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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 16 de agosto de 2026

As lendas e as histórias do Nordeste Transmontano


 O Nordeste Transmontano é uma terra de montes agrestes e de vales profundos, onde a paisagem guarda memórias ancestrais. Desde tempos imemoriais, as gentes desta região foram transmitindo, de boca em boca, histórias e lendas que misturam realidade, fantasia e simbolismo. Estes relatos, muitas vezes narrados à volta da lareira em noites de inverno rigoroso, não eram apenas formas de passar o tempo, eram também lições de vida, modos de transmitir valores e explicações para fenómenos que a razão da época não conseguia compreender.

Entre as figuras mais presentes no imaginário popular estão as bruxas e as feiticeiras, mulheres que, segundo as lendas, tinham o poder de lançar maldições, transformarem-se em animais ou reunirem-se nas encruzilhadas durante as noites de luar. Muitas aldeias de Bragança, Vimioso, Vinhais, Miranda do Douro, praticamente em todas as aldeias do nosso distrito, ainda recordam histórias de “feiticeiras” que causavam doenças ao gado ou traziam desgraças às famílias, obrigando os camponeses a recorrer a rezas e benzedeiras para afastar o mal.

Os lobos são também protagonistas das narrativas transmontanas. Antigamente abundantes na região, eram vistos tanto como ferozes inimigos que ameaçavam os rebanhos, como criaturas míticas, dotadas de astúcia e força sobrenatural. Em algumas histórias, o lobo surge como um ser encantado, que guardava tesouros escondidos, ou até como castigo para almas penadas. O seu uivar, fazia eco pelas serras, alimentava o imaginário popular e dava origem a contos de terror e respeito.

Outra figura lendária é a do diabo, que aparece nas lendas disfarçado de homem elegante ou de animal, e oferece riquezas fáceis em troca da alma. O povo, profundamente religioso, usava estas histórias como advertência contra a ambição desmedida e a falta de fé.

Mas nem todas as lendas do Nordeste Transmontano são sombrias. Existem também relatos de encantamentos e mouras encantadas, belas mulheres ligadas a fontes, castros e penedos, que apareciam nas madrugadas de São João, e ofereciam riquezas a quem quebrasse o feitiço com coragem e coração puro. Estas narrativas ligam-se às origens antigas da região, marcadas por tradições celtas e romanas.

As festas populares, como o Entrudo Chocalheiro de Podence ou os Máscaros do Ousilhão, embora mais associados à tradição do que à lenda, carregam igualmente esse lado misterioso e ancestral. As máscaras de cores vivas, os chocalhos e os rituais estão enraizados num mundo simbólico de fertilidade, proteção e renovação, que se mistura com as crenças mágicas transmitidas ao longo dos séculos.

As lendas do Nordeste Transmontano são um espelho da vida das suas gentes e refletem o medo, a fé, a dureza da sobrevivência, mas também a esperança e a ligação profunda à natureza e ao sobrenatural. Preservá-las é manter viva a alma da região, dar voz às montanhas, aos rios e às aldeias que, mesmo em tempos modernos, continuam a guardar segredos e mistérios.

Estas lendas são um elemento essencial do nosso património imaterial, um elo entre passado e presente, e parte fundamental da identidade cultural transmontana. Preservá-las e divulgá-las é obrigação de todos os transmontanos. Neste espaço, não desistirei de fazer a minha parte.

HM
16 de Agosto de 2026

Luís António Rodrigues Lobo - Os Governadores Civis do Distrito de Bragança (1835-2011)

 (pelo Governo de Lisboa)
19.março.1918 – 21.janeiro.1919
LISBOA, C. 1860 – ?

Médico.
Licenciado em Medicina.
Governador civil de Bragança (1918-1919).
Natural de Lisboa.
Filho de António Rodrigues Fachinha.

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Médico de profissão, na década de 1890 Rodrigues Lobo colaborava com a Misericórdia do Porto no Instituto Araújo Porto, para o ensino de crianças surdas.
Para desenvolver o ensino naquele estabelecimento, em 1893 a Misericórdia destacou- o para Paris, juntamente com Nicolau Pavão de Sousa, com o objetivo de na capital francesa adquirirem habilitações como professores para surdos. Depois de um ano de estágio no Instituto Nacional de Surdos de Paris, regressaram ambos ao Instituto Araújo Porto, criando-se então se um “Curso Normal” para formar professores de surdos.
Em novembro de 1913, foi nomeado professor no Liceu Rodrigues de Freitas, onde permaneceu como médico escolar nos anos seguintes.
Governador civil de Bragança por despacho de 19 de março de 1918, tomando posse a 30 do mesmo mês, foi um magistrado atento aos problemas que o rodeavam, promovendo a concessão de atestados de pobreza e nascimento às famílias dos soldados, bem como a construção de cemitérios públicos no distrito.
Durante o seu mandato, e para combater a excessiva emigração com que o distrito se debatia, ordenou a todos os administradores concelhios o impedimento da saída de operários para França.
O mandato deste governador civil terminou com a Monarquia do Norte, vendo-se obrigado a abandonar a cidade de Bragança a 21 de janeiro de 1919, devido ao levantamento das unidades militares da cidade e da proclamação da Monarquia, embora a sua exoneração efetiva tenha sido decretada apenas a 20 de fevereiro seguinte.
Regressou depois ao Porto, onde morava na Rua de S. Brás, e ali, em 1926, publicou um volume com duas conferências da sua autoria, “A educação física através dos tempos” e “A Meteorologia dos Lusíadas”, este último sobre alguns aspetos científicos abordadas por Luís Vaz de Camões.
Já em 1936, escreveu a António Ferro, enquanto presidente do Sindicato dos Jornalistas, comunicando-lhe a sua adesão “ao protesto dos intelectuais portugueses contra as barbáries praticadas em Espanha”, no contexto da guerra civil que grassava no país vizinho.

Circular enviada por Rodrigues Lobo aos administradores de concelho a propósito do apoio aos soldados em campanha na Grande Guerra (1918)

Exmo. Senhor Administrador do Concelho

Bragança, 5 de abril 1918

Circular

No intuito de facilitar as relações entre soldados em campanha e suas famílias, e ainda o encargo de zelar os interesses de uns e de outros e de servir de intermediária das suas relações criou a Junta Patriótica do Norte uma secção especial denominada “Bureau de Informações”.
Para levar a efeito esta sã, patriótica e benemérita iniciativa, carece aquela Junta de cooperação das autoridades locais, nomeadamente no sentido de serem passados gratuitamente, como é de lei, às famílias dos soldados atestados de pobreza e nascimento, de que careçam para fins militares.
Para esse fim, e de harmonia com o despacho de S. Exa. o Ministro do Interior de 30 de março último, venho ordenar a V. Exa. se digne, por si e regedores desse concelho, promover junto das repartições do Registo Civil e juntas de freguesia todas as facilidades na concessão dos referidos atestados.

Saúde e Fraternidade

Fonte: Arquivo Distrital de Bragança, Governo Civil de Bragança, Correspondência Expedida.

Circular de Rodrigues Lobo a apelar à angariação de donativos aquando
da epidemia de gripe pneumónica (1918)

Em vista do grande desenvolvimento da epidemia da gripe pneumónica, deseja o Exmo. Presidente da República que nos concelhos atacados se organizem comissões das pessoas de maior categoria social, a fim de angariarem donativos para acudirem às vítimas do mal epidémico que a todos aflige.
Por isso, pedia a V. Exa. se dignasse fazer parte da comissão a organizar e tivesse a bondade de comparecer amanhã, 2 do corrente, neste Governo Civil, pelas 15 horas.

Saúde e fraternidade – Bragança, 1.º de novembro de 1918.

O governador civil, Luís António Rodrigues Lobo.

Fonte: Arquivo Distrital de Bragança, Governo Civil de Bragança, Correspondência Expedida,
Circulares expedidas de 1913 a 1930, 2.ª secção, circular n.º 17.

Fontes e Bibliografia

Arquivo Distrital de Bragança, documentos vários.
Fundação António Quadros, Fundo AFC, Caixa 0017, correspondência.
Diario Illustrado, 26.9.1875.
ALVES, Francisco Manuel. 2000. Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança,vol. X. Bragança: Câmara Municipal de Bragança / Instituto Português de Museus.
ANTUNES, Ana Catarina Botelho. 2013. A inclusão de alunos surdos em salas de aula regulares. Dissertação de Mestrado em Ciências da Educação. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa.

Publicação da C.M. Bragança

BANCO DE PORTUGAL TESTA EM BRAGANÇA NOVO MODELO DE ATENDIMENTO PRESENCIAL

 Bragança vai ser o primeiro município a receber o Atendimento BdP Itinerante, um projeto-piloto do Banco de Portugal criado para aproximar os serviços da instituição das populações que se encontram mais afastadas dos atuais pontos de atendimento presencial.


A iniciativa resulta de uma parceria com o Município de Bragança e prevê a deslocação regular de uma equipa do Banco de Portugal ao concelho, permitindo aos cidadãos da região aceder presencialmente a diferentes serviços da instituição.

O projeto terá, numa primeira fase, a duração de seis meses. Durante este período, será avaliado o impacto da medida e a adesão da população, podendo os resultados servir de base à continuidade do serviço em Bragança e à eventual extensão do modelo a outras regiões do país.

A Câmara Municipal ficará responsável por disponibilizar as instalações necessárias ao funcionamento do atendimento e pela divulgação da iniciativa junto da comunidade.

A formalização da parceria está marcada para 21 de agosto, às 10h00, no Mercado Municipal de Bragança, numa cerimónia que contará com a presença do Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, e da Presidente da Câmara Municipal, Isabel Ferreira.

Com este projeto, Bragança passa a acolher uma experiência de proximidade que pretende facilitar o acesso dos cidadãos aos serviços do Banco de Portugal e reforçar a igualdade no acesso a serviços públicos.

Jornalista: Vitória Botelho
Foto: DR

IV ACADEMIA DOS DIREITOS HUMANOS PROMOVE DEBATE SOBRE O FUTURO DOS TERRITÓRIOS RURAIS

 A Associação Transmontana Pelo Desenvolvimento (ATPD) vai promover, em setembro, dois momentos de participação e reflexão sobre o futuro dos territórios rurais, no âmbito da IV Academia dos Direitos Humanos.


Sob o tema “O território é teu, a voz é tua”, a iniciativa pretende reunir jovens, associações, empresários, agricultores, técnicos, autarcas, estudantes e outros membros das comunidades para partilhar experiências, preocupações e propostas sobre a realidade e o futuro das zonas rurais.

O primeiro encontro está marcado para 9 de setembro, entre as 10h30 e as 12h30, em Bragança, com a realização da primeira parte da Assembleia de Jovens. Dois dias depois, a 11 de setembro, a iniciativa prossegue a partir das 16h00, estando prevista a exibição do documentário “Aldeias do Futuro”, pelas 17h30, seguida de um debate.

As sessões pretendem contribuir para a construção de um Manifesto pelos Territórios Rurais, juntando diferentes gerações e áreas de atividade numa reflexão conjunta sobre a forma como estes territórios podem ser transformados e valorizados.

Entre as questões em debate estará também o papel dos jovens na construção do futuro das comunidades rurais e na definição das políticas e soluções para estes territórios.

Os locais definitivos dos dois encontros serão divulgados posteriormente.

Jornalista: Vitória Botelho
Foto: DR

GNR REFORÇA FISCALIZAÇÃO À CAÇA COM OPERAÇÃO ARTÉMIS ATÉ FEVEREIRO

 A Guarda Nacional Republicana iniciou este domingo, 16 de agosto, a Operação “Artémis 2026/2027”, uma ação de fiscalização dirigida ao exercício da caça que vai decorrer em todo o território nacional até 28 de fevereiro do próximo ano.


A operação é coordenada e executada pela GNR, através do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente, e pretende assegurar o cumprimento das regras aplicáveis à atividade venatória, contribuindo para a proteção da fauna selvagem, a conservação da biodiversidade e a segurança de pessoas e bens.

Com o início da época de caça em terrenos ordenados, as autoridades vão intensificar as ações de fiscalização, procurando detetar situações de incumprimento relacionadas com o exercício da atividade, o uso e transporte de armas e o respeito pelas normas de proteção das espécies cinegéticas.

A operação inclui também ações de sensibilização e cooperação com caçadores e entidades ligadas à atividade, com o objetivo de promover uma prática responsável e compatível com a preservação dos recursos naturais.

A GNR recorda que os caçadores devem respeitar, entre outras regras, as distâncias de segurança legalmente estabelecidas, verificar se a zona onde pretendem caçar cumpre os requisitos aplicáveis e garantir que o armamento é devidamente acondicionado e transportado quando não está a ser utilizado.

Os resultados da anterior Operação “Artémis” revelam a dimensão da fiscalização. Na época 2025/2026 foram controlados mais de 10.700 caçadores, tendo sido identificados 136 crimes e realizadas 133 detenções. Foram ainda levantadas 345 contraordenações, relacionadas sobretudo com documentação obrigatória, transporte de armas e incumprimentos associados à gestão das zonas de caça.

Jornalista: Vitória Botelho
Foto: DR

DESCIDA ABRUPTA DAS TEMPERATURAS TROUXE CHUVA E GRANIZO A TRÁS-OS-MONTES

 A chegada de instabilidade meteorológica provocou, no sábado, 15 de agosto, uma descida acentuada das temperaturas em Trás-os-Montes, com os termómetros a registarem valores mais de dez graus abaixo dos verificados nos dias anteriores.


A mudança das condições meteorológicas fez-se acompanhar pela ocorrência de chuva e, em algumas localidades da região, também de granizo e trovoada, sobretudo durante a tarde e noite.

Os fenómenos foram registados em vários pontos do território e partilhados por habitantes nas redes sociais, depois de vários dias marcados por temperaturas elevadas e pelo risco muito elevado de incêndio rural.

A alteração do estado do tempo trouxe, assim, algum alívio às temperaturas na região, embora a instabilidade tenha provocado condições meteorológicas bastante diferentes das registadas durante a vaga de calor dos últimos dias.

Jornalista: Vitória Botelho
Foto: DR

10ª edição do Mercado de Verão chega ao fim com balanço positivo

sábado, 15 de agosto de 2026

Festas, Festividades e Eventos

Hiroxima e Nagasáqui: O homem que sobreviveu duas vezes

 Chamava-se Tsutomu Yamaguchi. Natural de Nagasáqui, labutava desde 1930 na Mitsubishi no design de petroleiros, mas no dia 6 de Agosto de 1945 estava em Hiroxima, a caminho do trabalho. Conheça a sua história excepcional.

Shutterstock - 10 de Julho de 2018: Um jovem rapaz olha para os restos icónicos do edifício industrial de Hiroxima, destruído pela explosão da bomba atómica da Segunda Guerra Mundial.

Perguntava Sting na sua famosa canção “Russians”, em 1985, “How can I save my little boy from Oppenheimer’s deadly toys?” (Como posso salvar o meu filho dos brinquedos mortais de Oppenheimer?).

Referia-se à bomba atómica, à qual quarenta anos antes um cidadão japonês conseguiu escapar... duas vezes. Na superfície, o indivíduo em questão é uma anomalia história. É o homem que sobreviveu a ambas as explosões nucleares em Hiroxima em Nagasáqui, mas a sua história encerra uma lição bem mais profunda e importante para o que somos e seremos como Humanidade.

UMA MANHÃ SOALHEIRA EM HIROXIMA E UMA LUZ MAIS INTENSA QUE MIL SÓIS

Chamava-se Tsutomu Yamaguchi. Natural de Nagasáqui, trabalhava desde 1930 na Mitsubishi no design de petroleiros; mas no dia 6 de Agosto de 1945, estava em Hiroxima, a caminho do trabalho. Atrasado, caminhava veloz rumo ao escritório da Mitsubishi, onde contava finalizar os pormenores de um projecto que devia entregar nesse dia. A sua expectativa era terminar o mais rápido possível e regressar à sua cidade natal, estar com a sua família. No meio deste bulício, escutou o barulho de motores sobre si. Era um bombardeiro B-29; e do seu ventre saiu um pequeno objecto com dois pára-quedas que descia lentamente sobre o solo.

Eram 8h15 da manhã, o dia instalava-se, mas segundos depois, Yamaguchi assistiu a um relâmpago de luz e um estrondo tremendo que cavalgaram na sua direcção sobre a cidade. A três quilómetros do ponto de impacto, o engenheiro foi projectado violentamente antes de se proteger, por instinto, numa vala de irrigação.

ARCHIVO GBB/CONTRASTO/REDUX - Uma nuvem em forma de cogumelo paira sobre a cidade japonesa de Hiroxima a 6 de Agosto de 1945, depois de os EUA terem lançado a primeira bomba atómica alguma vez utilizada em guerra. Três dias depois, uma segunda bomba atómica destruiu a cidade de Nagasáqui. O Japão rendeu-se a 15 de Agosto.

Quando a comoção terminou e despertou da inconsciência, horas depois, arrastou-se para o exterior e sentiu dores no corpo todo. Um dos seus tímpanos rebentara, a parte superior do corpo tinha queimaduras graves. Procurou um lugar onde pudesse abrigar-se. Pelo caminho, foi ajudando a desenterrar cadáveres que se encontravam entre destroços. A Hiroxima onde começara a manhã era agora um imenso espaço terraplanado.

Finalmente, encontrou um abrigo militar, preparado para proteger de ataques aéreos. Enquanto encontrou alguns colegas, questionando o que lhe acontecera, não se sentiu seguro. Tinha a certeza de que aquele local, supostamente de protecção, não serviria contra a bomba que testemunhara. Era completamente diferente de qualquer outra que conhecia ou ouvira falar. E tinha razão. Yamaguchi assistira à detonação da Little boy, a primeira bomba atómica a ser usada em cenário de guerra. A contagem futura de vítimas seria de cento e quarenta mil mortos, sendo que muitas dezenas de milhar morreriam nas décadas seguintes como consequência de envenenamento por radiação.

Hiroxima, à altura uma das mais importantes cidades industriais do Japão e em séculos anteriores centro de operações militares, seria no futuro conhecida como a primeira mártir do átomo. Porém, Harry Truman, presidente dos EUA, escolhera-a, juntamente com o Estado-Maior das Forças Armadas americanas, precisamente pela sua posição estratégia como lar de uma das forças militares mais importantes da estratégia nipónica de defesa do Sul do País.

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Às vítimas mais imediatas, na ordem dos cento e quarenta mil, seguiram-se muitas dezenas de milhar nas décadas seguintes como consequência de envenenamento por radiação.

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No entanto, a maior parte das vítimas eram civis. Como Truman mais tarde repetiria, era necessária uma demonstração de força para obrigar o Japão a render-se. Para obrigar ao final de uma guerra que o Imperador nipónico afirmara publicamente querer levar até aos limites drásticos: vencer ou morrer tentando. Hiroxima era, na sua visão, esse exemplo.

Domínio Público - A pele da paciente está queimada num padrão que corresponde às partes escuras de um quimono usado na altura da explosão. Fonte: National Archives and Records Administration

Figuras que o rodearam nesse período – como o seu sucessor na presidência Dwight Eisenhower ou o general Douglas MacArthur, que comandava todo o teatro de operações dos EUA no Pacífico – afirmaram mais tarde ter-se oposto à bomba antes de esta ser lançada. No entanto, não existem quaisquer provas nesse sentido. Sendo que também não há evidências de que a campanha de bombardeamentos incendiários constantes que os americanos haviam usado nas semanas anteriores a 6 de Agosto de 1945 não estivesse a forçar os Japoneses até ao ponto de ruptura.

…E NOVAMENTE EM NAGASÁQUI

Tudo isto eram considerações geopolíticas e morais que não eram prioritárias para Yamaguchi. No dia seguinte, embora ferido, quis regressar a Nagasáqui. Estava preocupado com a situação da sua família. Traumatizado pelo que lhe acontecera, soube que, incrivelmente, algumas linhas de comboio se mantinham abertas, incluindo a que viajava até à sua cidade natal. Deslocou-se a pé e pelo caminho assistiu a um cenário atroz. Atravessou rios a nado, porque as pontes haviam sido todas destruídas – contaria mais tarde as visões dos corpos inchados acumulados, alguns deles fundidos.

A visão ficaria com ele para sempre, mas só lhe interessava chegar à estação e voltar para casa, onde chegou a 8 de Agosto. A primeira coisa que fez foi dirigir-se ao hospital e tratar dos seus ferimentos. Os médicos recomendaram-lhe repouso, mas o engenheiro de 29 anos não queria conviver com as imagens de Hiroxima, precisava de se concentrar em algo. Na manhã seguinte, então, foi trabalhar na sua fábrica; e enquanto explicava ao patrão tudo o que acontecera na manhã de seis de Agosto, encontrando neste a incapacidade de acreditar que uma só bomba conseguiria destruir uma cidade inteira, Fat Man, o segundo engenho nuclear a ser usado na História em cenário de guerra, detonou.

Shutterstock  Exposição no Museu da Bomba Atómica de Nagasáqui, na cidade onde o Fat Man – o segundo engenho nuclear a ser usado na História em cenário de guerra – foi detonado a 9 de Agosto de 1945. Um dos primeiros forasteiros a visitar esta então vila de pescadores foi Fernão Mendes Pinto. 

Novamente, a mais ou menos três quilómetros de onde Yamaguchi se encontrava. Novamente, o mesmo cenário: corpos em seu redor, um silêncio mortal, mórbido, nos segundos a seguir à explosão. A fábrica foi obliterada, mas desta vez, a fortuna de Yamaguchi protegeu-o por completo: saiu incólume. Desmaiara de novo, mas sobrevivera uma segunda vez. O problema maior que teve no imediato foi uma infecção. Esta deveu-se a não conseguir substituir as ligaduras que lhe protegiam as queimaduras; e como tal, passou a semana seguinte a vomitar.

Em Nagasáqui, morreram à volta de quarenta mil pessoas no impacto inicial. Yamaguchi resistiu. A sua esposa também, juntamente com o filho bébé de ambos. Yamaguchi, traumatizado, mal foi capaz de pronunciar palavra nos dias seguintes à explosão de Nagasáqui; e durante quase 50 anos, foi incapaz de falar sobre o assunto. Depois do fim do conflito, num toque surreal, trabalhou como tradutor para o exército aliado que estava de plantão no Japão.

O casal teve mais duas filhas e quando em 1957 o governo japonês criou o conceito legal de hibakusha, designando os sobreviventes de uma explosão atómica, Yamaguchi candidatou-se aos vários privilégios que o estatuto concedia. Nessa altura, voltara a trabalhar para a Mitsubishi e vivia relativamente saudável com a família, mergulhado nos seus traumas, mas feliz o suficiente para deixar o passado para trás. No entanto, com o passar do tempo e o fantasma da guerra nuclear a pairar sobre o mundo, Yamaguchi foi sentindo a necessidade de falar da sua experiência, lembrar as vítimas, aqueles que não tinha tido a sua sorte. Ou azar. Conta que em 1981 ouviu um discurso de João Paulo II tratando a tragédia de Hiroxima como o da mão humana. Acordou nele uma vontade de fazer algo, mas sentiu vergonha, embaraço pelo facto de não se considerar uma real vítima atómica – tirando o tímpano rebentado, não sofrera outros danos visíveis – e e também pelo estigma que durante várias décadas as vítimas de Hiroxima e Nagasáqui carregaram no país, como doentes infecciosos da radiação, como se pudessem espalhar a sua doença a outros. Por isso mesmo eram muitas vezes preteridos em empregos ou simplesmente… em casamento. 

VENCENDO O ESTIGMA DA VÍTIMA

Todos estes obstáculos desapareceram em 2005, quando o filho de Yamaguchi, aquele que era bébé aquando de Nagasáqui, morreu de cancro. Abriu-se à exposição pública, surgindo em dois documentários sobre as explosões e com 90 anos – espantoso, quando pensamos no que passou naqueles quatro dias em 1945. Pediu pela primeira vez o passaporte e viajou até Nova Iorque, onde discursou perante uma audiência no edifício das Nações Unidas. A sua figura impressionou jornalistas e cineastas que o entrevistaram. Enquanto que com outros sobreviventes as memórias parecem distantes, uma colecção de fragmentos dispersos, Yamaguchi vive ainda o passado, é uma prova do mesmo, uma encarnação daquele fantasma luminoso que levou Oppenheimer a considerar-se a Morte destruidora de mundos.

Em 2009, foi reconhecido como o único duplo sobrevivente atómico pelo Governo japonês. No ano ano seguinte, faleceria de cancro no estômago, com a impressionante idade de 93 anos. A sua esposa falecera dois anos antes e tantos eles como os filhos sofreram de problemas relacionados com radiação após 1945. 

Tendo-se tornado numa celebridade momentânea, correspondendo-se com Barack Obama ou recebendo a visita de James Cameron, a luta interior de Yamaguchi reflecte-se na totalidade nos poemas que escreveu já idoso. As recordações vivas, mais do que presentes:

“Os corpos estão empilhados uns sobre os outros. E o chão nunca secará

Está empapado da gordura de todas as pessoas que arderam e morreram”

Tsutomu Yamaguchi, o homem duas vezes amaldiçoado e abençoado, mas eternamente assombrado pelo fantasma da bomba atómica.

Bruno Fernandes
Actualizado a 9 de agosto de 2026

Um novo horizonte para descobrir em Seixo de Ansiães

 Sábado passado, 8 de agosto, inauguramos o Miradouro do Santuário de Nossa Senhora da Costa. Este espaço surge não só para valorizar o nosso património religioso e paisagístico, mas também para ofrecer a todos os visitantes um verdadeiro refúgio de paz e contemplação.


De cima deste miradouro, a vista é simplesmente deslumbrante, abraçando a grandiosidade das nossas paisagens durienses e a mística de uma terra com tanta história. É o poiso perfeito para respirar ar puro, recarregar energias e contemplar a beleza única do nosso concelho.

E para acompanhar esta obra nada melhor que música, um duo de cordas com uma harpista e um violinista que por melodias clássicas trouxeram a música ao património e embalaram este maravilhoso fim de tarde.

MERCADO DE VERÃO ANIMA JARDIM 1.º DE MAIO EM MACEDO DE CAVALEIROS

 O Jardim 1.º de Maio, em Macedo de Cavaleiros, recebe a 10.ª edição do Mercado de Verão, iniciativa que junta comércio, exposição e animação durante os dias mais quentes do ano.


A abertura contou com a presença do Presidente da Câmara Municipal, Sérgio Borges, e da Vice-Presidente, Clementina Gemelgo, que percorreram os espaços dos vários expositores e deram início a mais uma edição do evento.

A programação incluiu ainda um desfile de moda, acompanhado pelo DJ Trups, que apresentou algumas das marcas presentes no mercado.

A iniciativa decorre até 15 de agosto e pretende dinamizar o comércio e a atividade local, proporcionando também momentos de convívio e entretenimento à população e aos visitantes.

Jornalista: Vitória Botelho
foto: DR

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Festas, Festividades e Eventos

🔭 Bragança viveu dias de ciência, descoberta e muita emoção!

 O Festival Geração Ciência trouxe à cidade experiências, oficinas, observações astronómicas, atividades para todas as idades e momentos únicos de ligação entre a ciência e a comunidade.
E, no dia 12 de agosto, o Aeródromo de Bragança foi o cenário para acompanhar um dos grandes fenómenos astronómicos do ano: o Eclipse do Sol

Um evento que colocou Bragança de olhos postos no céu e aproximou a ciência de todos!

𝑩𝑹𝑨𝑮𝑨𝑵𝑪̧𝑨 𝑫𝑬𝑳𝑰𝑩𝑬𝑹𝑨 - 𝑃𝑟𝑖𝑛𝑐𝑖𝑝𝑎𝑖𝑠 𝑑𝑒𝑙𝑖𝑏𝑒𝑟𝑎𝑐̧𝑜̃𝑒𝑠 𝑑𝑎 𝑅𝑒𝑢𝑛𝑖𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝐶𝑎̂𝑚𝑎𝑟𝑎 – 14.08.2026

Vista do Miradouro da Freixiosa

Mercado Municipal já beneficiou de 130 mil euros para melhorar as condições

 A Câmara de Bragança investiu 130 mil euros no mercado municipal que se traduzem em “mudanças visíveis no equipamento”, informou a autarquia.


Trata-se de um investimento no decurso do Plano de Revitalização do Mercado Municipal de Bragança, apresentado a 27 de fevereiro, que esta semana assinalou a 
conclusão de um novo conjunto de trabalhos, num investimento de 65 mil euros, que permitiu “reforçar a iluminação, renovar os reclames ao longo das paredes interiores da zona de produtos regionais, agora com uma solução em folheado de madeira uniforme e instalar novas estruturas e plantas de embelezamento”, segundo a câmara.

A intervenção incluiu ainda a criação de uma loja pop-up, para acolher temporariamente projetos, marcas, produtores ou outras iniciativas, permitindo introduzir novas propostas e maior rotatividade na oferta do Mercado. “Esta é mais uma etapa de um conjunto de investimentos previstos no Plano de Revitalização que estão já concretizados. Entre eles encontra-se o novo parque infantil, num investimento de 29.083,84 euros, criando melhores condições para a utilização do espaço por famílias e contribuindo para tornar o Mercado mais atrativo para diferentes gerações”, acrescenta a autarquia liderada por isabel Ferreira.

Glória Lopes

Festas, Festividades e Eventos

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Em Portugal, Bragança foi a capital do eclipse

ECLIPSE SOLAR LEVA DEZENAS DE PESSOAS A VILA FLOR E MIRANDELA

 O eclipse solar marcou o dia 12 de agosto no Vale do Tua, com dezenas de pessoas reunidas no Santuário de Nossa Senhora da Lapa, em Vila Flor, para observar o fenómeno. A programação astronómica prolongou-se à noite, em Frechas, Mirandela, com uma sessão de observação das Perseidas, num dia dedicado à contemplação do céu e à divulgação científica.

Jornalista: Vitória Botelho

BRAGANÇA RENDE-SE AO ECLIPSE E CONFIRMA-SE COMO A “CAPITAL DO ECLIPSE”

 Milhares de pessoas concentraram-se no Aeródromo Municipal de Bragança para assistir a um dos fenómenos astronómicos mais aguardados do ano. Ciência, juventude e espírito de descoberta marcaram uma tarde que ficará na memória da cidade.


Bragança viveu esta quarta-feira um momento raro e especial. Sob a designação de “Capital do Eclipse”, a cidade transmontana reuniu milhares de pessoas no Aeródromo Municipal de Bragança para observar o eclipse solar, num ambiente marcado pela curiosidade, pela ciência e pelo entusiasmo.

O fenómeno astronómico transformou o aeródromo num verdadeiro ponto de encontro, juntando famílias, jovens, visitantes e amantes da astronomia que quiseram acompanhar de perto um acontecimento pouco comum e particularmente aguardado.

A iniciativa ganhou ainda um significado especial por coincidir com o Dia Mundial da Juventude, permitindo associar a observação do eclipse à promoção da ciência e do conhecimento junto das novas gerações.

Mais do que um espetáculo no céu, o eclipse tornou-se, em Bragança, uma oportunidade para despertar a curiosidade, incentivar a descoberta e aproximar a comunidade da ciência.

Durante algumas horas, os olhares convergiram para o céu e Bragança assumiu-se como um dos grandes pontos de observação do fenómeno, reforçando uma identidade que a cidade tem vindo a construir em torno da astronomia.

Um dia diferente, vivido em comunidade, que deixa na memória milhares de pessoas e uma imagem que dificilmente será esquecida: Bragança a olhar para o céu.

Jornalista: Paulo Silva Reis
Fotos: DR