Por: Luís Abel Carvalho
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Era um fim de tarde soalheiro e frio de finais de Fevereiro, mais precisamente dia vinte e três, dia de S. Policarpo - protector dos ouvidos e das queimaduras. O ar era de gelo - aliás, como se desejava, pois ”Fevereiro quente, traz o diabo no ventre”. Um frio que encolhia até os pensamentos e a alma das gentes.De olhos fechados do cansaço da vida, as pálpebras escuras e sedosas que se mexiam em movimentos nervosos, Tia Inácia esperava, sentada numa pedra, à soleira da porta de casa, tentando roer com as gengivas uma côdea dura de centeio, que as couves tronchudas cozessem na panela de ferro de três pés, enquanto olhava a aldeia e os campos, envoltos em neblina. Estava constantemente a mexer os lábios, sem os abrir, como fazem as galinhas ao beber. Dava a sensação de que remoía com as gengivas algum pedaço de toucinho ou alguma lembrança eterna.
Na verdade, tinha os lábios tão repuxados para dentro da boca, totalmente deserta de dentes, de tal modo que lhe cobriam e protegiam as gengivas, de maneira que se poderá dizer, com toda a propriedade, que comia com os lábios! Parecia que tinha um desentupidor de canos a sugar-lhe os lábios para dentro, de forma que o queixo sobressaía exageradamente, em forma de cabeça de perú. Não se podia aplicar aqui o ditado popular; “ A pão duro, dent´afiado “, mas aplica-se um outro com propósito : “ À má fome não há mau pão “, ou então: “ A pão de três semanas, fome de quinze dias “.
Tia Inácia aproveitava o fraco calor das últimas résteas de sol amarelo-âmbar, daquele dia gélido de Fevereiro, tal como um lagarto, esquecida da vida, enquanto esperava que as tronchudas cozessem para as comer com batatas e um ovo cozido, temperadas com unto. Seria a sua ceia nessa noite, acompanhada com azeitonas sapateiras curtidas numa talha de barro, um naco de pão e um copo de palheto (ou dois), que comprava ao Ti Constantino da Marta. De olhos semicerrados aquecia a sua velhice ao soalheiro, maçada dos trabalhos do dia e das mortificações da alma, feita de cicatrizes e de perdão, uma alma que embalava pesadelos. Recebia o brando mas aconchegante calor do sol hibernal como um bálsamo e deixava-se arrastar para a letargia. A velha e multissecular aldeia estendia-se a seus pés, pela encosta abaixo até aos fornos, perto da Fonte da Ferrada, ou a fonte dos namorados. Que segredos de alma estaria ela a confessar à lua?
Os últimos raios de um sol amável morriam lá para o extremo poente, numa mistura em tons de azul turquesa e laranja opala, na paz lenta da tarde. Pensava nos desgostos e nas dificuldades da vida, olhando o por do sol para os lados das Fontelas com olhos fatigados, quando a Celeste da Consolação, mais conhecida como Celeste Zarolha, vinda dos lados do Seixo lhe disse:
- Atão, Ti Nácia. Que desgrácia esta!! Ó que grande desgrácia! – lamentava-se pondo as mãos erguidas para o Céu.
- Desgrácia?!!Qal desgrácia, rapariga?!
- Atão...Inda num sabe?! Eu tamãe só o soub´agorinha mesmo. Foi a Maria dos Anjos que mo dicho.
- Mas o qu´é que foi, rapariga? Desimbutcha – pediu já com falta de paciência.
- Por os bistos inda num no sabe...!!!Coitada!!
- Ai que gaita esta!! Num sei o quê? Fala, rapariga. Fala duma bez por todas. Gomita lá o que tães aí dentro. – pediu já impaciente.
- ´Stá bem, prontos. Morreu o seu filho Pascoal! – disse de lágrimas nos olhos. – Deus o receba à Sua direita - acrescentou persignando-se, consternada.
A notícia caiu do alto, como uma pedra num charco de águas paradas. Tia Inácia sabia bem que a Celeste era de lágrima oportuna.
- Morreu...Oh...Lá o mataram, por i, por bia d´alguma puta das feiras! – disse encolhendo os ombros, numa assombrosa indiferença. – Por isso é qu´a coruja piou a noute toda nos castinheiros! Era mau agoiro!
- Pois, parece que sim. Foram três ou quatro gandulos de trás da serra qui o matatarm à paulada. Dizem que foi por bingança e que le deram tantas ´stadulhadas, quinté le puseram a cabeça num bolo de miolos e sangue, toda ´smigalhada!!!- disse num gesto de nojo e de horror. – Parece qu´io ´speraram perto da Quinta do Dr. Margarido, q´ando binha pra casa – irrompeu num pranto caudaloso.
(O Dr. Margarido era chamado “ Pai dos pobres “ porque, em vez de cobrar a consulta, ainda deixava algum ao enfermo para a compra de remédios na farmácia ).
- Hum...Lá o apanharam co alguma cardina! Oh..., há qanto tempo ´speraba eu por uma cousa assim. Só m´admira que num tibesse assucedido há mais tempo, que num tibesse já sido iantes. À bida que lubaba, só podia dar nisso, mais cedo ou mais tarde. Andaba sempre metido em barulhos e arrelias!! Lubaba uma bida só de folguedos! Só putas e binho berde!! Era um cabeça d´asno c´mó Pai. – concluiu com uma calma e naturalidade abismal, cuspindo para o chão.
- Atão, e agora? – perguntou a Celeste de olhos aflitos.
- Agora?! Agora é interrá-lo e rezar-le por a alma, s´é qui a tinha. Agora num hai nada a fazer, a num ser interrá-lo, qu´é o que se faiz ós mortos – disse encolhendo os ombros numa dureza de sentimentos maior que o frio que se sentia, numa apatia invernosa.
- Credo, Santo Deus!! C´mé que pode ser assim?! Inda é mais pior do có azeite rançoso!
- Sou c´mo me fizeram. As consumições da bida é que me moldaram nisto.
- E quer qui o interrem a donde?
- Adond´eles quiserem – respondeu encolhendo os ombros. - Pra mim tanto m´abonda, num me fai difrença ninhuma. As ótoridades que se encarreguem disso. O Regedor ou a Guarda que tomem conta dele. Eu num tanho posses, nem força e nem cabeça pra esses trabalhos. Qui o interrem adond´eles quiserem, que pra mim tanto monta. Óspois de morto já num bale nada; nem mesmo bibo nunca baleu um bintém furado – disse causticamente. – Esse rapaz só me deu consumições. Muntas mortificações me fizo passar, esse judeu errante. – Acrescentou com acidez.
- E q´antas mais há d´ajuntar às lembranças que já tem até qu´a morte as apague a todas!! Bomecê e todos nós.
- Por i, mas agora acabou-se tudo e já debe ´stár a prestar contas ó Dibino – acrescentou com desprezo.
- Jasus, Santo nome de Jasus! Indé mais azeda do qu´às azedas!
- Atão que le quers? Quem come fel, num pode cuspir mel! Mas inda bem, porqu´assim nem as formigas me querem. E quem me quiser cumer, que me bote açúcre. E do branco, por que dizem qu´é mais doce do qu´ó amarelo- acrescentou num risinho irónico. – E pode ser qu´ospois de morta já todos digam bem de mim, ou inté me façam Santa! Quem no sabe?
- Por i, por i...A gente bê cada cousa! Às bezes são uns demónios em bida e despois de mortos, todá gente só já diz bem deles.
- A mim tanto se m´abonda qu´o rio corra pra baixo ó corra pra cima. Tamãe num quero ser ninhuma Santa, porqu´óspois inda tanho que fazer milagres e andar sempre no andor...e isso é uma trabalheira.
- Credo, mulher! Isso inté é pecado...
- Qal pecado, qal carapuça! Pecado é ter fome e frio e num termos com que nos socorrer – disse visivelmente irritada.
- Assim bai parar direitinha pró inferno – interrompeu-a a Celeste.
- Eu?! Im primeiro indás-dir tu. Além do mais, num caibo lá. Já ´stá abarrotar – disse de caçoada.- A mim já s´marrebentou o fel ! – retorquiu conformada.
- Atão temos qu´arranjar oitro nobo cá na terra – replicou a rir a Celeste.
- No inferno bibemos todos nós, aqui em bida. Oitro?! Num t´abonda o que já temos? Pra mim já me tchega e sobra este cá na terra. Credo, qu´inté parece que Deus e o diabo me tomaram de ponta! – acrescentou cuspindo novamente para o chão.
- Este qu´inziste é o nosso. Temos qu´arranjar um oitro pior ainda prós salafrários que nos lebam o coiro e o cabelo, prá´queles que nos roubam as últimas gotas de suor.
- Oh... pra esses num há inferno que resista! Se bem calhar inté são bem capazes d´indrominar o diabo e o São Pedro! – disse com escárnio.
- Lá nisso terá rezão, mas mesmo assim é seu filho – tentava a Celeste chamá - la à razão.
- Pois é. Eu bem no sei, que fui eu qui o pari. E olha que bastantes dores tibo pró ter. Só de caso num ´stibesse lá a Cantadeira, num sei c´mo seria...
(Tia Inácia recordou em segundos aquela tarde quente do dia catorze de Julho, uma sexta feira, pelas quatro horas da tarde, em pleno campo, à sombra de um enorme castanheiro e à beira da fonte das Lamelas, o nascimento do filho, a céu aberto. Quantas dores e suor para expulsar um matulão, com a juda da Tia Lurdes Cantadeira).
- Pois. Anda uma Mãe a passar tantos trabalhos a criar um filho prós pois acontecer uma desgraceira destas! Mas parir é dor e criar é amor.
- Eu deixei de ser Mãe dele q´ando tinha três meses. Secou-se – m´o peito e tibo que ser alimentado com leite da burra do Ti Alípio Grande e do Ti Manuel Carono. Ele continuou sempre a ser mou filho, mas nunca me tchigou a ter grand´amizade. Dizem que por i foi por num ter mamado nas tetas. Mas do Pai, ele gostaba! E munto!!
- Coitado! Tibo a sorte do Pai!
- E que sorte! Azar tibo eu, que fiquei cá a sofrer. O meu Pascoal tinha a maldade do Pai na massa do sangue. Tal Pai tal filho...Eram filhos da mesma sementeira! - disse numa ironia ácida. - O Pascoal deve ter morrido sem nada nos bolsos. Tamãe já o Pai..., aquilo que deixou nem deu pró responso. Morreram ambos os dois c´más putas na quaresma, mais lisos do cós seixos do Sabor. Morreram mais limpos do c´uma eira ó fim da malhada!!- reforçou cerrando os dentes (as gengivas)!
continua...
Fontes de Carvalho
Fontes de Carvalho, pseudónimo de Luís Abel Carvalho, nasceu no Larinho, uma aldeia transmontana do Concelho de Torre de Moncorvo, Distrito de Bragança. É o filho do meio de três irmãos.
Estudou em Moncorvo, Bragança e no Porto, onde se formou em Engenharia Geotécnica. É casado e Pai de três filhos.
Viveu no Brasil, onde passou por momentos dolorosos e de terror, a nível económico e psicológico. Chegou a viver das vendas de artesanato nas ruas e a dormir debaixo de Viadutos.
No ano de 1980 e 1981 foi Professor de Matemática em Angola, na Província de Kwanza Sul, em Wuaku-Kungo. Aí aprendeu a desmistificar certos mitos e viveu uma realidade muito diferente da propagandeada.
Em Portugal deu aulas de Matemática em diversas cidades, nomeadamente em São Pedro da Cova, Ponte de Lima, Cascais (na Escola de Alcabideche, onde deu aulas aos presos da cadeia do Linhó), Alcácer do Sal, Escola Francisco Arruda e Luís de Gusmão, em Lisboa. Frequentou durante quatro anos, como trabalhador-estudante, o curso de Engenharia Rural, no Instituto Superior de Agronomia.
Em 1995 fundou a empresa Bioprimática – Reciclagem de Consumíveis de Informática, onde trabalha até hoje como sócio-gerente.