MEMÓRIAS...e outras coisas...
BRAGANÇA
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Sobre o Blogue
(Henrique Martins)
COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Faleceu Serafim Riem (1954-2026)
Descansa em paz companheiro de tantas "lutas".
O papel das pequenas cidades no combate às alterações climáticas – Sustentabilidade, energias renováveis e políticas ambientais locais
As alterações climáticas representam um dos maiores desafios do século XXI, exigindo ações coordenadas a nível global, nacional e local. Embora frequentemente associadas às grandes urbes e centros industriais, as pequenas cidades, como Bragança, desempenham um papel essencial, e muitas vezes subestimado, na construção de um futuro mais sustentável. A proximidade entre cidadãos, autarquias locais e território, aliada a uma escala mais reduzida e a uma maior capacidade de adaptação, transforma estas comunidades em laboratórios vivos para soluções inovadoras em sustentabilidade, energias renováveis e políticas ambientais.
As pequenas cidades, geralmente com populações que variam de algumas centenas a algumas dezenas de milhares de habitantes, ocupam uma vasta parte do território de muitos países. A sua relevância ambiental deriva não apenas da sua extensão geográfica, mas também do impacto cumulativo das suas práticas de gestão de recursos. A adoção de medidas ambientalmente responsáveis ao nível local pode gerar impactos significativos a médio e longo prazo, servindo como exemplo para outras regiões.
Além disso, estas cidades enfrentam desafios específicos. Menor capacidade financeira, envelhecimento populacional e, muitas vezes, dependência de atividades económicas intensivas em recursos naturais. No entanto, estas debilidades podem ser transformadas em oportunidades, especialmente quando combinadas com políticas inovadoras e com o envolvimento ativo da comunidade.
As pequenas cidades têm a possibilidade de desenvolver programas de sustentabilidade mais personalizados e eficazes do que muitas grandes urbes. A relação mais próxima entre os decisores políticos e os habitantes permite uma maior sensibilização, participação e corresponsabilização.
A gestão eficiente da água, da energia e dos resíduos constitui um dos pilares da sustentabilidade local. As pequenas cidades podem implementar:
• Programas de redução do consumo de água, incentivando sistemas de reaproveitamento de águas pluviais.
• Planos de reciclagem e compostagem comunitária, com envolvimento direto das famílias.
• Projetos de proteção de ecossistemas locais, como florestas urbanas, zonas ribeirinhas e áreas agrícolas.
Estas iniciativas contribuem não só para a diminuição das emissões de gases com efeito de estufa, mas também para a preservação da biodiversidade e a melhoria da qualidade de vida.
Apesar de frequentemente dependerem do automóvel, as pequenas cidades possuem vantagens na criação de alternativas sustentáveis de mobilidade. As distâncias mais curtas permitem:
• A expansão de redes de ciclovias e zonas pedonais.
• A implementação de sistemas de transporte comunitário, como os nossos STUB.
• Projetos de partilha de veículos, incentivando a redução da frota automóvel individual.
Estas medidas ajudam a diminuir a poluição atmosférica e sonora, ao mesmo tempo que promovem estilos de vida mais saudáveis.
As pequenas cidades possuem um enorme potencial para se tornarem polos de produção energética sustentável, devido à proximidade com áreas verdes e à disponibilidade de terrenos para projetos de pequena ou média dimensão.
A instalação de painéis solares em edifícios públicos (escolas, autarquias, centros de saúde) e privados tem sido uma das estratégias com maior impacto. Os benefícios incluem:
• Redução dos custos energéticos municipais.
• Menor dependência de combustíveis fósseis.
• Estímulo à economia local através da contratação de empresas instaladoras.
Em regiões com condições favoráveis, projetos de microgeração eólica ou pequenas centrais hidroelétricas podem complementar a energia solar, criando redes de energia diversificadas e resilientes.
Uma tendência emergente é a criação de comunidades de energia, onde cidadãos, empresas e instituições partilham a produção e o consumo de energia renovável. Estas comunidades permitem:
• Distribuição mais justa dos custos e benefícios.
• Aceleração da transição energética.
• Maior participação cívica na gestão de recursos.
As políticas ambientais municipais constituem um elemento-chave no combate às alterações climáticas. Quando bem direcionadas, permitem transformar pequenas cidades em exemplo de resiliência e inovação.
Estes planos definem metas claras de redução de emissões e medidas concretas em áreas como transportes, edifícios, resíduos e agricultura.
Muitas cidades já aplicam:
• Reduções de taxas para construções sustentáveis.
• Apoios à aquisição de veículos elétricos.
• Incentivos à instalação de sistemas de aquecimento eficiente.
A mudança real ocorre quando a população se envolve. Pequenas cidades podem promover:
• Oficinas ambientais para todas as idades.
• Programas escolares sobre clima e sustentabilidade.
• Eventos comunitários, como feiras verdes ou dias sem carros, que Bragança tem desprezado há mais de uma década.
O futuro do combate às alterações climáticas não depende apenas das grandes capitais ou das economias mais poderosas. As pequenas cidades como Bragança, com a sua escala humana e forte espírito comunitário, são fundamentais na construção de um planeta mais sustentável. Ao adotarem políticas ambientais robustas, investirem em energias renováveis e promoverem estilos de vida conscientes, tornam-se verdadeiros motores da transformação ecológica.
O caminho para enfrentar as alterações climáticas é, inevitavelmente, um esforço coletivo. E é nas pequenas cidades, onde cada ação é visível por estar bem perto de todos, que cada decisão é sentida e cada cidadão conta, que se encontram algumas das maiores oportunidades para construir um futuro mais verde, resiliente e justo.
As alterações climáticas estão à vista. Temos que agir...
... amanhã pode ser tarde… !
...quase poema... ou das coisas bonitas
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Hora da merenda. A mãe gostava tanto de cibinhos de entremeada... cortados fininhos e postos num pratinho, com pão centeio e um raminho de salsa... só para ficar bonito... Não entendia, minha mãe, como gostavas tanto do toucinho... se havia sempre presunto... e a marmelada era tão doce, guardada em malgas na prateleira de cima do louceiro...
... o tempo passou... e hoje que entardece... e chove... como eu te entendo Eugénia Minga... minha mãe... que bem sabe a entremeada do nosso porco... com pão e uma folhinha de salsa do nosso quintal...
... só para ficar bonito!
Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança.
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”.
A PORTA ESTÁ ABERTA, ATÉ OS CÃES ENTRAM
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Havia na igreja de Santo Ildefonso, no Porto, abade conhecido pelos ditos espirituosos e assombradas atitudes.
Tinha como coadjutor jovem presbítero chamado Flores, se não estou em erro. Nessa recuada época não era nascido, e o que sei, é por via oral.
Ora apareceu certa ocasião, "grã-fino" para marcar matrimónio. Entregou os documentos necessários e, marcou-se a data.
Compareceram no dia indicado, os noivos e convidados. As senhoras usavam generosos decotes e ombros descobertos; vestuário arrojado para a época.
Entrou paramentado o abade. Viu o espetáculo indecoroso. Engoliu em seco e, declarou em voz severa: - " Não caso gente em traje indigno para a Casa do Senhor!..."
Levantou-se burburinho; houve ameaças; altercações; e ergueu-se ténue rumorejo entre os convidados.
Não houve outro remédio, perante a obstinação do sacerdote: - os cavalheiros despiram os casacos e, as senhoras encobriram os ombros com eles.
Dias depois do " Casamento das despidas", os fofoqueiros portuenses confidenciavam, entre risos escarninhos, o casamento carnavalesco.
Outro caso, também, curioso:
Havia mulher que participava na missa de contas pendentes das mãos, sussurrando Ave Marias. Depois permanecia horas a fio fazendo trejeitos diante de cada imagem.
Uma vez entrou o abade no templo, presenciou a deplorável cena e, não se conteve: -" A senhora não tem que fazer em casa?! Se sim, dou-lhe uma vassoura e varra-me a igreja."
Encolheu-se a beata, tossiu e enfiou-se acobardada pela porta, ruminando impropérios.
Mais um dito do velho abade:
Belo dia estando o bom abade tentando evangelizar jovem janota, este, petulante, lhe disse: - " Se soubesse os mariolas que assistem à sua missa!..."
Ao que prontamente o sacerdote repostou: - " A porta da igreja está aberta, até os cães podem entrar..."
Como a porta se encontra aberta, no templo, a todos, o mesmo acontece nos partidos políticos: todos podem entrar...
Depois sucede como nos Estados Unidos com o partido “Republicano”, que foi respeitado e democrata, e contou com Lincoln, admirado e respeitado em todo o mundo; e agora tem Trump, com carisma, mas sem probidade.
Instituições, associações e partidos políticos, sejam da esquerda ou da direita, são o que for o líder: umas vezes são ótimos; outras vezes péssimos. Depende de quem os lidera.
Humberto Pinho da Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG” e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".
Vimioso: Inscrições para o Rancho Folclórico que celebra 30 anos
“Para celebrar o 30º aniversário do Rancho Folclórico de Vimioso, gostaríamos de organizar um evento comemorativo com a participação de outros ranchos e sessões de interação e dança com o público”, adiantou a dirigente associativa.
Questionada sobre o que foi mais gratificante ao longo destas três décadas na direção da Associação para o Desenvolvimento Cultural do Concelho de Vimioso (ADCCV), Elisabete Fidalgo, destacou as amizades e o espírito de missão das pessoas na salvaguarda e divulgação da cultura popular de Vimioso.
“Desde a fundação do Rancho Folclórico de Vimioso, em 1996, organizámos todos os anos, o Festival de Folclore de Vimioso, que conta com a participação de grupos de várias regiões do país e do estrangeiro, com os quais estabelecemos intercâmbios ou permutas”, disse.
No que respeita, às dificuldades, a dirigente associativa indicou que o maior problema continua a ser o despovoamento e o êxodo dos jovens, por causa da falta de ensino secundário no Agrupamento de Escolas de Vimioso.
“O despovoamento e o êxodo dos jovens são fatores que põem em risco a continuidade do Rancho Folclórico de Vimioso. Por outro lado, recordo que a Associação para o Desenvolvimento Cultural do Concelho de Vimioso (ADCCV) é uma entidade sem fins lucrativos, ou seja, as pessoas participam voluntariamente, porque gostam das danças, do canto, da música e pela afeição que têm pelo folclore e pelas tradições da nossa terra”, disse.
Segundo a ADCCV, atualmente, participam no Rancho Folclórico de Vimioso, 41 pessoas (adultos, jovens e crianças), maioritariamente do concelho de Vimioso e algumas do concelho vizinho de Miranda do Douro.
“Os ensaios do Rancho Folclórico de Vimioso realizam-se nos serões de sexta-feira, a partir das 21h00, no pavilhão multiusos. De momento, abrimos as inscrições para admissão de novos membros, na dança, no canto e nos instrumentos musicais”, informou.
De acordo com a presidente da Associação para o Desenvolvimento Cultural do Concelho de Vimioso (ADCCV), Elisabete Fidalgo, “o folclore está na moda” e há cada vez mais jovens a interessarem-se pela música e pela dança tradicional.
“Os jovens divertem-se muito ao dançar e cantar nos ranchos folclóricos. Esta participação também lhes permite conhecerem outras regiões, culturas e pessoas, no país e no estrangeiro, o que torna os jovens mais abertos, cultos e sociáveis”, destacou.
No repertório, o Rancho Folclórico de Vimioso já editou dois CD’s, com temas como “Ó Celeste vem comigo”, “Carrinho Transmontano”, “A Castanha do Ouriço”, “Os Pratos da Cantoneira”, “Loureiro” ou “Maganão”, recolhidos junto da população mais idosa do concelho de Vimioso.
“Neste momento, estamos a preparar um terceiro CD, desta vez com temas alusivos aos Cantares dos Reis e à tradição da Encomendação das Almas”, adiantou.
No Domingo, dia 8 de fevereiro, o Rancho Folclórico de Vimioso vai atuar na Feira do Fumeiro, em Vinhais.
Balbina Mendes expõe “A Segunda Pele” em Macedo de Cavaleiros
Apesar de inicialmente ser pensada para outro local, acabou por encontrar em Macedo de Cavaleiros o enquadramento ideal, tanto pela época do ano como pela ligação ao território e às tradições transmontanas:
As máscaras dos rituais de inverno do Nordeste Transmontano são o ponto de partida desta exposição. Um elemento recorrente no trabalho da artista, que aqui ganha um significado e uma dimensão mais profunda, ligada à identidade e à condição humana:
Mais do que observar pintura, Balbina Mendes quer provocar uma experiência ao público. Uma visita que começa pelo prazer estético, mas que se prolonga numa reflexão pessoal e coletiva sobre quem somos e os valores que transportamos:
A Segunda Pele, de Balbina Mendes, inaugura este sábado, pelas três da tarde, no Centro Cultural de Macedo de Cavaleiros, e fica exposta ao público de 7 de fevereiro a 8 de março.
Reunidos 30 mil euros para salvar o abutre-preto no Douro Internacional
A iniciativa foi promovida pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, com sede no concelho de Vimioso e, segundo o seu presidente a mobilização foi surpreendente.
“Tínhamos alguma confiança que fôssemos conseguir. Efetivamente, houve uma grande mobilização da sociedade civil, além de toda a rede que felizmente vai acompanhando o nosso trabalho e o trabalho dos nossos parceiros. Tivemos de forma muito interessante momentos de intensificação de apoios de pessoas comuns, da sociedade civil no seu todo, e depois um conjunto de empresas e organizações também internacionais, nomeadamente a Light Source e a REN, que acabaram por corresponder às nossas necessidades”, explicou José Pereira.
Entre as ações já concretizadas está a conclusão do período de aclimatação de seis abutres-pretos, que regressaram à natureza no final de outubro de 2025. Foi também realizada a limpeza da área ardida, reaproveitada a estrutura de um contentor destruído pelo fogo para construir uma nova infraestrutura de apoio e adquiridos equipamentos essenciais, como painéis solares e baterias, para garantir o funcionamento autónomo do sistema de videovigilância.
Já foram também construídos três ninhos artificiais e reconstruídas quatro plataformas-ninho afetadas. Paralelamente, foram instalados bebedouros e comedouros para a fauna selvagem, promovendo a recuperação da base alimentar do ecossistema a médio e longo prazo.
Mas ainda há muito para fazer. “O tempo e a meteorologia não têm ajudado, por isso tem havido alguns atrasos que não eram expectáveis, mas pronto, está tudo em andamento na medida do possível. E se tínhamos previsto, por exemplo, fazer cerca de 20 hectares de sementeiras para a fauna selvagem e apoio à pastorícia, fruto deste temporal constante não conseguimos atingir esse objetivo. Estamos agora a adaptar e iremos instalar sementeiras de primavera, não é, com outro tipo de variedades, com outro tipo de fundo de leguminosas para tentar continuar a dar resposta”.
A monitorização da colónia tem sido contínua e intensiva, permitindo avaliar os impactos do fogo e ajustar as medidas de conservação. “E naturalmente temos um reforço muito significativo das equipas no terreno para monitorizar a população e no fundo a resposta que dão ao evento extremo que tivemos em agosto, mas também e nesta fase muito concreta estamos muito preocupados naturalmente com o impacto que esta tempestade ou estas tempestades que se vão acumulando possam ter também nestes ninhos. Por isso estamos no terreno também sempre a monitorizar e preparados para dar uma resposta urgente”, concluiu.
A campanha de angariação de fundos “Ajudar o abutre-preto após incêndio no Douro Internacional”, lançada em agosto de 2025, e com ela conseguiram angariar-se 30 mil euros para fazer face ao que o incêndio no Parque Natural do Douro Internacional destruiu.
Mirandela atribui 39 novos lotes industriais e prevê investimento de 11 milhões de euros
A Câmara Municipal de Mirandela divulgou que já foram atribuídos os novos 39 lotes resultantes da expansão da Zona Industrial. O vice-presidente da autarquia, Orlando Pires, estima um impacto de 11 milhões de euros de investimento privado.
“O concurso público de atribuição ficou concluído com várias candidaturas, das quais resultam a atribuição de 64% dos lotes, que vão ter origem no investimento de 11 milhões de euros e que prevê a captação e a criação de 86 postos de trabalho”, apontou.
Orlando Pires explica que a atribuição dos lotes, na recente Área de Acolhimento Empresarial, atrasou devido a um parecer da Agência Portuguesa do Ambiente e também a um estudo de impacte ambiental. “Essas autorizações externas também condicionaram e tiveram influência nos prazos. Houve um grande movimento de terras, também foi necessário garantir que a rede elétrica nacional, conseguia dar resposta a todas as necessidades de reforço de infraestruturas através de um posto de transformação”, contou.
O vice-presidente do município de Mirandela aponta ainda que o número de lotes atribuídos superou as expetativas. “Estamos satisfeitos com estes números porque houve uma grande adesão dos empresários, muitas candidaturas, e entretanto, enquanto decorria esta primeira fase, fomos contactados por muitos empresários que não conseguiram concorrer nesta fase a demonstrar interesse em concorrer na seguinte”.
A Câmara Municipal de Mirandela pretende executar a atribuição total dos lotes durante o ano de 2026. O investimento foi de 3 milhões de euros, uma obra financiada pelo Norte 2020 a cerca de 70%.
Resolver constrangimentos de abastecimento de água e saneamentos "é o principal foco"
Foi a primeira vez que se candidatou ao cargo. Em entrevista ao Jornal Nordeste partilhou as principais prioridades para este mandato. Resolver os constrangimentos relacionados com o abastecimento de água e saneamentos é uma delas. Trata-se de um investimento próximo dos 20 milhões de euros, avança o autarca.
“Esse, de facto, é o nosso principal foco, darmos aqui resposta a um problema que é do concelho, não só da cidade. Portanto, gostamos de trabalhar já nesse sentido, já temos aqui projetos aprovados no âmbito do Círculo Urbano de Água, que nos vai permitir substituir condutas, que nos vai permitir a monitorização de depósitos através de telemetria. Portanto, esse é um trabalho que já está a ser executado, já está no terreno. A segunda fase será a reabilitação daquilo que são os pavimentos, daquilo que é a rede viária, que também está a necessitar. Temos vindo a falar na ordem de um investimento próximo de 20 milhões de euros para podermos ter as condutas, para podermos termos a solução da água, mas também a regularização dos pavimentos que são determinantes e muito importantes.”
No Orçamento Municipal aprovado para este ano, que ronda os 43 milhões de euros, o presidente da câmara de Mirandela destacou a criação de um pavilhão multiusos, a reabilitação do parque desportivo, bem como a revitalização do Mercado Municipal, que acredita que estará para breve, visto já existir um projeto de financiamento.
“Estamos a trabalhar agora naquilo que é fundamental, perceber como é que vamos resolver as infraestruturas adjacentes enquanto a obra decorre. Isto é, os comerciantes têm de continuar a faturar, têm de continuar a vender e temos de criar aqui uma logística paralela onde possamos albergar essas pessoas durante esse período e esse. A obra acabará por ser uma intervenção mais profunda do que aquela que inicialmente estava prevista, incluindo também a componente do estacionamento, para o qual também já adquirimos um espaço junto à praça do mercado, para alargarmos a nossa oferta de estacionamento. O valor global ainda não está completamente definido, até por causa dessa infraestrutura, mas andará sempre na ordem dos 10 milhões de euros.”
Vítor Correia avançou ainda que numa reunião com o ministro das Infraestruturas, no passado dia 20 de janeiro, também se levantou a questão sobre o estado de degradação da ligação da Estrada Municipal 578, que liga Mirandela ao IP2. Um investimento que não poderá ser suportado pelo município, devido ao elevado valor, e poderá estar em cima da mesa uma alteração do Estado Municipal para o Estado Nacional, desta infraestrutura.
“É uma estrada municipal, mas que serve muitos concelhos, como o concelho de Miranda do Douro, de Freixo de Espada à Cinta, de Torre de Moncorvo e Alfândega da Fé. O nosso hospital serve a essas pessoas e esta estrada é um handicap bastante grande para poder servir condignamente as pessoas que vêm em direção à nossa cidade. Estou a falar na questão da saúde, mas podia falar também na questão do comércio, que as pessoas acabam por ter um escape, digamos, se me permite a expressão, em direção a outros locais, nomeadamente Vila Real, quando temos aqui a proximidade a essa estrada temos que reabilitar e temos que pensar que é uma estrada que não pode ser reabilitada com capitais municipais, tem que ser uma estrada com capitais do Governo Central.”
A entrevista ao presidente da Câmara Municipal de Mirandela, Vítor Correia, poderá ser ouvida na íntegra hoje na rádio Brigantia a partir das 17h.
Morte Diabo e Censura
Com o envolvimento da comunidade local, da Academia Ibérica da Máscara, da Associação FISGA, de coletividades, instituições de solidariedade social e estabelecimentos de ensino (incluindo associações de estudantes), é possível recriar a dinâmica do século passado, quando centenas de pessoas participavam ativamente nessa tradição.
Vinhais, uma Terra dos Diabos, como também é conhecida, na Quarta-Feira de Cinzas, 18 de Fevereiro será invadida por um vasto grupo de Diabos liderados pela Morte.
A Morte e os Diabos, em Vinhas, dia 18 de Fevereiro, uma tradicional Festa de Inverno a não perder!
👺 Vêm aí dois dos momentos mais emblemáticos do inverno transmontano: “𝐓𝐫𝐚𝐝𝐢𝐜̧𝐨̃𝐞𝐬 𝐝𝐞 𝐈𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨: 𝐁𝐮𝐭𝐞𝐥𝐨, 𝐂𝐚𝐬𝐮𝐥𝐚𝐬 & 𝐂𝐚𝐫𝐞𝐭𝐨𝐬” e a “𝐌𝐀𝐒𝐂𝐀𝐑𝐀𝐑𝐓𝐄 – 𝐗𝐈𝐈 𝐁𝐢𝐞𝐧𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐌𝐚́𝐬𝐜𝐚𝐫𝐚”.
As iniciativas foram apresentadas oficialmente esta semana, em Bragança (Portugal) e Zamora (Espanha), reforçando a dimensão transfronteiriça e a projeção internacional destas iniciativas que afirmam identidade, cultura e território.
Marque já na sua agenda:
- “Tradições de Inverno: Butelo, Casulas & Caretos”: 13 > 17 de fevereiro
- “MASCARARTE – XI Bienal da Máscara”: 12 > 18 de fevereiro
Conheça o programa completo e todas as novidades AQUI.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
As Aventuras de Salvador Num País Pouco Seguro
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)
Nota da autora: a estória que se segue é mera ficção. Não retrata nomes, pessoas ou factos verdadeiros. Se caso houver de qualquer semelhança com a realidade, certamente será obra da mais pura coincidência.
Salvador Silva de Matos, criatura de humildes origens, parida em remota gruta escondida entre agrestes silvados da serrania, meteu-se-lhe na cabeça, era ele um petiz que, um dia, ainda haveria de ser rei de um suposto chão sem dono.
Coube-lhe a ventura da nascença em território desvalido, dado à adoração de questionáveis adivinhos com sabedorias de oráculo.
Assim, pois, cresceu ele confiante, de mãos dadas com Lelo Porcino e Tita Severa, amigos do peito, em façanhas dignas de grandes iluminados.
Porventura, as maiores certezas lhe vinham de arraigada crença sobre os seus antepassados, senhores de quintas e palácios. Heranças que, com certeza, lhe pertenciam, se não por escritura pelo menos por desígnios.
E fora precisamente por esses reais lugares, numa caminhada pela natureza, que o excelso fenómeno lhe sucedera. De olhos postos num casal de passarinhos agarrados ao ramo de centenária árvore, embevecido pela troca de afetos entre ambos, como só a um coração compassivo como o seu seria possível, o espírito foi-lhe atravessado por raio de luz, absolutamente revelador. Não ouviu palavra alguma, mas tudo lhe ficou claro.
Tal como Saulo, antes de ser Paulo, a caminho de Damasco, também ele foi interpelado na sua revigorante caminhada daquela manhã, que pretendia fazer até Belém. Já não foi. Voltou para casa, de mãos postas ao Alto, consciente do sentido espiritual da coisa. Na verde flora sentira o chamado para a missão de corrigir o que estava errado no mundo.
Não precisava de testemunhas, apenas da sua fé, para reavivar as crenças de menino e desenvolver ainda mais particular sensibilidade para os caminhos eclesiásticos que acreditou, durante algum tempo, serem a sua maior vocação. O certo é que, apesar dos mandamentos lhe estarem na ponta da língua, sentia-se facilmente impelido a contorná-los com assustadora vontade.
Uma incongruência que acabou por perceber ter origem na violenta paixão desenvolvida por encantada beldade, de lustrosos e densos cabelos, pele macia cor de canela e doces olhos negros, com origem omissa. Daqueles amores avassaladores capazes de desorganizar furiosamente aptidões predestinadas.
Quando a doutrina, que precisa de firmeza, começou a falhar-lhe e o conflito de desejos o deixou num estado de permanente perturbação, viu-se obrigado a desprender-se da vocação, ainda que conservando o seu apetite pelo dogma. Diante disso, continuou a amar o próximo mas, então, sob condições muito bem definidas. Desde que este fosse claramente um seu semelhante, pois assim O Senhor criou o homem.
Deste modo, subsistindo na ideia de ser possuidor de raro talento, tornou-se letrado. Crente de que só desse modo um rei conquista a atenção de tantos inocentes e ingénuos que descobrem um abrigo em noites de tempestade, sem se darem conta dos telhados feitos de papel. Afinal, o estudo não é pouca coisa quando ajuda um homem a conseguir dizer com elevado fervor, banalidades e superficialidades, que soem a epifanias.
E a vida continuou.
Logo pela manhã, não carecia de relógio para se levantar da cama. A revolta de viver nesta pequena casa em ruínas, como proclamava, funcionava-lhe como despertador biológico. Ao acordar dominava-o sempre o sobressalto característico de todos aqueles que se entendem presença indispensável para o planeta.
Depois do pequeno-almoço, invariavelmente apressado, dirigia-se ao espelho, a ajustar a gravata como se estivesse a cingir ao pescoço régia faixa. Era ali, diariamente e com afinco, que treinava frases simples para problemas profundos, repetindo-as até à exaustão. Não tinha interesse na complexidade. Com efeito, suspeitava dela. Para ele, verdades factuais eram acessórios de ordem meramente técnica, absolutamente dispensáveis para quem tão bem se entende com impulsiva verborreia carregada de emoções. E não é desse pão que o povo se alimenta?
Num ato de culto à própria imagem, aprumava o tronco, lançava o queixo para a frente e esboçava um sorriso retorcido numa imitação imperfeita do seu ídolo máximo e inequívoco manifesto de genialidade, Maximiliano Trampa. A incivilidade decorosa erguida ao patamar de liderança, que enfeitiçava e incitava multidões. Venerava-o com sacramental respeito.
Descia, então, à rua. Pela trela, o seu chihuahua, Rocky, acompanhava-o. Um diminuto cão dado ao nervosismo, de latido um quanto histérico, que se lançava contra estranhos com impetuosidades desproporcionadas ao tamanho do corpo. Salvador via nele o reflexo fiel de uma alma congénere.
Na pastelaria do rés-do-chão, Anjali, funcionária incansável, servia-lhe um café.
— Obrigada Anjála… Anjalá… É isso, não é? — E pronunciava-lhe o nome, sorridente e irónico, fazendo inútil esforço à língua alheia.
Já do outro lado da estrada, à porta do mercado, lá acabava por se cruzar, uma vez mais, com as antigas figuras do bairro, Manel Duarte e Maria Rosa. O casal de ciganos a descarregar caixas de fruta.
Salvador observava-os de viés.
— Bom dia. Então, muito trabalho? — Cumprimentava, riso cáustico, enquanto Rocky, com manifesta energia canina, lhes ladrava às canelas, a farejar benesses iminentes.
Salvador puxava da trela:
— Quieto, Rocky. Aqui ainda mandamos nós.
Por fim, no adro da igreja, D. Leopoldina acenava-lhe. Frequentadora assídua da missa das sete. A ela, saudava-a com pronta diligência e uma vénia cordial.
— Deus a acompanhe, minha senhora.
Dentro de zona familiar, Rocky caminhava de torso inchado.
As manhãs de Salvador eram ocupadas por longos passeios, que ele afirmava serem “para pensar o país”. Vestido com a pele de exímio detetive, avaliava cada episódio, ocorrência ou peripécia fora do comum, ocorrida no bairro, como indício irrefutável de que aquele já não era seguro. Nunca vivenciara nenhuma experiência concreta, mas as evidências não mentiam e, sobretudo, permitiam-lhe que a ideia assentasse bem na oratória. Falar mais de defeitos do que de virtudes exige que, se num país não se vive com segurança, alguém seja escolhido para o endireitar.
No fundo, detentor de elevada esperteza, Salvador era mais um espécime, entre tantos, convencido da coroa lhe pertencer por direito divino, enquanto se ria dos outros e ao mesmo tempo exigindo ser levado à séria.
Necessariamente, o tempo trouxe-lhe uma coleção de inimigos. Sentia-se perseguido por ambicionar ocupar o centro de um palco que lhe devia ser concedido. De toda a forma, o que é um verdadeiro salvador se não tiver inimigos? Um simples homem com umas poucas de opiniões.
Mas os amigos de confiança permaneciam ao seu lado. Lelo Porcino e Tita Severa. A eles revelava as suas aspirações mais íntimas. Que havia nascido para algo glorioso.
Lelo, homem de fortes convicções e exaltação fácil, formado em Diplomacia da Martelada. Porém, começara a falar muito e mal desde célebre cornada recebida em improvisada arena, quando decidira desafiar escorreito touro, em nome da bravura. Aniquilara-se-lhe a coerência expressiva. Com repentinos arroubos, as palavras saíam-lhe em atropelos e cada apreciação proferida logo se levantava em contradição, antes mesmo de ter assentado. Diziam as más-línguas do povaréu que aquilo era mal do juízo curto.
Tita, senhora de opiniões firmes e paciência curta, estudada em Arquitetura de Oportunidades. Uma figura mais intrincada. Filha de mãe incógnita, ocultada por pudor. A identidade refinada, de arestas polidas, herdara-a do lado paterno, único ramo genealógico que reconhecia como digno de memória e de quem se orgulhava com afeição. Fazia brasão íntimo da sua biografia: professa das nobres condutas do catecismo, obstinada defensora de bons costumes e dama de pomposo recato, vivia os dias como extremosa dona de casa. As noites eram gozadas, livremente, a cantar fado nas mourarias, fazendo uso desta arte como expiação para todos os contrassensos que pautavam a sua existência.
Lelo Porcino e Tita Severa, dois paradoxos em movimento, mas profundamente coerentes consigo próprios. Para ambos, a questões morais que lhes coubessem, eram sempre uma questão de posicionamento e de ajustes.
Pela tarde, os encontros davam-se na Taberna do Tio Eusébio, venerável espaço de coexistência do vinho e dos alvitres, a competirem em acidez e rudeza. Em jeito de tertúlia, ali se juntava o séquito habitual, a despejar copos e conversa fiada sobre os carrapatos da sociedade.
Para além dos habituais convivas, Lelo e Tita, haviam ainda o Tó da Oficina, com experiente traquejo em soluções duradouras; o Neca do Ginásio, fervoroso adepto da força como argumento; o Joca das Apostas, expedito em prever o futuro de forma tão certeira como perdia o dinheiro dos bolsos dos compinchas; e o velho Zé do Barril, grande especialista em tudo. Vez por outra, aparecia também o Kiko Branco, jovem de músculos tatuados com símbolos históricos, botas pesadas mesmo no verão e cabeça rapada, ao léu, até no inverno. Instintivamente ressabiado, rapaz de elevadas suscetibilidades, com ideias fixas que lhe serviam de desculpa para fúrias impacientes.
Uma plateia que fazia brilhar Salvador Silva de Matos, com o seu discurso abundante e fraca argumentação, mas uma lábia que extasiava os crédulos irrefletidos e descautelados.
— Antigamente, isto não era assim! — Assertiva que lançava para tudo justificar, desde o estado calamitoso do país até ao preço do pão. — Estamos precisados de alguém com pulso.
— E visão! — Acrescentava Tita, de olhos afiados e voz afinada.
— E arrojo! — Rematava Lelo, com um murro na mesa, anafado e engasgado com a saliva da boca.
Os outros aprovavam.
— É isso mesmo. Tem que haver alguém capaz de dizer as verdades. — Esbravejava o Neca.
— Eu não sou contra ninguém, mas há por aí gente a mais e instruídos de menos. Há que haver ordem ou afundamos de vez. — Apostava o Joca.
— Isto acabava num mês se te deixassem mandar, ó Salvador. Olha que quem é sério não deve nada a ninguém… — Berrava o Tó.
— Um dia isto vai terminar! — Garantia Salvador, com aquele visível deleite dos justiceiros de sofá. — Vamos sepultar de vez todos os que por aí andam nessas confrarias e irmandades de palavras gastas, a enganar-nos com festas cívicas de nomes chiques, para parecerem inteligentes. Nós, aqui, não precisamos de ler livros para percebermos que, no fundo, é tudo pão com chouriço, só para comermos aquilo que nos querem dar.
Punha gosto em ouvir-se indignado. Dava-lhe uma composta sensação de autoridade. E sorria, a mostrar os dentes de pouco sizo.
Sob a mortiça luz da taberna, Tio Eusébio agraciava-o com gorduroso prato de rojões a crepitar em banha. Salvador, lambendo os lábios, agradecia-lhe a ele e à bem-aventurada providência.
— É como este pitéu, caro amigo. Nada de molhos estrangeiros!
Kiko Branco, muito atento à assembleia, escutava. Não aprovava, não desaprovava, não discutia. Guardava a sua admiração no canto do olhar frio e silenciosa reverência no corpo ereto.
Zé do Barril, por sua vez, limitava-se a erguer o copo. Já todos tinham falado por ele. Limpava os olhos, comovido, com medo que a visão turva o fizesse perder o milagre. Mais do que nenhum outro, ele sabia. Acreditava com a confiança dos desesperados que Salvador já não era tão só um homem: ele era o Homem. Qual D. Sebastião, O Desejado, Salvador surgia-lhe, na frente, pronto para socorrer um mundo perdido.
Convictamente ciente de que a sua terra fora abandonada por todos, menos por si, assim o dedicado Doutor ocupava as sua tardes, em aparatoso gesticular e arrebatador entusiasmo, a esganiçar-se – como se a altura da voz fosse forma de mostrar saber – sobre o imperativo de grandiosas reformas nos hábitos, nos comportamentos e nos pensamentos de muitas gentes que moravam no mesmo solo de horrendos traidores e conspiradores, destruidores de vidas, sem mostras de sentimentos de culpa, movidos por forças obscuras.
O púlpito entendia os alertas e perdoavam-no quando o viam tropeçar em contradições, virtude considerada, por todos, acima da lógica. Ouviam-no em postura de extrema devoção e ninguém o questionava sobre o “como”. O “quê” era-lhes suficiente.
Alguns choravam. Outros aplaudiam com genuína gratidão, ainda que antes ou depois do tempo. Outros havia que filmavam, receosos de perderem os melhores momentos do ousado e corajoso mestre. Debaixo da mesa, Rocky, senhor do território, ladrava em concordância.
Salvador sentia-se como afoito pastor no meio de ovelhas desorientadas e agradecidas. Piscava o olho a si mesmo. Imensa é a sedução da promessa de purezas num mundo decadente e cheio de confusão!
Se alguém dele diferisse, era de imediato apontado como fazendo parte da comandita d’“eles”. Termo abrangente, muito flexível e de vasta utilidade. Pois Salvador mostrava-se profundamente abominador de quem dúvidas de si tivesse. Avesso a esses amantes de um lugar seguro. A segurança de quem se deita, em estado vegetativo, num silêncio incapaz de despertar paixões e inspirar massas. Faceta messiânica desta natureza só a muito poucos era concedida.
Pelo fim do dia, Salvador, imperturbável, recolhia-se ao conforto do lar, com Rocky já cansado ao seu colo, certo de que os erros dos outros lhe serviriam sempre de combustível e a esperança veemente de que, por esse motivo, alguma vez deixaria de ser confundido com um comum cidadão. Ainda que na manhã seguinte o país acordasse igual, os silvados e o mato continuariam a crescer, densos, prontos para uma desinfestação que somente ele, de mangas arregaçadas, estava disposto a dar seguimento com zelo e método.
Talvez a sua mãezinha fosse dona da razão quando, em tempos, lhe dissera que tivesse sempre olho esperto e que jogasse pelo seguro. E que esperasse. Porque, afinal, ele morreu de velho.
Paula Freire. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome.
Exposição de Fotografia: “Memórias de um Olhar por Noel Magalhães”
Conhecido como “o fotógrafo do Douro”, por o fotografar exaustivamente desde há mais de setenta anos, a obra fotográfica de Noel Magalhães vai muito além dos registos que tradicionalmente se lhe conhecem. Esta exposição apresenta uma série de fotografias inéditas e outras que, apesar de terem circulado por várias exposições de fotografia no país, permanecem pouco conhecidas. Este acervo integra um conjunto de fotografias enviadas para concursos e exposições e um conjunto de fotografias impressas a partir dos negativos doados, algumas das quais foram presentes a exposições.
A exposição estará aberta ao público de 9 de fevereiro a 15 de abril, na Galeria de Exposições do Centro Cultural de Vila Flor.
Entrada livre!


















