MEMÓRIAS...e outras coisas...
BRAGANÇA
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Sobre o Blogue
(Henrique Martins)
COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
domingo, 1 de março de 2026
MIRANDELA CELEBRA A TRADIÇÃO E REAFIRMA A ALHEIRA COMO SÍMBOLO DA IDENTIDADE TRANSMONTANA
A iniciativa ficou ainda marcada pela inauguração de uma escultura evocativa dedicada às tradições e à identidade local. Entre tradição, cultura e valorização do território, a cidade voltou a afirmar-se como palco de uma herança que continua a conquistar reconhecimento além-fronteiras.
Jornalista: Vitória Botelho
Dia Internacional da Mulher – 'Memórias, Direitos e Lideranças' | AIC - Associação Iniciativa Cultural Recreativa e Social
Entre as 15h e as 18h, oradoras e oradores reconhecidos pelo grande público irão partilhar experiências, reflexões e perspetivas sobre liderança, igualdade e transformação social.
Será uma tarde de inspiração, partilha e reconhecimento, num encontro que promete ficar na memória de todos os participantes.
Data: 07 de março de 2026
Hora: 15h00
Oficina Artes&Saberes: Celebrar o Feminino através da Tradição | Ecoteca
A iniciativa promete ser um espaço de partilha e aprendizagem, unindo o saber-fazer das rendas tradicionais a uma visão de futuro consciente e sustentável. Para tornar o ambiente ainda mais acolhedor, haverá um momento musical protagonizado por Matilde Cêpeda.
Data: 07 de março de 2025
Hora: 14h30
Inscrições: Obrigatórias (vagas limitadas)
Contactos: ecoteca@cm-mirandela.pt ou 936 667 655.
Dádiva de Sangue - 05 de março de 2026 | Quartel dos Bombeiros Voluntários de Mirandela
Dádiva de sangue em Mirandela. O seu gesto pode manter a sua vida e de muitos outros!
Data: 05 de março de 2026
Hora: 10h00 às 18h00
Tasquinhas 2026 | EsACT
As Tasquinhas é um evento anual que celebra a cultura académica em Mirandela. Durante vários dias, os estudantes da EsACT - IPB e a comunidade local reúnem-se para desfrutar de música ao vivo, gastronomia regional e convívio. O evento inclui atuações de tunas académicas, DJs e outras atrações culturais.
Três noites. Zero desculpas.
03 MARÇO (Terça-Feira)
- Dovale
- DJ MC
- DJ Vinny
04 MARÇO (Quarta-feira)
- Amigos da Sobreposta
- DJ Ferdi
- DJ Armário
05 MARÇO (Quinta-feira)
- Tino de Rans
- DJ Fred
- John Black & Danny Brando
- Strica27
Se falhas uma noite, vais ouvir falar dela o resto do semestre.
Será que tens fogo para estas TASKINHAS?
Data: 03 a 05 de março de 2026
As portas abrem às 00h00
Espetáculo 'Nós e os Montes' | Dia Mundial do Teatro
Através das suas expressões artísticas, constrói-se uma dramatização do imaginário que inspira estes autores, cruzando tradição e contemporaneidade. O espetáculo propõe um olhar atento à expressão popular atual, abrindo espaço para reflexão sobre as constantes mutações das tradições e os choques geracionais que marcam uma sociedade cada vez mais individualizada e fragmentada.
Uma criação que convida ao pensamento, à partilha e ao reencontro com as raízes culturais, num dia que celebra a força transformadora do teatro.
Data: 28 de março de 2026
Hora: 21h30
É urgente equipar as Juntas de Freguesia
O Concelho de Bragança caracteriza-se pela dispersão geográfica, pelo envelhecimento demográfico e pela distância crescente entre os cidadãos e os serviços públicos, as juntas de freguesia do concelho de Bragança assumem uma importância estratégica que não pode continuar subvalorizada. Durante décadas foram vistas, e são, como estruturas pequenas, próximas das pessoas, mas limitadas na sua capacidade de ação. Hoje, porém, são chamadas a desempenhar um papel muito mais amplo, o de porta de entrada para o mundo digital, o de ponto de apoio ao cidadão e o de ponte entre as aldeias e o resto do país, e até do mundo.
Para que isso aconteça, é indispensável que as juntas de freguesia estejam equipadas com meios informáticos modernos, fiáveis e adaptados às necessidades reais das populações. Computadores atualizados, internet de qualidade, scanners, impressoras, software simples e seguro, plataformas de atendimento digital assistido. Não se trata de luxo, trata-se de garantir igualdade de acesso, dignidade e inclusão. É assim que se combate o isolamento tecnológico que hoje, mais do que nunca, aprofunda desigualdades. E, ao fim e ao cabo, em termos de custos… só são menos uns foguetes nas Festas da Cidade… há que ter a coragem de traçar prioridades!
Num concelho como o de Bragança, com dezenas de freguesias e lugares onde a desertificação já se faz sentir de forma dramática, a junta de freguesia tem de funcionar como um verdadeiro balcão de proximidade. Um local onde qualquer cidadão possa, com apoio, fazer aquilo que as estruturas públicas já quase não permitem fazer presencialmente:
– tratar de assuntos junto da Autoridade Tributária, Segurança Social ou outros organismos;
– aceder ao netbanco com segurança e acompanhamento, reduzindo riscos e receios;
– comunicar com filhos, netos, familiares e amigos espalhados pela diáspora, seja por email, videochamada ou troca de documentos;
– tratar de assuntos relacionados com saúde digital, como marcação de consultas e acesso a exames;
– aceder a formação básica digital que permita aumentar a autonomia.
A tecnologia, nas freguesias, não substitui ninguém, só amplia capacidades. O propósito não é transformar pessoas em especialistas informáticos, mas dar ferramentas a quem, sem estas estruturas, ficará totalmente excluído. Os mais idosos, os que não têm internet em casa, nem sabem o que é, os que vivem sozinhos, os que não dominam as plataformas digitais, todos merecem o mesmo acesso que alguém que vive no centro da cidade com recursos próprios. O concelho só é verdadeiramente coeso quando isso é garantido.
Defender que cada junta de freguesia deve estar equipada com meios informáticos adequados não é uma visão moderna ou futurista, hoje em dia é uma necessidade básica. E não basta ter computadores desligados numa sala. É preciso ter funcionamento, apoio, horários adequados, formação mínima de funcionários e protocolos claros com entidades públicas e privadas que permitam atendimento assistido com segurança.
As juntas de freguesia não podem continuar a ser tratadas como meras “figuras de estilo”, estruturas simbólicas destinadas apenas a emitir atestados ou organizar pequenas tarefas administrativas e umas comezainas de javali. Essa visão é curta, injusta e contrária ao interesse da própria região. Numa época em que muitos serviços se centralizam, em que os bancos encerram balcões, em que as repartições públicas desaparecem do interior e em que quase tudo se resolve através da internet, a junta de freguesia deve ser o último reduto da proximidade e não o último elo da cadeia.
A senhora idosa que antes tinha de apanhar vários transportes para tratar de um simples documento, Poderá resolver o assunto na sua terra. O emigrante que vive na Suíça consegue enviar documentos aos pais com facilidade. O agricultor esclarece dúvidas com a Câmara Municipal sem perder dois dias de trabalho. O banco deixa de ser um obstáculo. Os serviços do Estado tornam-se acessíveis. A própria freguesia ganha vida, utilidade e dignidade.
Num concelho como Bragança, onde todas as aldeias têm que contar, onde cada habitante é um monumento contra o abandono, onde cada serviço é uma âncora que ajuda a fixar pessoas, o papel das juntas é absolutamente central. Dar meios informáticos às freguesias é dar futuro às comunidades.
E, se queremos que o interior seja realmente uma prioridade e não apenas uma promessa repetida, então este é um dos passos mais importantes, mais simples e mais urgentes que podemos dar.
Reduzir o supérfluo, que existe, na sede do município e apostar nos recursos tecnológicos e humanos nas Freguesias tem que ser uma prioridade.
Se não houver coragem para o fazer… é mais uma mão de terra atirada para a cova da nossa área rural!
sábado, 28 de fevereiro de 2026
𝑨 𝑷𝒓𝒆𝒔𝒊𝒅𝒆𝒏𝒕𝒆 𝑬𝒙𝒑𝒍𝒊𝒄𝒂 🗓️ Fevereiro - 2026
Uma rubrica mensal que promove proximidade e transparência, apresentando um balanço dos principais acontecimentos, medidas e prioridades do Município.
Os primeiros dez Almirantes de Portugal… Todos com ligação directa, ou indirecta, a «Terras de Bragança»...
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Vem isto a propósito de (mais) uma excelsa partilha do nosso insigne criador e administrador desta magnífica página. Página que, vezes poucas (felizmente), também tem os seus momentos com algumas derivações menos recomendáveis... Mas isso são contas de outro rosário… E não estou com disposição para desfiar os seu diversos «mistérios», sejam eles «gozosos» ou «dolorosos»… “Que num bêim ó casu’e”...
À partilha retornando, a publicação continha o «original» título, provindo dos estudos do incontornável Abade de Baçal, de «Catálogo de todas as Igrejas […] pelos anos de 1320 e 1321 […]. Ano de 1746». Ou seja, uma lista original da primeira metade do século XIV, «publicada» na primeira metade do… século XVIII (!!!). Isto é, um desfasamento temporal de mais de 400 anos! Embora a dita «lista» seja do tempo de D. Dinis, e até conste dos «Arquivos do Vaticano». Porque à Santa Sé diz respeito… “C’mu quera”…
D. Dinis foi um rei “guitchu c’mó catantchu’e”, que o foi mais do que «Labradore», cognome que não faz jus ao papel primordial que teve. E, veja-se lá, a sua educação foi providenciada por um… Braganção! Mas isso parece ser algo de somenos importância… Nomeadamente no que respeita ao «Catálogo»… Porque o «Catálogo» não surgiu por obra e graça do Espírito Santo, e quando surgiu já o «último Braganção», o tal Aio de D. Dinis, que também seria seu Mordomo-mor, não andava a pisar mundos terrenos.
E para que serviu o dito «Catálogo»?… Basicamente, para construir a primeira efectiva Armada Portuguesa. Porque, para o fazer, era necessário «aquilo com que se compram melões». E D. Dinis, à falta de outros recursos, lá enviou uma embaixada com o intuito de convencer o Papa a ceder-lhe uma parte dos avultados rendimentos da Igreja. Com a promessa de que levaria a cabo uma luta contra os «infiéis» que, armados em corsários, tornavam o Mediterrâneo num inferno terreno. Ora, o espírito de «cruzada contra os infiéis» serviu de bom isco para que surgisse uma Bula que concedia à Coroa Portuguesa, por um período determinado, a décima dos rendimentos de todas as igrejas e mosteiros. E assim foi! Para tal sendo necessário o apuramento dos ditos rendimentos. Que é o que consta no dito «Catálogo de todas as Igrejas e Mosteiros», elaborado pelos anos de 1320/1321.
Catálogo esse que nos dá uma magnífica visão acerca da realidade territorial e paroquial das nossas terras que, então, estavam divididas em… «Terras». E tínhamos as «de Bragança», as «de Lampaças», as «de Miranda», as «de Vinhais», as «de Ledra», as «da Vilariça» e as «de Freixo». Seria demasiado enfadonho estar aqui a proceder a uma análise às paróquias existentes nessa primeira metade do século XIV, bem como à importância de cada uma delas. No entanto, percebe-se claramente as que existência tinham (e as que existência não tinham…), bem como as «Terras» que eram, paroquialmente (e não só), as mais dinâmicas, claramente se destacando as «de Bragança», as «de Lampaças» e as «de Miranda»… E que relação têm os Almirantes com este «Catálogo»?
Cumprir-se-ão, no início de Fevereiro do próximo ano, 710 anos sobre a nomeação daquele que, equivocadamente, dizem ser o primeiro Almirante de Portugal, o célebre genovês Manuel Pessanha, originalmente Emanuele Pesagno. Genovês esse que fez parte da dita embaixada que convenceu o Papa a conceder uns “tuz’tus’e” a D. Dinis. E que aqui trago pela sua posterior umbilical ligação à História do nosso distrito. À custa dos seus descendentes «Pessanha», ilustre família que tanta marca deixou nestas terras, quer como Governadores Civis, quer como Deputados da Nação. Isto é, desde o primeiro Pessanha, que na nobre Nozelos se instalou, depois passando para Arcas, ramificando a família para Cortiços, instalado se tendo, igualmente, em Bragança. Mas não irei, aqui e agora, contar a História dos Pessanha «bragançanos», descendentes do 2º Almirante do Reino...
Curiosamente, dos dez primeiros Almirantes do Reino, sete eram «Pessanha». E o primeiro, que a «cartilha» faz questão de omitir, até era primo direito do tal de «último Braganção». Filho que era de um tio materno desse nosso «último Braganção», também permanentemente omitido pela dita «cartilha». E os restantes dois, o 6º Conde de Barcelos e o 1º Conde de Vila Real, eram… «Bragançãos»! Ou seja, eram directos descendentes do… «último Braganção»! E, como tal, do conhecidíssimo Fernão Mendes de Bragança, «o Bravo»! Mas a «cartilha» (e não só…) quer lá saber da umbilical ligação dos dez primeiros Almirantes do Reino (!!!) a terras bragançanas?…
E nós, os que carregamos «sangue bragançano», quereremos saber alguma coisa? Quereremos saber do facto de que «mais de metade da História de Portugal, tal como a conhecemos, não existiria sem sangue bragançano»? Quereremos saber que o Grande D. Dinis foi educado por um dos nossos? Quereremos saber que os nossos antepassados também contribuíram, com os seus suor e dinheiro, para a primeira Armada do Reino? Quereremos saber que o 6º Conde de Barcelos e o 1º Conde de Vila Real, Almirantes do Reino que também foram, eram dois dos nossos? Ou persistiremos nestas tacanhez e mesquinhez que nos vão tornando cada vez mais “piquerrutchus’e”?…
Rui Rendeiro Sousa – Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer.
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas.
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana.
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros.
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.
1709: o Inverno mais duro da história da Europa
Entre Janeiro e Abril de 1709, o continente europeu sofreu vagas de frio polar que paralisaram a vida social e causaram um extraordinário número de vítimas.
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| MONDADORI / ALBUM - A onda de frio que se viveu em 1709 soterrou a Europa sob um manto de neve, como nesta tela de um artista italiano do século XVIII. Castelo Sforzesco, Milão. |
Aconteceu, literalmente, de um dia para o outro. Era véspera de Reis de 1709 e os camponeses franceses, duramente castigados pelas más colheitas, impostos e recrutamentos para a Guerra da Sucessão espanhola, desfrutavam de um mês de Dezembro relativamente suave e benigno. A noite de Reis gelou! Inicialmente, não se estranhou. Era um dia de Inverno. Na manhã seguinte, a Europa inteira estava gelada e assim ficaria durante meses.
Que motivos terão justificado esta anomalia climática? Nos anos anteriores, vários vulcões tinham mostrado actividade, incluindo os das ilhas de Santorini e Elba, o Vesúvio, o Fuji e o Teide, que lançaram enormes quantidades de poeira e cinzas para a atmosfera. Ao mesmo tempo, o Sol sofria o chamado Mínimo de Maunder, durante o qual as manchas solares ficaram reduzidas a uma milésima parte do normal, diminuindo significativamente a emissão de energia solar. A combinação dos dois factores desencadeou a catástrofe. Em todo o caso, o frio atingiu a Europa com uma força sem precedentes, provocando aquele que ficou conhecido como o Inverno mais duro da história do continente.
Os termómetros de Paris demonstram que as temperaturas desceram em poucas horas, de 10ºC para -20ºC. Trinta graus de diferença da noite para a manhã! As pessoas acordavam com os gorros de dormir congelados, as paredes interiores das suas casas humildes geladas e as roupas petrificadas pelo frio. À época não existia qualquer tipo de previsão meteorológica, de maneira que milhares de pessoas sucumbiram à hipotermia antes de poderem tomar qualquer precaução.
Os rios, a rede de canais e até mesmo portos marítimos ficaram bloqueados pelo gelo. A neve fechou os caminhos. No porto antigo de Mar-selha e em diversos pontos dos rios Loire, Ródano e Garonne, o gelo suportava sem problema os peso das carroças carregadas, o que implica uma espessura mínima de 30 centíme-tros. As cidades deixaram de receber comida e os habitantes, desespera-dos, queimaram o escasso mobiliário para se aquecerem. Em Paris, este bloqueio de comunicações prolon-gou-se por três meses. Os teatros fecharam. Os tribunais e o Parlamento suspenderam as suas actividades.
Bebidas congeladas
As pessoas que dispunham de reservas de alimentos descobriram que o frio impedia o seu consumo. O pão, a carne e até as bebidas alcoólicas congelavam: o brandy congela a -6ºC, a sidra a -9ºC, a cerveja a -12ºC e o vinho a -15ºC. Bebidas mais fortes como vodka, whisky ou rum precisam de temperaturas entre -45ºC e -50ºC para solidificar.
A crise climática não respeitou ninguém. As mansões da elite, repletas de grandes janelas, estavam construídas para a ostentação, mas não ofereciam isolamento térmico eficiente. Quanto maior era o palácio, mais complicado era aquecê-lo. Em Versalhes, a duquesa de Orleães, cunhada do rei Luís XIV, escreveu a uma parente em Hanover: “Estou sentada em frente do fogo forte de uma lareira, as portas estão fechadas e cobertas de tapeçarias, as janelas seladas, de forma a poder sentar-me aqui protegida com peles de marta, os pés metidos numa pele de urso e, ainda assim, estou a tremer de frio e a segurar com dificuldade a pena com que te escrevo. Nunca na vida tinha visto um Inverno como este.”
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| Bertrand Rieger / GTRE - O palácio de Versalhes coberto de neve. A brutal e súbita descida das temperaturas afectou inclusivamente palácios e mansões, mal equipados para lidar com o frio. |
A brusca descida das temperaturas levou os troncos das árvores a rebentar com estouros chocantes, como se um lenhador invisível as estivesse a cortar. Os sinos quebravam-se quando eram tocados, pois o metal tornara-se quebradiço a baixas temperaturas. Para muitos camponeses iletrados, tratava-se de um castigo do demónio.
No resto da Europa, a situação era semelhante e até pior. O Tamisa congelou, tal como os canais e o porto de Amsterdão. O mar Báltico solidificou durante quatro meses. Podia atravessar-se a pé ou a cavalo da Dinamarca até à Suécia ou Noruega. Quase todos os rios do Norte e Centro da Europa congelaram. Até as termas de Aachen acabaram por congelar! Carroças com grandes cargas circulavam sobre os lagos suíços, os lobos entravam nas povoações em busca de algo para comer, incluindo os habitantes.
No Adriático, o gelo aprisionou embarcações cujas tripulações morreram de frio e fome. Os venezianos usavam patins de gelo em vez de gôndolas para circular na cidade. Roma e Florença ficaram incomunicáveis devido a intensos nevões. Até a cálida Valência teve gelo suficiente para arruinar as colheitas.
O espectro da fome
Com ligeiras oscilações, as temperaturas permaneceram anormalmente baixas até meados de Abril e, em alguns locais, até Maio, mas a catástrofe ainda não terminara. Frio, fome, inundações e epidemias foram os Quatro Cavaleiros desse Inverno apocalíptico. Com efeito, a neve acumulada derreteu e provocou inundações de dimensão inaudita.
As epidemias não se fizeram esperar. Uma gripe surgira em Roma no Natal de 1708. O frio e a fome favoreceram a expansão da doença até a tornarem uma autêntica pandemia que viria a espalhar-se por quase toda a Europa em 1709 e 1710. Para rematar o desastre, a peste chegou vinda do Império Otomano, via Hungria. Em Sevilha, uma epidemia de peste ou de gripe matou 15 mil pessoas.
O cenário mais assustador para os europeus era a fome. As terríveis vagas de frio tinham deixado um cenário desolador nos campos. O cereal, as videiras, as hortas, as árvores de fruto, os rebanhos… tudo ficou devastado. O abastecimento das cidades ficou em perigo, sobretudo devido à impossibilidade de importar comida de outras povoações, uma vez que todas foram afectadas. Além disso, sucessivas vagas de frio destruíram as colheitas que se esperavam para o Verão seguinte. Tudo isto deu origem a uma escalada dos preços dos cereais que, ao longo de 1709, aumentaram cinco ou seis vezes.
As autoridades reagiram. Em França, Luís XIV organizou distribuições gratuitas de pão e obrigou a aristocracia a abrir cozinhas de beneficência. Também baixou por decreto o preço do pão para que os pobres o pudessem comprar. Ordenou que todos declarassem a quantidade de cereal armazenada para evitar os açambarcamentos e enviou inspectores para assegurar que a ordem era cumprida. Até mandou fundir o seu serviço de jantar de ouro para conseguir reunir fundos.
Um balanço terrível
Nem assim se evitaram os episódios de violência. Os camponeses, reduzidos ao consumo de sopa de urtigas e fetos, juntavam-se em bandos para assaltar padarias ou atacar transportes de cereal para evitar que este saísse da sua comarca. Em Paris, um surto de motins em Agosto saldou-se na morte de oito pessoas e em vinte feridos.
É difícil medir o impacte demográfico do Inverno de 1709. Em França, nos três primeiros meses do ano, morreram mais 100 mil do que num ano normal e, ao longo de 1709 e 1710, registou-se um total de 2,14 milhões de mortes em oposição a 1,33 milhões de nascimentos. Por outras palavras, o território perdeu então 3,5% da população. Não há dúvida de que na Europa do Antigo Regime um mau Inverno podia ter trágicas consequências para milhões de pessoas.
Peter Higgs, o prémio Nobel que descobriu a existência da "partícula de Deus"
O cientista, falecido aos 94 anos na sequência de uma curta doença, é considerado uma das grandes mentes do século passado: o seu legado enriqueceu os domínios da física matemática e teórica.
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| Cordon Press-Peter Higgs (1929-1964). |
Nascido em Newcastle Upon Tyne, Inglaterra, em 1929, Higgs dedicou a sua vida à investigação em física, que o levou a descobrir, aos 35 anos, a existência do bosão de Higgs, ou "partícula de Deus", que explica como a matéria se formou após o Big Bang.
A descoberta, no entanto, só foi reconhecida no século seguinte. Especificamente em 2012, quando o Grande Colisor de Hadrões da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) testou com sucesso as teorias de Higgs. Um ano depois, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel.
Para além disso, o seu trabalho como professor, doutor e investigador na Universidade de Londres e na Universidade de Edimburgo deixou uma marca indelével no conhecimento dos seus alunos. Neste sentido, o director desta última instituição, o Professor Peter Mathieson, declarou que "o seu legado continuará a inspirar muitas outras gerações futuras".
Os primeiros grandes passos de Higgs na ciência centraram-se no cálculo dos espectros vibracionais das moléculas, que mais tarde conduziram à investigação da teoria quântica dos campos. Assim, em 1964, publicou dois artigos nos quais propôs o que viria a ser conhecido como o mecanismo de Higgs, que, explicado de forma breve e simples, é um processo que confere massa às partículas elementares.
Foi a partir deste trabalho que a sua carreira começou a caminhar para o Prémio Nobel, pois um desses artigos foi rejeitado por uma prestigiada revista científica. Isto levou-o a rever a sua abordagem e a perceber que a sua teoria revelava a existência de um bosão pesado – um tipo de partícula básica na natureza, como o fotão.
DEPOIS DO BOSÃO DE HIGGS OU "PARTÍCULA DE DEUS"
Nos anos que se seguiram à descoberta, vários cientistas de todo o mundo utilizaram as ideias de Higgs para explicar outros fenómenos da física, como os físicos Sheldon Lee Glashow, Steven Weinberg e Abdus Salam na sua teoria electrofraca. No entanto, só em 2012 é que o CERN, com a colaboração activa de Higgs, comunicou ter detectado o sinal de uma partícula que correspondia às descrições do bosão de Higgs.
A descoberta demorou um ano a ser confirmada, mas levou a que o físico e professor recebesse o Prémio Nobel da Física em 2013. Foi um reconhecimento merecido pelas suas extensas contribuições para a disciplina científica, que já tinham sido consideradas em múltiplas ocasiões por outras instituições: por exemplo, em 1983 Higgs entrou para a Royal Society, uma das mais antigas e prestigiadas sociedades científicas do mundo, e ao longo da primeira década do século XXI foi galardoado com o Prémio Wolf e o Prémio J.J. Sakurai, juntamente com outros investigadores de renome.
A morte de Higgs – que ocorreu "pacificamente em casa, devido a uma curta doença", segundo a Universidade de Edimburgo – veio trazer de novo à ribalta as abordagens inovadoras que o levaram a ser considerado uma das grandes mentes do século passado. Era "uma pessoa extraordinária, um cientista dotado cuja visão e imaginação enriqueceram a nossa compreensão do mundo que nos rodeia", afirmou Mathieson.
PRESIDENTE DO IPB PARTICIPA NA DEFINIÇÃO DAS PRIORIDADES DA NOVA AGÊNCIA PARA A INVESTIGAÇÃO E INOVAÇÃO
A AI² resulta da fusão entre a Fundação para a Ciência e a Tecnologia e a Agência Nacional de Inovação, concentrando numa única entidade a coordenação estratégica e o financiamento da ciência e tecnologia em Portugal. O novo modelo prevê a definição de prioridades até outubro e a celebração de um contrato-programa plurianual para 2027–2031, com o objetivo de garantir maior estabilidade no financiamento do setor.
Durante a sessão, o ministro Fernando Alexandre destacou a autonomia estratégica da nova agência e a necessidade de reforçar a ligação entre investigação, inovação e economia.
A participação do IPB assume particular relevância neste processo, tendo em conta a aposta da instituição na investigação aplicada, na inovação de base regional e na articulação com o tecido empresarial. Enquanto membro da comissão permanente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, Orlando Rodrigues integra o debate nacional sobre o papel dos politécnicos no novo modelo de governação da ciência.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
A Liberdade Não Cabe em Gaiolas Nem em Aquários
Durante anos, tive pássaros numa gaiola e peixes num aquário. Olhava para eles todos os dias, cuidava da sua alimentação, limpava os espaços em que viviam, tentava oferecer-lhes conforto. No silêncio da noite ou nas pausas da rotina, havia sempre uma sensação inquietante. Nem os pássaros nem os peixes pertenciam àquelas paredes de vidro e metal. A gaiola, por maior e mais ornamentada que fosse, nunca poderia substituir o céu aberto, os galhos que se movem ao sabor do vento, o espaço infinito de um rio onde os peixes poderiam nadar sem limites. A vida que se quer bem não se mede em alimento ou abrigo, mede-se na liberdade de ser, de se poder mover, de existir sem grades ou barreiras que limitem a essência.
Os pássaros, com suas asas feitas para voar, carregam um instinto que nenhuma gaiola pode conter. Bater de asas contra o metal, olhar fixo na porta da gaiola, aquilo não é natural. O canto que ouvimos pode ser ainda mais belo por ser uma forma de resistência, um grito contido de liberdade. E os peixes, mesmo com cores deslumbrantes e movimentos hipnotizantes dentro de um aquário, vivem num mundo diminuto, onde o horizonte é apenas vidro, onde a corrente que sentiriam na natureza nunca passa de uma simulação ligada à eletricidade. O coração de qualquer ser vivo pulsa por liberdade, mesmo quando não pode expressá-la plenamente.
Manter animais em cativeiro é, muitas vezes, fruto de ignorância ou desejo de controle. Eu, ignorante, me confesso. Mas a verdade é dolorosa. O bem-estar de um ser vivo não se resume a sobreviver, trata-se de viver plenamente, de existir em harmonia com a própria natureza. O olhar de um pássaro que nunca voou para além das grades, o nadar de um peixe que nunca sentiu a vastidão de um rio, carregam uma tristeza que nos desafia a refletir sobre as nossas ações. Até eles nos ensinam sobre a grandeza da liberdade, sobre a necessidade de respeitar a vida na sua plenitude.
A Liberdade não pode ser apenas um conceito, a Liberdade é um direito inalienável de todos os seres vivos. Assim como não suportaríamos estar confinados, não podemos esperar que eles se contentem com espaços limitados, mesmo que confortáveis. Cada ser tem um papel na teia da vida, e esse papel é exercido no seu habitat natural, não em gaiolas nas paredes que nos agradam ou em aquários que nos fascinam. Soltar os pássaros para o céu, devolver os peixes ao rio, significa mais do que libertá-los, significa reconhecer a sua dignidade, reconhecer que cada vida tem um valor intrínseco, independentemente do nosso desejo de possuir ou controlar.
Há também uma lição íntima e profunda para nós ao permitir que outros seres vivam livres, aprendemos um pouco sobre empatia, humildade e respeito. Aprendemos que a posse (isto é meu) nem sempre é amor, que cuidar e dizer que se gosta não é controlar, e que a verdadeira ligação com a vida exige reverência pela liberdade. O amor que aprisiona é amor incompleto, o amor que respeita a liberdade é amor pleno. Quando deixamos que os pássaros voem para o céu e que os peixes deslizem nos rios, libertamos também algo em nós, a consciência tranquila de que estamos a respeitar o mundo como ele deveria ser, e não como queremos que ele seja.
A natureza não foi feita para ser exibida em vitrines, a vida não foi feita para ser confinada. E, mesmo com a melhor das intenções, o cativeiro nunca é um lar verdadeiro. A lição que levo comigo, depois de tantos anos a cuidar, o melhor que podia e sabia, de pássaros e peixes, é simples e definitiva. A liberdade é o maior presente que podemos oferecer a qualquer ser vivo, e o respeito por essa liberdade é a medida da nossa humanidade. Devemos aprender a admirar sem possuir, a proteger sem prender, e a honrar cada vida permitindo que ela seja aquilo que nasceu para ser. VIVA e LIVRE!
Bem gostava que este pequeno texto abrisse muitas gaiolas, literais ou simbólicas.
Venha "Spreitar L Cielo" no PINTA!
Da literacia espacial à fotografia de natureza, há atividades para todos os curiosos e apaixonados pelo universo.
Organização: Município de Vimioso, AEPGA e Palombar.


















