(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)
"Ali, à minha frente, assisto às sensações íntimas do ser. O astro-rei encosta a sua cabeça cansada sobre a linha do horizonte."
Encontrei-o, nos passos que dava pela praia, quando os sons começam a refugiar-se na intimidade do entardecer. Aquele breve intervalo em que o dia chama pela noite para a abraçar.
Sentado na nudez da areia calma, parece escutar. Só mais próxima percebo que não segue o sol com o olhar porque não o usa para isso. A luz entra-lhe pela pele. O seu mundo não precisa de ver, apenas de encontrar. Como os que tateiam a beleza das palavras na escuridão antes de lhe traduzirem a música secreta da alma.
A brisa muda... uma porta aberta ao tempo. Frágil, indecisa, a aprender a despedir-se.
As aves, num desapego lento do dia, velhas senhoras sem pressas em gritos piedosos.
A maré e o aroma líquido da terra a chorar sobre o infinito, misturada com o frio da humidade que chega mansamente.
E depois, aquele sabor cru do sal. A continuidade da água, que não existe nos seus olhos, pousada sobre os lábios.
Não há cores nem exuberâncias. Somente a textura delicada da claridade que nasce dentro dele enquanto a paisagem o aconchega, devagar.
Descubro, seduzida, que já não é só aquilo que ele absorve, é tudo aquilo que o toca numa outra linguagem. Porque quando os olhos se calam, o corpo entende muito antes do pensamento. E transforma em encontro.
Ali, à minha frente, assisto às sensações íntimas do ser. O astro-rei encosta a sua cabeça cansada sobre a linha do horizonte. E eu reconheço a verdadeira memória de infância que permanece naquela escuridão sem formas definidas, mas plena de sentidos.
Tão simples, afinal: só se começa a ver por inteiro... quando o céu deixa de ser o limite.
Paula Freire. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome.
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua.
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.





















