Vida dura, mas nossa.Lembro-me bem desses dias. Lá ia eu, ainda rapaz, atrás do meu pai, desde a Boavista até Donai, com um balde na mão. Não caminhava ao lado dele, seguia sempre um pouco mais atrás, não por escolha, mas porque os passos dele eram largos e decididos, difíceis de acompanhar. Ao ombro, levava a saca de serapilheira com o nosso farnel e a pedoa.
Quando passávamos pela lixeira municipal, o cheiro era forte, nem vale a pena descrevê-lo com muitos detalhes. Era daqueles que ficam na memória mesmo sem querer. Corvos por todo o lado, a grasnar e a remexer no lixo, como se também eles lutassem pela sobrevivência. Virávamos então, seguindo a placa que indicava Donai, Espinhosela e Terroso. Mais dois quilómetros de caminho, e outra vez o desvio, junto a um carrascal que o meu pai dizia ser baldio. Era ali o nosso destino.
Mal chegávamos, começava o trabalho. O meu pai, sem perder tempo, pegava na pedoa e ia desbastando as carrasqueiras e estevas. Eu fazia o que podia: juntava a lenha, devagar, escolhendo um descampado, perto de uma pequena agueira. Quando já havia suficiente, ele trazia giestas secas e preparava a fogueira. Eu, entretanto, já tinha o balde cheio de água, pronto para ajudar.
O lume acendia-se com o isqueiro a gasolina, daqueles antigos, que diziam precisar de licença. Nunca soube se o meu pai a tinha, mas também nunca o vi preocupar-se com isso. O fogo crescia depressa, mas era preciso saber controlá-lo. Não podia arder tudo de uma vez. Íamos dominando as chamas, molhando a lenha quando era preciso, com cuidado e paciência.
Quando o fogo já estava no ponto certo, vinha o momento de comer. O meu pai puxava umas brasas para o lado e, entre duas pedras, punha uma alheira a assar. Sentávamo-nos ali mesmo e, com um pedaço de pão e aquela alheira dividida, matávamos o bicho. Mas que manjar! Sabia bem, talvez porque era simples, ou talvez porque era o que havia.
Depois voltávamos ao trabalho. Com um ramo de carvalho, o meu pai afastava as brasas ainda vivas, e eu ia molhando, para que não se transformassem em cinza. Era preciso tempo, quase uma hora, sempre atentos, até que toda a lenha se transformasse em boas brasas, prontas para guardar.
No fim, enchíamos o saco de serapilheira. E lá vinha eu, com ele às costas, desde Donai até à Boavista. Custava, claro que custava. Era um longo caminho, mas eu já tinha treze anos… e sentia um orgulho difícil de explicar. Desta vez, o meu pai vinha atrás de mim, com o balde de água, atento a qualquer sinal de fumo, não fosse alguma brasa mal apagada reacender pelo caminho dentro do saco.
Quando chegávamos a casa, a braseira já tinha o seu lugar à nossa espera. E que bem sabia sentar-me à mesa, de forma redonda, com os pés quentinhos debaixo da toalha, a folhear um almanaque do Tio Patinhas. As brasas, que tanto trabalho tinham dado, acabavam por se transformar desta vez em cinza. Mas nem isso se perdia: guardava-se, para mais tarde adubar a terra, para dar força às cebolas quando a primavera chegasse.
Era assim a vida.
Dura, simples… mas nossa.
Eduardo Mesquita