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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 24 de outubro de 2026

A morte devia ensinar-nos a viver… mas parece que continuamos sem aprender


Há momentos na vida em que a morte deixa de ser uma notícia que ouvimos de vez em quando, ou algo que julgamos pertencer apenas aos outros. Há um dia em que ela começa a sentar-se à nossa mesa, a entrar nas nossas conversas, a ocupar o lugar de quem já não está e a deixar vazias as cadeiras daqueles com quem partilhámos tantos anos de vida. E, sem pedir licença, começa a levar consigo pedaços da nossa própria história.

É isso que sinto cada vez que vejo partir mais um amigo. Um atrás do outro, vão-se os homens da minha geração, os mais velhos que admirei, aqueles por quem nutri estima, respeito e amizade, os companheiros de tantas histórias, de tantas conversas, de tantos momentos que, na altura, pareciam banais, mas que hoje ganham um valor imenso. Rostos que fizeram parte do meu caminho, vozes que reconhecia à distância, abraços que não precisavam de palavras, memórias que julgava eternas e que, afinal, começam a transformar-se naquilo que resta de uma vida… a saudade.

Cada partida deixa uma marca. Não é apenas a falta de mais uma pessoa. É como se uma parte do tempo também desaparecesse com ela. Os que partem levam consigo um pedaço do mundo que conhecemos, das experiências que vivemos, dos segredos que guardámos, das alegrias que celebrámos e até das tristezas que, em conjunto, conseguimos suportar. Quando morre um amigo desaparece uma testemunha da nossa própria vida, alguém que se lembrava de quem fomos, dos nossos sonhos de juventude, das nossas ilusões, das nossas lutas e dos caminhos que percorremos.

De repente, olhamos à nossa volta e percebemos que somos cada vez menos os que ainda podem contar determinadas histórias. As mesas ficam mais vazias, os encontros mais raros, os telefonemas deixam de chegar e os nomes que antes faziam parte do nosso quotidiano passam a ser pronunciados no passado. Aqueles que julgávamos que estariam sempre por perto começam a faltar. E nós, os que ficamos, vamos aprendendo, à força, uma das lições mais duras da existência. Ninguém fica para sempre.

Sinto-me mais só todos os dias. Não necessariamente porque não tenha pessoas à minha volta, mas porque há uma solidão que nasce com a ausência daqueles que caminharam comigo durante tantos anos. Uma solidão que não se resolve com a presença de outras pessoas, porque cada amigo ocupa um lugar único, irrepetível, que ninguém poderá preencher da mesma maneira.

Há amizades que são feitas de uma vida inteira. Não precisam de contacto diário, de grandes demonstrações ou de palavras bonitas. Sobrevivem ao tempo, à distância, às mudanças e até aos silêncios. Basta um reencontro para tudo parecer regressar ao lugar certo. E talvez seja por isso que custa tanto aceitar a partida daqueles que fizeram parte de nós. Porque não estamos apenas a perder o presente; estamos também a despedir-nos de uma parte do passado que já ninguém poderá devolver.

Hoje, consigo escrever estas linhas. Amanhã, talvez seja eu a transformar-me numa recordação, numa fotografia guardada numa gaveta ou no nosso grupo do facebook, num nome pronunciado com emoção por alguém que ainda se lembre de mim. Hoje sou eu quem sente a ausência dos outros, amanhã poderei ser eu a ausência de alguém. Hoje recordo os que partiram, um dia, alguém poderá recordar-me a mim. E esta certeza, tão simples e tão inevitável, devia bastar para nos fazer parar, olhar para a vida de outra maneira e questionar profundamente a forma como tratamos os outros.

Afinal, o que levamos connosco quando partimos?

Levamos as riquezas que acumulámos? Os bens pelos quais nos sacrificámos? Os cargos que ocupámos, os títulos que exibimos, as vitórias que celebrámos à custa da derrota dos outros? Levamos o orgulho de termos tido sempre razão, a satisfação de termos humilhado alguém, a vaidade de termos sido mais poderosos ou a arrogância de termos feito sentir aos outros que eram inferiores a nós?

Não. Quando chega a hora da despedida, tudo isso perde o seu valor. O dinheiro fica, as casas ficam, os objetos ficam, os cargos passam para outras mãos e os títulos deixam de ter importância. A vida, com tudo aquilo que julgávamos possuir, acaba por nos recordar que nunca fomos verdadeiramente donos de nada. Fomos apenas passageiros de uma viagem cujo destino conhecemos, embora passemos grande parte do caminho a comportar-nos como se fossemos eternos.

E, no entanto, continuamos a viver como se o tempo fosse inesgotável.

Continuamos a alimentar invejas, a cultivar ressentimentos, a levantar muros entre pessoas, a transformar pequenas diferenças em grandes conflitos. Continuamos a disputar protagonismo, a medir forças, a querer demonstrar que somos superiores, a sentir desconforto perante o sucesso alheio e a fazer da vida uma competição permanente, como se a felicidade fosse um bem escasso e a alegria dos outros representasse uma ameaça à nossa.

A inveja continua a envenenar relações, a prepotência continua a esmagar os mais frágeis, o egoísmo continua a fechar corações e a intolerância continua a separar pessoas que, afinal, partilham a mesma fragilidade. Há quem passe uma vida inteira a tentar subir, mesmo que, para isso, tenha de pisar alguém. Há quem confunda autoridade com superioridade, firmeza com crueldade e inteligência com a capacidade de manipular os outros. Há quem precise de diminuir os demais para se sentir maior, sem compreender que a verdadeira grandeza de uma pessoa nunca se mede pela pequenez que consegue impor aos que a rodeiam.

E pergunto-me, muitas vezes, todos os dias para vos ser sincero, para quê?

Para quê tanta arrogância, se todos acabaremos por conhecer a mesma fragilidade? Para quê tanta maldade, se a vida é demasiado curta para desperdiçarmos os dias a fazer sofrer? Para quê guardar ódios durante anos, alimentar vinganças, destruir amizades e afastar pessoas por orgulho, quando um dia poderá não existir oportunidade para um simples pedido de desculpa?

Valerá realmente a pena magoar alguém só porque não pensa como nós? Será assim tão difícil aceitar que cada pessoa tem a sua maneira de ver o mundo, as suas convicções, as suas feridas e os seus próprios caminhos? Porque razão insistimos em querer controlar os outros, impor-lhes as nossas verdades e condená-los por não serem iguais a nós?

A morte devia ensinar-nos a humildade. Devia lembrar-nos que somos todos feitos da mesma matéria frágil, que todos sentimos medo, que todos conhecemos a dor, que todos precisamos de afeto e que nenhum de nós tem o poder de negociar eternamente com o tempo. Devia ensinar-nos que a vida não nos concede privilégios permanentes e que a posição que hoje ocupamos não nos torna imunes àquilo que amanhã poderá acontecer.

Mas parece que nem a morte consegue ensinar-nos aquilo que a vida, tantas vezes, já tentou mostrar.

As gerações sucedem-se, os anos passam, a humanidade acumula conhecimento, inventa máquinas, conquista o espaço, desenvolve tecnologias extraordinárias e descobre respostas para perguntas que, durante séculos, pareciam impossíveis. Somos capazes de comunicar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta, de explorar os mistérios do universo e de transformar radicalmente a forma como vivemos.

Mas continuamos, tantas vezes, incapazes de aprender a viver uns com os outros.

É esta, talvez, uma das maiores contradições da humanidade: evoluímos no conhecimento, mas nem sempre na consciência. Avançamos na ciência, mas tropeçamos repetidamente na falta de humanidade, aprendemos a construir coisas extraordinárias, mas continuamos a destruir, com uma facilidade assustadora, aquilo que de mais precioso existe entre nós, a confiança, a dignidade, o respeito e a paz.

Os nossos pais viveram, os nossos avós viveram, os que vieram antes deles também viveram. Cada geração conheceu as suas dificuldades, as suas perdas, os seus medos e as suas despedidas. Cada uma viu partir pessoas que amava. Cada uma teve oportunidade de compreender que a existência é breve e que ninguém está aqui para sempre. E, no entanto, parece que essa consciência raramente se transforma numa aprendizagem coletiva capaz de mudar verdadeiramente o comportamento humano.

Porquê?

Talvez porque, enquanto a morte não nos toca de perto, acreditamos que ainda temos muito tempo. Talvez porque nos habituámos tanto à ideia de que tudo continuará amanhã que deixámos de valorizar aquilo que temos hoje. Talvez porque o orgulho fala mais alto do que a consciência, porque o desejo de vencer se sobrepõe à vontade de compreender e porque, tantas vezes, confundimos viver com conquistar, possuir e dominar. Ou talvez porque seja mais fácil apontar os defeitos dos outros do que reconhecer os nossos.

É sempre mais fácil condenar a intolerância alheia do que admitir a nossa própria intolerância. É mais confortável denunciar a prepotência de alguém do que perceber as pequenas prepotências que exercemos no quotidiano. É mais simples falar de solidariedade do que praticá-la, defender a justiça do que sermos justos quando isso nos custa alguma coisa, elogiar a amizade do que permanecermos amigos quando surgem dificuldades.

Gostamos de acreditar que somos melhores do que aqueles que criticamos. Mas a verdadeira reflexão começa quando deixamos de olhar apenas para o comportamento dos outros e temos a coragem de olhar para dentro de nós.

Que marca deixámos na vida de quem se cruzou connosco? Fomos motivo de alívio ou de sofrimento? Ajudámos alguém a levantar-se ou aproveitámos a sua fragilidade para nos sentirmos superiores? Alguém soube que podia contar connosco nos momentos difíceis? Pedimos desculpa quando errámos? Fomos capazes de perdoar? Demos carinho quando alguém precisava, ou adiámos esse gesto à espera de uma ocasião que talvez nunca chegasse?

São perguntas incómodas, eu sei. Mas talvez sejam as perguntas mais importantes que podemos fazer a nós próprios enquanto ainda estamos a tempo de mudar alguma coisa.

A vida não se mede apenas pelos anos que vivemos, mas também pela forma como passámos por ela. Não se mede apenas pelas coisas que conquistámos, mas pelas pessoas que ajudámos a ser mais felizes. Não se mede pelo número de pessoas que nos respeitam por medo, mas pela quantidade daquelas que nos estimam sinceramente. E não se mede pelo poder que exercemos sobre os outros, mas pela capacidade de os tratarmos com dignidade, sobretudo quando não temos nada a ganhar com isso.

O que verdadeiramente permanece não é a imagem de invencibilidade que tentámos construir, nem o poder que julgámos possuir. São os gestos, as palavras, as memórias e os sentimentos que deixámos no coração de quem connosco partilhou o caminho.

Há pessoas que partem e deixam bens materiais. Outras deixam cargos, obras ou nomes inscritos em placas. Mas há também aquelas que deixam algo muito mais valioso, a lembrança de terem sido boas pessoas. Pessoas que souberam ouvir, que estenderam a mão, que não humilharam, que não precisaram de diminuir ninguém para se sentirem importantes. Pessoas que fizeram do respeito uma prática, da amizade um compromisso e da bondade uma forma de estar na vida.

Essas pessoas continuam presentes mesmo depois de partirem. Vivem nas histórias que contamos, nos exemplos que recordamos, nas pequenas atitudes que aprendemos com elas e na saudade que sentimos quando percebemos quanto bem fizeram sem precisarem de anunciar ao mundo que o estavam a fazer.

Talvez seja essa a única forma de eternidade que verdadeiramente conseguimos alcançar, continuar a existir, de alguma maneira, na vida daqueles que tocámos.

Custa-me tanto ver partir os meus amigos. Cada despedida obriga-me a olhar para a minha própria existência com outros olhos. Os funerais, as notícias tristes, as ausências inesperadas parecem dizer-me, que o tempo não espera por ninguém. Que os encontros que hoje adiamos podem não acontecer amanhã. Que as palavras que não dissemos podem ficar para sempre por dizer. Que o abraço que não demos pode transformar-se numa saudade sem remédio.

Quantas vezes deixámos de procurar alguém por causa de uma discussão sem importância? Quantas amizades se perderam porque nenhum dos lados quis dar o primeiro passo? Quantas pessoas partiram sem ouvir de nós aquilo que mereciam ter ouvido em vida? Quantos afetos escondemos por vergonha, por orgulho ou por receio de parecermos vulneráveis?

E depois, quando já nada podemos fazer, dizemos que temos saudades.

Mas a saudade, por mais bonita que seja, não substitui a presença. O arrependimento não devolve as oportunidades perdidas. E as lágrimas derramadas junto de uma campa não conseguem levar até quem partiu o carinho que poderíamos ter demonstrado quando ainda estava ao nosso lado.

Por isso, talvez devêssemos aprender a dizer mais vezes aquilo que sentimos. A procurar quem nos faz falta. A reconciliar-nos quando ainda existe espaço para o entendimento. A não transformar cada divergência numa batalha, a opinião diferente numa ofensa ou o erro numa condenação definitiva. Devíamos aprender que pedir desculpa não nos diminui, que perdoar não significa esquecer tudo e que reconhecer o valor de alguém não nos retira valor a nós próprios.

Devíamos, acima de tudo, deixar de viver como se a nossa passagem pela Terra fosse uma competição cujo prémio é chegar ao fim com mais do que os outros.

Porque ninguém ganha verdadeiramente uma vida à custa da infelicidade alheia.

Podemos ter mais dinheiro, mais influência, mais bens e mais reconhecimento. Podemos até convencer o mundo de que somos pessoas importantes. Mas, se pelo caminho destruirmos relações, espalharmos sofrimento e deixarmos atrás de nós pessoas feridas pela nossa arrogância, que espécie de vitória será essa?

De que nos serve conquistar o mundo se perdermos a capacidade de sentir compaixão? De que serve sermos admirados por muitos se aqueles que nos conhecem verdadeiramente não encontram em nós bondade? De que vale termos sempre a última palavra se, por causa dela, perdermos alguém que gostaríamos de ter mantido na nossa vida?

A existência é demasiado breve para fazermos da dureza uma virtude e da indiferença uma defesa permanente. Ser bom não significa ser fraco. Ser tolerante não significa concordar com tudo. Perdoar não significa aceitar abusos. E tratar os outros com respeito não exige que abandonemos as nossas convicções. Exige apenas que reconheçamos que a dignidade humana não depende de pensarmos da mesma maneira.

Podemos discordar sem odiar. Podemos defender aquilo em que acreditamos sem humilhar. Podemos ser firmes sem sermos cruéis. Podemos querer crescer sem desejar que os outros diminuam.

E podemos, sobretudo, compreender que ninguém sabe verdadeiramente quantas oportunidades ainda terá para fazer o bem.

Hoje, enquanto escrevo estas palavras, ainda tenho memórias para recordar, histórias para contar e amigos cuja ausência já sinto. Ainda posso olhar para trás e reconhecer o caminho percorrido, com os seus momentos felizes, os seus erros, as suas desilusões e as suas aprendizagens. Ainda posso agradecer àqueles que fizeram parte da minha vida e reconhecer o privilégio de ter caminhado ao lado de pessoas que me deixaram marcas profundas.

Mas também sei que o tempo continua a avançar. Não faz pausas por nós, não espera que estejamos preparados e não devolve os dias que deixámos passar sem lhes dar o devido valor.

Hoje escrevo. Amanhã, talvez alguém leia estas palavras e se lembre de mim. Talvez reconheça nelas os sentimentos que também carrega, a dor de ver partir os seus, a perplexidade perante a persistência da maldade humana e a vontade de compreender por que razão continuamos a desperdiçar uma vida tão preciosa em conflitos tão pequenos.

Talvez alguém se reconheça nesta solidão que cresce quando o círculo de amigos começa a desaparecer. Talvez alguém compreenda que envelhecer não é apenas somar anos, mas também aprender a viver com as ausências, a aceitar que certas vozes já não voltarão a ouvir-se e a perceber que o passado se torna cada vez mais povoado por aqueles que já partiram.

E talvez, ao ler estas linhas, alguém decida telefonar a um velho amigo, visitar um familiar, pedir desculpa, abandonar um ressentimento ou simplesmente dar um abraço a quem tem ao lado.

Se isso acontecer, estas palavras já terão valido a pena.

Não precisamos de transformar o mundo inteiro para lhe dar um pouco mais de humanidade. Às vezes, basta mudar a maneira como tratamos a pessoa que está diante de nós. Basta não acrescentarmos mais sofrimento ao sofrimento que já existe. Basta termos a consciência de que cada pessoa que encontramos está a travar batalhas que desconhecemos e que um gesto de bondade pode significar muito mais do que imaginamos.

Não sei se a humanidade alguma vez aprenderá verdadeiramente a lição que a morte nos tenta ensinar. Não sei se algum dia conseguiremos libertar-nos da inveja, da prepotência, do egoísmo e dessa necessidade permanente de provar que somos melhores do que os outros. A história deixa-nos razões para duvidar. Mas recuso-me a acreditar que a nossa incapacidade coletiva de aprender torne inútil o esforço individual de sermos melhores.

Enquanto estivermos vivos, ainda podemos escolher. Não conseguiremos mudar toda a humanidade, mas podemos impedir que a desumanidade comece em nós.

A morte não nos pergunta quantos dinheiro temos no banco ou debaixo do colchão, quantas discussões vencemos ou quantas pessoas conseguimos impressionar. A morte não distingue o arrogante do humilde, o poderoso do desconhecido, o rico do pobre. No momento derradeiro, todos somos confrontados com a mesma verdade. A vida que nos foi dada teve um fim, e aquilo que fizemos com ela já não poderá ser alterado.

É por isso que, quanto mais amigos vejo partir, mais me interrogo sobre o sentido de tudo isto. Não porque tenha deixado de encontrar beleza na vida, mas precisamente porque compreendo cada vez melhor como essa beleza é frágil. Está nos encontros, nas conversas em qualquer lugar, nas gargalhadas inesperadas, na amizade sincera, no carinho sem interesse, na companhia de quem nos conhece há décadas e na tranquilidade de podermos ser nós próprios sem receio de sermos julgados. Está nas coisas simples que tantas vezes desprezamos enquanto corremos atrás daquilo que julgamos importante.

A vida acontece agora, enquanto adiamos a felicidade para amanhã. A amizade acontece agora, enquanto deixamos que o orgulho nos afaste. O amor acontece agora, enquanto esperamos por uma ocasião especial para o demonstrar. E o tempo passa agora, indiferente às nossas desculpas, às nossas ambições e à ilusão de que teremos sempre outra oportunidade.

Por isso, quando olho para os lugares vazios deixados pelos meus amigos, não vejo apenas a tristeza daquilo que perdi. Vejo também um apelo àquilo que ainda posso fazer. Uma espécie de aviso para não desperdiçar o tempo que me resta a alimentar sentimentos que nada constroem, a magoar pessoas que nada me fizeram ou a tentar provar uma superioridade que, perante a eternidade do universo, não passa de uma ilusão.

Vejo a necessidade de valorizar mais quem fica, de estimar quem caminha comigo e de não esperar pela ausência para reconhecer a importância de uma presença.

Um dia também serei memória. Um dia também alguém sentirá a minha falta, recordará uma conversa, um gesto, uma palavra ou um momento. E, nesse dia, gostaria que a minha passagem tivesse deixado alguma coisa de bom. Não preciso de ser recordado como alguém extraordinário, nem como alguém que nunca errou. Basta-me a esperança de ser lembrado como alguém que, apesar das suas imperfeições, tentou respeitar os outros, soube reconhecer os seus erros e compreendeu que nenhuma ambição vale mais do que a dignidade de uma pessoa.

E volto à pergunta que me acompanha sempre que mais um amigo parte:

Valerá a pena fazer sofrer os outros, ser intolerante, alimentar a inveja e viver dominado pelo egoísmo, sabendo que o tempo que temos é tão limitado e que, no fim, todos seremos apenas uma lembrança?

Valerá a pena perder amigos por orgulho? Destruir relações por ambição? Humilhar alguém para alimentar a nossa vaidade? Passar anos a guardar rancores que não nos deixam dormir em paz? Viver como inimigos quando poderíamos ter sido companheiros de caminho?

Não encontro uma resposta que justifique tanta dureza. Não consigo compreender que, sabendo todos que somos passageiros, continuemos tantas vezes a agir como se tivéssemos o direito de tornar a viagem dos outros mais dolorosa.

A morte devia fazer-nos refletir sobre o sentido da vida. Devia ensinar-nos que o tempo é demasiado precioso para ser desperdiçado em mesquinhices, que a felicidade não se constrói sobre a infelicidade alheia e que o respeito não é um favor que concedemos aos outros, mas uma obrigação moral que assumimos perante a condição humana que partilhamos.

Devia fazer-nos perceber que não estamos aqui para sempre, mas estamos aqui uns com os outros. E essa diferença devia mudar tudo.

Amanhã, qualquer um de nós poderá deixar de estar presente. A cadeira ficará vazia, o telefone deixará de tocar, o nome passará a ser pronunciado com saudade e as pessoas continuarão a sua vida, levando consigo a memória da nossa passagem. O mundo não vai parar. O sol continuará a nascer, as ruas continuarão cheias, as preocupações do quotidiano continuarão a ocupar as pessoas e a vida encontrará maneira de prosseguir.

Mas, para alguém, faltará uma voz. Para alguém, faltará um abraço. Para alguém, haverá uma ausência que nenhum movimento do mundo poderá preencher.

É essa a nossa dimensão humana, somos pequenos perante o tempo, mas podemos ser imensos naquilo que damos uns aos outros.

Enquanto ainda podemos falar, que usemos as palavras para aproximar, não para destruir. Enquanto ainda podemos abraçar, que não deixemos que o orgulho nos roube esse gesto. Enquanto ainda podemos amar, que não escondamos o afeto atrás de uma máscara de indiferença. E enquanto ainda estamos vivos, que não precisemos de assistir à morte de mais um amigo para percebermos que a vida merece ser vivida de outra maneira.

Não será a inveja que nos dará paz, nem a prepotência que nos tornará grandes, nem o egoísmo que nos fará felizes. Será a consciência tranquila de termos vivido sem fazer do sofrimento dos outros o preço da nossa própria felicidade.

E, quando chegar a nossa vez de partir, talvez não possamos levar connosco nada daquilo que acumulámos. Mas poderemos deixar algo que o tempo não apaga com facilidade. A lembrança de termos sido pessoas que fizeram bem, que souberam amar e que tornaram a vida um pouco menos dura para aqueles que tiveram a sorte de se cruzar connosco.

Hoje, vejo os meus amigos partir, um atrás do outro. E, com cada despedida, sinto que o tempo me fala mais alto.

Não quero que esta reflexão seja apenas mais um desabafo triste, perdido entre tantas palavras que se leem e depressa se esquecem. Quero que seja um apelo à consciência, à humildade e à humanidade que tanta falta nos faz.

Amanhã poderá ser tarde. Hoje ainda estamos cá.

Que a morte dos que amámos não sirva apenas para nos entristecer. Que nos ensine a viver.

No fim de tudo, quando as luzes se apagarem, talvez seja apenas isto que realmente importa. Termos passado por este mundo sem esquecer que, antes de sermos diferentes uns dos outros, somos todos seres humanos, frágeis, passageiros e igualmente merecedores de respeito, de dignidade e de amor.

Eu ainda estou a aprender... e o tempo escasseia… Apressai-vos para chegar a tempo!

HM
 24 de Outubro de 2026

Melhor castanha do mundo é a Longal da Terra Fria Transmontana

Bragança celebra a arte, os vinhos e os sabores da região!

 O Museu do Abade de Baçal recebeu, hoje, a inauguração da exposição “Linguagem do Tempo e da Terra”, da artista Patrícia Geraldes, a Apresentação Pública da Obra "Os bêbados" de José Malhoa e o Bragança Wine Experience, uma iniciativa que reuniu produtores de vinho, gastronomia e produtos regionais.
Dois momentos que valorizaram a cultura, as tradições e a identidade local, promovendo o que de melhor Bragança tem para oferecer.

Presidência Aberta em Bragança. Datas: domingo, 15 de fevereiro de 1987 - quinta, 26 de fevereiro de 1987


LENGALENGA - JOANINHA VOA, VOA


Que o teu pai está em Lisboa
Com um caldinho de galinha
Para dar à Joaninha.
.
Joaninha, voa, voa
Que o teu pai está em Lisboa
Com um rabinho de sardinha
Para comer que mais não tinha…
.
Joaninha, voa, voa
Que o teu pai foi a Lisboa
Com um saco de dinheiro
Pra pagar ao sapateiro
.
Joaninha, voa, voa
Que o teu pai foi para Lisboa
Com um saco de farinha
Para ti, ó Joaninha.
.
Joaninha, voa, voa
Que o teu pai está em lisboa
A tua mãe no moinho
A comer pão com toucinho.
.
Joaninha, voa, voa
Que o teu pai foi pra Lisboa
Leva cartas para Lisboa
Que eu te darei pão e broa

ADEGANHA


No Castelo Velho, sítio do termo de Adeganha, concelho de Moncorvo, 
«há muita pedra, que parece ruína de fortaleza antiga e dizem ser um castelo de mouros, e mais adiante, no sítio em que hoje se acha a Senhora do Castelo, dizem que houvera antigamente uma grande cidade, da qual ainda se descobrem parte de muros» (181).


A igreja paroquial de Adeganha é românica, de uma só nave, e nas 
paredes vêem-se pedras embutidas com figuras esculpidas em meio relevo, como na igreja de S. Facundo, de Vinhais. Apresenta medalhões historiados, bestiário, figuras grotescas de homens com orelhas ou focinhos de animais, lobos ou raposas, ao que parece. No lado exterior da parede está gravada a data 1112, que indicará o ano da construção do templo.
Entre as suas alfaias destaca-se uma cruz paroquial gótica. No pavimento da igreja, em campa rasa de granito, vê-se a legenda:

S.a do L.do Ma.l/da Cos/ta R.or d/esta ig/morreo/no anno de 1660.

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(181) CARDOSO, Luís – Dicionário Geográfico..., artigo «Adeganha». Ver Memórias Paroquiais de 1758. «O Arqueólogo Português», tomo 2, p. 64.
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MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

50. L Natal de Matias

Secas e falta de presas levam lince-ibérico a predar crias de aves de rapina

 Uma interação inédita entre linces e milhafres-pretos foi identificada no Parque Nacional de Doñana, na Andaluzia, por uma equipa de investigadores. O estudo, publicado ontem na revista Nature, revela que, num só ano, morreram quase metade das crias desta ave de rapina.

Lince-ibérico e milhafre-preto. Fotos: Fabrizio Sergio

No Parque Nacional de Doñana, o lince-ibérico (Lynx pardinus) começou a predar as crias de uma ave de rapina, o milhafre-preto (Milvus migrans), ao ponto de, em 2018, ter eliminado quase metade das crias da população na área estudada.

“Não se trata de uma mudança de comportamento arbitrária: a escassez das suas presas habituais e a seca levaram esta espécie protegida a procurar novas fontes de alimento”, explicam os investigadores do Conselho Superior Espanhol de Investigações Científicas (CSIC) em comunicado. “Este nível de predação não tem precedentes nas três décadas em que os investigadores estudaram ambas as espécies numa área de 10 quilómetros quadrados do Parque Nacional. Até então, tinham coexistido, alimentando-se de coelhos.”

Isto é o que revela um novo estudo da Estação Biológica de Doñana (EBD), do CSIC, publicado na revista Nature, que analisa 1624 ninhos de milhafre entre 1993 e 2023. “Entre 1993 e 2012, os linces tinham predado apenas cerca de 1% dos ninhos de milhafre”, salientou Fabrizio Sergio, investigador da EBD-CSIC e primeiro autor do estudo.

Segundo a equipa científica, este conflito repentino entre os dois predadores resulta da combinação de dois fenómenos. Por um lado, a propagação de uma doença infeciosa provocou o colapso das populações de coelho-bravo em Doñana. Por outro, os longos períodos de seca limitaram a disponibilidade de presas alternativas para o lince, como os patos que vivem nos sapais.

Uma nova relação entre linces e milhafres

Historicamente, os coelhos-bravos eram abundantes em Doñana e tanto os linces como os milhafres coexistiram pacificamente durante décadas. Mas desde que a doença hemorrágica do coelho causou o declínio da sua população, em 2013, os linces começaram a predar intensamente as crias de milhafre-preto, embora só em períodos de falta de água.

“Durante os anos de seca, as principais presas alternativas do lince, como os patos, também são muito escassas, e os linces veem-se obrigados a alimentar-se de tudo o que encontram, mesmo quando isso implica trepar 12 metros para alcançar um ninho de milhafre e predar as crias”, acrescentou Fabrizio Sergio.

Além disso, a equipa observou que os linces predavam com maior frequência os ninhos de milhafre sob os quais se encontravam restos de coelho, o que aponta para uma possível motivação adicional: eliminar concorrentes.

“Em termos humanos, poderíamos dizer que os milhafres que se atreviam a tirar o alimento aos linces acabavam por pagar um preço muito elevado”, afirmou Sergio. “Os linces foram capazes de eliminar quase metade do total de crias de milhafre que chegaram a voar.”

Em resposta, os milhafres adultos cujos ninhos tinham sido alvo de predação por linces apresentaram maior probabilidade de mudar de território e migrar para outros locais. Esta resposta sugere uma espécie de confronto entre as duas espécies: o lince elimina um concorrente pelo alimento, enquanto o milhafre tenta escapar-lhe mudando de território.

A alteração desta relação entre predadores teve também consequências para outras espécies, lembram os investigadores. Por exemplo, a diminuição dos milhafres beneficiou uma pequena coruja insetívora, o mocho-galego (Athene noctua), que é predado por estas aves de rapina e cuja população aumentou.

A combinação de ameaças e os efeitos em cascata

Os autores deste estudo alertam que as alterações climáticas estão a modificar as interações entre espécies e, quando combinadas com outras ameaças, podem desencadear consequências inesperadas e amplificar os seus efeitos. “Estes efeitos em cascata, que podem desenvolver-se silenciosamente ao longo de anos, demonstram a necessidade de abordar em conjunto as diferentes pressões que afetam os ecossistemas, uma vez que umas podem amplificar o impacto das outras”, comentou Fabrizio Sergio.

Além disso, devido à sua posição e influência na cadeia alimentar, os superpredadores podem amplificar os efeitos das alterações globais sobre outras espécies. Em Doñana, a sua conservação exige, segundo a equipa científica, a recuperação das populações de coelho-bravo e a garantia de um regime de inundação adequado nos sapais do Guadalquivir, de modo a manter a disponibilidade de presas e a reduzir a vulnerabilidade destas espécies à seca.

Apesar de tudo, as espécies estudadas mostraram ter estratégias de resiliência para enfrentar as alterações climáticas. Os linces modificaram os seus hábitos alimentares, os milhafres responderam à predação deslocando-se para outros territórios e os mochos-galegos ocuparam o espaço deixado pelos milhafres. “Estas respostas demonstram que a fauna pode apresentar alguma capacidade de adaptação a novas condições”, segundo os autores.

Estes lembram que “a deteção desta interação inédita”, que teria sido difícil de detectar através de estudos pontuais, “foi possível graças ao acompanhamento científico de longo prazo realizado em Doñana”.

“Sem décadas de trabalho por parte dos investigadores, teria sido impossível identificar esta interação. Cada vez há menos apoio a este tipo de estudos de longo prazo, o que acabará por enfraquecer seriamente o progresso científico nesta área”, alertou Fabrizio Sergio.

Reparar na natureza: Luísa Ferreira Nunes, os insetos e os cadernos de campo

Há pessoas que aprenderam a reparar em coisas que a maioria de nós não vê. Como é que podemos aprender a fazer o mesmo? No quarto artigo da série da Wilder “Reparar na Natureza”, deixe-se inspirar pela história de Luísa Ferreira Nunes, entomóloga e ilustradora de natureza.

Luisa Ferreira Nunes. Foto: D.R.

Há pessoas que parecem ver mais do que nós. Reparam na borboleta, reconhecem a ave pelo canto, descobrem a aranha escondida ou sabem o nome da planta. Não é porque tenham um talento especial. É porque aprenderam a reparar.

Nesta série, sempre às sextas-feiras, vamos conhecer algumas dessas pessoas e descobrir o que as fascina, como começaram, o que aprenderam a ver que dantes não viam e os encontros com a natureza que nunca vão esquecer.

Hoje, damos-lhe a conhecer Luísa Ferreira Nunes, ilustradora naturalista e professora de Entomologia e Ecologia na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco. Há várias décadas que esta autora de uma série de agendas ilustradas combina o conhecimento científico à ilustração para dar a conhecer a diversidade do mundo natural.

WILDER: Lembras-te da primeira vez que reparaste verdadeiramente neste mundo natural?

Luísa Ferreira Nunes: Não sei se consigo identificar uma primeira vez. Acho que foi uma aproximação gradual muito incentivada pelo meu pai. A natureza sempre esteve presente, mas houve um momento em que deixou de ser apenas um cenário e passou a ser a minha profissão e aí a observação era treinada diariamente. No caso dos insetos, a paixão começou nas aulas de Entomologia na universidade, determinando que viesse a ser professora de Entomologia. Como os meus amigos comentam quando vamos para o campo “lá vais tu a olhar para o chão”, força do hábito de observar insetos.

W: O que te incentivou a começar?

Luísa Ferreira Nunes: Foi sempre o meu pai que era um talentoso pintor e conhecedor de fauna e flora. Depois, a Ecologia e a Entomologia deram-me uma forma de olhar para o mundo natural com mais detalhe e perspectiva. O desenho também teve um papel importante, porque desenhar obriga-nos a parar e a ver realmente.

W: O que sabias antes de começar?

Luísa Ferreira Nunes: Muito menos do que pensava. Uma das coisas que se aprende rapidamente é que reconhecer uma espécie ou saber o seu nome é apenas o início. O essencial é perceber relações, ciclos, estratégias, adaptações, interações com outras espécies e com o ambiente.

W: Há alguma espécie ou comportamento em específico que te deixe maravilhada?

Luísa Ferreira Nunes: Sempre me fascinaram os insetos pelas suas estratégias de sobrevivência. Durante o doutoramento trabalhei com coleópteros (escaravelhos) e fiquei impressionada com a complexidade das relações entre estes insetos e as mudanças do meio em que habitam. Mais tarde comecei também a trabalhar com libélulas, sobretudo espécies de montanha. A metamorfose continua igualmente a ser um dos fenomenos mais extraordinários que podemos observar na natureza.

W: O que é que vês hoje que, provavelmente, não terias visto quando começaste por te passar despercebido?

Luísa Ferreira Nunes: Hoje reparo sobretudo nas relações. Não vejo apenas um inseto numa planta. Pergunto porque está ali, o que está a fazer, de que se alimenta, quem depende dele, quem o pode predar, que sinais existem à sua volta. Também reparo muito mais em pequenas alterações: uma folha enrolada, um orifício na casca, uma exúvia, uma postura de ovos, uma mudança no comportamento de uma ave.

W: O que é que as pessoas normalmente não reparam?

Luísa Ferreira Nunes: Na quantidade de vida que existe a poucos centímetros delas. Muitas pessoas procuram natureza em grandes paisagens e ignoram um muro, um tronco morto, uma poça de água ou a parte inferior de uma folha. Há mundos inteiros nesses lugares. E muitas vezes passam também ao lado dos sinais deixados pelos animais, porque estão à procura do animal propriamente dito.

W: Qual foi o encontro com a natureza que nunca mais esqueceste?

Luísa Ferreira Nunes: Estava a conduzir de madrugada, perto de Monfortinho, e de repente estava um enorme veado no meio da estrada, parado. Era grandioso e altivo, olhou-me por uns segundos e saiu da estrada devagar como que dizendo “olha bem para mim”. Achei um comportamento incomum e por isso nunca mais me esqueci.

W: De que forma a tua vida mudou, e é mais rica, por teres aprendido a reparar no mundo natural?

Luísa Ferreira Nunes: Mudou completamente a forma como ocupo um lugar. Mesmo num sítio aparentemente banal há sempre qualquer coisa para descobrir. Aprender a reparar torna o mundo maior. Dá-nos também uma sensação muito clara de que fazemos parte de sistemas muito mais complexos do que nós. Para mim, ciência, ilustração e observação da natureza acabaram por se tornar inseparáveis.

W: Se pudesses ensinar uma única coisa a alguém que quer começar, o que seria?

Luísa Ferreira Nunes: A parar. Parece simples, mas não é. Não procurar imediatamente uma coisa extraordinária. Ficar num lugar durante algum tempo e observar o que muda. Quanto mais tempo damos a um sítio, mais ele começa a revelar.

W: Que conselhos dás a quem quer começar? O que começar a procurar? Que material poderá ser necessário?

Luísa Ferreira Nunes: Começaria por coisas muito simples: virar uma folha e observar o verso; procurar sinais de insetos em troncos e cascas; observar uma pequena poça ou ribeira durante alguns minutos; procurar exúvias, ovos, galerias ou folhas roídas. Também é interessante escolher uma planta e regressar a ela várias vezes ao longo do ano.

E não é preciso muito material. Uma pequena lupa, um caderno, lápis e, se possível, uma máquina fotográfica ou telemóvel para registar detalhes. Mas o instrumento mais importante é o tempo. É preciso permanecer o suficiente para que aquilo que parecia não ter nada comece a mostrar alguma coisa.

No próximo 8 de novembro, o Salão da Junta de Freguesia de Macedo de Cavaleiros abre as portas à exposição «O Meu Universo», da artista macedense Filomena Figueiredo.

 Esta é a segunda exposição da autora, que volta a partilhar com o público a sua criatividade, o seu olhar e a sua forma de ver o mundo através da pintura.

8 de novembro
14h30
Salão da Junta de Freguesia de Macedo de Cavaleiros

A entrada é livre. Apareçam e venham descobrir o universo de Filomena Figueiredo!

💻 A inovação digital ao serviço das pessoas e dos territórios!

 No dia 28 de outubro, o Brigantia EcoPark, em Bragança, recebe o Silver Digital Days 2026, uma iniciativa dedicada à inovação digital, à economia prateada e ao envelhecimento ativo.
Integrado no projeto europeu Silver Jobs, do qual o Município de Bragança é parceiro, o evento contará com sessões práticas, workshops e momentos de partilha de conhecimentos, promovendo a inclusão e o desenvolvimento de competências digitais.

Inscrições AQUI.

Pós-graduação em Ensino da Língua, Cultura e Literatura Mirandesas

 Até 26 de outubro estão a decorrer as inscrições para a pós-graduação Ensino da Língua, Cultura e Literatura Mirandesas, um novo curso ministrado na Universidade Politécnica de Bragança (UPB), destinado à formação e qualificação de profissionais para o ensino e promoção da língua e cultura mirandesas.


A nova pós-graduação inicia-se a 7 de novembro e resulta de uma parceria entre a Universidade Politécnica de Bragança (UPB) e a recém-criada Estrutura de Missão para a Promoção da Língua Mirandesa.

O programa curricular da pós-graduação em Ensino da Língua, Cultura e Literatura Mirandesas, decorre ao longo de dois semestres, em regime misto (presencial e onlie) e conta com a participação de docentes especializados na língua, cultura e literatura mirandesas. O valor da propina anual é de 350 euros.

Com esta nova oferta formativa, a Universidade Politécnica de Bragança pretende fortalecer a sua intervenção no distrito, reconhecendo a importância da formação especializada, como instrumento fundamental para a preservação, transmissão, valorização e promoção da língua e da cultura mirandesas.

Com sede em Miranda do Douro, a Estrutura de Missão para a Promoção da Língua Mirandesa, tem como prioridades a formação de professores e a criação de materiais pedagógicos para o ensino do mirandês.

O mirandês foi reconhecido oficialmente há 27 anos, tornando-se a par do português, a segunda língua oficial no país.

Um estudo efetuado pela Universidade de Vigo, em 2023, alertou para a possibilidade de extinção da língua mirandesa, dado o descrêscimo no número de falantes.

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ALFÂNDEGA DA FÉ ASSINALA 90 ANOS DO NASCIMENTO DE JOSÉ RODRIGUES COM SEMANA DEDICADA À ARTE

 De 26 a 30 de outubro, a Semana do Mestre José Rodrigues celebra, em Alfândega da Fé, os 90 anos do nascimento do escultor e artista plástico, de raízes no concelho. A iniciativa pretende preservar o seu legado artístico e aproximar a comunidade, em particular os mais jovens, da arte e da criação artística.


O programa inclui atividades dirigidas ao público escolar, com visitas guiadas à Bienal de Arte Contemporânea Terras de Trás-os-Montes – Linha da Terra e a realização de Oficinas Criativas. Através destas experiências, pretende-se estimular a imaginação, a criatividade e o contacto dos alunos com diferentes formas de expressão artística.

A data de 28 de outubro, dia em que José Rodrigues nasceu, assume particular significado nesta semana de homenagem ao artista, cujo percurso marcou a cultura portuguesa.

Com esta iniciativa, o Município de Alfândega da Fé pretende preservar a memória e o legado de José Rodrigues, promovendo simultaneamente a educação artística e o contacto das novas gerações com a cultura.

Ana Luísa Lopes
Foto: DR

Macedo de Cavaleiros promove sete fins de semana gastronómicos até setembro de 2027

 O Geopark Terras de Cavaleiros e o Município de Macedo de Cavaleiros vão promover sete fins de semana gastronómicos entre o final deste mês e setembro de 2027, numa iniciativa que pretende valorizar a gastronomia e os produtos locais.


A primeira proposta, dedicada às castanhas, decorre entre 30 de outubro e 1 de novembro, sob o tema “Castanhas com…”.

O calendário prossegue de 4 a 6 de dezembro, com “Do Azedo”, e, já em janeiro de 2027, entre os dias 8 e 10, com a “Rota das Casulas e do Butelo”. Ainda nesse mês, de 28 a 31, está prevista a “Rota do Javali”.

Em fevereiro, entre os dias 5 e 9, realiza-se o “Festival do Grelo”. A programação continua de 26 a 28 de março, com “Cabrito à Mesa”, e termina de 10 a 12 de setembro, com “Da Pavia”.

A iniciativa integra a estratégia de valorização dos recursos gastronómicos do território, associando a cozinha tradicional aos produtos e às tradições locais.

Sob o mote “Um convite aos sentidos”, os Fins de Semana Gastronómicos procuram dar a conhecer a diversidade da gastronomia de Macedo de Cavaleiros e afirmar o território como destino de experiências ligadas à gastronomia.

Fotografia: Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros

Maria João Canadas

Ministro da Agricultura afasta cenário de alarme devido ao vírus Shamonda

 O ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, considera que não existem motivos para alarme devido ao vírus Shamonda. O governante reconhece que a doença pode ter impactos na saúde animal, mas afirma que, de acordo com a informação disponível, não existe risco de contágio para as pessoas.


“O impacto na saúde animal não é gravíssimo. Há problemas, em alguns casos, até com abortos nos animais e tudo isso.

Nunca houve, até hoje, um caso de transmissão para os humanos. Não há nenhum risco que se possa considerar premente nesse sentido.”

O governante refere que a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) está a acompanhar a situação e admite a possibilidade de serem concedidos apoios ao setor, caso se revelem necessários.

Sobre a eventual transmissão para humanos, José Manuel Fernandes referiu um caso registado em França, envolvendo uma pessoa que já se encontrava num estado de saúde muito grave, ressalvando que não é possível atribuir a morte ao vírus:

“Não se pode dizer que faleceu por causa desse vírus. E, portanto, aquilo que temos neste momento, em termos de dados e de informação, é que não há nenhum perigo de contágio para as pessoas.”

O ministro reconhece que ainda não existe um plano de erradicação nem uma vacina contra o vírus Shamonda. Defende, por isso, o reforço da prevenção, da investigação e da cooperação entre os países europeus para desenvolver vacinas eficazes e acessíveis:

“A minha mensagem é que não haja alarme, que não haja exageros. E o que é que é importante? É a prevenção, é absolutamente essencial.

É o investimento que temos de fazer a nível europeu numa investigação fortíssima, para termos vacinas para todo o tipo de vírus que começam a andar por aí, onde não há fronteiras.”

José Manuel Fernandes garante que as autoridades estão a monitorizar a situação e afirma que o Governo poderá apoiar o setor caso se justifique.

Questionado sobre o custo das análises, que pode dificultar a testagem dos animais, o ministro reiterou que ainda não existe um plano de erradicação nem uma vacina, defendendo o investimento em investigação à escala europeia para encontrar soluções eficazes e acessíveis.

No distrito de Bragança, terão sido identificados 50 bovinos infetados numa exploração em Santulhão, no concelho de Vimioso, segundo avançou o Jornal Nordeste.

A Rádio Onda Livre continua a aguardar uma resposta da DGAV sobre a situação no concelho de Vimioso.

Maria João Canadas

🍄🌿 V PASSEIO MICOLÓGICO 🌿🍄 - Vale de Telhas - 29 de novembro

Dia das Nações Unidas - 24 de Outubro


O Dia das Nações Unidas, celebrado anualmente a 24 de Outubro, constitui uma das mais importantes datas do calendário internacional, simbolizando a união dos povos em torno da paz, da cooperação e da defesa dos direitos humanos. Esta comemoração recorda a entrada em vigor da Carta das Nações Unidas, em 1945, documento fundador da Organização das Nações Unidas (ONU), criada após a devastação provocada pela Segunda Guerra Mundial.

A ONU tornou-se, ao longo das décadas, um símbolo universal de esperança, diálogo e solidariedade entre as nações. O Dia das Nações Unidas convida os povos do mundo a refletirem sobre a importância da cooperação internacional na construção de um futuro mais justo, pacífico e sustentável.

A criação das Nações Unidas está profundamente ligada aos acontecimentos dramáticos da primeira metade do século XX. A humanidade viveu duas guerras mundiais devastadoras, marcadas por milhões de mortos, destruição em larga escala, perseguições, genocídios e profundas crises económicas e sociais.

Após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, foi criada a Sociedade das Nações, organização internacional destinada a promover a paz e evitar novos conflitos armados. Contudo, a incapacidade de impedir o crescimento dos regimes totalitários e o início da Segunda Guerra Mundial revelou as fragilidades dessa instituição.

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) provocou uma tragédia humana sem precedentes. Cidades inteiras foram destruídas, milhões de pessoas perderam a vida e o mundo assistiu aos horrores do Holocausto e das bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Perante tamanha devastação, tornou-se evidente a necessidade de criar uma organização internacional mais forte, capaz de promover o diálogo entre os países e impedir novas guerras globais.

Foi durante o conflito que começaram as primeiras negociações para a criação de uma nova ordem internacional. Em 1941, o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill assinaram a Carta do Atlântico, documento que defendia princípios de paz, liberdade e cooperação internacional.

Mais tarde, em 1 de Janeiro de 1942, representantes de 26 países assinaram a Declaração das Nações Unidas, expressão utilizada pela primeira vez por Roosevelt para designar a aliança dos países que combatiam as potências do Eixo.

Entre Abril e Junho de 1945 realizou-se, em São Francisco, nos Estados Unidos da América, a Conferência das Nações Unidas sobre Organização Internacional. Delegados de cinquenta países reuniram-se para redigir a Carta das Nações Unidas, documento que definiria os princípios, objetivos e funcionamento da nova organização.

A Carta foi assinada em 26 de Junho de 1945 e entrou oficialmente em vigor a 24 de Outubro do mesmo ano, data que passou a ser celebrada como o Dia das Nações Unidas.

Desde a sua fundação, a ONU assumiu como missão central preservar a paz mundial e promover relações de amizade entre os povos. A organização baseia-se em princípios fundamentais como a igualdade soberana dos Estados, a resolução pacífica de conflitos, o respeito pelos direitos humanos e a cooperação internacional.

Os principais objetivos da ONU incluem:

• Manter a paz e a segurança internacionais; 
• Promover os direitos humanos; 
• Combater a pobreza e a fome; 
• Apoiar o desenvolvimento sustentável; 
• Defender a igualdade entre homens e mulheres; 
• Proteger crianças, refugiados e populações vulneráveis; 
• Incentivar a cooperação económica, científica e cultural; 
• Promover o diálogo entre as nações. 

Ao longo da sua história, as Nações Unidas desempenharam um papel essencial em processos de mediação internacional, missões de paz, campanhas de vacinação, ajuda humanitária e promoção da educação e da saúde em diversas regiões do planeta.

A ONU possui uma estrutura complexa e global, composta por vários órgãos principais e inúmeras agências especializadas.

Entre os principais órgãos destacam-se:

A Assembleia Geral

É o principal espaço de debate internacional, onde todos os Estados-membros possuem representação e direito de voto. A Assembleia discute temas relacionados com a paz, segurança, economia, ambiente e direitos humanos.

O Conselho de Segurança

Responsável pela manutenção da paz e segurança internacionais, possui cinco membros permanentes com poder de veto, Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido, além de membros eleitos temporariamente.

O Secretariado

Dirigido pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, coordena as atividades administrativas e diplomáticas da organização.

O Tribunal Internacional de Justiça

Com sede em Haia, nos Países Baixos, é responsável por resolver disputas jurídicas entre Estados.

O Conselho Económico e Social

Promove a cooperação internacional nas áreas económica, social e cultural.

A ONU integra ainda diversas agências especializadas de enorme relevância mundial, entre as quais:

• UNESCO — educação, ciência e cultura; 
• UNICEF — proteção das crianças; 
• OMS (Organização Mundial da Saúde) — saúde pública; 
• FAO — alimentação e agricultura; 
• ACNUR — apoio aos refugiados; 
• OIT — direitos dos trabalhadores; 
• PNUD — desenvolvimento humano; 
• UNESCO — preservação do património cultural mundial. 

Estas instituições trabalham diariamente em múltiplas regiões do planeta, contribuindo para melhorar condições de vida, apoiar populações vulneráveis e responder a crises humanitárias.

Um dos momentos mais marcantes da história das Nações Unidas ocorreu em 1948, com a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Este documento histórico estabeleceu direitos fundamentais inerentes a todos os seres humanos, independentemente da nacionalidade, religião, raça ou condição social.

A Declaração tornou-se uma referência ética universal e influenciou constituições, tratados internacionais e movimentos de defesa dos direitos civis em todo o mundo.

No século XXI, as Nações Unidas enfrentam desafios globais complexos e interligados. As guerras, o terrorismo, as alterações climáticas, as desigualdades económicas, os fluxos migratórios, as pandemias e as crises humanitárias exigem respostas coordenadas entre os países.

A ONU continua a desempenhar um papel fundamental na mediação diplomática, no apoio humanitário e na promoção de soluções globais para problemas globais. A Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável representam atualmente um dos mais ambiciosos compromissos internacionais para erradicar a pobreza, proteger o planeta e promover sociedades pacíficas e inclusivas.

Apesar das críticas e limitações que frequentemente enfrenta, a ONU permanece como o principal fórum internacional de diálogo entre as nações. Num mundo marcado por tensões políticas e desigualdades profundas, a existência de uma organização dedicada à cooperação internacional continua a ser essencial.

O Dia das Nações Unidas não é apenas uma celebração institucional. Trata-se de uma oportunidade para refletir sobre os valores da paz, da solidariedade, da tolerância e da fraternidade entre os povos.

Esta data relembra que nenhum país consegue enfrentar sozinho os grandes desafios globais. A humanidade partilha um destino comum e depende da cooperação internacional para garantir um futuro sustentável e seguro.

Celebrar o 24 de Outubro é reconhecer a importância do diálogo em vez da guerra, da união em vez da divisão e da esperança em vez do medo. É também homenagear todos aqueles que, ao longo das décadas, trabalharam em missões humanitárias, operações de paz e iniciativas internacionais destinadas a proteger vidas humanas e promover a dignidade das pessoas.

O Dia das Nações Unidas representa um símbolo universal da busca pela paz e pela cooperação entre os povos. A criação da ONU nasceu da necessidade de evitar novas tragédias mundiais e de construir uma ordem internacional baseada no respeito, no diálogo e nos direitos humanos.

Ao longo da sua história, a organização contribuiu para importantes avanços sociais, humanitários e diplomáticos, tornando-se uma referência global de solidariedade e esperança.

Num tempo em que o mundo continua a enfrentar enormes desafios, o espírito das Nações Unidas permanece atual e necessário. O 24 de Outubro recorda-nos que a paz, a justiça e o progresso dependem da capacidade humana de cooperar, respeitar diferenças e trabalhar em conjunto por um futuro melhor para toda a humanidade.

Texto e Imagem: HM - com IA e IN