(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)
Nota da autora: a estória que se segue é mera ficção. Não retrata nomes, pessoas ou factos verdadeiros. Se caso houver de qualquer semelhança com a realidade, certamente será obra da mais pura coincidência.
Salvador Silva de Matos, criatura de humildes origens, parida em remota gruta escondida entre agrestes silvados da serrania, meteu-se-lhe na cabeça, era ele um petiz que, um dia, ainda haveria de ser rei de um suposto chão sem dono.
Coube-lhe a ventura da nascença em território desvalido, dado à adoração de questionáveis adivinhos com sabedorias de oráculo.
Assim, pois, cresceu ele confiante, de mãos dadas com Lelo Porcino e Tita Severa, amigos do peito, em façanhas dignas de grandes iluminados.
Porventura, as maiores certezas lhe vinham de arraigada crença sobre os seus antepassados, senhores de quintas e palácios. Heranças que, com certeza, lhe pertenciam, se não por escritura pelo menos por desígnios.
E fora precisamente por esses reais lugares, numa caminhada pela natureza, que o excelso fenómeno lhe sucedera. De olhos postos num casal de passarinhos agarrados ao ramo de centenária árvore, embevecido pela troca de afetos entre ambos, como só a um coração compassivo como o seu seria possível, o espírito foi-lhe atravessado por raio de luz, absolutamente revelador. Não ouviu palavra alguma, mas tudo lhe ficou claro.
Tal como Saulo, antes de ser Paulo, a caminho de Damasco, também ele foi interpelado na sua revigorante caminhada daquela manhã, que pretendia fazer até Belém. Já não foi. Voltou para casa, de mãos postas ao Alto, consciente do sentido espiritual da coisa. Na verde flora sentira o chamado para a missão de corrigir o que estava errado no mundo.
Não precisava de testemunhas, apenas da sua fé, para reavivar as crenças de menino e desenvolver ainda mais particular sensibilidade para os caminhos eclesiásticos que acreditou, durante algum tempo, serem a sua maior vocação. O certo é que, apesar dos mandamentos lhe estarem na ponta da língua, sentia-se facilmente impelido a contorná-los com assustadora vontade.
Uma incongruência que acabou por perceber ter origem na violenta paixão desenvolvida por encantada beldade, de lustrosos e densos cabelos, pele macia cor de canela e doces olhos negros, com origem omissa. Daqueles amores avassaladores capazes de desorganizar furiosamente aptidões predestinadas.
Quando a doutrina, que precisa de firmeza, começou a falhar-lhe e o conflito de desejos o deixou num estado de permanente perturbação, viu-se obrigado a desprender-se da vocação, ainda que conservando o seu apetite pelo dogma. Diante disso, continuou a amar o próximo mas, então, sob condições muito bem definidas. Desde que este fosse claramente um seu semelhante, pois assim O Senhor criou o homem.
Deste modo, subsistindo na ideia de ser possuidor de raro talento, tornou-se letrado. Crente de que só desse modo um rei conquista a atenção de tantos inocentes e ingénuos que descobrem um abrigo em noites de tempestade, sem se darem conta dos telhados feitos de papel. Afinal, o estudo não é pouca coisa quando ajuda um homem a conseguir dizer com elevado fervor, banalidades e superficialidades, que soem a epifanias.
E a vida continuou.
Logo pela manhã, não carecia de relógio para se levantar da cama. A revolta de viver nesta pequena casa em ruínas, como proclamava, funcionava-lhe como despertador biológico. Ao acordar dominava-o sempre o sobressalto característico de todos aqueles que se entendem presença indispensável para o planeta.
Depois do pequeno-almoço, invariavelmente apressado, dirigia-se ao espelho, a ajustar a gravata como se estivesse a cingir ao pescoço régia faixa. Era ali, diariamente e com afinco, que treinava frases simples para problemas profundos, repetindo-as até à exaustão. Não tinha interesse na complexidade. Com efeito, suspeitava dela. Para ele, verdades factuais eram acessórios de ordem meramente técnica, absolutamente dispensáveis para quem tão bem se entende com impulsiva verborreia carregada de emoções. E não é desse pão que o povo se alimenta?
Num ato de culto à própria imagem, aprumava o tronco, lançava o queixo para a frente e esboçava um sorriso retorcido numa imitação imperfeita do seu ídolo máximo e inequívoco manifesto de genialidade, Maximiliano Trampa. A incivilidade decorosa erguida ao patamar de liderança, que enfeitiçava e incitava multidões. Venerava-o com sacramental respeito.
Descia, então, à rua. Pela trela, o seu chihuahua, Rocky, acompanhava-o. Um diminuto cão dado ao nervosismo, de latido um quanto histérico, que se lançava contra estranhos com impetuosidades desproporcionadas ao tamanho do corpo. Salvador via nele o reflexo fiel de uma alma congénere.
Na pastelaria do rés-do-chão, Anjali, funcionária incansável, servia-lhe um café.
— Obrigada Anjála… Anjalá… É isso, não é? — E pronunciava-lhe o nome, sorridente e irónico, fazendo inútil esforço à língua alheia.
Já do outro lado da estrada, à porta do mercado, lá acabava por se cruzar, uma vez mais, com as antigas figuras do bairro, Manel Duarte e Maria Rosa. O casal de ciganos a descarregar caixas de fruta.
Salvador observava-os de viés.
— Bom dia. Então, muito trabalho? — Cumprimentava, riso cáustico, enquanto Rocky, com manifesta energia canina, lhes ladrava às canelas, a farejar benesses iminentes.
Salvador puxava da trela:
— Quieto, Rocky. Aqui ainda mandamos nós.
Por fim, no adro da igreja, D. Leopoldina acenava-lhe. Frequentadora assídua da missa das sete. A ela, saudava-a com pronta diligência e uma vénia cordial.
— Deus a acompanhe, minha senhora.
Dentro de zona familiar, Rocky caminhava de torso inchado.
As manhãs de Salvador eram ocupadas por longos passeios, que ele afirmava serem “para pensar o país”. Vestido com a pele de exímio detetive, avaliava cada episódio, ocorrência ou peripécia fora do comum, ocorrida no bairro, como indício irrefutável de que aquele já não era seguro. Nunca vivenciara nenhuma experiência concreta, mas as evidências não mentiam e, sobretudo, permitiam-lhe que a ideia assentasse bem na oratória. Falar mais de defeitos do que de virtudes exige que, se num país não se vive com segurança, alguém seja escolhido para o endireitar.
No fundo, detentor de elevada esperteza, Salvador era mais um espécime, entre tantos, convencido da coroa lhe pertencer por direito divino, enquanto se ria dos outros e ao mesmo tempo exigindo ser levado à séria.
Necessariamente, o tempo trouxe-lhe uma coleção de inimigos. Sentia-se perseguido por ambicionar ocupar o centro de um palco que lhe devia ser concedido. De toda a forma, o que é um verdadeiro salvador se não tiver inimigos? Um simples homem com umas poucas de opiniões.
Mas os amigos de confiança permaneciam ao seu lado. Lelo Porcino e Tita Severa. A eles revelava as suas aspirações mais íntimas. Que havia nascido para algo glorioso.
Lelo, homem de fortes convicções e exaltação fácil, formado em Diplomacia da Martelada. Porém, começara a falar muito e mal desde célebre cornada recebida em improvisada arena, quando decidira desafiar escorreito touro, em nome da bravura. Aniquilara-se-lhe a coerência expressiva. Com repentinos arroubos, as palavras saíam-lhe em atropelos e cada apreciação proferida logo se levantava em contradição, antes mesmo de ter assentado. Diziam as más-línguas do povaréu que aquilo era mal do juízo curto.
Tita, senhora de opiniões firmes e paciência curta, estudada em Arquitetura de Oportunidades. Uma figura mais intrincada. Filha de mãe incógnita, ocultada por pudor. A identidade refinada, de arestas polidas, herdara-a do lado paterno, único ramo genealógico que reconhecia como digno de memória e de quem se orgulhava com afeição. Fazia brasão íntimo da sua biografia: professa das nobres condutas do catecismo, obstinada defensora de bons costumes e dama de pomposo recato, vivia os dias como extremosa dona de casa. As noites eram gozadas, livremente, a cantar fado nas mourarias, fazendo uso desta arte como expiação para todos os contrassensos que pautavam a sua existência.
Lelo Porcino e Tita Severa, dois paradoxos em movimento, mas profundamente coerentes consigo próprios. Para ambos, a questões morais que lhes coubessem, eram sempre uma questão de posicionamento e de ajustes.
Pela tarde, os encontros davam-se na Taberna do Tio Eusébio, venerável espaço de coexistência do vinho e dos alvitres, a competirem em acidez e rudeza. Em jeito de tertúlia, ali se juntava o séquito habitual, a despejar copos e conversa fiada sobre os carrapatos da sociedade.
Para além dos habituais convivas, Lelo e Tita, haviam ainda o Tó da Oficina, com experiente traquejo em soluções duradouras; o Neca do Ginásio, fervoroso adepto da força como argumento; o Joca das Apostas, expedito em prever o futuro de forma tão certeira como perdia o dinheiro dos bolsos dos compinchas; e o velho Zé do Barril, grande especialista em tudo. Vez por outra, aparecia também o Kiko Branco, jovem de músculos tatuados com símbolos históricos, botas pesadas mesmo no verão e cabeça rapada, ao léu, até no inverno. Instintivamente ressabiado, rapaz de elevadas suscetibilidades, com ideias fixas que lhe serviam de desculpa para fúrias impacientes.
Uma plateia que fazia brilhar Salvador Silva de Matos, com o seu discurso abundante e fraca argumentação, mas uma lábia que extasiava os crédulos irrefletidos e descautelados.
— Antigamente, isto não era assim! — Assertiva que lançava para tudo justificar, desde o estado calamitoso do país até ao preço do pão. — Estamos precisados de alguém com pulso.
— E visão! — Acrescentava Tita, de olhos afiados e voz afinada.
— E arrojo! — Rematava Lelo, com um murro na mesa, anafado e engasgado com a saliva da boca.
Os outros aprovavam.
— É isso mesmo. Tem que haver alguém capaz de dizer as verdades. — Esbravejava o Neca.
— Eu não sou contra ninguém, mas há por aí gente a mais e instruídos de menos. Há que haver ordem ou afundamos de vez. — Apostava o Joca.
— Isto acabava num mês se te deixassem mandar, ó Salvador. Olha que quem é sério não deve nada a ninguém… — Berrava o Tó.
— Um dia isto vai terminar! — Garantia Salvador, com aquele visível deleite dos justiceiros de sofá. — Vamos sepultar de vez todos os que por aí andam nessas confrarias e irmandades de palavras gastas, a enganar-nos com festas cívicas de nomes chiques, para parecerem inteligentes. Nós, aqui, não precisamos de ler livros para percebermos que, no fundo, é tudo pão com chouriço, só para comermos aquilo que nos querem dar.
Punha gosto em ouvir-se indignado. Dava-lhe uma composta sensação de autoridade. E sorria, a mostrar os dentes de pouco sizo.
Sob a mortiça luz da taberna, Tio Eusébio agraciava-o com gorduroso prato de rojões a crepitar em banha. Salvador, lambendo os lábios, agradecia-lhe a ele e à bem-aventurada providência.
— É como este pitéu, caro amigo. Nada de molhos estrangeiros!
Kiko Branco, muito atento à assembleia, escutava. Não aprovava, não desaprovava, não discutia. Guardava a sua admiração no canto do olhar frio e silenciosa reverência no corpo ereto.
Zé do Barril, por sua vez, limitava-se a erguer o copo. Já todos tinham falado por ele. Limpava os olhos, comovido, com medo que a visão turva o fizesse perder o milagre. Mais do que nenhum outro, ele sabia. Acreditava com a confiança dos desesperados que Salvador já não era tão só um homem: ele era o Homem. Qual D. Sebastião, O Desejado, Salvador surgia-lhe, na frente, pronto para socorrer um mundo perdido.
Convictamente ciente de que a sua terra fora abandonada por todos, menos por si, assim o dedicado Doutor ocupava as sua tardes, em aparatoso gesticular e arrebatador entusiasmo, a esganiçar-se – como se a altura da voz fosse forma de mostrar saber – sobre o imperativo de grandiosas reformas nos hábitos, nos comportamentos e nos pensamentos de muitas gentes que moravam no mesmo solo de horrendos traidores e conspiradores, destruidores de vidas, sem mostras de sentimentos de culpa, movidos por forças obscuras.
O púlpito entendia os alertas e perdoavam-no quando o viam tropeçar em contradições, virtude considerada, por todos, acima da lógica. Ouviam-no em postura de extrema devoção e ninguém o questionava sobre o “como”. O “quê” era-lhes suficiente.
Alguns choravam. Outros aplaudiam com genuína gratidão, ainda que antes ou depois do tempo. Outros havia que filmavam, receosos de perderem os melhores momentos do ousado e corajoso mestre. Debaixo da mesa, Rocky, senhor do território, ladrava em concordância.
Salvador sentia-se como afoito pastor no meio de ovelhas desorientadas e agradecidas. Piscava o olho a si mesmo. Imensa é a sedução da promessa de purezas num mundo decadente e cheio de confusão!
Se alguém dele diferisse, era de imediato apontado como fazendo parte da comandita d’“eles”. Termo abrangente, muito flexível e de vasta utilidade. Pois Salvador mostrava-se profundamente abominador de quem dúvidas de si tivesse. Avesso a esses amantes de um lugar seguro. A segurança de quem se deita, em estado vegetativo, num silêncio incapaz de despertar paixões e inspirar massas. Faceta messiânica desta natureza só a muito poucos era concedida.
Pelo fim do dia, Salvador, imperturbável, recolhia-se ao conforto do lar, com Rocky já cansado ao seu colo, certo de que os erros dos outros lhe serviriam sempre de combustível e a esperança veemente de que, por esse motivo, alguma vez deixaria de ser confundido com um comum cidadão. Ainda que na manhã seguinte o país acordasse igual, os silvados e o mato continuariam a crescer, densos, prontos para uma desinfestação que somente ele, de mangas arregaçadas, estava disposto a dar seguimento com zelo e método.
Talvez a sua mãezinha fosse dona da razão quando, em tempos, lhe dissera que tivesse sempre olho esperto e que jogasse pelo seguro. E que esperasse. Porque, afinal, ele morreu de velho.
Paula Freire. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome.

























