Um novo estudo afirma que, ao ter em conta o factor idade, as ondas de calor colocam em risco muito mais pessoas do que as estimativas convencionais.
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Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), uma onda de calor ocorre “quando num intervalo de pelo menos 6 dias consecutivos, a temperatura máxima diária é superior em 5°C ao valor médio das temperaturas máximas diárias, no respectivo mês, para um determinado período de referência”.
Desde que existem registos (1941), a onda de calor ocorrida em Agosto de 2003 foi a mais intensa, especialmente no interior do país. Elvas, Beja, Alvalade, Évora, Amareleja, Portalegre, Castelo Branco, Guarda e Miranda do Douro foram algumas das estações meteorológicas em que a onda de calor atingiu 16 a 17 dias consecutivos.
Também os episódios recentes de calor extremo têm revelado um impacto significativo na mortalidade em Portugal. Ao cruzar dados da Direcção-Geral da Saúde (DGS), do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e do IPMA, é possível verificar que, entre 27 de Julho e 15 de Agosto de 2025, se registaram cerca de 1.331 mortes acima do esperado (“excesso de mortalidade”) no país. Só no primeiro episódio de calor intenso, entre 26 e 30 de Julho, a DGS estimou 264 óbitos em excesso, sobretudo entre pessoas com mais de 75 anos.
Poderia ser pior? É claro que os resultados são terríveis, mas o pior é que não os estamos a contabilizar correctamente. Ou, pelo menos, é isso que afirma um estudo recente publicado na Nature Communications. Desenvolvido pela Universidade Nacional da Austrália e liderado por Sarah Perkins-Kirkpatrick, o estudo afirma que as ondas de calor têm vindo a criar condições insuportáveis há mais de duas décadas e que as métricas oficiais não reflectem exactamente a realidade devido a um problema de base que, à primeira vista, parece bastante evidente.
O bulbo húmido
Os investigadores australianos que elaboraram o artigo aperceberam-se do problema enquanto analisavam a chamada temperatura do bulbo húmido, que é um indicador que mede a temperatura tendo em conta a humidade do ambiente. Mais concretamente, poderia ser definida como a temperatura mais baixa alcançável através da evaporação da água no ar, combinando humidade e calor para medir o arrefecimento. Obtém-se cobrindo o bulbo de um termómetro, que é o compartimento que contém o mercúrio, com uma malha porosa humedecida com água.
Este procedimento costuma apresentar um valor mais baixo do que o obtido através do bulbo seco, que mede apenas o calor ambiental. Com o passar dos anos, o bulbo húmido ganhou uma importância capital para a saúde humana, uma vez que representa eficazmente a forma como o suor arrefece o organismo. Tendo isto em conta, costuma-se dizer que uma temperatura do bulbo húmido superior a 35 ºC pode causar a morte numa questão de poucas horas, uma vez que acima desse limiar o corpo humano não consegue arrefecer através da transpiração.
A consequência: o golpe de calor
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| ISTOCK - O trabalho ao ar livre expõe-nos mais ao risco de insolação, mesmo entre pessoas jovens e saudáveis. |
A consequência final dessa impossibilidade de arrefecer o organismo através da transpiração é a insolação, uma emergência médica grave que ocorre quando a temperatura corporal atinge os 40 ºC em consequência de uma exposição prolongada ao calor. A perda da capacidade do organismo para regular a sua temperatura, uma vez ultrapassado o limiar do bulbo húmido, acaba por conduzir a falência multiorgânica, danos cerebrais e morte, se não for tratada imediatamente.
É por isso que, caso se notem sintomas de insolação, é preciso agir rapidamente. O primeiro sintoma é a cessação repentina da transpiração. Em seguida, surgem a confusão e a fala incoerente. Por fim, surgem as convulsões, o coma e a morte. Entretanto, náuseas, vómitos e dores de cabeça intensas também não são raros. Chamar rapidamente as emergências é essencial para salvar a vida da pessoa afectada.
Um mistério que envolvia 6 ondas de calor
Cientes de tudo isto, os investigadores decidiram analisar as ondas de calor ocorridas no primeiro quarto do século XXI. Foi então que se aperceberam de que algo de estranho se passava: seis delas não atingiram o limiar crítico de temperatura do bulbo húmido, mas dispararam os níveis de mortalidade. Mais concretamente, as que lhes chamaram a atenção foram Meca (Arábia Saudita, 2024), Banguecoque (Tailândia, 2024), Phoenix (Estados Unidos, 2023), Monte Isa (Austrália, 2019), Larkana (Paquistão, 2015) e Sevilha (Espanha, 2003).
Este último caso, por ser o que nos é mais próximo, revela-se especialmente revelador. Embora os números oficiais da época fossem muito mais baixos (141 em toda a Espanha, 20 na capital andaluz), a realidade é que o cemitério de San Fernando registou 400 óbitos apenas na primeira quinzena de Agosto de 2003, ou seja, 92,5 % a mais do que no mesmo período do ano anterior.
Os modelos clássicos não têm em conta a idade
Os autores da investigação parecem ter encontrado a resposta para o enigma: o limiar de 35 ºC a que nos referimos anteriormente não é válido para toda a gente. E é que, ao que parece, não têm em conta a idade das vítimas para determinar se uma pessoa faleceu devido ao calor ou não. Por isso, decidiram elaborar um novo modelo de sobrevivência humana que tivesse em conta esse critério.
Ao introduzir a variável da idade no cálculo, perceberam que as seis ondas de calor tiveram eventos irreversíveis para os maiores de 65 anos que não encontraram sombra. Os casos de Larkana e Phoenix foram os mais graves. Em ambos, o episódio de temperaturas extremas registou eventos irreversíveis para pessoas com mais de 65 anos, mesmo que encontrassem sombra onde se abrigar. A de Larkana chegou a ter um período de não sobrevivência para pessoas entre os 18 e os 35 anos de idade, apesar de não ter atingido o limiar crítico de temperatura de bulbo húmido em termos gerais.
Um novo modelo de sobrevivência
“As mortes por calor, particularmente em áreas em desenvolvimento e densamente povoadas, foram, sem dúvida, seriamente subestimadas”, indicam os autores nas conclusões do estudo. Em declarações concedidas ao The Guardian, Perkins-Kirkpatrick é ainda mais contundente: “O meu primeiro pensamento foi: ‘Oh, merda... Não esperava mesmo ver isto’”. Deixou também uma reflexão incómoda: “Se já está a acontecer agora, então, o que acontecerá no futuro, quando o clima estiver dois ou três graus mais quente?”
Os estudos climáticos são categóricos ao afirmar que as ondas de calor atingem temperaturas mais elevadas em todo o mundo e, além disso, duram mais tempo. Isto levou os investigadores a desenvolver um modelo que simulasse a reacção do organismo à exposição ao calor extremo, de acordo com a idade. Obviamente, colocando o foco nos maiores de 65 anos, que são os mais vulneráveis.
“Muitas vezes definimos as ondas de calor apenas pela temperatura”, explicou Perkins-Kirkpatrick, acrescentando depois que “usando este modelo, que tem em conta como o corpo funciona, é mais fácil compreender como estes eventos podem tornar-se mortais”. Por sua vez, Steve Sherwood, climatologista da Universidade de Nova Gales do Sul que ajudou a realizar as primeiras investigações sobre os limites teóricos de temperatura que o ser humano é capaz de suportar, acrescentou que “o facto de estarmos tão perto dos limites fisiológicos significa que mitigar as temperaturas mais elevadas é essencial para que os seres humanos possam viver e prosperar”.
Não devemos pensar apenas na mortalidade
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| Saumya Khandelwal, New York Times via Redux - O calor torna o ar condicionado cada vez mais necessário, mas a sua utilização gera emissões que agravam o problema. |
Vivemos numa época em que a ciência nem sequer consegue prever o perigo das ondas de calor utilizando os parâmetros clássicos: temperatura máxima do ar, índice de humidade e bulbo húmido. Um estudo publicado na revista Nexus, que analisou um episódio com estas características ocorrido na Andaluzia em 2022, confirmou isso mesmo. Na verdade, os valores utilizados pelos climatologistas e especialistas em saúde não foram suficientes para prever o que veio a acontecer e alertar antecipadamente a população para os riscos a que estava exposta.
Outras investigações também se têm centrado nas consequências do aumento das temperaturas em diferentes aspectos da saúde. Por exemplo, um estudo elaborado pela Universidade de Adelaide e publicado na Nature Climate Change alertou que a incidência de perturbações mentais e comportamentais poderá aumentar até 50% nas próximas décadas, caso se concretizem as previsões de aquecimento global. Da mesma forma, embora o calor não pareça ser um factor capaz de desencadear enxaquecas por si só, há cada vez mais evidências de que actua como um amplificador.
E quanto ao dinheiro que isso nos custa?
Não podemos ignorar que vivemos numa época em que o negacionismo climático ganhou força. Por isso, também não é de mais falar sobre como as alterações climáticas afectam os nossos bolsos. Um estudo elaborado pelo Banco Central Europeu, publicado na revista European Economic Review, estimou o custo dos fenómenos meteorológicos do ano de 2024 em toda a União Europeia: 43 mil milhões de euros. Países como a Grécia, Malta, Bulgária e Chipre sofreram perdas superiores a 1% do seu PIB.
Por outro lado, quantificar o custo de um incêndio é difícil, mas não impossível. Por exemplo, o preço a pagar por um hectare queimado é de 2.440 euros, incluindo os custos de extinção, embora em muitos casos esse valor possa multiplicar-se. Em Portugal, a associação ambientalista Quercus estimou que os incêndios florestais custam à economia portuguesa cerca de 1.000 milhões de euros por ano, considerando impactos mais amplos e indirectos (a prevenção custaria bem menos: 165 milhões de euros por ano). Já a o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) estimou perdas médias anuais de cerca de 153 milhões de euros entre 2006 e 2016.
Neste sentido, vale a pena referir também o relatório Prevenção versus Extinção: o custo dos incêndios, da Greenpeace, publicado em meados de Agosto de 202. A organização estimou na altura que, por cada mil milhões de euros destinados à prevenção de incêndios em áreas florestais, poupavam-se 99 mil milhões de euros em trabalhos de extinção. Quase nada.
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| União Europeia, Copernicus Sentinel-2 - Os incêndios florestais do Verão de 2025 eram perfeitamente visíveis do espaço. |
O futuro que nos espera
O Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia não é propriamente optimista. No que diz respeito às projecções relativas a fenómenos extremos de calor e frio no contexto do aquecimento global,
vaticinava num relatório de 2020 que, num clima 3 °C mais quente em comparação com a era pré-industrial, uma onda de calor com a duração actual de 50 anos poderá ocorrer quase todos os anos em Espanha e em partes de Portugal, a cada 3 anos na maioria das outras zonas do sul da Europa e pelo menos a cada 5 anos noutras regiões da Europa.
Fica claro que, mesmo que consigamos controlar a chuva, a aridez, as tempestades e as alterações no nível do mar, o aquecimento global vai causar sofrimento. Mas hoje, em que, como todos os dias 22 de Abril, celebramos o Dia da Terra, nem tudo pode ser negativo. A actual crise geopolítica, traduzida no aumento do preço dos derivados do petróleo, pode obrigar-nos a dar mais um passo na aposta nas energias renováveis e nos meios de transporte eficientes. Ou talvez os incêndios do ano passado nos sirvam para evitar que se verifiquem outros semelhantes neste Verão. Passos pequenos, sim, mas indispensáveis para deixar um mundo melhor às gerações futuras.
Actualizado a 21 de maio de 2026