Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Madalena recebeu das mãos da cunhada o saco plástico que pingava. — Foi o Zé do talho que mandou. — Explicou ela antes de sair novamente.Deu dois ou três minutos para ouvir o carro da cunhada a trabalhar e a afastar-se para ir à porta olhar para um lado e para o outro. Zé não estava à vista.
Levou o saco que pingava para a cozinha e espalhou cuidadosamente o seu conteúdo em cima da banca. Havia ali carne suficiente para algumas semanas. Seria uma ajuda preciosa naqueles momentos difíceis em que estavam.
Para além da carreira errática do marido, com entradas e saídas de empregos, havia o álcool e o tabaco que consumiam grande parte da remuneração que trazia.
Desde o namoro que ela, jovem e inexperiente, fora avisada pelos pais que “o rapaz da mota barulhenta” não era a melhor opção de vida. Não se cansavam de lhe dizer quando o viam em más companhias ou nas noitadas nos cafés.
A família de Madalena era simplesmente remediada. O pai trabalhava num armazém de tecidos e a mãe era costureira, em casa, profissão herdada também da sua mãe. Nos anos que se seguiram ao fim da escola e apesar do desagrado dos seus pais, Bruno não deixava de “rondar a porta” de Madalena. Várias vezes fora vista na garupa da 125 firmemente agarrada ao seu cavaleiro da estrada.
O pai, cioso da “sua menina”, avisava-a:
— Tem cuidado com esse rapaz. Não tenho nada contra a profissão dele, mas devias procurar alguém com um trabalho mais limpo. — Aqui fazia aquele sorriso carinhoso, como que a pedir desculpa por dizer a verdade. — Vês, como eu. Não tenho as botas e as calças sujas de cimento.
— O Bruno também não anda na rua sujo ou rasgado, pai. — Defendia-o ela. — Lava-se antes de sair da obra e muda de roupa, parece que vai sempre para o baile.
— Pois, essa é outra! — Atacava a mãe, sempre mais incisiva. — Corre as festas todas do concelho com os “bardinos” todos. Anda sempre com desocupados e bêbados.
— Ora, — continuava Madalena, sentindo-se infeliz — é um rapaz novo! Não é como vocês dizem? Divertir-se enquanto se pode? Um dia que nos casemos vai ser um bom marido, dedicado à família e à casa.
— Essa é outra! — A matriarca voltava ao ataque. — Alguma vez te falou em casamento? Ou mesmo namoro a sério? Alguma vez se prontificou a falar com o teu pai para pedir autorização para namorar?
— Isso já não se usa! — Defendeu o pai sorrindo, mas deitando um olhar de soslaio à amuada Madalena.
— Devias era olhar para o Zé do talho! — A mãe conseguia normalmente ganhar a discussão. — Esse sim, é que é um partido a sério! Já viste a casa deles? E aquele talho, quanto vale? — Aqui fez um risinho maroto. — Julgas que não vejo os coraçõezinhos que ele te põe no papel de embrulho?
Aqui até o pai se riu com o ar de envergonhado da filha.
— Oh, mãe! — Madalena mostrou-se desolada. — Ele é um gorducho sem-sal! Já o comparaste com o Bruno, muito mais bonito, magro e elegante? — Entusiasmou-se. — E aquela mota? Parece que voa!
— Magro deve de ser da fome que passa. — Retorquiu a progenitora com azedume. — Assim que tiver “teta onde mamar”, engorda. A mota, nem digo nada, para não agoirar o rapaz, que não lhe quero mal.
Estas conversas iam sempre subindo de tom e acabavam invariavelmente com Madalena a fugir para o quarto amuada ou a chorar. Ficava depois a ouvir a conversa sussurrada dos progenitores, em que ele censurava a mãe por ser muito dura e ela criticava-o por ser demasiado brando.
Bruno também não era rico. Tinha a mãe e a irmã apenas por família, o pai partira muito cedo, caído de um andaime nas obras. Estava alcoolizado e o seguro não pagou nada. A mãe estava reformada por invalidez de uma queda que dera na padaria onde trabalhava com a filha. Viviam numa casa pequena que era a renda que podiam pagar, elas dormiam no quarto e o Bruno num sofá.
Quando o pai de Madalena adoeceu e morreu com uma doença pulmonar, foi tudo muito rápido. De um momento para o outro, os rendimentos da mãe e da filha não chegavam para as despesas. Bruno, que trabalhava para o tio empreiteiro, podia ser a tábua de salvação para todos: aliviava a casa dele, deixando-a para a mãe e a irmã e reforçava os rendimentos da dela.
Casaram de forma muito singela, praticamente apenas a família muito chegada e a almoçarada na casa de pasto foi paga pelo padrinho de casamento, o tio empreiteiro.
No dia do casamento, quando estavam a compor o vestido para entrar na igreja, a mãe dela abriu-lhe a mão e passou-lhe um pedaço de papel pardo. Eram três corações desenhados a esferográfica. “Guarda, para que nunca te esqueças que havia outro caminho.”, sussurrou-lhe ao ouvido.
O caminho, seguiu-o ela estoicamente; no primeiro ano Bruno conseguiu comportar-se, embora ainda bebesse bastante. Madalena engravidou, mas abortou antes do feto ser viável, para desalento de todos.
Talvez tenha sido esse o gatilho para a mudança de atitude de Bruno que começava a juntar ao álcool as más respostas e cada vez menos dinheiro em casa.
— Que pensas fazer da tua vida? — Gritou-lhe, furiosa, um dia em que chegava embriagado. — Procuras alguma pista no fundo dos copos?
— Às vezes também nas garrafas… — respondeu com a voz entaramelada, sentado no sofá, a cabeça entre as mãos.
— Destróis tudo quanto tocas! — Acusou. — Destruíste a mota, perdeste o melhor emprego que tinhas, agora estás a destruir-nos a nós!
— Que sabes tu? — Enfureceu-se e levantou-se de um salto, a mão armada para desfechar um soco.
— Bate! — Provocou ela. — Bate outra vez, como na semana passada! É assim que resolves os problemas, o machão que bebe o ordenado e vem para casa partir a loiça e bater na mulher!
— Cala-te! — Ordenou, tapando os ouvidos e virando-lhe as costas.
— Como queres que pague à mercearia? — Pressionou. — Não pagamos nada do mês passado e apenas metade do mês anterior! O senhor Joaquim já me avisou que não pode continuar a fiar. — Abanou-o como que tentando acordá-lo para a realidade. — A luz paguei-a com o último vestido que costurei e ando a pedir adiantamentos para os que estou a fazer. Que vergonha!
— Deixa-me, que queres que te faça? — Gritou ele agarrando-a por um braço, novamente agressivo. Acabou por largá-la e desfechar um pontapé na mesa de jantar que quase se desmanchou. — Dou cabo de tudo, ouviste? — Agarrou na jarra que sobrevivera ao pontapé em cima da mesa e estilhaçou-a no chão.
— Ah é assim que se resolve? — Ela tinha os olhos esbugalhados e o rosto vermelho quando abriu a porta da cristaleira e começou a partir metodicamente os copos no chão. — Vamos lá então resolver os problemas, vamos partir esta m** toda!
Apesar de embriagado, ele percebeu que as coisas estavam a ficar fora de controlo. Era por aquelas explosões que, quando tudo estava bem, lhe chamava “meu furacãozinho”. Cambaleou para o pé dela e apertou-a num abraço desajeitado.
— Espera, meu amor, perdoa-me. — Chorou. — Perdoa-me.
— Deixa-me! — Esbracejou, tentando livrar-se o amplexo.
— Perdoa-me. — Insistiu suavemente ao ouvido dela. — Prometo que vou acertar-me e resolver a coisas todas.
As coisas terminavam normalmente assim. Ele acabava por conseguir acalmá-la e cumpria a sua promessa… durante alguns meses.
Muitas vezes ela se perguntou que estava ali a fazer, agarrada àquele homem que vivia na borda de um copo.
Os gémeos tinham aparecido quase de surpresa. Como haviam casado tarde e a primeira gravidez fora um desastre, não esperavam por aquilo quando ela tinha 36 anos.
Ela percebia o marido que tinha; bêbado, perdulário e inconsciente, mas carinhoso com os dois filhos, embora muitas vezes um bruto para ela.
Agora, na casa dos quarenta, viúva, parcos rendimentos e dois filhos menores, já não era tempo para se deixar levar por motas possantes e homens inconsequentes.
Olhou o balcão com os pedaços de carne, que seriam o sustento de todos para umas semanas e alinhou-os distraidamente.
O som estridente de uma motorizada roncou no exterior, afastando-se. Pegou por fim no saco branco onde fora cuidadosamente desenhado um coração. Uma lágrima correu ao mesmo tempo que um sorriso tímido se desenhou nos lábios… “E porque não?”
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/