistemas não são um custo a suportar, mas uma infraestrutura essencial do país”, defendem os promotores da iniciativa.

A necessidade de atuar é ainda maior perante a acumulação de fenómenos extremos. “Um território já fragilizado por incêndios recorrentes perde capacidade de retenção de água e de proteção do solo, amplificando o impacto de tempestades e cheias seguintes; um território já erodido por fenómenos extremos regenera com mais dificuldade após um incêndio.”

A Reflorestar.Pt identifica, contudo, vários obstáculos à participação dos cidadãos, entre eles o sentimento de impotência perante a complexidade legal e uma burocracia considerada asfixiante.

Por isso, defende que é necessário tornar mais simples a participação das comunidades na gestão da paisagem e aproximar a decisão das pessoas que vivem no território.

“O papel da sociedade civil é assumir a responsabilidade pela gestão de proximidade”, escrevem os coordenadores da iniciativa. “Com o apoio e o enquadramento do Estado, são as comunidades locais, os baldios, as cooperativas e os grupos de proprietários que estão em melhor posição para gerir a paisagem de forma adaptativa e resiliente, porque são elas que detêm o conhecimento local e o interesse direto no bem-estar do seu território.”

Restaurar, valorizar e pagar pelos serviços dos ecossistemas

Ao nível nacional, as propostas incluem dar prioridade ao restauro e regeneração dos territórios, criar um programa específico de proteção para carvalhais e outros bosques autóctones raros e valorizar cadeias de valor alternativas associadas à floresta. Entre os exemplos apontados estão o mel, a resina, a cortiça, os cogumelos e a castanha.

O movimento defende ainda a criação de um Sistema Nacional de Pagamento por Serviços de Ecossistema, reconhecendo o valor dos benefícios que os ecossistemas prestam à sociedade.

Outra das propostas é a criação de um Pacto Social pela Floresta Nativa, envolvendo o Estado, o setor privado, a sociedade civil e a comunidade científica numa visão comum para o território.

No centro de todas estas propostas está a ideia de que a resposta aos incêndios não se pode limitar ao combate ao fogo. Exige uma transformação da relação entre sociedade, floresta e desenvolvimento. “Portugal precisa de uma mudança de paradigma na forma como regula, valoriza e governa o seu território”, defende a Reflorestar.Pt.

Nova espécie Leopardus tilcayo é o primeiro felino descrito para a Ciência em mais de 100 anos

 Nas florestas montanhosas húmidas da Bolívia vive um felino, mais pequeno do que um gato doméstico, que ainda não tinha sido descrito para a Ciência. O Leopardus tilcayo é a primeira espécie de felino a ser descoberta em mais de 100 anos.

Leopardus tilcayo. Foto: Alessandro Verniani/WikiCommons

“Muita da biodiversidade da Terra continua por conhecer”. Quem o diz é a equipa de investigadores da Bolívia, Brasil e Bélgica que estudou atentamente o género Leopardus sp., chamados gatos-do-mato, por se saber pouco sobre ele.

Usando os ossos e o pêlo de oito espécimes guardados em museus de História Natural e 30 amostras de sangue e tecido dos músculos de animais dos nossos dias, de vários países da América do Sul, a equipa usou análises genéticas para tentar conhecer melhor aquele género de felino.

Depois de analisar 38 genomas completos de felinos do género Leopardus sp., a equipa demonstrou que o complexo de espécies anteriormente conhecido como Leopardus tigrinus é composto por cinco espécies crípticas. Ou seja, apesar de serem muito parecidas morfologicamente, tratam-se de linhagens muito diferentes geneticamente.

Uma delas, o Leopardus tilcayo, é uma nova espécie para a Ciência. Até então acreditava-se que este felino era da espécie Leopardus tigrinus. Mas esta investigação descobriu que o tilcayo divergiu desta espécie há 1.4 milhões de anos.

A espécie recebeu o nome “tilcayo” que é o nome usado pelas comunidades locais para designar este felino bem conhecido na zona das Yungas bolivianas.

O holotipo na base este estudo é um macho adulto, capturado vivo perto da localidade de Arapata, Bolívia, a 1570 metros acima do nível do mar e mantido em cativeiro.

Paola Nogales-Ascarrunz, bióloga e co-autora do artigo, explicou ao site Live Science que o tilcayo que vive em cativeiro no refúgio Senda Verde, dedicado a animais vítimas de tráfico, entrou naquele centro há 10 anos. Deram-lhe o nome de Tigrino. “Não se parecia aos outros felinos mas nunca pensámos que fosse uma espécie nova”, contou.

Segundo o artigo científico, publicado na revista Current Biology a 17 de setembro, o tilcayo é um pequeno felino que pode pesar até dois quilos; tem um comprimento entre os 425 e os 505 milímetros e uma cauda com um comprimento entre 250 e 265 milímetros. Tem o dorso de um castanho claro, mais escuro ao longo da linha médio-dorsal. A sua pelagem tem manchas relativamente grandes, irregulares castanho-escuras ou pretas. 

Vive nas florestas montanhosas húmidas das Yungas bolivianas, que descem pelas vertentes orientais da Cordilheira Oriental do país. Esta é uma paisagem muito acidentada, com vales profundos, encostas íngremes, rios, muita chuva e nevoeiro, e uma enorme diversidade de habitats. 

De acordo com os investigadores, esse facto ajuda a explicar por que motivo as Yungas bolivianas sejam uma das áreas menos estudadas nos Neotrópicos.

Isto só por si é um desafio para a conservação, num mundo natural cada vez mais ameaçado pelo Homem. Os investigadores defendem que as medidas de conservação a definir devem ser avaliadas para cada espécie em separado, de forma a garantir a sua conservação a longo prazo.

“A informação que temos neste momento está limitada a dois indivíduos que estudámos e a um pequeno número de registos de foto-armadilhagem”, explicou à agência Reuters Jonas Lescroart, biólogo da Universidade de Antuérpia, Bélgica, e co-autor do estudo.

Ainda no mesmo estudo, a equipa descreveu o Leopardus tigrinus antisuyo, nativa das Yungas do Peru, como uma nova sub-espécie. Assim, hoje a espécie Leopardus tigrinus passa a ser composta por duas subespécies (L. tigrinus antisuyo e L. tigrinus tigrinus).

Antes do tilcayo, a última espécie de felino a ser descrita para a Ciência foi o Leopardus fasciatus, descrita em 1923.

“Mostrar ao público em geral que mesmo num grupo tão icónico como os felinos ainda há espécies novas por descobrir pode transmitir uma mensagem importante”, disse à agência Reuters Eduardo Eizirik, biólogo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil, e um dos autores do artigo. “Há muitas espécies desconhecidas algures no mundo que estão em risco de desaparecer mesmo antes de alguém as descobrir.”

Festas, Festividades e Eventos

Oficina - Fornos de Secar Figos - Inscrições abertas

 No dia 4 de outubro, venha conhecer os antigos fornos de secar figos e descobrir técnicas e saberes tradicionais ligados à produção e secagem deste fruto. Um dia de passeio, demonstrações, sabores e memórias da região.

Data: 4 de Outubro
Concentração: Lavandeira - Largo da Aldeia
Valor: 15€ (inclui pequeno almoço, almoço, seguro, transporte e kit de participante)

Inscrições abertas até 30 de setembro AQUI.

Consulte a programação e não perca esta oportunidade de aprender e viver uma experiência única em contacto direto com a natureza.


Exposição Fotográfica I Sinfonia do Nada: Uma viagem de luz pela região do Douro

 A nova exposição fotográfica, em exibição no CITICA, revela a região do Douro sob uma perspetiva única. Convidamo-lo a visitar "Sinfonia do Nada", uma impressionante viagem visual da autoria de Lúcia Duarte, que capta a essência, a luz e a alma duriense.

Em exibição até 31 de janeiro de 2027 em Carrazeda de Ansiães.

Casa José Pedro lança segunda edição do vinho Caretos de Podence

 A Casa José Pedro, marca de vinhos sediada em Valpaços, vai lançar amanhã a segunda edição do vinho exclusivo Caretos de Podence Reserva Branco, no âmbito do 3.º Encontro de Distribuidores & Parceiros, que decorrerá na Casa do Careto, em Podence, no concelho de Macedo de Cavaleiros.


O diretor-geral da Casa José Pedro, Marcos Lopes Paulo, sublinha que o lançamento oficial deste novo vinho branco, inspirado nos Caretos de Podence e inteiramente alusivo a esta tradição, reforça a ligação entre os produtos transmontanos e uma manifestação cultural classificada como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

“Em volta daquilo que é a cultura dos Caretos de Podence, acho que o lançamento do vinho é um momento alto para a região, para a região vitivinícola de Trás-os-Montes, para o concelho de Macedo de Cavaleiros, para a aldeia e para os Caretos de Podence. Até porque uma parte da venda deste vinho, tal como aconteceu na primeira edição, vai reverter a favor da Associação dos Caretos de Podence.”

O evento vai reunir mais de 250 participantes e terá o vinho como tema central, aliado à gastronomia e à cultura. A iniciativa destina-se a clientes, distribuidores, parceiros e profissionais provenientes de várias regiões do país.

“É um evento corporate, em que reunimos todos os nossos clientes e parceiros de todo o país, que vêm a Trás-os-Montes para celebrar connosco este momento. As duas primeiras edições decorreram na nossa adega. Esta terceira edição será em Podence, pela nossa ligação e parceria com os Caretos de Podence, uma vez que temos uma marca de vinhos criada em colaboração com a Associação dos Caretos de Podence.”

O programa começa às 10h30, junto à Casa do Careto, seguindo-se um mata-bicho transmontano e jogos sem fronteiras. A partir das 13h00, decorrerá um festival gastronómico em plena aldeia, com cozinha ao vivo, chefs a cozinhar na rua, panelas de ferro, vinhos, música e animação.

O objetivo da iniciativa é trazer o “Carnaval à rua em setembro”, recuperando os Caretos, os chocalhos, as máscaras e a irreverência associada à tradição.

As duas primeiras edições do encontro realizaram-se na Quinta do Vale D’Abreia, em Rio Torto, no concelho de Valpaços, onde está sediada a empresa.

Maria João Canadas

Biblioteca A.M. Pires Cabral disponibiliza serviço de computadores com internet gratuitamente

Verbas de apoio aos incêndios estão nas mãos do Conselho de Ministros

 Ainda não há garantia que os agricultores afetados pelos grandes incêndios deste Verão, que aconteceram em Valpaços e Vouzela, com prejuízos nas suas explorações superiores a 30% venham a ter apoio financeiro.


No início de agosto, numa visita à região, o ministro da Agricultura anunciou a abertura de avisos para a reposição do potencial produtivo após os estragos na agricultura – com maior destaque para o olival, amendoal e vinha – causados pelo incêndio que começou, em Ervões, no concelho de Valpaços e que se estendeu aos concelhos de Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Vinhais, com um total de área ardida a chegar perto dos 14 mil hectares.

José Manuel Fernandes anunciou que os apoios destinavam-se a explorações com prejuízos superiores a 30%. Os prejuízos até 10 mil euros seriam comparticipados a 100%, enquanto os apoios até 400 mil euros teriam um cofinanciamento mínimo de 50%”.

Mas, esta sexta-feira, em Valpaços, o titular da pasta da agricultura do Governo AD, afirmou que a autorização para essas verbas de apoio está nas mãos do Conselho de Ministros:

“Os levantamentos estão feitos. Ainda não está nada em circulação para ir ao Conselho de Ministros. Essa decisão é do Conselho de Ministros.

A questão dos 15 mil euros, nós dizemos 10 mil euros que era o montante inicial, mas o decreto-lei de agosto de 2025 permite até aos 15 mil euros. É uma decisão que terá de ser tomada pelo Conselho de Ministros. Só que também não quero levar a Conselho de Ministros, porque esta época infelizmente ainda não acabou, mais uma deliberação, depois mais outra, depois mais outra e pretendo fazer uma proposta que há-de de ser ou não validada pelo Ministro das Finanças do conjunto de incêndios para não andar de deliberação em deliberação. ”

Por agora, José Manuel Fernandes diz que está a ser feito o levantamento dos prejuízos e só depois será apresentado a uma futura reunião de Conselho de Ministros sem concretizar qualquer data:

“Nós, neste momento, estamos a fazer a avaliação dos vários incêndios e outros que existiram. Estes incêndios de Valpaços e Vouzela, foram incêndios de enormes dimensões e, por isso, eu avancei, desde logo, com uma declaração de catástrofe natural e com a abertura de um aviso de 10 milhões de euros para quem teve mais de 30% de prejuízo, se pudesse, é candidato. A decisão a ter em conta, que diz respeito aos prejuízos que estão abaixo dos 30% e da possibilidade de usar dinheiro do Orçamento do Estado para estes prejuízos, há de ter em conta também aquilo que serão as disponibilidades financeiras do Orçamento do Estado, mas temos o trabalho em curso para podermos avançar com essa decisão que é do Conselho de Ministros. ”

Declarações do Ministro da Agricultura, esta sexta-feira, à margem das comemorações alusivas aos 75 anos da Cooperativa de Olivicultores de Valpaços.

Fotografia: Câmara Municipal de Valpaços

INFORMAÇÃO CIR
(Escrito por Rádio Terra Quente)