Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Tomás tentou espreitar para dentro da abertura, iluminando-a com o telemóvel, mas estava tão escuro que a luz produzida era inútil.O céu era agora uma imensa cobertura de algodão cinzento e os trovões roncavam ao longe. Começavam a cair as primeiras pingas.
— Freixo! — Gritou para o interior. — Freixo, anda cá!
Por uns segundos, apenas o eco lhe respondia, até que, muito longe, conseguiu escutar o ladrar do companheiro.
Ergueu-se e olhou em volta. Podia ir procurar ajuda, mas não havia ninguém na quinta além do caseiro e da mulher e ambos tinham saído para fazer compras na cidade.
Tornou a escutar os ecos do cão a ladrar.
“Posso ligar aos bombeiros…” — Ao pensar isso olhou para o telemóvel e percebeu que estava sem sinal. A tempestade que estava a começar devia interferir com a rede.
— Freixo, vem cá! — Tornou a gritar para o buraco, desta vez sem resultado.
Tinha duas opções: regressar na escavadora até ao outro lado da propriedade, apanhar o carro e ir até à casa tentar o telefone fixo, ou entrar atrás do danado do cão… Freixo podia estar ferido. Cada segundo de silêncio fazia-o imaginar que a abertura o engolia um pouco mais. Esperar por ajuda já não lhe parecia prudência, mas abandono.
Naquele momento, a preocupação com o cão ocupava-lhe a mente, mas também começava já a pensar se as objeções do seu pai estariam relacionadas esta descoberta.
Foi buscar uma lanterna e o capacete e inspirou fundo, antes de começar a avançar quase de joelhos dentro da abertura.
Cá fora, a chuva engrossava, um flash de luz iluminou tudo e o primeiro trovão ecoou nos céus de Tomar.
A abertura revelou-se um túnel irregular de pouco mais de meio metro de altura e tinha uma trajetória descendente. O chão era de terra húmida e o teto de calcário. Devia de ser uma das muitas grutas existentes escavadas pela água e por onde, recentemente, a terra da colina começava a escoar-se para o fundo, sabe-se lá para onde.
Engoliu em seco ao pensar que se fosse um túnel inundável poderia haver uma cheia súbita e seria o seu fim. Possivelmente nunca mais ninguém o encontraria. A mulher e os filhos ficaram na quinta de Coimbra após o funeral e não ficariam preocupados antes de segunda-feira. Talvez o caseiro estranhasse o carro dele ainda no estaleiro… amanhã…
Sacudiu a cabeça para afastar os pensamentos.
— Freixo! — Gritou, a voz abafada pelo teto baixo, mas com o reflexo do eco longínquo. Pareceu-lhe ouvir ladrar, mas não tinha a certeza.
O túnel desembocou a meia altura na parede de um poço com cerca de três metros de diâmetro. A descida era vertical. Blocos sólidos de argila revestiam as paredes e, entre eles, lajes de pedra projetavam-se como degraus. O facho da lanterna desceu de saliência em saliência, mas não encontrou o fundo.
O túnel por onde chegara rompia a parede de tijolo como uma ferida irregular. Em tempos, a água devia ter rompido aquela passagem, arrastando terra e fragmentos do revestimento para o fundo. Acima dele, o poço prosseguia na escuridão; talvez terminasse numa porta ou num alçapão oculto no topo da colina.
— Freixo! — O grito ecoou com força reverbando nas paredes.
Tomás suspirou. Não via o topo, não sabia a profundidade do poço e o único caminho de regresso passava pelo túnel estreito por onde viera. Se caísse ou a água da chuva entrasse por ali em catadupa, ninguém saberia onde procurá-lo.
Olhou para o telemóvel — sem rede. — Pudera, à profundidade a que se encontrava; pelas suas contas descera uns bons três metros, mais os três que a colina tinha até ao topo, estava uns seis ou sete metros debaixo de terra.
Pareceu-lhe escutar o cão a ladrar.
Olhou para trás, para o túnel que subia e depois novamente para a descida do poço. — Raios partam isto… — gemeu, ofegante, antes de colocar o pé no degrau mais próximo e iniciar a descida. — Sou mesmo um idiota…
Era necessária uma certa habilidade para descer aqueles degraus e ele fazia-o, mantendo-se colado à parede, sempre com a lanterna apontada para baixo tentado ver o fundo.
A partir de determinado ponto, a parede apresentava maior estado de degradação, com tijolos soltos ou em falta. O seu grau de alarme subiu de nível quando sentiu um degrau que tremia.
Parou repentinamente.
Era demasiado tarde, porém, a laje soltou-se da parede e ele foi lançado no vazio.
A queda não foi grande, quase não teve tempo de gritar.
Aterrou num monte de terra macio, mas com vários tijolos espalhados em cima.
Magoou-se nos cotovelos e nos joelhos. A lanterna voou para longe da sua mão e o capacete acertou-lhe na cara.
Episódio seguinte - Sacrum – IV QUATTUOR
By Manuel Amaro Mendonça 12 de Setembro, 2026
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Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
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