Chamava-se Tsutomu Yamaguchi. Natural de Nagasáqui, labutava desde 1930 na Mitsubishi no design de petroleiros, mas no dia 6 de Agosto de 1945 estava em Hiroxima, a caminho do trabalho. Conheça a sua história excepcional.
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| Shutterstock - 10 de Julho de 2018: Um jovem rapaz olha para os restos icónicos do edifício industrial de Hiroxima, destruído pela explosão da bomba atómica da Segunda Guerra Mundial. |
Perguntava Sting na sua famosa canção “Russians”, em 1985, “How can I save my little boy from Oppenheimer’s deadly toys?” (Como posso salvar o meu filho dos brinquedos mortais de Oppenheimer?).
Referia-se à bomba atómica, à qual quarenta anos antes um cidadão japonês conseguiu escapar... duas vezes. Na superfície, o indivíduo em questão é uma anomalia história. É o homem que sobreviveu a ambas as explosões nucleares em Hiroxima em Nagasáqui, mas a sua história encerra uma lição bem mais profunda e importante para o que somos e seremos como Humanidade.
UMA MANHÃ SOALHEIRA EM HIROXIMA E UMA LUZ MAIS INTENSA QUE MIL SÓIS
Chamava-se Tsutomu Yamaguchi. Natural de Nagasáqui, trabalhava desde 1930 na Mitsubishi no design de petroleiros; mas no dia 6 de Agosto de 1945, estava em Hiroxima, a caminho do trabalho. Atrasado, caminhava veloz rumo ao escritório da Mitsubishi, onde contava finalizar os pormenores de um projecto que devia entregar nesse dia. A sua expectativa era terminar o mais rápido possível e regressar à sua cidade natal, estar com a sua família. No meio deste bulício, escutou o barulho de motores sobre si. Era um bombardeiro B-29; e do seu ventre saiu um pequeno objecto com dois pára-quedas que descia lentamente sobre o solo.
Eram 8h15 da manhã, o dia instalava-se, mas segundos depois, Yamaguchi assistiu a um relâmpago de luz e um estrondo tremendo que cavalgaram na sua direcção sobre a cidade. A três quilómetros do ponto de impacto, o engenheiro foi projectado violentamente antes de se proteger, por instinto, numa vala de irrigação.
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| ARCHIVO GBB/CONTRASTO/REDUX - Uma nuvem em forma de cogumelo paira sobre a cidade japonesa de Hiroxima a 6 de Agosto de 1945, depois de os EUA terem lançado a primeira bomba atómica alguma vez utilizada em guerra. Três dias depois, uma segunda bomba atómica destruiu a cidade de Nagasáqui. O Japão rendeu-se a 15 de Agosto. |
Quando a comoção terminou e despertou da inconsciência, horas depois, arrastou-se para o exterior e sentiu dores no corpo todo. Um dos seus tímpanos rebentara, a parte superior do corpo tinha queimaduras graves. Procurou um lugar onde pudesse abrigar-se. Pelo caminho, foi ajudando a desenterrar cadáveres que se encontravam entre destroços. A Hiroxima onde começara a manhã era agora um imenso espaço terraplanado.
Finalmente, encontrou um abrigo militar, preparado para proteger de ataques aéreos. Enquanto encontrou alguns colegas, questionando o que lhe acontecera, não se sentiu seguro. Tinha a certeza de que aquele local, supostamente de protecção, não serviria contra a bomba que testemunhara. Era completamente diferente de qualquer outra que conhecia ou ouvira falar. E tinha razão. Yamaguchi assistira à detonação da Little boy, a primeira bomba atómica a ser usada em cenário de guerra. A contagem futura de vítimas seria de cento e quarenta mil mortos, sendo que muitas dezenas de milhar morreriam nas décadas seguintes como consequência de envenenamento por radiação.
Hiroxima, à altura uma das mais importantes cidades industriais do Japão e em séculos anteriores centro de operações militares, seria no futuro conhecida como a primeira mártir do átomo. Porém, Harry Truman, presidente dos EUA, escolhera-a, juntamente com o Estado-Maior das Forças Armadas americanas, precisamente pela sua posição estratégia como lar de uma das forças militares mais importantes da estratégia nipónica de defesa do Sul do País.
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Às vítimas mais imediatas, na ordem dos cento e quarenta mil, seguiram-se muitas dezenas de milhar nas décadas seguintes como consequência de envenenamento por radiação.
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No entanto, a maior parte das vítimas eram civis. Como Truman mais tarde repetiria, era necessária uma demonstração de força para obrigar o Japão a render-se. Para obrigar ao final de uma guerra que o Imperador nipónico afirmara publicamente querer levar até aos limites drásticos: vencer ou morrer tentando. Hiroxima era, na sua visão, esse exemplo.
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| Domínio Público - A pele da paciente está queimada num padrão que corresponde às partes escuras de um quimono usado na altura da explosão. Fonte: National Archives and Records Administration |
Figuras que o rodearam nesse período – como o seu sucessor na presidência Dwight Eisenhower ou o general Douglas MacArthur, que comandava todo o teatro de operações dos EUA no Pacífico – afirmaram mais tarde ter-se oposto à bomba antes de esta ser lançada. No entanto, não existem quaisquer provas nesse sentido. Sendo que também não há evidências de que a campanha de bombardeamentos incendiários constantes que os americanos haviam usado nas semanas anteriores a 6 de Agosto de 1945 não estivesse a forçar os Japoneses até ao ponto de ruptura.
…E NOVAMENTE EM NAGASÁQUI
Tudo isto eram considerações geopolíticas e morais que não eram prioritárias para Yamaguchi. No dia seguinte, embora ferido, quis regressar a Nagasáqui. Estava preocupado com a situação da sua família. Traumatizado pelo que lhe acontecera, soube que, incrivelmente, algumas linhas de comboio se mantinham abertas, incluindo a que viajava até à sua cidade natal. Deslocou-se a pé e pelo caminho assistiu a um cenário atroz. Atravessou rios a nado, porque as pontes haviam sido todas destruídas – contaria mais tarde as visões dos corpos inchados acumulados, alguns deles fundidos.
A visão ficaria com ele para sempre, mas só lhe interessava chegar à estação e voltar para casa, onde chegou a 8 de Agosto. A primeira coisa que fez foi dirigir-se ao hospital e tratar dos seus ferimentos. Os médicos recomendaram-lhe repouso, mas o engenheiro de 29 anos não queria conviver com as imagens de Hiroxima, precisava de se concentrar em algo. Na manhã seguinte, então, foi trabalhar na sua fábrica; e enquanto explicava ao patrão tudo o que acontecera na manhã de seis de Agosto, encontrando neste a incapacidade de acreditar que uma só bomba conseguiria destruir uma cidade inteira, Fat Man, o segundo engenho nuclear a ser usado na História em cenário de guerra, detonou.
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| Shutterstock Exposição no Museu da Bomba Atómica de Nagasáqui, na cidade onde o Fat Man – o segundo engenho nuclear a ser usado na História em cenário de guerra – foi detonado a 9 de Agosto de 1945. Um dos primeiros forasteiros a visitar esta então vila de pescadores foi Fernão Mendes Pinto. |
Novamente, a mais ou menos três quilómetros de onde Yamaguchi se encontrava. Novamente, o mesmo cenário: corpos em seu redor, um silêncio mortal, mórbido, nos segundos a seguir à explosão. A fábrica foi obliterada, mas desta vez, a fortuna de Yamaguchi protegeu-o por completo: saiu incólume. Desmaiara de novo, mas sobrevivera uma segunda vez. O problema maior que teve no imediato foi uma infecção. Esta deveu-se a não conseguir substituir as ligaduras que lhe protegiam as queimaduras; e como tal, passou a semana seguinte a vomitar.
Em Nagasáqui, morreram à volta de quarenta mil pessoas no impacto inicial. Yamaguchi resistiu. A sua esposa também, juntamente com o filho bébé de ambos. Yamaguchi, traumatizado, mal foi capaz de pronunciar palavra nos dias seguintes à explosão de Nagasáqui; e durante quase 50 anos, foi incapaz de falar sobre o assunto. Depois do fim do conflito, num toque surreal, trabalhou como tradutor para o exército aliado que estava de plantão no Japão.
O casal teve mais duas filhas e quando em 1957 o governo japonês criou o conceito legal de hibakusha, designando os sobreviventes de uma explosão atómica, Yamaguchi candidatou-se aos vários privilégios que o estatuto concedia. Nessa altura, voltara a trabalhar para a Mitsubishi e vivia relativamente saudável com a família, mergulhado nos seus traumas, mas feliz o suficiente para deixar o passado para trás. No entanto, com o passar do tempo e o fantasma da guerra nuclear a pairar sobre o mundo, Yamaguchi foi sentindo a necessidade de falar da sua experiência, lembrar as vítimas, aqueles que não tinha tido a sua sorte. Ou azar. Conta que em 1981 ouviu um discurso de João Paulo II tratando a tragédia de Hiroxima como o da mão humana. Acordou nele uma vontade de fazer algo, mas sentiu vergonha, embaraço pelo facto de não se considerar uma real vítima atómica – tirando o tímpano rebentado, não sofrera outros danos visíveis – e e também pelo estigma que durante várias décadas as vítimas de Hiroxima e Nagasáqui carregaram no país, como doentes infecciosos da radiação, como se pudessem espalhar a sua doença a outros. Por isso mesmo eram muitas vezes preteridos em empregos ou simplesmente… em casamento.
VENCENDO O ESTIGMA DA VÍTIMA
Todos estes obstáculos desapareceram em 2005, quando o filho de Yamaguchi, aquele que era bébé aquando de Nagasáqui, morreu de cancro. Abriu-se à exposição pública, surgindo em dois documentários sobre as explosões e com 90 anos – espantoso, quando pensamos no que passou naqueles quatro dias em 1945. Pediu pela primeira vez o passaporte e viajou até Nova Iorque, onde discursou perante uma audiência no edifício das Nações Unidas. A sua figura impressionou jornalistas e cineastas que o entrevistaram. Enquanto que com outros sobreviventes as memórias parecem distantes, uma colecção de fragmentos dispersos, Yamaguchi vive ainda o passado, é uma prova do mesmo, uma encarnação daquele fantasma luminoso que levou Oppenheimer a considerar-se a Morte destruidora de mundos.
Em 2009, foi reconhecido como o único duplo sobrevivente atómico pelo Governo japonês. No ano ano seguinte, faleceria de cancro no estômago, com a impressionante idade de 93 anos. A sua esposa falecera dois anos antes e tantos eles como os filhos sofreram de problemas relacionados com radiação após 1945.
Tendo-se tornado numa celebridade momentânea, correspondendo-se com Barack Obama ou recebendo a visita de James Cameron, a luta interior de Yamaguchi reflecte-se na totalidade nos poemas que escreveu já idoso. As recordações vivas, mais do que presentes:
“Os corpos estão empilhados uns sobre os outros. E o chão nunca secará
Está empapado da gordura de todas as pessoas que arderam e morreram”
Tsutomu Yamaguchi, o homem duas vezes amaldiçoado e abençoado, mas eternamente assombrado pelo fantasma da bomba atómica.
Actualizado a 9 de agosto de 2026