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BRAGANÇA
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(Henrique Martins)
COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
quinta-feira, 16 de julho de 2026
CENTRO DE FOTOGRAFIA GEORGES DUSSAUD RECEBE EXPOSIÇÃO "TONS DE LUZ", DE ANTÓNIO JOAQUIM FERNANDES
A nova exposição propõe uma reflexão sobre a forma como a fotografia interpreta a realidade através das diferentes tonalidades da luz. Em vez de procurar uma luminosidade absoluta, "Tons de Luz" explora subtis gradações, contrastes delicados e pequenas variações que transformam a perceção do espaço, da paisagem e da arquitetura.
Ao longo da mostra, António Joaquim Fernandes apresenta um conjunto de imagens marcadas pela sensibilidade estética e pela atenção ao detalhe, evidenciando como a luz pode revelar, esconder ou conferir profundidade aos elementos fotografados. Cada obra desafia o visitante a observar para além do imediato, valorizando a contemplação e a interpretação pessoal.
A exposição assume-se, assim, como uma proposta artística que ultrapassa o simples registo fotográfico, convidando o público a descobrir a forma como a luz organiza o mundo visual, destacando volumes, suavizando contornos e criando novas leituras da realidade.
Com inauguração marcada para as 18h00 desta quinta-feira, no Centro de Fotografia Georges Dussaud, a iniciativa reforça a programação cultural do Município de Bragança e afirma aquele espaço como uma referência na divulgação da fotografia contemporânea, proporcionando ao público o contacto com projetos expositivos de elevada qualidade artística.
Do curral para a internet
Há poucas décadas, o mundo de muitas aldeias de Trás-os-Montes começava e terminava quase no mesmo lugar. No curral, na eira, na horta, na pequena estrada de terra batida que levava à vila mais próxima. A vida organizava-se à volta das estações do ano, do nascer e do pôr-do-sol, do som dos chocalhos do gado e da conversa pausada à porta de casa. O tempo corria de outra forma, mais lento, mais pesado, mas talvez também mais cheio.
As mãos pequenas seguravam a enxada antes de saberem segurar um livro ou um lápis com firmeza. Havia galinhas para alimentar, cabras e ovelhas para levar ao monte, lenha para juntar antes que chegasse o inverno. Era uma escola dura, mas também cheia de ensinamentos. Aprendia-se a paciência, a persistência e, sobretudo, a humildade perante a terra.
Os mais velhos transmitiam sabedoria sem livros nem discursos. Bastava uma frase dita enquanto se arranjava uma cerca ou se limpava o curral. “A terra devolve sempre aquilo que lhe damos.” Ou então: “Quem não conhece o frio do inverno não dá valor ao calor do verão.” Eram palavras ou frases simples, mas carregadas de uma verdade que nenhuma universidade poderia ensinar da mesma maneira.
Hoje, porém, o mundo mudou. O curral continua no mesmo sítio, nalgumas casas, com o cheiro da palha e o eco das tradições. Mas mesmo ao lado existe outra janela, invisível e muito poderosa. Uma janela que se abre para todo o planeta. Essa janela chama-se internet.
De repente, uma aldeia que parecia isolada passou a estar ligada a tudo. Um jovem sentado numa cozinha antiga, com paredes de pedra e uma lareira acesa, pode conversar em segundos com alguém do outro lado do mundo. Pode aprender uma profissão, estudar numa universidade distante, trabalhar para empresas que nunca visitará fisicamente.
O caminho que antes levava apenas ao curral ou ao campo, agora também leva ao ecrã de um computador ou de um telemóvel. E esse caminho não é feito de terra nem de alcatrão, é feito de sinais invisíveis que atravessam montes e vales.
Há algo de extraordinário nisso. Durante séculos, o interior foi sinónimo de distância. Distância dos centros de decisão, distância das oportunidades, distância do mundo. Mas a tecnologia começou a encurtar essas distâncias de uma forma que os nossos avós dificilmente imaginariam.
Hoje, um rapaz que ajuda o pai a tratar das ovelhas de manhã pode, à tarde, assistir a uma aula online ou aprender programação num vídeo na internet. Uma mulher que sempre viveu na aldeia pode vender produtos artesanais para clientes de cidades que nunca visitou. Os tempos do Covid19 foram a melhor prova de que era possível. Uma pequena comunidade pode mostrar ao mundo as suas tradições, a sua gastronomia, a sua história.
O curral não desapareceu. Pode transformar-se num ponto de partida.
Mas esta transformação também levanta perguntas. Porque, se é verdade que a internet aproximou o mundo do interior, também é verdade que trouxe novas formas de distância. A distância do silêncio, por exemplo. Antigamente, as noites nas aldeias eram feitas de estrelas e de conversas tranquilas. Hoje, muitas vezes são iluminadas pelo brilho frio de um ecrã.
Há também o risco de esquecermos aquilo que nos fez quem somos. A ligação ao mundo não pode significar a perda da ligação à terra. Uma aldeia não pode viver apenas de redes digitais, vive de memórias, de histórias, de pessoas que ainda sabem olhar para o céu para prever o tempo. Vai chover, as bandeiras da torre da igreja já viraram, estão uma para cada lado.
Talvez o verdadeiro desafio seja encontrar equilíbrio. Conseguir levar a sabedoria do curral para dentro da internet. Mostrar ao mundo que existe um conhecimento antigo, feito de experiência e de respeito pela natureza, que continua a ter valor.
Num mundo cada vez mais apressado, as aldeias ainda guardam a capacidade de parar. De ouvir. De observar.
Talvez seja por isso que o percurso “do curral para a internet” não seja somente uma mudança tecnológica. É também uma ponte entre dois tempos. Entre um passado de trabalho duro e um futuro cheio de possibilidades.
O jovem que hoje pega no telemóvel, depois de tratar do gado, leva dentro de si dois mundos. O mundo antigo, feito de terra e de estações, e o mundo moderno, feito de informação e de velocidade.
Se souber unir esses dois mundos, talvez encontre algo que muitos procuram sem sucesso, uma forma de progresso que não esquece as raízes.
Não há contradição entre o curral e a internet. O primeiro ensinou-nos a viver com dignidade. A segunda pode ajudar-nos a levar essa dignidade mais longe.
E talvez seja essa a grande história do interior no século XXI.
Um lugar onde ainda se ouve o cantar dos galos ao amanhecer, mas onde também chega o eco de todo o planeta.
Como em todos os aspectos da vida é preciso querer, acreditar, ter apoio e avançar, com coragem.
BRAGANÇA RECEBE PELA PRIMEIRA VEZ A ASSEMBLEIA GERAL DA ADAPT.LOCAL E REFORÇA PAPEL NA ADAPTAÇÃO ÀS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS
Será a primeira vez que este órgão da associação reúne em Bragança, uma escolha que reflete o crescente envolvimento do município nas redes nacionais de cooperação dedicadas à adaptação às alterações climáticas e à promoção de políticas públicas mais sustentáveis.
A sessão será presidida por Ricardo Pinto, vereador da Câmara Municipal de Bragança e atual Presidente da Mesa da Assembleia Geral da adapt.local, reforçando a representação institucional do concelho nos órgãos dirigentes de uma associação de âmbito nacional que congrega atualmente 28 municípios portugueses.
A realização desta assembleia em Bragança traduz a estratégia do atual executivo municipal de assumir uma participação mais ativa na definição, partilha e implementação de soluções que permitam responder aos desafios colocados pelas alterações climáticas, promovendo a troca de conhecimento e de boas práticas entre autarquias.
Ao reunir responsáveis municipais de diferentes pontos do país, a Assembleia Geral da adapt.local constitui também uma oportunidade para consolidar parcerias, discutir políticas de adaptação climática e reforçar o papel dos municípios na construção de territórios mais resilientes, sustentáveis e preparados para enfrentar os impactos das alterações climáticas.
A escolha de Bragança para acolher este encontro nacional reforça ainda o reconhecimento do trabalho desenvolvido pelo município nesta área e afirma o concelho como um parceiro relevante na promoção de estratégias de adaptação climática e de desenvolvimento sustentável à escala nacional.
𝗢𝗳𝗶𝗰𝗶𝗻𝗮𝘀 𝗔𝗹𝗱𝗲𝗶𝗮𝘀 𝗣𝗲𝗱𝗮𝗴𝗼́𝗴𝗶𝗰𝗮𝘀 𝗗𝗶𝗴𝗶𝘁𝗮𝗶𝘀 Atividades pensadas para a comunidade, onde a criatividade ajuda a juntar pessoas e a dar vida à aldeia
Projeto cofinanciado pelo Programa Regional do Norte NORTE 2030 , através do Fundo Social Europeu + (FSE+), e pela @portugal.inovacao.social
Conta ainda com o apoio dos investidores sociais Fundação MEO, Fundação "la Caixa" , BPI Solidariedade, @fundacaosantanderportugal, Município de Bragança.
Com o apoio da União das Freguesias de Aveleda e Rio de Onor.
Matadouro de Mogadouro ganha forma e reforça aposta na agropecuária
A infraestrutura pretende reforçar o apoio ao setor agropecuário e assumir-se como um investimento estratégico para a região.
O presidente da Câmara Municipal de Mogadouro faz o ponto de situação da obra:
Além da conclusão da obra, o município está a preparar o modelo de funcionamento da infraestrutura.
A intenção passa pela criação de uma empresa municipal que permita gerir o futuro Centro de Valorização dos Produtos Agropecuários de Trás-os-Montes:
O projeto inclui também novas medidas de apoio aos agricultores e produtores do concelho.
Entre elas está um programa municipal de apoio à vedação de terrenos, destinado a melhorar as condições das explorações pecuárias:
O Centro de Valorização Agropecuária de Trás-os-Montes é um dos projetos-âncora da Estratégia de Eficiência Coletiva PROVERE.
O município acredita que o investimento poderá contribuir para reforçar a competitividade do setor agropecuário e valorizar a produção regional.
Festival Terra Transmontana celebra as Festas e Romarias D’ Antigamente
Marcado para os dias 24 a 26 de julho, o FTT congrega um conjunto de iniciativas culturais, musicais, lúdicas e gastronómicas, que vão decorrer no centro histórico da cidade, junto ao castelo, no Largo da Misericórdia e no Largo Conde de Ferreira.
A vereadora do pelouro da Cultura de Mogadouro, Márcia Barros, disse que esta é uma forma de manter e dar a conhecer as festa e romarias que se realizam no território, com toda a sua componente de reencontros, animação, religiosidade, profano, gastronomia, bailaricos e o convívio comunitário.
“Esta será uma mostra daquilo que as festas e romarias representam ao nível da comunidade, das freguesias e instituições. As festas de aldeia sempre foram, e são, conhecidas e referidas ao longo de todo o ano, principalmente pela diáspora. O verão tem essa particularidade de juntar as pessoas em cada aldeia, vila ou cidade”, indicou a vereadora.
Museu Militar do Castelo recebe 70 mil visitantes mas precisa de um centro interpretativo
Os números foram apresentados durante a cerimónia de celebração do 43º aniversário da constituição oficial deste museu, que está entre os mais visitados do país, realizada na passada quarta-feira, 8 de julho, onde se defendeu a criação de um centro interpretativo militar de Trás-os-Montes. “Recebemos muitos visitantes, principalmente do país vizinho. E temos poucos recursos, nomeadamente humanos para fazer face ao trabalho e a esse número tão elevado de visitantes, mas procuramos valorizar o acervo que temos à nossa responsabilidade”, explicou o coronel João Barreira, atual diretor da instituição.
O museu classificado como Monumento Nacional, conta com sete colaboradores, entre dois militares e funcionários. “Além de mim, que assumo o cargo de diretor, temos mais dois praças, um primeiro-cabo e uma soldado, que desempenham essencialmente funções de vigilância para colmatar as lacunas existentes nos quadros orgânicos de pessoal civil”, referiu o coronel João Barreira.
Festival aéreo Careto Air Show com a edição maior de sempre onde mundo da aviação foi rei
Durante três dias, o AMB foi o palco de acrobacias aéreas arrojadas onde maquina voarias e pilotos desafiaram a gravidade, voos solidários em aviões antigos e exibições noturnas com paramotores iluminados e balões de ar quente. Houve ainda batismo de voos proporcionados pela Força Aérea Portuguesa (FAP), saltos de paraquedas com instrutor e os famosos caretos paraquedistas.
Os pilotos vieram de vários pontos do país, de França e Espanha para participar nesta festa da viação que para além da componente aeronáutica e da acrobacia contou com muita festa e animação.
Segundo o presidente do Aeroclube de Bragança, Nuno Fernandes, o sucesso da edição, que aconteceu “sem acidentes nem incidentes” , já se pensa no próximo festival.
“Mais uma vez foi a oportunidade para muita gente de voar pela primeira vez e que já superamos os mil batismos de voo em dez anos”, disse em jeito de balanço.
A edição deste ano foi a última com a atual direção do Aeroclube de Bragança, confirmada por Nuno Fernandes que encerra em ciclo de uma década de trabalho e dedicação. Agora, a expectativa centra-se no crescimento destas iniciativas que começou com “um porco no espeto e com as piruetas do piloto acrobático Luís Garção”.
Agrupamento de Escolas tem novo centro tecnológico especializado na área de informática
Um investimento de cerca de um milhão de euros, financiado pelo PRR, na aquisição de recursos educativos tecnológicos de ponta que irá beneficiar “cerca de 80 alunos” que vão frequentar o curso profissional de técnico de informática na escola secundária. “Tem 3 salas equipadas, com investimento PRR, e um laboratório”, conta o diretor do AEM.
Além disso, este CTE vai permitir que o agrupamento desenvolva competências digitais ao nível do território, “até porque existem vários parceiros envolvidos na candidatura que poderão agora dar o seu contributo”, acrescenta Carlos Alberto Lopes.
Assembleia Municipal aprova por unanimidade moção contra megaprojetos de energias renováveis
“Numa demonstração clara de união e compromisso com o futuro da região, a Assembleia Municipal de Miranda do Douro, reunida em sessão extraordinária, aprovou por unanimidade uma moção conjunta que exige ao Governo transparência, rigor técnico e a salvaguarda absoluta das populações locais perante o avanço de novos megaprojetos energéticos”, indica a moção apresentada por este consultivo e deliberativo do Planalto Mirandês.
Fraude no mel já atinge 46 por cento do comercializado em Portugal
“A fraude do mel e o livre comércio em vários países, sem qualquer controlo ou que não é feito devidamente, preocupa-nos”, explicou Manuel Gonçalves salientando que no nosso país “entra mel a um décimo do preço do produzido cá, sem qualidade e de origem duvidosa”.
A apicultura em Portugal é na grande maioria dos casos uma atividade complementar a outras, embora existam alguns produtores profissionais. “O mercado dos nossos apicultores é de proximidade, quando entra mel de origem duvidosa, a preços sete ou oito vezes mais baixo, isso prejudica-os. O espaço que era ocupado pelos nossos apicultores acaba”, referiu o dirigente da federação que quer que o mel importado passe a dispor de informação para se conhecer a sua origem, composição e características “Para não andarem a enganar o consumidor, deixando de fora o nosso mel”, frisou o responsável revelando que há países que conseguem pôr o mel em Portugal "a custo de produção".
Miguel Vilas Boas, investigador do IPB, entidade organizadora da reunião com a APIMONDIA, indicou que 46% do mel que entra na União Europeia é suspeito de fraude. "É um valor muito elevado e um problema crítico que tem efeitos na apicultura”, disse o investigador.
“Os fundos europeus funcionam como uma aspirina: aliviam os sintomas, mas não tratam a doença”
Jornal Nordeste (JN) – Nuno que livro é este? Porque é que ele surge que temas são abordados?
Nuno Palma (NP) – No livro anterior, ‘As causas do atraso português’, eu já falava na questão dos fundos europeus como uma das causas do atraso português. E não apenas por si, mas interagindo com outros fatores históricos, culturais e contemporâneos da economia e da sociedade portuguesa. E, portanto, eu já tinha explicado no último capítulo desse primeiro livro porque é que os fundos europeus, de forma talvez algo contraintuitiva, não nos estavam a ajudar, mas, no fundo, nos estavam a atrasar coletivamente. ‘As Causas do Atraso Português’ cobria uma série de outros temas. Portanto, considerei que seria possível e desejável escrever um livro inteiro a explicar porque é que os fundos europeus, ao contrário do que se anuncia e do seu objetivo declarado, na verdade não estão a contribuir para o nosso desenvolvimento, mas estão a contribuir para o nosso atraso continuado relativamente a outros países da Europa, mais desenvolvidos e do mundo.
JN – Portugal é dos países mais afetado por esse atraso?
NP – Sim, claro. Portugal é o país mais atrasado da Europa Ocidental há mais de dois séculos e continua a ser o mais atrasado, não só ao nível do rendimento por pessoa, mas do nível de educação, dos níveis científicos. Dentro de Portugal também há muita diversidade regional. Por exemplo, esta região também é das mais atrasadas dentro do país, logo é das regiões mais atrasadas dentro da Europa Ocidental toda. O objetivo destes fundos europeus, seja a política de coesão, propriamente dita, ou seja o PRR, que é um instrumento à parte, muitas vezes conhecida como a ‘bazuca’, é gerar convergência, ou seja, fazer com que Portugal se torne um país tão rico como os restantes da Europa. E Portugal está a receber ajudas desta natureza há 40 anos e não tem convergido. Pelo contrário, até tem divergido.
Relativamente aos anos 90, nós estamos mais longe da média europeia do que estávamos. Portanto, o objetivo não tem sido cumprido. Essa é, portanto, uma parte que nós podemos discutir e as pessoas podem ter diferentes pontos de vista sobre qual é o efeito líquido dos fundos. O que não está aberto à discussão é o facto de os fundos não estarem a ter o objetivo declarado. Porque não estão a ter convregência.
JN – Por que é que existe precisamente essa contraprodutividade? O facto de Portugal ainda não se encontrar ao nível dos restantes países da União Europeia é o que o leva a afirmar isso?
NP – Esse é só um ponto de partida. Agora, o livro vai em maior profundidade.
Eu explico, de uma forma fundamentada, porque este livro, tal como o anterior, não se trata da minha opinião, digamos. Está tudo fundamentado em estudos científicos que existem e que estão citados na bibliografia. Portanto, isto é uma obra de divulgação. Claro que sobre certos temas existe uma componente subjetiva no sentido em que a ciência não tem a palavra final sobre tudo.
O que eu procuro aqui fazer é explicar quais são os mecanismos que explicam porquê que assim é. Não é só o facto de Portugal não estar a convergir, mas porquê que não está a convergir. Porquê que, de forma algo contra-intuitiva, este dinheiro fácil não está a ter o objetivo que se propõe a ter. Até porque, eu dou vários exemplos históricos, dinheiro fácil não desenvolve países. Neste livro eu explico quais são os mecanismos, tanto económicos como políticos, que levam a que estes fundos acabem por não ser utilizados de forma que gerem convergência no longo prazo.
JN – Quando fala em dinheiro fácil refere-se a quê?
NP – O dinheiro fácil é dinheiro que não resulta do nosso esforço produtivo nacional, não resulta de riqueza criada pela economia portuguesa. Este dinheiro é dado centralmente por Bruxelas, ou seja, pela UE aos países e às regiões mais pobres. Dependendo de vários critérios que se aplicam a diferentes tipos de fundos.
Por exemplo, a nível nacional é o fundo de coesão. Países que tenham menos de 90% do PIB da União Europeia per capita em paridade de poder de compra têm direito a ter este tipo de fundos. Portanto, Portugal tem sempre tido direito, porque lá está, nunca tem convergido, como um país todo.
E depois há fundos que acontecem a nível regional, como é o caso do FEDER. Este fundo é atribuido às regiões que se situem a uma determinada distância da fronteira. Portanto, uma região como Bragança e arredores têm direito a muitos fundos a beneficiar do FEDER de uma forma muito significativa. Portanto, estes são os diferentes fundos que existem.
Neste segundo livro explico que existem cinco fundos diferentes dentro da política de coesão e depois existe também, por exemplo, o Fundo Social Europeu, que é muito conhecido. E depois existe o PRR, cujo objetivo inicial era combater a pandemia, a recuperação económica pós-pandemica. A pandemia já desapareceu, o dinheiro continua a chegar, vai agora terminar em breve.
Mas esse dinheiro até foi financiado de uma forma diferente da política de coesão tradicional, ou seja, foi financiado através de empréstimos europeus, e portanto tem que ser pago de volta.
JN – Explica no livro que os fundos falham. Mas falham porque foram mal desenhados ou porque Portugal não os consegue implementar da forma correta?
NP – Ambas as razões. Como explico no livro, há responsabilidades nacionais e a nível europeu. Em última análise, acho que a União Europeia não pode lavar as mãos da má utilização destes fundos a nível nacional.
O que tento explicar é que um país que está mal gerido é também um país que não tem capacidade para utilizar bem os fundos. Há uma crítica à minha tese, feita por pessoas que não estão muito bem informadas, que dizem «O problema não são os fundos; o problema é a má utilização dos fundos.»
Neste livro explico presciamente que, num país com as características de Portugal, isso é inevitável. Não há forma de garantir a boa utilização dos fundos, porque Portugal não tem as instituições, o capital humano e, eventualmente, até a cultura para saber investir bem esses fundos. Muitas vezes, os fundos são utilizados para comprar votos, essencialmente.
Relativamente à solução, o livro apresenta uma proposta daquilo que poderia resultar quando estes fundos falham. Apresento uma solução diferente que a União Europeia poderia adotar para desenvolver países como Portugal.
Mas é uma solução realista, não utópica. Seria utópico dizer que a solução passa por utilizar bem os fundos. Até porque, se Portugal passasse a utilizar bem os fundos, desenvolver-se-ia e, ao desenvolver-se, deixaria, por definição, de ter acesso a eles. Isso aconteceu nalguns outros países da Europa.
O ponto aqui é que a solução, antes de mais, tem de partir da própria União Europeia. Até porque nenhum governo ou partido político que queira ganhar eleições vai dizer que não quer os fundos. Haverá sempre a tentação de dizer que os fundos foram mal utilizados, mas que a culpa foi dos outros. Ainda recentemente, o ministro da Educação disse isso. E vários ministros, ao longo dos anos, têm falado na questão de não serem bem aproveitados ou em variações desse tema. O atual primeiro-ministro também já disse que não quer viver de “mão estendida”.
Agora, o ponto é o seguinte, para que isso seja assim, seria preciso que essas pessoas tomassem ações concretas. Que eu não vejo a serem tomadas. Este problema tem, por isso, de ser resolvido a nível da União Europeia, porque também resulta de políticas decididas a nível europeu. A União Europeia tem de compreender que estes fundos não estão a produzir os efeitos desejados e que, aliás, estão a produzir efeitos contrários aos desejados.
Num país como Portugal, por exemplo, impedem reformas e impedem que as pessoas vejam as verdadeiras consequências de o país estar mal governado. E é necessário que a população sinta, quando o país não está bem gerido, para que queira mudar de direção, exigir mais dos partidos políticos, exigir mais dos governantes, exigir um país melhor governado, com instituições mais fortes, mais ‘checks and balances’ [Mecanismos de fiscalização e equilíbrio] e todos os motores de crescimento económico capazes de gerar prosperidade para todos, uma prosperidade sustentável.
JN – Quando diz que estes fundos prejudicam reformas, é sobretudo pelo facto de que estas pessoas estão limitadas em receber aquele X para serem investidos depois no outro sítio? NP – Também, ou seja, há uma indústria da caça aos fundos. Desde a consultoria à volta dos fundos, desde as empresas privadas que beneficiam dos fundos, desde o próprio Estado que beneficia muito dos fundos.Todas as pessoas que estão focadas neste ponto estão distraídas.
Em Portugal, em anos recentes, cerca de 90% do investimento público foi pago com fundos europeus. Agora, nós devemos pensar e perguntar a nós próprios. Nós queremos viver num país assim? Queremos ser um país de mendigos?
JN – É assim que nos veem lá fora também?
NP– De uma forma objetiva, nós tornámonos num país de mendigos.
Um país em que os fundos estão constantemente nas notícias. Não há debate intelectual sério nenhum sobre os fundos e o seu efeito de longo prazo. Quando os políticos falam dizem que é preciso executar, gastar. Eu pergunto, cabe na cabeça de alguém o que é importante é gastar e não gastar bem? Porque disso nunca falam.
JN – Mas, sesentimos que somos cidadãos europeus, essa riqueza produzida na União Europeia também não é, de certa forma, também nossa?
NP – É preciso separar o que é a União Europeia do que é a política de coesão. Não são a mesma coisa. Repare eu sou pró-europeu. Eu fui contra o Brexit. A União Europeia é uma série de coisas muito para além destes fundos. Por exemplo, é um mercado único a funcionar bem. E tem de ser isso a União Europeia. É a questão da defesa, a questão da política científica a nível europeu.
Portanto, a União Europeia vai muito para além disto. Pelo contrário, eu argumento que estas políticas estão a atrasar a União Europeia. Em particular, a atrasar as regiões mais pobres da União Europeia, sendo também um desperdício de dinheiro para as regiões da Europa que estão a pagá-las, como a Alemanha e a Suécia. Esse dinheiro seria muito mais bem utilizado noutras utilizações alternativas. Por exemplo, na defesa, na política científica a nível europeu e até em baixar os impostos para os cidadãos europeus.
Uma combinação de todas estas possibilidades seria muito mais positiva do que este desperdício de dinheiro.
Há vários estudos internacionais e independentes que estão citado e mostram que a qualidade das instituições em Portugal tem-se deteriorado bastante.
JN – Quando diz que a União Europeia deve resolver este problema, isso passa por terminar com os fundos ou reformulá-los? Qual seria a alternativa?
NP – A União Europeia e, em particular, a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu têm de fazer uma reflexão séria sobre o verdadeiro efeito que estes fundos estão a ter nas regiões e nos países mais pobres da Europa. Os relatórios que publicam a cada três anos sobre o impacto destes fundos são, na minha opinião, muito distantes da realidade, porque são sempre extremamente otimistas relativamente aos seus efeitos futuros.
Cito vários exemplos no livro. Normalmente dizem que os países mais pobres estão a convergir rapidamente, que estão a fazer as reformas necessárias, mas depois a realidade acaba por ser uma desilusão.
JN – Onde poderíamos estar hoje se os objetivos da Comissão Europeia tivessem sido alcançados?
NP – Muito melhor. E não apenas em termos financeiros, porque a situação económica reflete-se em tudo o resto, na qualidade do sistema educativo, dos hospitais, do Serviço Nacional de Saúde, na sustentabilidade da Segurança Social ou na evolução da natalidade.
Portugal é hoje um país envelhecido e pobre no contexto europeu, embora não seja pobre à escala mundial. Mas não nos devemos comparar com os países mais pobres do mundo; devemos comparar-nos com os nossos pares europeus.
O país tem de ser melhor gerido. Todos os indicadores internacionais mostram que Portugal tem problemas ao nível das instituições, das leis, da educação e da capacidade de preparação para os desafios do século XXI.
Há uma ideia, por exemplo, de que Portugal já ultrapassou o atraso educativo porque aumentou o número médio de anos de escolaridade. Mas isso não corresponde à realidade quando analisamos a qualidade dessa educação. Os resultados de testes internacionais mostram isso. Também a qualidade das universidades portuguesas continua a ser um problema.
Existe todo um conjunto de reformas necessárias na economia portuguesa, mas há muita resistência a fazê-las, por vários fatores, incluindo o envelhecimento da sociedade e o peso eleitoral das gerações mais velhas.
Um exemplo são as pensões. É muito fácil a União Europeia ser enganada nestas matérias por países como Portugal, que não têm instituições suficientemente fortes para aplicar bem o dinheiro. As pensões são fundamentais para ganhar eleições e, em Portugal, uma grande prioridade política tem sido não só manter como aumentar pensões.
Num mundo ideal, todos queremos que os pensionistas tenham melhores condições. Mas todos os países têm escolhas a fazer. Um país com um peso eleitoral elevado dos pensionistas acaba por privilegiar essa geração e retirar capacidade de investimento às gerações mais jovens. Pode evitar custos no curto prazo, mas impede reformas que poderiam criar, a médio e longo prazo, uma economia mais saudável, mais rica e com uma distribuição mais equilibrada.
JN – Mas os fundos europeus pagam pensões?
NP – Diretamente, não. A Comissão Europeia não permite que os fundos europeus sejam utilizados para pagar pensões. Existem casos conhecidos em que isso aconteceu indiretamente, mas não é a regra. No entanto, na prática, os fundos acabam por ter esse efeito. O dinheiro pode ser transferido entre diferentes áreas do Orçamento do Estado. Se, em anos recentes, cerca de 90% do investimento público foi financiado por fundos europeus, isso significa que o Estado não teve de utilizar essa parte do seu orçamento nacional para esse investimento e ficou com mais recursos disponíveis para outras despesas, incluindo pensões. Por isso, a ideia de que os fundos não têm qualquer relação com o financiamento das pensões não está correta.
JN –O caso do Museu da Língua Portuguesa, em Bragança, é um exemplo muito debatido na região, sobretudo pela possibilidade de devolução de fundos europeus. Este tipo de situações mostra também os problemas associados à utilização destes financiamentos? Este dinheiro poderia ter sido aplicado de outra forma?
NP – Não conheço os detalhes desse caso em particular e por isso não vou pronunciar. Agora, o que eu digo é, os fundos como um todo, haverá pressão de executar, imagino que nesse caso tenha sido PRR, e se for tem havido muitos casos desse género. Há um prazo para executar, muitas vezes até se mudam os fundos de um lado para outro para tentar executar e, geralmente, a União Europeia tem aceitado essas alterações.
No entanto, os prazos tendem a levar à má utilização do dinheiro. E, como ja disse, os políticos concentram-se na execução. Por exemplo, o anterior Presidente da República fazia isso constantemente. António Costa, quando estava, salvo erro, em campanha a favor de Pedro Nuno Santos, dizia, tem que votar PS, nós é que sabemos executar os fundos.
A execução pode, por vezes, deixar infraestruturas construídas sem que tenham sido pensados os custos de manutenção. Há exemplos de equipamentos que foram construídos e que depois não têm financiamento suficiente para funcionar, acabando por ficar fechados.
Por isso, como digo no livro, não faz sentido assumir que gastar significa gastar bem, ou que gastar rapidamente significa gastar bem. Pelo contrário, a despesa pode, no curto prazo, criar algum emprego e beneficiar algumas empresas locais, criando uma sensação de dinamismo e alguma paz social. Mas, ao mesmo tempo, pode criar uma distração relativamente às grandes reformas de que o país precisa e manter as instituições anestesiadas por este fluxo de dinheiro, que, a longo prazo, não é saudável.
JN – Qual é o objetivo deste livro? O que pretende com ele?
NP – O meu objetivo, antes de mais, é gerar um debate sobre esta matéria. Um debate intelectual sério que não tem existido. Falar dos fundos, para os políticos trata-se de executar. Isso não é uma forma séria de falar dos fundos. Temos debater sobre o que é que aconteceria ao país sem estes fundos. Seria um país melhor? Mais ou menos saudável? Mais pobre, mais rico a longo ou médio prazo? Eu percebo que é tentador dizer que sem os fundos estávamos ainda pior, afinal os fundos estão a pagar autoestradas, saneamentos. E o que eu estou a dizer é que, sem os fundos, estávamos mais ricos, especialmente a médio e longo prazo, porque escolhíamos outro caminho.
JN – Se tivesse precisamente de convencer alguém que tem essa ideia de com fundos nós seríamos mais pobres, o que é que diria a essas pessoas?
NP – Antes de mais, que leiam o livro, porque há um livro de mais de 300 páginas em que tudo isso está explicado de forma detalhada. Pensem nos casos históricos que temos. Em Portugal, no século 18, recebemos muito ouro do Brasil e só nos fez mal. Só nos atrasou relativamente à Europa, esse ouro todo do Brasil, como eu expliquei em detalhe no meu livro anterior, Os Casos do Atraso Português. Há muitos casos históricos de países que receberam dinheiro fácil e que isso só atrasou o seu desenvolvimento. Pensem na história da Venezuela, por exemplo, do último século. Venezuela, todo o petróleo que tem só tem contribuído para atrasar a economia da Venezuela, para atrasar as instituições da Venezuela. Portanto, há muitos exemplos históricos em que dinheiro fácil não desenvolve países, tem exatamente o efeito contrário. E é isso que eu afirmo que está a acontecer no caso dos fundos.
Plataforma Nordeste Vivo denuncia falta de transparência no PSZAER e admite protestos nacionais
O representante da plataforma afirmou que a localização detalhada das Zonas de Aceleração para Energias Renováveis só foi conhecida através de informação encontrada no Plano Diretor Municipal de Évora, depois de os sucessivos pedidos de acesso aos mapas terem sido recusados. José Jambas diz que existem apenas duas explicações para essa situação. “Podemos falar aqui de duas situações: ou discriminação ou de fuga de informação. Quer a Nordeste Vivo, quer algumas autarquias solicitaram informação relativamente aos mapas e a resposta foi sempre negativa. Acontece que a plataforma, através de alguns membros, conseguiu descobrir, no plano diretor municipal de Évora, estes mapas de todo o país e, portanto, das duas, uma: ou houve fuga de informação, ou há aqui discriminação negativa, o que é gravíssima”.
E caso a informação não tivesse sido descoberta, considera que a consulta pública terminaria sem que grande parte das populações soubesse exatamente quais os territórios abrangidos. “As pessoas continuam a não saber. Há aqui um grupo de pessoas que têm esta informação, mas a grande maioria não sabe. E portanto, estamos aqui num pé de desigualdade. Se nós, a plataforma, tivemos o privilégio de ter acesso à informação, a grande parte do país não tem, não teve acesso a esta informação. Criou-se aqui uma espécie de ilusão que as pessoas participaram numa consulta pública, mas isto é uma palhaçada, porque de facto as pessoas não participaram porque a informação sobre os mapas era vaga”.
Caso o Governo mantenha o processo nos moldes atuais , a Plataforma Nordeste Vivo não vai ficar quieta. “O que vamos fazer é exigir a suspensão imediata de todo o procedimento até que a informação geográfica dos dados técnicos seja disponibilizada em formato que se possa trabalhar. Por outro lado, vamos solicitar ao Ministério Público que realize uma auditoria independente à qualidade destes dados e a todo o processo, porque há aqui suspeitas graves de cariz criminal”.
Se estas reclamações não forem atendidas, a plataforma admite avançar para uma mobilização nacional. Quando falo em mobilização cívica, pública, é simplesmente bloquear o país de norte a sul. Porque aqui não estamos a falar de um concelho ou dois que foi prejudicado, estamos a falar de um território nacional”.
José Jambas admite que a Plataforma Nordeste Vivo não é contra a transição energética, mas rejeita o modelo de implementação previsto.
quarta-feira, 15 de julho de 2026
𝐅𝐞𝐬𝐭𝐢𝐯𝐚𝐥 𝐏𝐀𝐍 – 𝐄𝐧𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐞 𝐅𝐞𝐬𝐭𝐢𝐯𝐚𝐥 𝐓𝐫𝐚𝐧𝐬𝐟𝐫𝐨𝐧𝐭𝐞𝐢𝐫𝐢ç𝐨 𝐝𝐞 𝐏𝐨𝐞𝐬𝐢𝐚, 𝐏𝐚𝐭𝐫𝐢𝐦ó𝐧𝐢𝐨 𝐞 𝐀𝐫𝐭𝐞 𝐝𝐞 𝐕𝐚𝐧𝐠𝐮𝐚𝐫𝐝𝐚 𝐞𝐦 𝐌𝐞𝐢𝐨 𝐑𝐮𝐫𝐚𝐥
Nos dias 24, 25 e 26 de julho, Vilarelhos - aldeia da poesia - volta a vestir-se de arte
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