Seguindo a carreira militar, Teodorico Ferreira dos Santos assentou praça como voluntário em 31 de julho de 1902, no regimento de Cavalaria n.º 3. A 15 de novembro de 1907, atinge a patente de alferes, era então aspirante a oficial de Cavalaria n.º 4, e em novembro de 1908, foi nomeado professor do curso de habilitação para 1.os sargentos.
Em 1909, recebeu um diploma de missão honrosa pela alta classificação obtida no Campeonato de Cavalo de Guerra e dois anos depois foi louvado pelo zelo e aptidão que manifestou no ensino dos recrutas do contingente de 1910 da Escola Prática de Cavalaria, o primeiro de muitos louvores que receberia ao longo do seu percurso no Exército.
Em julho de 1911, passou a secretário da Comissão Técnica de Cavalaria, acumulando, a partir de agosto seguinte, com o cargo de vogal do Conselho de Administração da Fraternidade Militar. A 1 de dezembro desse ano, foi promovido a tenente e entre 1912 e 1913 foi ajudante de campo dos ministros da Guerra, generais Correia Barreto e Pereira Bastos.
À sua rápida ascensão na carreira militar após 1910 – recorde-se que, nesta fase inicial da República, não tinha ainda atingido os 30 anos de idade – não terá sido alheio o seu declarado republicanismo, elogiando publicamente o facto de Afonso Costa ter conseguido apresentar, pela primeira vez em muitos anos, um orçamento sem défice. Não era, porém, um afonsista e não deixava de lamentar e apontar as nefastas consequências da orientação jacobina daquele político, em especial para com a Igreja Católica, não por ele próprio ser católico, que não o era, mas pelo que de prejudicial tal orientação poderia vir a trazer ao regime. Os anos seguintes, como hoje sabemos, dar-lhe-iam razão.
Em outubro de 1915, foi nomeado ajudante da expedição a Moçambique, embarcando nesse mês para Lourenço Marques, onde permaneceu durante mais de um ano, como chefe da Secretaria Militar do Distrito de Moçambique, regressando a Lisboa em dezembro de 1916. Mas logo em julho de 1917, no mesmo mês em que alcançava a patente de capitão, regressava a Moçambique, agora como comandante da Esquadrilha de Aviação Expedicionária, que viria a travar combates aéreos contra as tropas alemãs, no contexto da Primeira Guerra Mundial, assumindo até janeiro de 1918 o comando das operações. Contou posteriormente Ferreira dos Santos que, embora o Exército português dispusesse de meios suficientes de ataque para passar o rio Rovuna, por imperícia, a operação correu mal. A par da impreparação, lamentava ainda as faltas logísticas que se sucediam. A título de exemplo, em dados momentos, os militares não dispunham de bombas; noutra ocasião, possuíam-nas, mas os aviões não estavam operacionais.
Terminada a Grande Guerra, esteve depois destacado em Timor, entre julho de 1919 e junho de 1920, para dirigir os serviços militares daquele território e exercer os cargos de comandante militar de Batugadé e comandante superior da Fronteira, recordando esse período com saudade, elogiando a “civilidade e o portuguesismo” da população timorense.
Era diretor da Polícia de Segurança do Estado quando, a 19 de outubro de 1921, teve lugar a tristemente célebre “noite sangrenta”, revolta radical de marinheiros e arsenalistas ocorrida em Lisboa, no decurso da qual foram assassinadas altas figuras do regime republicano, como António Granjo, Machado Santos e José Carlos da Maia. Chamado a pronunciar-se sobre tais acontecimentos, Teodorico dos Santos concluiu que o Estado espanhol teria estado por detrás da revolta, pelo desejo do seu chefe de Estado, Afonso XIII, provocar uma situação de anarquia no nosso País que lhe permitisse, a coberto da Sociedade das Nações, intervir em Portugal, sob o pretexto de pretender restabelecer a ordem interna.
Um mês após estes acontecimentos, a 28 de novembro de 1921, foi nomeado governador civil do distrito de Bragança, tomando posse do cargo dois dias depois e permanecendo no cargo durante dois anos, até 16 de novembro de 1923. No âmbito da magistratura administrativa, seria ainda administrador dos concelhos de Chaves e de Guimarães.
Encontrava-se em Bragança quando, a 19 de março de 1923, foi nomeado adjunto da 1.ª Divisão do Exército, e no ano seguinte foi nomeado vogal da comissão encarregada de propor as bases para a organização do Exército Colonial.
Aquando da revolta militar de 18 de abril de 1925, considerada como o ensaio geral do que viria a ser o Movimento de 28 de Maio de 1926, que instauraria a Ditadura Militar, Teodorico Ferreira dos Santos, conservando-se fiel às forças constitucionais, acompanhou o chefe de gabinete do ministro da Guerra, auxiliando-o na sua missão “e cumprindo as suas ordens com inteligência, zelo e dedicação”, como se lê no louvor que lhe foi então atribuído.
Pouco tempo depois do 28 de Maio de 1926, a 20 de novembro do mesmo ano, foi promovido a major. Mas a sua carreira conheceria um grande revés no ano seguinte, pela sua alegada participação no movimento revolucionário que procurou derrubar a Ditadura Militar – o que, tendo em conta a posição que já manifestara em abril de 1925, não surpreende –, ficando vários meses detido na Casa de Reclusão da 1.ª Região Militar e, depois de libertado, sendo afastado temporariamente do serviço e regressando a Algés, onde residia. Só regressou ao ativo em novembro de 1930, sendo então nomeado 2.º comandante interino do regimento de Cavalaria n.º 9.
A 20 de janeiro 1936, foi promovido a tenente-coronel e nomeado 2.º comandante do regimento de Cavalaria n.º 8. Em 26 de dezembro de 1938, foi promovido a coronel e no mês seguinte assumiu o comando pleno de Cavalaria n.º 8. Em novembro de 1939, foi nomeado comandante do regimento de Cavalaria n.º 5, em Aveiro, a última função que ocupou no Exército.
Quando chegou a altura devida, no dealbar da década de 1940, foi frequentar o curso para brigadeiro no Instituto de Altos Estudos Militares, em Caxias. Apesar de viver a poucos quilómetros daquele estabelecimento, resolveu, para mais inteiramente se dedicar ao curso, instalar-se no Instituto, decisão que viria a revelar-se dramática, pois ali contraiu uma grave doença de pele, vendo-se na necessidade de baixar ao Hospital da Estrela e, como tal, a perder o curso, ao qual já não regressaria, por uma junta médica o considerar incapaz para todo o serviço.
Pouco tempo depois, em 27 de maio de 1942, passava à reserva, vindo a falecer em Campolide, Lisboa, na residência da sua irmã, a 28 de janeiro de 1949, aos 64 anos, solteiro e sem geração. Encontra-se sepultado no cemitério de Carnaxide.
Circular de Teodorico Ferreira dos Santos a apelar à tomada de providências para evitar o recrutamento de emigrantes (1921)
Exmo. Senhor administrador do concelho,
Tendo chegado ao meu conhecimento que alguns empregados da repartição dessa administração têm andado em propaganda de recrutamento de emigrantes, o que é terminantemente proibido pelos artigos 10.º do decreto n.º 5 019 de 10 de maio de 1919 e 33.º do decreto regulamentar n.º 5 886, de 19 de junho de 1919, venho rogar a V. Exa. se sirva tomar as mais enérgicas providências para que cesse imediatamente tão antipatriótica propaganda e fazer ciente esses seus subordinados que, caso se averigue o desacatamento a esta minha prevenção ou se os mesmos funcionários se não abstiverem de qualquer ingerência que lhes é proibida conforme as circulares de 17 e 27 de dezembro de 1919, salva a sua intervenção determinada pelas leis, na concessão ou solicitação de passaportes de emigrantes, estou na intenção de lhes fazer aplicar rigorosa e implacavelmente as disposições penais do regulamento disciplinar dos funcionários públicos de 22 de fevereiro de 1913.
Saúde e Fraternidade.
Fonte: Arquivo Distrital de Bragança, Governo Civil de Bragança, Correspondência Expedida, circular n.º 14, 12 de dezembro de 1921.
Artigo de opinião a elogiar o combate de Teodorico dos Santos à prática do jogo (1922)
Sua Exa. o governador civil tomou as providências necessárias para acabar com a desvergonha da jogatina que por todos os cantos da cidade campeava impúdica.
Louvamos Sua Exa. e daqui lhe enviamos os nossos sinceros e calorosos aplausos.
Sua Exa., integrando-se na Lei, acaba de praticar um ato de elevada coragem moral.
Sim, porque o jogo nesta terra ia já tomando foros de instituição pública e… quase legal.
Sabemos que os profissionais do jogo andam fulos connosco, ameaçando-nos surdamente, dirigindo-nos sarcásticos epigramas e, o que é mais bonito, apregoando entre risadas equívocas, que mais cedo ou mais tarde acabarão com o Saboreano ou nos comprarão o nosso silêncio.
Bem-aventurados os pobres de espírito!
A nossa dignidade de jornalistas e de homens não se vende e será difícil fazer-nos calar enquanto houver nesta terra homens honrados que nos prestem o seu apoio.
Nós não publicamos este jornal para ganhar dinheiro com chantagens jornalísticas. Propusemo-nos uma missão de educação moral e social e, custe o que custar, havemos de ir até ao fim.
E, aplaudindo mais uma vez o gesto do Exmo. governador civil, mais uma vez gritamos: ABAIXO O JOGO.
Fonte: O Saboreano, n.º 3, ano I, 9.4.1922.
Fontes e Bibliografia
Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928).
O Saboreano, n.º 3, ano I, 9.4.1922.
ALVES, Francisco Manuel. 2000. Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, vol. X. Bragança:
Câmara Municipal de Bragança / Instituto Português de Museus.
FERREIRA, João José Brandão. 2016. “A Aviação Nacional na I Guerra Mundial: uma actuação quase desconhecida”, in Revista Militar, 68.º volume, n.º 5.
CASTELO BRANCO, Fernando. 2000. “O coronel Teodorico Ferreira dos Santos e o 19 de Outubro”, in Os militares na sociedade portuguesa”: IX colóquio. Actas. Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar.
Ordens Honoríficas Portuguesas. Disponível em http://www.ordens.presidencia.pt.
Publicação da C. M. Bragança