Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
O Gusto era o meu herói, apenas cinco anos mais velho do que eu. Durante muito tempo, achei que não havia nada que o assustasse.Quando éramos pequenos, pelos anos setenta, ainda antes do abril, havia guerras entre bairros — pedras a cruzar o ar, gritos, corridas sem direção. Ele avançava sempre primeiro. Eu seguia atrás.
Numa dessas vezes, disse-me apenas:
— Não saias de trás de mim.
Lembro-me das pedras a cortar o ar, do barulho seco das pancadas contra os muros e chapas. Uma delas veio na nossa direção. Ele baixou-se por reflexo… Eu não.
Foi talvez a primeira vez que percebi duas coisas ao mesmo tempo: que ele tentava proteger-me… e que os heróis também falham nos instantes pequenos.
Havia um rapaz mais velho na rua que implicava comigo sempre que podia. Talvez me puxasse o cabelo — eu usava-o comprido nessa altura — talvez fossem empurrões, talvez apenas aquela forma vaga de crueldade que alguns miúdos aprendem cedo.
Nunca durava muito.
Mais cedo ou mais tarde, o José Augusto sabia.
E quando sabia, deixava de durar.
Quando começou a crescer, já a liberdade tinha chegado às ruas, decidiu que não queria continuar a estudar. Queria trabalhar, ter o seu próprio dinheiro, ser independente, dizia.
Saía de madrugada, a pé, para uma caminhada longa até à serralharia onde trabalhava. Eu via-o partir, tentando fazer pouco barulho no quarto que partilhávamos, e aquilo, para mim, era uma forma de grandeza silenciosa.
Às vezes, quando a minha mãe não conseguia preparar-lhe o almoço a tempo, era eu quem lho levava. Depois ficava a vê-lo entre máquinas, ferro e ruído, enquanto ele me mostrava tudo com orgulho, como se aquele mundo duro fosse também uma espécie de conquista.
Mais tarde vieram os bailes de garagem, o dealbar da década de oitenta. Música alta, luz fraca, cigarros, adolescentes a fingir que eram adultos.
E ele levava-me na mesma.
Apresentava-me aos amigos como se eu pertencesse ali. Eu tentava acompanhar os movimentos, perdido entre o ritmo e a confusão, a fingir que sabia dançar.
Ele ria-se sem maldade, mas nunca me deixava de lado.
Depois fomos “moços de trolha” na construção da casa dos meus pais. Sacos de cimento, tijolos, cal, dias longos que pareciam não acabar.
O trabalho era duro, mas havia sempre espaço para uma piada, um comentário, um momento breve de leveza entre o esforço. Era ali que se construía mais do que uma casa.
Inevitavelmente, os nossos caminhos começaram a separar-se. Não de forma brusca, mas lenta, quase impercetível — como coisas que deixam de acontecer antes de alguém dar por isso.
Ainda assim, nunca deixámos de saber um do outro.
Fomos envelhecendo.
No último ano, vi a doença tirar-lhe, de forma lenta e cruel, as forças. Mesmo assim, não se dava por vencido. Não conseguia andar sozinho: usava bengala, depois andarilho, e mais tarde uma cadeira com rodízios que arrastava com os pés. Nunca se deixou ficar na cama.
Havia nele uma inquietação com o facto de estar a dar trabalho e sofrimento a quem o rodeava. Isso parecia pesar-lhe mais do que a própria dor.
Falava-nos da mulher, também ela doente, com preocupação constante — o que o consumia até ao fim era o que ficaria para ela depois dele. Nós, os irmãos, tentávamos sossegá-lo, dizendo que faríamos o que fosse possível.
Até ao último dia, que parecia já pressentir, falava pouco de si. Preocupava-se sobretudo com o incómodo que achava estar a causar, e com os que ainda viriam depois.
Num fim de tarde de maio, poucas horas depois da nossa última chamada, as forças faltaram-lhe. E o meu herói de infância deixou de lutar.

Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
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