Nos finais dos anos 70, Portugal vivia com uma revolução recente, daquelas que não terminam no dia em que são proclamadas, mas que continuam a respirar no quotidiano das pessoas. As paredes ainda guardavam as memórias do antes e do depois, e nas ruas sentia-se essa sensação e pressão bonita, quase saudável, entre o que tinha sido e o que estava a nascer. A liberdade, conquistada poucos anos antes, ainda era jovem, quase experimental, e por isso mesmo vivida com muita intensidade.
A juventude desse tempo crescia nesse intervalo curioso entre o sonho e a realidade. Não havia respostas prontas, nem caminhos definidos. Havia perguntas, muitas perguntas. E havia sobretudo vontade de ser diferente. Ser jovem em Portugal nesses anos era sentir que o mundo estava a abrir-se, mesmo que ainda com hesitações e muitas dúvidas, mesmo que ainda com as sombras do passado. Era um país em transformação, e os jovens estavam no centro dessa metamorfose, sem sequer saberem que fariam parte dela.
Foi nesse cenário que começaram a entrar, vindos de fora, os sons do punk e do new wave. Primeiro chegaram de forma tímida, em discos trazidos de Londres ou Paris, em emissões de rádio apanhadas entre interferências, em capas de revistas gastas pelo tempo e pela curiosidade. Depois tornaram-se mais claros, mais presentes, mais impossíveis de ignorar. Os Sex Pistols, os The Clash, os The Ramones, eram uma espécie de explosão cultural que dizia, sem pedir licença, que tudo podia ser questionado.
Para pequenos grupos de jovens em Lisboa e no Porto, essa música foi um choque elétrico. Havia nela uma urgência, uma raiva, uma liberdade crua que parecia falar diretamente com o vazio e as inquietações de quem crescia num país em reconstrução. O punk era uma atitude diante da vida. Era a recusa da boca fechada. Era a vontade de gritar, mesmo sem microfone, mesmo sem palco. Era a ideia de que qualquer pessoa podia fazer música, podia criar, podia romper com o que vinha antes.
E com a música veio inevitavelmente a imagem.
As ruas começaram a mudar de forma subtil, quase impercetível para alguns, mas profundamente significativa para quem sabia olhar. Surgiram t-shirts com frases provocadoras, palavras políticas ou simples gestos de irreverência. As calças tornaram-se mais justas, os casacos de cabedal ganharam cicatrizes de uso, e os cabelos deixaram de obedecer às normas discretas de outrora. Em certos círculos mais ousados, surgiam cores, cortes irregulares, identidades visuais que desafiavam qualquer tentativa de enquadramento.
Não era só moda. Era linguagem. Era um modo de dizer “estamos aqui” sem precisar de explicações. Numa sociedade que ainda guardava resquícios de conservadorismo recente, essa afirmação visual era, por si só, um ato de coragem. Havia choque, sem dúvida. Havia incompreensão. Mas havia também fascínio. E, sobretudo, havia mudança.
Mas Portugal nunca foi um país de uma só voz.
Enquanto nas cidades se experimentava essa energia urbana, elétrica e contestatária, fora dos grandes centros, como em Bragança, a vida seguia outros ritmos. Nas aldeias, vilas e pequenas cidades, continuava viva a música de baile, as orquestras, as bandas e conjuntos musicais, os serões que enchiam salões, largos e pavilhões durante as festas de verão. Aí, a juventude encontrava outra forma de liberdade, não na rutura, mas na convivência, não no choque, mas na dança e no convívio.
O baile era o encontro, era a comunidade, era a continuidade. Os passos repetidos e as melodias conhecidas, havia risos, histórias e estórias e uma forma muito própria de celebrar a vida. Não era menos moderno, nem menos significativo. Era simplesmente outra expressão do mesmo desejo humano de pertença e alegria.
Lado a lado, coexistiam dois mundos. O da rebeldia urbana e o da tradição popular. O do grito e o do abraço. O da guitarra distorcida e o do acordeão, do bombo, da pandeireta ou da gaita-de-foles. Portugal tornava-se, sem o saber, um mosaico cultural em expansão, onde cada jovem encontrava o seu próprio lugar dentro dessa diversidade.
No meio de tudo isto, vulgarizou-se um pequeno objeto que mudaria a forma como a música era vivida. A cassete áudio começou a tornar-se popular e acessível.
Simples, portátil, quase frágil, mas incrivelmente poderosa. A cassete tornou-se um símbolo de liberdade quotidiana. Permitia gravar, copiar, partilhar. Permitia construir mundos sonoros pessoais, feitos de fragmentos de rádio, de discos emprestados, de gravações improvisadas. Era tecnologia, mas era também intimidade. O Oceano Pacífico… os da minha geração nunca esquecerão esse programa da nossa rádio.
Trocar cassetes tornou-se um ritual. Um gesto de amizade, de confiança, de descoberta. Havia sempre alguém com uma seleção nova, uma mistura inesperada, uma sequência de músicas que dizia alguma coisa sobre quem a tinha feito. As fitas passavam de mão em mão, com capas desenhadas à pressa, etiquetas escritas com caneta ou borrona, títulos inventados no momento. Dentro delas cabia todo o universo.
E talvez seja isso que torna esses anos tão difíceis de esquecer.
Os finais dos anos 70 foram um tempo de dualidades, sim, mas também de possibilidades infinitas. Entre o velho e o novo, entre o baile e o punk, entre o coletivo e o individual, Portugal aprendia a reinventar-se. E a juventude, sem manuais nem certezas, ia construindo o seu próprio caminho, fita a fita, acorde a acorde, passo a passo.
Hoje, quando me recordo desse tempo, penso que ser jovem, naquele momento, era participar num país inteiro a descobrir-se a si próprio.
Fiz a minha parte no nosso pequeno mundo, sem cabelo encristado,… e não me arrependo de nada.























