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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 20 de junho de 2026

Da farinha de trigo ainda se fazem cuscos transmontanos

 A tradição já não é o que era e a produção de cuscos, símbolo da gastronomia transmontana, é cada vez menor. Em Paçó, aldeia perto de Vinhais, Maria de Lurdes Diegues perpetua esta arte ancestral e o seu produto chega até às cozinhas dos grandes chefs. “Da Terra à Mesa” é um projeto Boa Cama Boa Mesa que dá a conhecer os produtos portugueses a partir de histórias inspiradoras e de sucesso, desde a produção até ao consumidor, em casa ou no restaurante.

Cuscos de Vinhais Foto: Empreende Vinhais

É na aldeia de Paçó, Vinhais, que Maria de Lurdes Diegues, 69 anos, se dedica à arte da confeção dos cuscos transmontanos. “Aprendi com a minha mãe. Antigamente só se fazia para consumo da casa, mas agora até os chefs gostam. Já vendi para o Cordeiro, para a Justa Nobre”, conta a mentora da empresa Sabores D’Outrora.

Feitos com farinha de trigo barbela ou trigo rijo – “trabalhamos mais com o rijo porque o barbela não se semeia tanto” –, os cuscos são, segundo a Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR), “grãos aglomerados de farinha, cozidos a vapor com o auxílio de um recipiente próprio (a cuscuzeira), e secos ao ar ou ao sol, para poderem ser conservados durante vários meses”. Mas o processo é demorado e, por isso, “já não se vê muita gente a fazer”, confessa Maria de Lurdes. De acordo com a DGADR, “para a confeção dos cuscos recorre-se às masseiras de madeira, convencionalmente utilizadas para confecionar o pão, e onde se deita a farinha que se pretende transformar em cusco. A farinha é então polvilhada ou salpicada com água morna e salgada, com o auxílio de uma vassourinha de gesta ou sacudindo os dedos. São estes salpicos de água que vão ajudar a formar os grãos de cusco. Para obter uma variação mais uniforme os grãos de cuscos vão sendo peneirados com o auxílio de um crivo”. Depois, diz Maria de Lurdes, os cuscos “têm que ser secos ao sol”, cozidos a vapor e novamente secos ao sol.

Cuscos de Vinhais Foto: DGADR

“Os mais novos não querem nada com isto. Dá muito trabalho, é muito cansativo para o corpo. Ninguém pede para aprender, mas eu gostava de ensinar.” Nesse sentido, é cada vez mais importante atrair os jovens agricultores e facilitar o desenvolvimento das empresas nas zonas rurais, de acordo com uma das medidas da PAC para o período 2023-2027.

Sem fermentos ou aditivos, os cuscos são típicos dos concelhos de Bragança e Vinhais, no distrito de Bragança, em Trás-os-Montes. “É com as conquistas islâmicas que o kuskus se expande pelos países da África Subsariana e do Mediterrâneo, chegando à Península Ibérica (ou Al-Andaluz, nome dado então pelos conquistadores islâmicos a este território peninsular). Esta evolução ou transformação das práticas alimentares é acompanhada pela evolução da cultura dos cereais, em particular o desenvolvimento da cultura do trigo duro (Triticum durum), que encontra na Península Ibérica condições climatéricas favoráveis”, lê-se no site oficial da DGADR.

Cuscos de Vinhais

Hoje há cuscos

Passíveis de conservar por um longo período e, em tempos, ótimos substituto do arroz e da massa, os cuscos são versáteis à mesa. “Tradicionalmente comem-se com bacalhau, com chouriça de Vinhais, com salpicão, com cogumelos. Faz-se como se faz o arroz de tomate”, explica Maria de Lurdes. Mas também sozinho, “como um arroz seco, com peixe ou com entrecosto”.

Através do site www.saberavinhais.com é possível comprar os cuscos da Sabores D’Outrora, bem como outros produtos regionais transmontanos, como mel, azeite e fumeiro.

A sustentabilidade social, ambiental e económica na agricultura e nas zonas rurais são linhas orientadoras da PAC - Política Agrícola Comum que, em Portugal, tem como objetivos principais valorizar a pequena e média agricultura, apostar na sustentabilidade do desenvolvimento rural, promover o investimento e o rejuvenescimento no setor agrícola a a transição climática no período 2023-2027.

“Da Terra à Mesa” é um projeto Boa Cama Boa Mesa que dá a conhecer os produtos portugueses a partir de histórias inspiradoras e de sucesso, desde a produção até ao consumidor, em casa ou no restaurante.

Meus amigos transmontanos

Por: Antônio Carlos Affonso dos SantosACAS
São Paulo (Brasil)
(Colaborador do Memórias...e outras coisas)

Cornélio Pires

 Meus amigos transmontanos:  quando eu tinha dez anos de idade, em 1956, tomei contato pela primeira vez com Mark Twain, através da revista "Seleções do Readers Digest", em Português; à época já publicada na cidade do Rio de Janeiro. Como o observei de pronto? 

A revista "Seleções", trazia, entre cada texto, artigo ou crônica, além da publicidade, recortes de autores famosos nos EUA, e Mark Twain se destacava, com um humor “acido”, eu diria! Pois é, “dispois que terminei meus estudo”, ou o curso primário, como se dizia à época, quando tive que morar na cidade para completá-lo, pois na escola rural só ensinavam até o terceiro ano; portanto fiz o “quarto ano” orando na cidade. 

Quando voltava à vida rural, em alguns fins de semana, além de matar as saudades dos amiguinhos e da vida caipira, eu passei a vasculhar a casa dos donos da fazenda, que haviam ido morar na cidade, devido a terem ficado rico com o café, e terem mais conforto na cidade. Na casa, onde moravam, foram deixados muitos móveis, enormes e pesados, feitos em madeira de lei, que “não cabiam”, nas dependências da casa urbana deles. Percebi, agora que já dominava melhor a língua portuguesa, que em tais móveis, foram deixados muitos objetos que não eram adequados na vida urbana; dentre eles encontrei ao acaso, um armário cheio de jornais, revistas em quadrinhos e uma coleção com algumas dezenas da Revista “Seleções do Readers Digest”, como dito anteriormente. 

As piadas, as críticas ácidas e as citações filosóficas de Mark Twain fizeram em mim, um surpreendente estímulo para escrever. Eu sabia que não tinha nenhuma cultura, mas se eu quisesse um dia escrever, queria escrever daquele jeito do Mark Twain! Eu tinha apenas 10 anos de idade, vejam os senhores! Aos 11 anos de idade, meu pai comprou uma “rádio vitrola”, e ganhou de bônus quatro discos de acetato, de 78 rpm; um do cantor brasileiro, Nelson Gonçalves, outro do Pixinguinha, exímio flautista, maestro e arranjador, outro de uma cantora portuguesa, chamada Ester de Abreu, que cantava fados, e um último, um disco do Cornélio Pires, um artista que se apresentava em circos, que o meu pai viu e que o admirava; como ganhou um disco do Cornélio, ficou alegríssimo; pois eu também fiquei; e nunca esqueci.

 Agora, às vésperas do meu aniversário de 80 anos e, 69 anos depois, percebo que as ideias não fenecem. Ficam dormindo, latentes; parece não terem seiva, mas num átimo, afloram e meu inconsciente que me faz tentar ser um escrevinhador, aparece volta e meia: por isso, entrei nesse mister de escrever este livro, que estou quase a completá-lo, unindo dois personagens, aos quais me apaixonei à primeira vista! 

Depois de uma imensidão de tempo ausente das páginas do MOC, comandado pelo amigo Henrique Martins, em Bragança, volto ao convívio, pelo menos por ora, para relatar aos meus leitores, se houverem ainda, para dar ciência da minha ausência prolongada, com raríssimas participações. Tenho um problema particular com familiar enfermo, que já se arrasta há quase seis anos, o que me toma quase todo o tempo; acrescido por um mar de contrariedades; como estar sem computador, há pelo menos cinco anos! Estou terminando um livro, que vai discorrer de dois personagens; um brasileiro, como eu, outro por um norte americano, que viveram em tempos distintos e em países extintos, porém provindos de regiões parecidas e semelhanças e dissemelhanças em seus respectivos trabalhos literários. Busco aproximá-los numa análise, a mais profunda que meus parcos conhecimentos conseguiram extrair de múltiplas fontes de consultas que realizei, anos a fio!

Por que este autor escreveu sobre esses dois personagens, protagonistas de seu tempo?

Bem, a resposta mais imediata é que não se conhecem detalhes das histórias de vida de Cornélio Pires e de Samuel Lenghorn Clemens. Nos EUA, creio que 99,999999%, desconhecem a saga e legado de Cornélio Pires; assim como 99,0% dos brasileiros não sabem nada sobre o Samuel L. Clemens!

Enquanto, nos EUA, onde a maioria do povo é alfabetizado, na mesma proporção que desconhecem Cornélio Pires. No Brasil, uma porcentagem estimada, por mim, de 80% das pessoas sabe quem é Samuel; se nos dirigirmos a ele como Mark Twain! O fato se observa, por ser os EUA, o campeão mundial da divulgação dos feitos de seus cidadãos, por disporem da hegemonia dos veículos midiáticos, como jornais, rádios, TV e cinema; além da rede mundial de comunicação! A propaganda é a alma do negócio, já dizia P. T. BARNUM, empresário circense americano, no Sec. XIX: "Advertisement of the soul of business”. 

Há uma forma muito difundida de se relacionar com o passado que, a rigor, não é a história em si, mas é o que o comentarista consegue "pescar" do passado, os elementos que confirmam sua tese, recorrendo a uma frase dos personagens, uma obra que o pesquisado tenha publicado, vivido um fato, gravado em som ou imagem, ou através de depoimentos publicados de alguma forma, por comentaristas, críticos, ou apenas testemunhas oculares de um evento, que tenha se tornado histórico. Creio isso não ser uma instrumentalização dos mortos, a serviço de causas e disputas entre vivos, vieses, ou posicionamento intelectual político, ou até filosófico. Aqui, o autor é o magistrado, imparcial e isento, que incorpora o comentarista para suprir a falta de memória dos interlocutores, da negligência quase imperceptível, que demonstra falta de experiências já vividas, das respostas já elaboradas, que nos deixa com a sensação, de que temos que recomeçar do zero; além de termos que reavivar a história, para que não seja esquecida. 

Li, em algures, um professor da USP, Universidade de São Paulo, o professor Fábio Martinelli Casemiro (doutor em Teoria Literária, pela USP) disse, mais ou menos, o seguinte: “Ser caipira, no século XXI, é reconhecer o poder dessa ancestralidade sertaneja, é saber fundir a tradição com a modernidade; é, em suma, a habilidade de converter simplicidade e irreverência, em método de compreensão do mundo”! Eu, ACAS, creio ser a relação com o passado, uma relação individual, de cada ser, consigo mesmo! Ler o que os homens do passado escreveram, é tentar entender o que eles estavam repercutindo em suas obras e ações, e fazer um diálogo real com o passado!


Antônio Carlos Affonso dos Santos
ACAS. É natural de Cravinhos-SP. É Físico, poeta e contista. Tem textos publicados em 9 livros, sendo 4 “solos e entre eles, o Pequeno Dicionário de Caipirês e o livro infantil “A Sementinha” além de cinco outros publicados em antologias junto a outros escritores.

Festas, Festividades e Eventos

Madalena

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

 Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.


Madalena recebeu das mãos da cunhada o saco plástico que pingava. — Foi o Zé do talho que mandou. — Explicou ela antes de sair novamente.

Deu dois ou três minutos para ouvir o carro da cunhada a trabalhar e a afastar-se para ir à porta olhar para um lado e para o outro. Zé não estava à vista.

Levou o saco que pingava para a cozinha e espalhou cuidadosamente o seu conteúdo em cima da banca. Havia ali carne suficiente para algumas semanas. Seria uma ajuda preciosa naqueles momentos difíceis em que estavam.

Para além da carreira errática do marido, com entradas e saídas de empregos, havia o álcool e o tabaco que consumiam grande parte da remuneração que trazia.

Desde o namoro que ela, jovem e inexperiente, fora avisada pelos pais que “o rapaz da mota barulhenta” não era a melhor opção de vida. Não se cansavam de lhe dizer quando o viam em más companhias ou nas noitadas nos cafés.

A família de Madalena era simplesmente remediada. O pai trabalhava num armazém de tecidos e a mãe era costureira, em casa, profissão herdada também da sua mãe. Nos anos que se seguiram ao fim da escola e apesar do desagrado dos seus pais, Bruno não deixava de “rondar a porta” de Madalena. Várias vezes fora vista na garupa da 125 firmemente agarrada ao seu cavaleiro da estrada.

O pai, cioso da “sua menina”, avisava-a:

— Tem cuidado com esse rapaz. Não tenho nada contra a profissão dele, mas devias procurar alguém com um trabalho mais limpo. — Aqui fazia aquele sorriso carinhoso, como que a pedir desculpa por dizer a verdade. —  Vês, como eu. Não tenho as botas e as calças sujas de cimento.

— O Bruno também não anda na rua sujo ou rasgado, pai. — Defendia-o ela. — Lava-se antes de sair da obra e muda de roupa, parece que vai sempre para o baile.

— Pois, essa é outra! — Atacava a mãe, sempre mais incisiva. — Corre as festas todas do concelho com os “bardinos” todos. Anda sempre com desocupados e bêbados.

— Ora, — continuava Madalena, sentindo-se infeliz — é um rapaz novo! Não é como vocês dizem? Divertir-se enquanto se pode? Um dia que nos casemos vai ser um bom marido, dedicado à família e à casa.

— Essa é outra! — A matriarca voltava ao ataque. — Alguma vez te falou em casamento? Ou mesmo namoro a sério? Alguma vez se prontificou a falar com o teu pai para pedir autorização para namorar?

— Isso já não se usa! — Defendeu o pai sorrindo, mas deitando um olhar de soslaio à amuada Madalena.

— Devias era olhar para o Zé do talho! — A mãe conseguia normalmente ganhar a discussão. — Esse sim, é que é um partido a sério! Já viste a casa deles? E aquele talho, quanto vale? — Aqui fez um risinho maroto. — Julgas que não vejo os coraçõezinhos que ele te põe no papel de embrulho?

Aqui até o pai se riu com o ar de envergonhado da filha.

— Oh, mãe! — Madalena mostrou-se desolada. — Ele é um gorducho sem-sal! Já o comparaste com o Bruno, muito mais bonito, magro e elegante? — Entusiasmou-se. — E aquela mota? Parece que voa!

— Magro deve de ser da fome que passa. — Retorquiu a progenitora com azedume. — Assim que tiver “teta onde mamar”, engorda. A mota, nem digo nada, para não agoirar o rapaz, que não lhe quero mal.

Estas conversas iam sempre subindo de tom e acabavam invariavelmente com Madalena a fugir para o quarto amuada ou a chorar. Ficava depois a ouvir a conversa sussurrada dos progenitores, em que ele censurava a mãe por ser muito dura e ela criticava-o por ser demasiado brando.

Bruno também não era rico. Tinha a mãe e a irmã apenas por família, o pai partira muito cedo, caído de um andaime nas obras. Estava alcoolizado e o seguro não pagou nada. A mãe estava reformada por invalidez de uma queda que dera na padaria onde trabalhava com a filha. Viviam numa casa pequena que era a renda que podiam pagar, elas dormiam no quarto e o Bruno num sofá.

Quando o pai de Madalena adoeceu e morreu com uma doença pulmonar, foi tudo muito rápido. De um momento para o outro, os rendimentos da mãe e da filha não chegavam para as despesas. Bruno, que trabalhava para o tio empreiteiro, podia ser a tábua de salvação para todos: aliviava a casa dele, deixando-a para a mãe e a irmã e reforçava os rendimentos da dela.

Casaram de forma muito singela, praticamente apenas a família muito chegada e a almoçarada na casa de pasto foi paga pelo padrinho de casamento, o tio empreiteiro.

No dia do casamento, quando estavam a compor o vestido para entrar na igreja, a mãe dela abriu-lhe a mão e passou-lhe um pedaço de papel pardo. Eram três corações desenhados a esferográfica. “Guarda, para que nunca te esqueças que havia outro caminho.”, sussurrou-lhe ao ouvido.

O caminho, seguiu-o ela estoicamente; no primeiro ano Bruno conseguiu comportar-se, embora ainda bebesse bastante. Madalena engravidou, mas abortou antes do feto ser viável, para desalento de todos.

Talvez tenha sido esse o gatilho para a mudança de atitude de Bruno que começava a juntar ao álcool as más respostas e cada vez menos dinheiro em casa.

— Que pensas fazer da tua vida? — Gritou-lhe, furiosa, um dia em que chegava embriagado. — Procuras alguma pista no fundo dos copos?

— Às vezes também nas garrafas… — respondeu com a voz entaramelada, sentado no sofá, a cabeça entre as mãos.

— Destróis tudo quanto tocas! — Acusou. — Destruíste a mota, perdeste o melhor emprego que tinhas, agora estás a destruir-nos a nós!

— Que sabes tu? — Enfureceu-se e levantou-se de um salto, a mão armada para desfechar um soco.

— Bate! — Provocou ela. — Bate outra vez, como na semana passada! É assim que resolves os problemas, o machão que bebe o ordenado e vem para casa partir a loiça e bater na mulher!

— Cala-te! — Ordenou, tapando os ouvidos e virando-lhe as costas.

— Como queres que pague à mercearia? — Pressionou. — Não pagamos nada do mês passado e apenas metade do mês anterior! O senhor Joaquim já me avisou que não pode continuar a fiar. — Abanou-o como que tentando acordá-lo para a realidade. — A luz paguei-a com o último vestido que costurei e ando a pedir adiantamentos para os que estou a fazer. Que vergonha!

— Deixa-me, que queres que te faça? — Gritou ele agarrando-a por um braço, novamente agressivo. Acabou por largá-la e desfechar um pontapé na mesa de jantar que quase se desmanchou. — Dou cabo de tudo, ouviste? — Agarrou na jarra que sobrevivera ao pontapé em cima da mesa e estilhaçou-a no chão.

— Ah é assim que se resolve? — Ela tinha os olhos esbugalhados e o rosto vermelho quando abriu a porta da cristaleira e começou a partir metodicamente os copos no chão. —  Vamos lá então resolver os problemas, vamos partir esta m** toda!

Apesar de embriagado, ele percebeu que as coisas estavam a ficar fora de controlo. Era por aquelas explosões que, quando tudo estava bem, lhe chamava “meu furacãozinho”. Cambaleou para o pé dela e apertou-a num abraço desajeitado.

— Espera, meu amor, perdoa-me. — Chorou. — Perdoa-me.

— Deixa-me! — Esbracejou, tentando livrar-se o amplexo.

— Perdoa-me. — Insistiu suavemente ao ouvido dela. — Prometo que vou acertar-me e resolver a coisas todas.

As coisas terminavam normalmente assim. Ele acabava por conseguir acalmá-la e cumpria a sua promessa… durante alguns meses.

Muitas vezes ela se perguntou que estava ali a fazer, agarrada àquele homem que vivia na borda de um copo.

Os gémeos tinham aparecido quase de surpresa. Como haviam casado tarde e a primeira gravidez fora um desastre, não esperavam por aquilo quando ela tinha 36 anos.

Ela percebia o marido que tinha; bêbado, perdulário e inconsciente, mas carinhoso com os dois filhos, embora muitas vezes um bruto para ela.

Agora, na casa dos quarenta, viúva, parcos rendimentos e dois filhos menores, já não era tempo para se deixar levar por motas possantes e homens inconsequentes.

Olhou o balcão com os pedaços de carne, que seriam o sustento de todos para umas semanas e alinhou-os distraidamente.

O som estridente de uma motorizada roncou no exterior, afastando-se. Pegou por fim no saco branco onde fora cuidadosamente desenhado um coração. Uma lágrima correu ao mesmo tempo que um sorriso tímido se desenhou nos lábios… “E porque não?”


Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

Dia Mundial do Refugiado - 20 de Junho


 O Dia Mundial do Refugiado, celebrado todos os anos a 20 de junho, é uma das mais importantes datas internacionais dedicadas à dignidade humana, à solidariedade e à defesa dos direitos fundamentais das pessoas obrigadas a fugir das suas casas devido à guerra, perseguição, violência ou catástrofes.

Esta comemoração procura homenagear a coragem, a resistência e a esperança de milhões de refugiados espalhados pelo mundo, ao mesmo tempo que alerta a comunidade internacional para a necessidade urgente de proteção, acolhimento e respeito pelos direitos humanos.

Mais do que uma data simbólica, o Dia Mundial do Refugiado representa um apelo global à humanidade, à empatia e à responsabilidade coletiva perante o sofrimento de pessoas que perderam quase tudo, exceto a esperança de sobreviver e reconstruir a vida.

O Dia Mundial do Refugiado foi oficialmente criado pela Organização das Nações Unidas em 2000.

A data começou a ser celebrada internacionalmente a partir de 2001, coincidindo com o 50.º aniversário da Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951, um dos mais importantes documentos internacionais de proteção dos direitos dos refugiados.

Antes disso, muitos países africanos já assinalavam o Dia Africano do Refugiado, devido às graves crises humanitárias que afetavam diversas regiões do continente. A ONU decidiu transformar a comemoração numa data mundial, reconhecendo que o fenómeno dos refugiados era um desafio global que exigia cooperação internacional.

Segundo a definição da Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, refugiado é toda a pessoa que foi obrigada a abandonar o seu país por motivos de:

Guerra; 
Perseguição política; 
Violência; 
Conflitos armados; 
Violação de direitos humanos; 
Perseguição religiosa ou étnica; 
Catástrofes humanitárias. 

Os refugiados diferem dos migrantes económicos porque não abandonam o seu país por escolha ou procura de melhores oportunidades, mas sim por necessidade de sobrevivência.

Muitas vezes, fogem apenas com a roupa que vestem, deixando para trás casas, famílias, bens, amigos e toda a vida construída ao longo dos anos.

Os movimentos forçados de populações existem desde a Antiguidade.

Ao longo da História, guerras, invasões, perseguições religiosas e conflitos políticos obrigaram milhões de pessoas a procurar abrigo em territórios estrangeiros.

Na Antiguidade, povos inteiros deslocavam-se devido a guerras e conquistas. Durante a Idade Média, perseguições religiosas levaram comunidades a fugir de regiões dominadas por intolerância e violência.

No entanto, foi sobretudo no século XX que o problema dos refugiados assumiu proporções globais sem precedentes.

As duas Guerras Mundiais provocaram deslocações humanas gigantescas.

Milhões de pessoas perderam as suas casas, foram deportadas ou obrigadas a fugir dos combates e perseguições.

A Segunda Guerra Mundial deixou a Europa devastada e gerou uma enorme crise humanitária. Refugiados judeus, perseguidos políticos, vítimas do nazismo e populações deslocadas procuravam desesperadamente segurança e proteção.

Foi precisamente após os horrores da guerra que a comunidade internacional percebeu a necessidade urgente de criar mecanismos internacionais de proteção aos refugiados.

Em 1950 foi criado o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, organismo responsável por apoiar e proteger refugiados em todo o mundo.

No ano seguinte surgiu a Convenção de Genebra de 1951, considerada a base jurídica internacional da proteção dos refugiados.

Apesar dos avanços diplomáticos e humanitários, o número de refugiados continua a aumentar em várias regiões do mundo.

Conflitos armados, guerras civis, terrorismo, perseguições políticas e crises ambientais continuam a obrigar milhões de pessoas a abandonar os seus países.

Entre as crises mais conhecidas das últimas décadas encontram-se:

Guerra na Síria; 
Conflitos no Afeganistão; 
Crises humanitárias em África; 
Guerra na Ucrânia; 
Perseguições religiosas e étnicas; 
Violência em várias regiões do Médio Oriente. 

Milhões de crianças, mulheres e idosos vivem atualmente em campos de refugiados ou em situações extremamente precárias.

Ser refugiado significa muitas vezes viver entre o medo e a incerteza.

Durante as fugas, muitas pessoas enfrentam:

Caminhadas longas e perigosas; 
Fome; 
Frio; 
Violência; 
Exploração humana; 
Tráfico ilegal; 
Travessias marítimas arriscadas; 
Separação familiar. 

Milhares de refugiados perderam a vida em desertos, fronteiras ou no mar, tentando alcançar segurança.

As crianças refugiadas encontram-se entre as maiores vítimas destas crises. Muitas deixam de frequentar a escola, sofrem traumas psicológicos e crescem longe da estabilidade familiar.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados desempenha um papel fundamental no apoio às populações deslocadas.

A organização trabalha em áreas como:

Abrigo; 
Alimentação; 
Saúde; 
Educação; 
Proteção legal; 
Reunificação familiar; 
Apoio psicológico. 

Além do ACNUR, milhares de organizações humanitárias, voluntários e profissionais de saúde atuam diariamente em campos de refugiados e zonas de conflito.

O trabalho humanitário tornou-se essencial para garantir dignidade e sobrevivência a milhões de pessoas.

Receber refugiados representa também um desafio para os países de acolhimento.

É necessário garantir:

Habitação; 
Educação; 
Saúde; 
Integração social; 
Emprego; 
Proteção legal; 
Combate à discriminação. 

Em muitos casos, os refugiados enfrentam preconceito, xenofobia ou dificuldades de adaptação cultural e linguística.

No entanto, a História demonstra que muitas comunidades refugiadas contribuíram positivamente para o desenvolvimento económico, científico, cultural e humano dos países que as acolheram.

Portugal possui uma tradição histórica de emigração e acolhimento.

Ao longo dos séculos, muitos portugueses procuraram refúgio noutros países devido à pobreza, guerras ou perseguições políticas. Essa memória histórica ajuda também a compreender o sofrimento dos refugiados atuais.

Nas últimas décadas, Portugal participou em programas internacionais de acolhimento e integração de refugiados, colaborando com organizações humanitárias e instituições europeias.

Diversas associações, autarquias e comunidades locais têm desenvolvido iniciativas de apoio social e integração.

O Dia Mundial do Refugiado pretende:

Sensibilizar para a realidade dos refugiados; 
Defender os direitos humanos; 
Promover solidariedade internacional; 
Combater preconceitos; 
Valorizar o acolhimento; 
Reconhecer a coragem dos refugiados. 

Este dia recorda que ninguém escolhe tornar-se refugiado. Fugir é muitas vezes a única alternativa para sobreviver.

Os refugiados não são números nem estatísticas. São seres humanos com histórias, famílias, sonhos e dignidade.

Muitos eram professores, médicos, agricultores, estudantes, trabalhadores ou crianças com vidas normais antes de serem obrigados a fugir.

Celebrar o Dia Mundial do Refugiado é reconhecer que a humanidade deve estar acima das fronteiras, da indiferença e do medo.

Num mundo marcado por conflitos e desigualdades, acolher, proteger e respeitar refugiados é um dever moral e humano.

Ninguém abandona a sua casa sem motivo.

Todas as pessoas merecem viver em segurança e dignidade.

A solidariedade continua a ser uma das maiores forças da humanidade.

Texto: HM - com IA e IN

sexta-feira, 19 de junho de 2026

A FAB reúne o melhor da agricultura, pecuária, gastronomia e inovação!

𝑩𝑹𝑨𝑮𝑨𝑵𝑪̧𝑨 𝑫𝑬𝑳𝑰𝑩𝑬𝑹𝑨 - 𝑃𝑟𝑖𝑛𝑐𝑖𝑝𝑎𝑖𝑠 𝑑𝑒𝑙𝑖𝑏𝑒𝑟𝑎𝑐̧𝑜̃𝑒𝑠 𝑑𝑎 𝑅𝑒𝑢𝑛𝑖𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝐶𝑎̂𝑚𝑎𝑟𝑎 – 19.06.2026

PRIMEIRA EDIÇÃO DA FEIRA AFGRÍCOLA DE BRAGANÇA APOSTA NA VALORIZAÇÃO E INOVAÇÃO DO SETOR

 Arrancou esta quinta-feira a primeira edição da Feira Agrícola de Bragança, que reúne mais de 80 expositores dos setores agrícola, pecuário, agroalimentar, empresarial e tecnológico. A edição fica também marcada pelo lançamento de uma nova plataforma digital dedicada ao certame.

Jornalista: Maria Inês Pereira

Torre de Moncorvo celebra Solstício de Verão com programação dedicada às famílias

 A vila de Torre de Moncorvo dá hoje as boas-vindas ao verão com o Festival Solstício, que celebra o dia mais longo e a noite mais curta do ano no Hemisfério Norte.


A iniciativa decorre esta sexta-feira e sábado, com várias atividades destinadas às famílias, num evento que já é uma referência nas festividades do Nordeste Transmontano.

O presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, José Meneses, descreve algumas das atividades previstas para estes dois dias, sobretudo dedicadas às famílias e aos mais pequenos:

Para além das atividades, haverá também um mercado de produtos regionais, o “Mercado do Sol”, com 15 expositores. O autarca acredita que a iniciativa terá impacto direto na economia local e na promoção turística do concelho:

Por isso, as expectativas para o festival são as melhores, acrescenta José Meneses:

Ao longo dos dois dias, o programa inclui atividades, oficinas, ateliers, concertos, performances e recriações de celebrações do Solstício de Verão, dirigidas a todas as idades e pensadas para momentos em família. Destaque ainda para um espaço criança, com insufláveis.

Na animação musical, hoje sobem ao palco Sexto Compasso, Karetus e DJ Manuel Diogo. Amanhã, será a vez dos Gaiteiros Sabor Artes, Cromos da Noite e DJ Alex Lino.

Hoje será também inaugurado o Laboratório de Metrologia da Associação de Municípios do Douro Superior de Fins Específicos, AMDSFE, às 17h00, com a presença do secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira.

Maria João Canadas

Praça das Eiras recebe concerto da Orquestra Portuguesa de Guitarras e Bandolins no sábado

 A Orquestra Portuguesa de Guitarras e Bandolins regressa, amanhã, à Praça das Eiras, em Macedo de Cavaleiros, para mais um concerto. Desta vez, o espetáculo será dedicado à ópera, com a participação do tenor Sérgio Martins, sob a direção artística do maestro Hélder Magalhães.


Hélder Magalhães é um maestro reconhecido, com um vasto currículo. Ao longo da carreira, colaborou com diversas formações como trompetista e maestro convidado, tendo trabalhado com vários maestros de referência. Integrou a Orquestra Portuguesa das Escolas de Música, a Orquestra Nacional de Sopros dos Templários e a Orquestra Clássica Bracara Augusta, entre outras formações.

Desde 2018, é maestro titular da Orquestra Portuguesa de Guitarras e Bandolins.

Já o tenor Sérgio Martins, natural do Porto, tem-se destacado como tenor lírico em algumas das mais emblemáticas produções de ópera apresentadas em Portugal nas últimas décadas.

Com formação no Conservatório de Música do Porto, no Conservatório de Aveiro e na ESMAE, trabalhou com nomes de referência como Rui Taveira, Isabel Mallaguerra e Norma Graça-Silvestre.

A Orquestra Portuguesa de Guitarras e Bandolins, Associação Cultural de Plectro, nasceu em 2010 e conta com cerca de 60 músicos.

O concerto tem início às 21h30.

Maria João Canadas

Expovila 5.0 foi apresentada esta sexta-feira em Vila Flor

Queda de grua na Feira Agrícola de Bragança provocou estragos em alguns carros

 Uma grua, de demonstração de maquinaria agrícola, caiu, esta manhã, na Feira Agrícola de Bragança, que está a decorrer na Quinta da Trajinha, até domingo.


A queda da grua causou estragos em algumas viaturas que ali estavam estacionadas, mas não há registo de feridos.

O acidente aconteceu cerca do meio dia.

O certame abriu portas ontem. A primeira edição da feira prolonga-se até domingo.

António Avelino Joyce - Os Governadores Civis do Distrito de Bragança (1835-2011)

 21.março.1914 – 30.dezembro.1914
LISBOA, 1.12.1886 – LISBOA, 15.1.1964

Musicólogo. Advogado.
Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra.
Governador Civil de Bragança (1914 e 1915-1917). Secretário-geral dos governos civis de Lisboa, Castelo Branco e Porto.
Filho de José Luís Rangel de Quadros Joyce, médico, e de Maria Adelaide de Paiva Cardoso Avelino.
Natural de Lisboa.
Casou com Gertrudes Ramos de Castro e em segundas núpcias com Bárbara Ceulemans Joyce, de quem teve três filhos, entre os quais, Maria Antónia Ceulemans Joyce de Almeida Teixeira.
Cavaleiro da Ordem de Santiago da Espada. Cidadão honorário da Covilhã.

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António Avelino Joyce possuía uma formação notável e diversificada: completou o 1.º ano do Curso Diplomático (Curso Superior de Letras); o curso de Direito da Universidade de Coimbra, onde apresentou uma tese sobre O caráter específico do fenómeno financeiro; cursos musicais de Rudimento, Harmonia e Violino da Real Academia de Amadores de Música; e o curso de professor da Cartilha Maternal, tirado na residência do seu autor, João de Deus.
Chegado a Coimbra em 1906, António Joyce, por imperativo de gosto e de formação musical, desde logo se ligou ao meio artístico local, primeiro através da Tuna Académica, depois, uma vez incompatibilizado com esta, através de reuniões musicais feitas na sua casa de Celas e, por fim, dinamizando a criação de um grupo coral, o Orfeão Académico de Coimbra, que reorganizou e regeu entre 1908 e 1912, acompanhando-o em digressões a França e ao Brasil. Foi representante da Academia de Lisboa no Congresso Internacional dos Estudantes em Paris, em 1907.
Membro de honra de várias agremiações associativas e culturais, como o Instituto Britânico do Porto, Associação dos Jardins Escolas e Associação dos Músicos Portugueses, foi inspetor de canto coral, diretor da Sociedade de Concertos de Lisboa e diretor artístico da Emissora Nacional, para a qual elaborou um Projeto de Reforma que apresentou à Administração Geral dos CTT, criando no seu seio a Orquestra Sinfónica Nacional, convidando Pedro de Freitas Branco para seu primeiro maestro titular.
Enquanto músico, produziu várias harmonizações e arranjos orfeónicos para quatro vozes de homem, de motivos populares portugueses, e que seriam ouvidos nos principais teatros de Portugal, França, Bélgica e Brasil. Maestro, violonista e pianista, teve larga influência na cultura musical portuguesa, tendo feito publicar um Estudo acerca de canções populares na província da Beira Baixa e colaborando em jornais como o Século, Capital e Diário de Notícias e nas revistas ABC e Atlântida, principalmente na área da crítica musical.
Numa área do saber completamente diferente, reflexo da diversidade da sua formação e do seu saber, em 1913 apresentou uma dissertação para concurso ao magistério da Faculdade de Estudos Sociais e de Direito de Lisboa (grupo de História do Direito e Legislação Civil Comparada), intitulada Da influência do patriarcado na condição jurídica da Mulher.
Ao serviço de diferentes governos da Primeira República, tomou parte em várias comissões ao estrangeiro, nomeadamente em Paris, em 1917, na Conferência da Grande Guerra, e na Bélgica (1917-1921), como auxiliar do ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente do Ministério.
Porém, nem sempre foi pacífica a sua coexistência com o poder político instituído.
Obrigado a emigrar, partiu para Antuérpia, onde viveu algum tempo como diretor comercial de uma empresa de que era sócio, juntamente com Afonso Costa.
No âmbito da magistratura administrativa, foi por duas vezes nomeado governador civil de Bragança, a primeira das quais por decreto de 21 de março de 1914, cargo de que tomou posse a 31 do mesmo mês, sendo exonerado a 30 de dezembro seguinte; e segunda vez por decreto de 24 de maio de 1915, tomando posse a 31 do mesmo mês, num mandato que se estendeu até 13 de outubro de 1917. Durante o seu primeiro mandato, em outubro de 1914, ocorreu em Bragança um movimento insurrecional visando o derrube do regime republicano e a restauração da monarquia, tentativa, porém, que sairia completamente frustrada.
O facto de ter servido como governador civil não obstou a que fosse hierarquicamente despromovido a chefe de repartição do Governo Civil de Lisboa, cargo que exerceu durante mais de cinco anos, entre 1921 e 1926, servindo interinamente como secretário-geral a maior parte desse tempo. Encontrava-se nestas funções quando foi chamado para desempenhar o cargo de secretário particular do Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes (1923 -1925). Só em novembro de 1926, com a Ditadura Militar instalada, passaria a secretário geral adido daquele Governo Civil, vindo a desempenhar idênticas funções em Castelo Branco e no Porto.
Já com o Estado Novo institucionalizado, a partir de 1939 tornou-se membro do júri dos concursos administrativos do Ministério do Interior, e nesse mesmo ano, apresentou à Direção Geral da Administração Política e Civil um Projeto crítico de modificações no Código Administrativo de 1936.
Faleceu em Lisboa, a 15 de janeiro de 1964, aos 77 anos.

Carta do governador civil António Avelino Joyce ao primeiro-ministro Bernardino Machado, a denunciar a campanha de substituição das autoridades administrativas em Bragança (1914)

Bragança, 31 de agosto 1914

Exmo. Senhor e meu muito prezado amigo.

Com condenável antipatriotismo e manifesto desprezo pelas sérias obrigações que a hora presente a todos impõe, um jornal evolucionista daqui, A Pátria Nova, que tem por patrono o senador João de Freitas, acaba de levantar, com acentuado empenho e decisão, a campanha da substituição das autoridades administrativas.
Por todas as razões, e mui particularmente pelo temor justificado que possam vir a mal interpretar o correto proceder de V. Exa. e a deturpar-lhe as nobres intenções, que bem conheço e sinceramente admiro, tomo a iniciativa de lembrar a V. Exa. a conveniência e grande urgência em adotar um critério geral para a resolução do problema no distrito de Bragança, para o que, julgo, encontrará V. Exa. os elementos suficientes no relatório sobre administradores de concelho que para aí remeti.

Aguardo as muito desejadas ordens de V. Exa.

Com a maior consideração, respeito e estima,

De V. Exa. o atento servidor,

António Avelino Joyce

Fonte: Fundação Mário Soares, Casa Comum, fundo Bernardino Machado, pasta 08056.097.

Fontes e Bibliografia

Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928).
Fundação Mário Soares, Casa Comum, fundo Bernardino Machado, pasta 08056.097 Diário do Governo, 3.11.1926.
ALVES, Francisco Manuel. 2000. Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, vol. XI. Bragança: Câmara Municipal de Bragança / Instituto Português de Museus.
GRANDE Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, t. XIV, Lisboa, 1935-1987.
CASEIRO, Vírgilio. 1992. O Orfeon Académico de Coimbra desde 1880. Causas determinantes, objectivos e evolução.
Tese de mestrado em História. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
QUADROS, Maria de Fátima Batista. 2009. Quadros. Sua alma e sua gente nos caminhos da história. Frutos: Rio de Janeiro.
COUVANEIRO, João Luís Serrenho Frazão. 2012. O Curso Superior de Letras (1861-1911). Nos primórdios das Ciências Humanas em Portugal. Tese de Doutoramento em História. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Na foto: António Joyce em 1911. arquivos do Orfeão Académico de Coimbra.

Publicação da C.M. Bragança

IIº Festival SOPAS DAS SEGADAS - Alfândega da Fé

Festas, Festividades e Eventos

Inspector Maximino Alves

VALE DO TUA REFORÇA APOSTA NO ASTROTURISMO COM ESTRATÉGIA CONJUNTA DOS CINCO MUNICÍPIOS

 O Museu da Oliveira e do Azeite, em Mirandela, acolheu uma sessão de trabalho dedicada ao desenvolvimento da marca Dark Sky Vale do Tua, reunindo representantes dos cinco municípios que integram o Parque Natural Regional do Vale do Tua: Alijó, Carrazeda de Ansiães, Mirandela, Murça e Vila Flor.


A iniciativa teve como principal objetivo definir estratégias de promoção conjunta do território e consolidar a afirmação do Vale do Tua como um destino de referência no astroturismo a nível ibérico.

Certificado como Destino Turístico Starlight, o território destaca-se pelas reduzidas taxas de poluição luminosa, pela qualidade do céu noturno e pelas condições naturais favoráveis à observação astronómica, fatores que têm vindo a posicionar a região como um destino diferenciador no panorama do turismo sustentável.

Durante a sessão foi defendida a importância de uma abordagem integrada entre os cinco municípios, apostando na valorização dos recursos naturais, culturais e turísticos existentes. A estratégia pretende, simultaneamente, potenciar a atratividade do território e criar novas oportunidades económicas para operadores turísticos, unidades de alojamento, restauração e restantes agentes ligados ao setor.

O plano de ação prevê uma primeira fase de capacitação dirigida aos técnicos municipais, através da realização de atividades de observação astronómica e de sensibilização para o projeto. Posteriormente, as ações serão alargadas aos parceiros do território e ao público em geral, promovendo uma maior divulgação da marca Dark Sky Vale do Tua e incentivando a criação de experiências turísticas ligadas ao céu noturno.

No território do Parque Natural Regional do Vale do Tua encontram-se identificados cinco locais privilegiados para observação astronómica: o Miradouro do Ujo, em Alijó; o Castelo de Ansiães, em Carrazeda de Ansiães; a Praia Fluvial de Frechas, em Mirandela; o Castro de Palheiros, em Murça; e a Forca do Freixiel, em Vila Flor.

Através desta estratégia conjunta, os municípios pretendem reforçar a notoriedade do Vale do Tua enquanto destino de natureza, sustentabilidade e observação do céu, apostando num segmento turístico em crescimento e com elevado potencial de valorização para a região.

Jornalista: Maria Inês Pereira 
Foto: DR

ULS DO NORDESTE PROMOVE AÇÃO DE SENSIBILIZAÇÃO EM VIMIOSO PARA PREVENIR EFEITOS DAS ONDAS DE CALOR

 A Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) Atalaia de Vimioso, em articulação com a Unidade de Saúde Pública da Unidade Local de Saúde (ULS) do Nordeste, promoveu uma ação de sensibilização dedicada à prevenção dos efeitos adversos das ondas de calor, reforçando a importância da proteção da população numa altura em que se prevê a subida das temperaturas.


A iniciativa decorreu no passado dia 14 de junho, durante a Festa da Alegria, evento que reuniu avós, netos e famílias de todo o concelho de Vimioso, proporcionando um contexto privilegiado para a transmissão de mensagens de saúde pública junto da comunidade.

Com o verão à porta e os episódios de calor extremo cada vez mais frequentes, a ação teve como principal objetivo alertar os cidadãos para os riscos associados às elevadas temperaturas, com especial enfoque nos grupos mais vulneráveis, nomeadamente idosos e crianças, que apresentam maior suscetibilidade aos efeitos do stress térmico e da desidratação.

A equipa de enfermagem da UCC Atalaia, em conjunto com a Técnica de Saúde Ambiental, optou por uma abordagem prática e de proximidade. Além da partilha de informação e aconselhamento, foram distribuídas garrafas de água aos participantes, acompanhadas de rótulos personalizados com recomendações essenciais para enfrentar os dias mais quentes em segurança.

Entre os conselhos transmitidos destacaram-se a importância da hidratação regular, a permanência em locais frescos e ventilados, a utilização de roupa leve e adequada às altas temperaturas e a necessidade de evitar a exposição solar durante as horas de maior calor.

A iniciativa foi recebida com entusiasmo pela população, que demonstrou grande interesse pelas recomendações partilhadas pelos profissionais de saúde.

Segundo a equipa responsável, a elevada participação e a recetividade dos cidadãos evidenciam a importância de levar as mensagens de prevenção diretamente aos locais onde a comunidade se reúne, aproximando os serviços de saúde das pessoas e reforçando a literacia em saúde.

A ação integra a estratégia de promoção da saúde e prevenção da doença desenvolvida pela ULS do Nordeste, procurando sensibilizar a população para comportamentos que permitam minimizar os riscos associados às condições meteorológicas extremas.

Num contexto em que as alterações climáticas têm contribuído para o aumento da frequência e intensidade das ondas de calor, iniciativas como esta assumem particular relevância, ajudando a proteger a população e a reduzir os impactos das temperaturas elevadas na saúde pública.

O sucesso da ação realizada em Vimioso reforça o compromisso da UCC Atalaia e da Unidade de Saúde Pública em continuar a apostar em estratégias de proximidade, promovendo uma comunidade mais informada, preparada e resiliente perante os desafios que o verão coloca à saúde de todos.

Jornalista: Paulo Silva Reis
Fotos: DR

EPA de Carvalhais reforça formação com novos equipamentos agrícolas cedidos pelo IEFP

 A EPA (Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural) de Carvalhais passa a contar com equipamentos agrícolas transferidos pelo IEFP (Instituto de Emprego e Formação Profisional) que permite aos formadores daquela escola profissional de agricultura do concelho de Mirandela ministrar cursos de mecanização agrícola, garantindo uma formação prática e moderna, abrindo novas portas à qualificação técnica no setor agrícola da região, alinhada com as exigências do mercado.


É o resultado de um acordo de colaboração firmado entre o IEFP e a EPA, que também teve o aval da CCDRN. Maria João Ramos, Diretora do Centro de Emprego e Formação Profissional de Bragança, descreve o propósito desta parceria:

O acordo também prevê que os formandos da EPA de Carvalhais tenham acesso a máquinas e ferramentas reais, aprendendo a operar, manter e gerir os equipamentos, como sublinha o diretor da EPA de Carvalhais, Marcelino Martins:

Marcelino Martins adianta o tipo de equipamento agora à disposição da EPA de Carvalhais:

As novas máquinas agrícolas e ferramentas já estão nas instalações da EPA de Carvalhais.

INFORMAÇÃO CIR (Escrito por Rádio Terra Quente)

Carrapatas comemora Dia da Freguesia este fim de semana

 A aldeia de Carrapatas vai comemorar o Dia da Freguesia esta sexta-feira e sábado, com um conjunto de atividades culturais e tradicionais, que pretendem promover o espírito de união entre habitantes, instituições e visitantes.


Para além das atividades culturais, o programa inclui também um mercado de produtos tradicionais.

O evento regressa, assim, ao modelo de organização inicial, substituindo a Festa da Flor, realizada no ano passado, numa opção assumida pelo atual executivo.

O presidente da Junta de Freguesia de Carrapatas, Carlos Martins, sublinha a importância de assinalar este dia e deixa o convite à população para participar, reforçando valores como a solidariedade e a união:

O Dia da Freguesia vai contar com um mercado de produtos tradicionais, com a participação de 12 expositores, que terão em mostra e venda diversos produtos típicos da região.

A inauguração do mercado de produtos regionais decorre às 19h00, seguindo-se, às 21h00, um concerto de fados protagonizado por Catarina Veigas e Inês Veigas, acompanhadas pelos guitarristas Jorge Pires e Álvaro Lancha.

No sábado, as atividades começam com uma caminhada de oito quilómetros, organizada pelo Centro Social São Geraldo, que já conta com cerca de 150 inscrições.

O autarca explica que esta caminhada terá também uma vertente inclusiva, permitindo aos utentes sair da instituição e viver um dia diferente:

As atividades incluem ainda animação com o grupo de bombos “Os Abelhudos”, missa na praça no dia 20 de junho e atuação do DJ MPC, Miguel Pires Cabral.

Maria João Canadas