domingo, 24 de setembro de 2017

COLHEITA DE CAFÉ - Estado de São Paulo -Brasil

Por: Antônio Carlos Affonso dos Santos
(colaborador do "Memórias...e outras coisas..")
Lembro cafezais em flor; flores brancas,
Que perfumavam os campos mogianos,
Colhendo o “mundo novo, o conilon e o burbom”
Do cheiro do café de coador, feito de panos,
Dos campos, dos animais e das flores,
E aquela luz num céu azul de néon... .
Faziam parte de minha vida de menino pobre,
Lembro-me da chuva, do rio e dos pássaros.
Não pude ver o mar; ao menos antes dos quatorze !
Só via mulheres com dor- d’olhos, cobertas de trapos,
Sempre grávidas; sempre sorrindo com quatro dentes,
Com suas canelas finas e feridentas; desde o seu nascimento.
Lembro a saparia do brejo e os silvos das cobras noctâmbulas,
Caçando e sendo caçadas, no esforço de se manterem vivas.
Lembro mugidos das vacas parideiras, voltando ao curral,
Remastigando o capim, que se faz leite sem igual.
Lembro os ipês, da infância da minha vida,
Lembrando, todo ano, que de setembro a outubro,
Já é hora de preparar a terra e de plantar.
Vi muita gente ir para o trabalho, quando ainda era noite,
Homens de faces enrugadas; filhos sonolentos,
Trabalhando o cafezal ou na sua plantação de subsistência,
Mocinhas de doze anos, meninos de oito, velhos de quarenta.
Vi muitas flores, plantações, árvores, rios,
Lembro pintassilgos, canários sabiás e seus cantares,
Só não via o mar; porque dele só sabia da existência!
Caipiras como eu, esperançosos, apegando-se a Deus e aos santos,
Esperando por vida melhor, assim como o filho, pai, o avô, o bisavô,... .
Caipiras que exibem suas mazelas, mas que esperam, com as suas,
Bocas desdentadas, cicatrizes nos braços e nos rostos,
Encardidos da terra roxa, queimados do sol mogiano,
Uma brisa da Providência em seu favor... .
Observando o capim gordura, formando ondas ao vento,
Com suas flores violáceas ao cair da tarde modorrenta
-Será que um dia ressurgirão num céu azul, vestidos de estrelas?
Já não tenho pernas; minhas mãos tremem,
Meus olhos fraquejam, meu coração sempre a palpitar,
Talvez vocês não saibam a razão do meu cismar:
-Vim da terra roxa e do cafezal paulista,
Da terra de aluvião vulcânica e massapé,
Onde o café se estendia a perder de vista,
A mim parece gravura, à vista de uma janela,
Vim donde existem almas penadas, matas e suçuaranas,
Vivo longe da minha terra, mas estou impregnado dela;
Ante esse quadro, não resisto ao fato:
-Que sou eu, sertão, senão seu retrato?


Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS. Nascido em julho de 1946, é natural da zona rural de Cravinhos-SP (Brasil). Nascido e criado numa fazenda de café; vive na cidade de São Paulo (Brasil), desde os 13. Formou-se em Física, trabalhou até recentemente no ramo de engenharia, especialista em equipamentos petroquímicos.  É escritor amador diletante, cronista, poeta, contista e pesquisador do dialeto “Caipirês”. Tem textos publicados em 8 livros, sendo 4 “solos” e quatro em antologias, junto com outros escritores amadores brasileiros. São seus livros: “Pequeno Dicionário de Caipirês (recém reciclado e aguardando interesse de editoras), o livro infantil “A Sementinha”, um livro de contos, poesias e crônicas “Fragmentos” e o romance infanto-juvenil “Y2K: samba lelê”. 

Incêndio ativo em Bragança, em conclusão em Vila Real. Vento vai diminuir

Há um incêndio de dimensão considerável ativo, este domingo, em Macedo de Cavaleiros, distrito de Bragança. Proteção Civil refere que temperaturas vão manter-se mas intensidade do vento vai diminuir.
Arde em duas frentes, um incêndio em Macedo de Cavaleiros (nas localidades de Castelãos e Vilar do Monte), distrito de Bragança. O fogo teve início às 12h29 deste domingo e, de acordo com declarações da Proteção Civil ao Notícias ao Minuto, os “trabalhos de combate decorrem favoravelmente”.
Não há pontos críticos ao nível de perigo para populações, uma vez que arde em zona de mato. No local estão 102 operacionais apoiados por 30 veículos e quatro meios aéreos.

Na tarde de sábado iniciou-se um incêndio em Vila Real, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, que tinha uma frente ativa devido a um reacendimento e que ardia com alguma intensidade, mas que, nesta altura, já está em resolução. Esteve perto da aldeia de Alfarela de Jales mas não houve necessidade de evacuação. Estão no local 110 operacionais apoiados por 26 veículos e quatro meios aéreos.
O incêndio que mobilizou cerca de 400 operacionais este sábado em Mação foi dominado na madrugada de domingo. De acordo com fonte da Proteção Civil, o perímetro ficou controlado, estando neste momento a ser feitos trabalhos de consolidação e rescaldo. No local, permanecem 337 operacionais apoiados por 101 veículos.
A Proteção Civil esclarece, ainda, que as temperaturas vão-se manter entre hoje e amanhã, segunda-feira, mas que a intensidade do vento irá registar uma diminuição, com aumento da humidade à noite.

Anabela Dantas
Notícias ao Minuto

Desafio do ministro encontrou eco nas instituições

Manuel Heitor pediu às universidades e politécnicos alternativas de recepção aos caloiros. Cultura e ciências foram as principais opções.
No arranque do novo ano lectivo, o ministro da Ciência e Ensino Superior tinha pedido às instituições que “dessem a volta à praxe”, encontrando alternativas. Numa carta enviada às universidades e politécnicos, e em várias intervenções públicas, Manuel Heitor apontou a cultura e a ciência como áreas prioritárias. A resposta foi positiva, com a generalidade das instituições a criarem este ano — ou a reforçarem — programas de acolhimento. O ministério tem-se empenhado em promover muitos deles.

Na próxima semana, a Universidade do Minho organiza o Festival de Outono, com programação reforçada face aos anos anteriores, incluindo música, teatro ou cinema. Os espectáculos tanto incluem projectos nascidos nos cursos artísticos da instituição, como artistas consagrados como Dead Combo (sexta-feira, 29) e Legendary Tiger Man, no dia seguinte.

O programa alternativo à praxe vai levar, por exemplo, a Orquestra Metropolitana de Lisboa a fazer concertos em várias cidades do país com instituições de ensino superior, como o Porto, na próxima terça-feira, e Guimarães, no dia seguinte, e em Outubro em Setúbal (dia 19), Vila Real (25) e Bragança (26).

Criada pela Direcção-Geral do Ensino Superior, a plataforma www.exarp.pt serve para divulgar actividades de música, desporto, cultura científica, responsabilidade social que têm como objectivo ajudar a integrar os novos alunos. As iniciativas com o selo exarp — “praxe” escrita ao contrário — arrancaram este mês. No próximo (dia 11), o Politécnico do Porto organiza um concerto no Teatro Rivoli, que está a ser preparado por Manuel Cruz, o antigo líder dos Ornatos Violeta, envolvendo várias bandas emergentes da cidade.
Mas não foi só a cultura a merecer atenção das universidades e politécnicos. Programas de formação ou visitas a laboratórios científicos foram também propostas das instituições. O Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Botânica, vão dinamizar o projecto Botânica — Arte na Natureza para colocar os estudantes em contacto com a disciplina durante o próximo mês.

No ano lectivo passado, Heitor já tinha criticado a praxe, numa carta a todas as instituições de ensino. Defendia que não deveria ser dado nenhum tipo de reconhecimento às comissões que a organizam. Nesse ano, a tutela recebeu nove queixas de actos violentos ou coercivos em praxes académicas.

Samuel Silva
Jornal Público

Governo alarga apoios a agricultores afetados pela seca a mais quatro concelhos

O Ministério da Agricultura alargou o âmbito das medidas de apoio aos agricultores afetados pela seca a concelhos dos distritos de Santarém e de Faro, disse à Lusa fonte oficial.
No distrito de Santarém as medidas, apoios para captação e fornecimento de água a animais, abrangem os concelhos de Coruche e Chamusca, e no distrito de Faro os concelhos de Alcoutim e Castro Marim.

Segundo a fonte, o prazo para apresentação de candidaturas decorre desde o dia 20 e prolonga-se até 17 de novembro, podendo os apoios irem de mil a 40.000 euros (por projeto e por produtor). A medida tem uma dotação orçamental de 300 mil euros.

Nestes concelhos, explorações agrícolas onde não há água para abeberamento dos animais podem candidatar-se, sendo elegíveis despesas em investimentos de captação, distribuição e armazenamento de água, como bombas, tubagens, cisternas e equipamentos de transporte.

A seca que o país atravessa já tinha levado o Governo a decretar apoios excecionais aos agricultores para captação de água nos distritos de Évora, Beja e Portalegre.

Em agosto os apoios foram alargados aos distritos de Castelo Branco, Guarda e Bragança e aos concelhos de Alcácer do Sal, Grândola e Santiago do Cacém, do distrito de Setúbal.

Os apoios para estes distritos ainda estão em vigor, lembrou a fonte, explicando que para os distritos de Évora, Beja e Portalegre o prazo de apresentação de candidaturas termina no próximo dia 29.

Para os distritos de Castelo Branco, Guarda e Bragança e os três concelhos de Setúbal o prazo de apresentação de candidaturas termina a 16 de outubro.

A dotação orçamental para os apoios nos distritos de Beja, Évora e Portalegre é de dois milhões de euros e de um milhão para os distritos de Castelo Branco, Guarda e Bragança e os três concelhos de Setúbal.

Em agosto passado, em declarações à Lusa, o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, já tinha dito que não hesitaria em alargar a incidência territorial dos apoios se a situação de seca persistisse.

O processo que agora se alarga a mais quatro concelhos, explicou na altura Capoulas Santos, começa com a publicação de um anúncio por parte do Ministério da Agricultura e podem candidatar-se os agricultores das zonas abrangidas pela medida e que comprovadamente não tenham água. Após a apresentação e avaliação da candidatura o agricultor pode fazer os investimentos e será reembolsado posteriormente (contra a apresentação das faturas).

Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera mais de metade do país estava em seca severa no final de agosto.

FP // HB
Lusa/fim

Incêndio lavra mato em Castelãos

Um incêndio lavra mato com intensidade na freguesia de Castelãos, concelho de Macedo de Cavaleiros.
Segundo os populares o fogo chegou ainda a estar perto de uma habitação, frente esta que, segundo os mesmos, mereceu de imediato a atenção e o controle por parte dos bombeiros.

O alerta foi dado cerca das 12h30 desta manhã e, segundo informações do sítio da Proteção Civil, o número de meios tem vindo a aumentar, estando agora no local a combater as chamas 110 homens, apoiados por 26 veículos e quatro meios aéreos.

Uma situação que vamos continuar a acompanhar.

Escrito por ONDA LIVRE

sábado, 23 de setembro de 2017

LIBERDADE DE EXPRESSÃO, É PARA TODOS?

Por: Humberto Pinho da Silva
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

“Posso não concordar com uma só palavra sua, mas 
defenderei até à morte o seu direito de dizê-la.”
(Voltaire)

Editora portuense, deu à estampa dois cadernos de exercícios para crianças: um, dedicado a meninos; outro a meninas.
Logo se levantaram vozes indignadas, que, em nome da educação democrática, pediram a retirada dos livros.
Não posso avaliar os conteúdos dos cadernos, porque não os vi; mas admiro-me de tamanha indignação:
Não vivemos num regime democrático, onde cada qual compra o que quer, e goza de liberdade de escolha?! …
Eu sei, que há quem confunda: ensino com educação; e há, igualmente, quem considere: igualdade de oportunidades e direitos, com igualdade de género.
Está em voga, pelo menos no Mundo Ocidental, defender educação igual para ambos os sexos. Pretende-se educar, do mesmo modo como o dinheiro é cunhado na Casa da Moeda. Todos iguais.
Outrora ouvia, muitas vezes, eminentes homens de esquerda, criticar a Mocidade Portuguesa, que pretendia inculcar valores e ideologias caras ao Estado Novo.
Diziam – e bem, – que cabia aos pais escolher e orientar os filhos; encaminhando-os, na vida, segundo seus princípios e valores.
Em nome da “ liberdade”, o Estado Novo retirava do mercado, tudo que não perfilhasse a ideologia em vigor. Era a ditadura.
Agora, em nome da “liberdade”, condenam, criticam e insultam (por vezes,) tudo e todos, que não seguem a ideologia “oficial”. É o direito democrático.
Como os antigos antifascistas (se me permitem pensar,) penso: cabe aos pais, educadores – enfim à família, – educar as crianças, dentro dos padrões e princípios que professam.
Não há – como alguns afirmam, – uma educação; mas várias. Como não cabe ao Estado e à classe politica, impor, mas defender a livre escolha e a livre opinião.
Há educadores, de países – de amplas liberdades, – que procuram igualar os sexos, desde a mais tenra idade: para isso, as casas de banho de escolas, são unissexo; e defendem, até, que cada qual, traje, como deseja: de saia, calção ou calça comprida, sejam meninos ou meninas.
Pretendem, deste modo, igualar o género, mesmo quando os pais e as crianças, não querem: por pudor ou vergonha.
Admira-me, todavia, que, certas pessoas, que eram acérrimas puritanas, no tempo da ditadura, fiquem agora silenciosas, permitindo que o direito de expressão e de educação, sofra tratos de polé.
Teriam mudado de opinião ou acomodaram-se?
Admira-me, mas não devia admirar-me, porque os que defendem plena liberdade, costumam ficar mudos, quando se trata de a defender, em certas zonas do globo…
Mas, já o nosso Camões, dizia: “ É fraqueza entre ovelhas ser leão” (Lus. Cant. I - LXVIII).
E há tantos leões!...

Humberto Pinho da Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG”. e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".

Catarse de um homem no lado de dentro do país

Por detrás do projecto Homem em Catarse, e do guitarrista de Barcelos que lhe dá corpo, há um sentido literal: Viagem Interior, que agora chega às lojas, é uma alegoria sonora de um Portugal que vive sem correr mas também sem que o ouçam.
Catarse, dizem os dicionários, é purificação. Ou, citando Aristóteles, uma purgação das paixões por meio da arte. E talvez tenha sido esta que levou o guitarrista e compositor Afonso Dorido a idealizar Viagem Interior, o seu terceiro disco, a olhar para um lado de Portugal muitas vezes na sombra.
Nascido em Barcelos, em 1982, Afonso Dorido faz parte da banda Indignu, formada naquela cidade em 2004 e que prepara agora o seu quarto disco. “É uma banda um bocado pitoresca, que evoluiu de fazer versões à Peste & Sida do Jorge Palma para o som que temos desde 2010. O álbum desse ano [onde participou Valter Hugo Mãe, que escreveu a letra de Duzentas promessas para um mundo melhor] esgotou há pouco tempo.” E já lançou dois álbuns em nome individual: o EP Homem em Catarse (2013) e Guarda-Rios (2015), este último, diz ele, “feito em duas noites.” Viagem Interior, o seu terceiro trabalho como músico e compositor, chega hoje às plataformas digitais e às lojas e tem dezassete temas, cada qual com o nome de uma localidade do interior português: Tua, Portalegre, Vila Real, Évora, Tomar, Beja, Bragança, Monchique, Portas do Ródão, Lamego, Alqueva, Régua, Covilhã, Alcoutim, Monsanto, Mértola e Guarda. O litoral está ausente. “A mais próxima do litoral”, diz Afonso, “será Monchique [Algarve], mas para mim é interior.”
Viagem física e mental
Afonso esteve em todos os lugares que dão nome às músicas (algumas são canções, ele também canta). Uma viagem física, mas também mental. “Há uma bipolaridade temática. É uma viagem ao meu interior, porque o projecto é muito de mim. Mas desta vez há algo exteriorizado na prática, viagem que eu fui fazendo nos últimos anos.” E foi em Évora que a ideia do disco lhe surgiu, numa visita em 2012. “Achei que era o bom o interior ser desembrulhado, ser mostrado, porque muitas vezes é escamoteado completamente. Então senti necessidade, com o que eu posso fazer, escrever música, escrever canções, de me deixar inspirar. E propus-me a mim próprio esse desafio: fazer o interior, desde Rio de Onor. E neste caso eu digo: ‘os lobos de Rio de Onor não se ouvem em Lisboa’, que é o mesmo que dizer que as vozes do interior não chegam à capital. Aliás, o tema Bragança tem uivos de lobos mesmo no parque natural de Montesinho, quis que fosse muito real.”
Os dezassete nomes escolhidos são apenas alguns dos que verdadeiramente visitou, mas Afonso vê os ausentes também reflectidos neles. “Chaves, Vila Pouca de Aguiar ou Valpaços, por exemplo, estão retratados em Vila Real, ou na Régua, ou em Bragança. O interior aqui tem dezassete faces, mas está todo retratado. A viagem, física, foi feita de norte para sul, e terminou em Monchique.”
A estrutura dos temas assente no som da guitarra eléctrica, mais percussivo ou planante, em riffs ou em melodias que exploram o eco ou a distorção para se fazerem sentir com maior intensidade. Há sugestões dos Dead Combo, mas também de Angelo Badalamenti ou até dos Pink Floyd (Covilhã, por exemplo, tem reminiscências, talvez inconscientes, de It’s all over now, baby blue, de Dylan). A voz de Afonso cruza, mais na pose que no tom, algo de Tiago Bettencourt e de António Variações, embora ao longo das audições se vá revelando com uma expressividade própria, interiorizada. E se há aqui algum tema marcadamente “radiofónico”, será Monsanto: “Uma sombra de pedra aqui tem uma raiz/ uma aldeia pode ser um país.” E sobretudo o refrão: “Não é lamento, não é lamento, não.”

O processo criativo foi impulsionado, diz Afonso, pela inspiração do momento. “Apaixonei-me por certas coisas que vi, deixei-me levar e propus-me fazer um disco, Claro que não disse: ‘vou fazer um tema sobre a Guarda’. Eu nunca saberia que iria acontecer aquilo daquela forma. Para muitos portugueses, a Guarda é viagem, é aquilo que fica antes de Vilar Formoso, uma aragem. Alguém com sentido geográfico, dirá que nós em Bragança estamos mais perto de Madrid e eu, que gosto muito de brincar com as palavras, escrevi ‘Bragança tão perto de França’, porque há uma localidade de Montesinho que se chama França. Eu bebi um bocado todos aqueles escritores portugueses de canções, e há um bocado de Reininho aí, nesse jogo de palavras.” Musicalmente, as influências assumidas por Afonso Dorido como Homem em Catarse passam por grupos como os Dead Combo. “Não posso negar, embora eles sejam mais western, mais fado, mais terra. Num sentido poético gosto muito da Lula Pena, tem uma abordagem muito própria, o que não quer dizer que haja influências directas. O fado também me influencia. E há aquela movida pulse rock, que abraço um bocadinho nas palavras e na minha forma de ver as coisas. David Gilmour, Sigur Rós, Explosions In The Sky, tudo isto eu vou beber fora. O que sinto ao tocar, vou beber dentro.”

Do punk à poesia
Afonso Dorido teve formação de guitarra clássica aos 14 anos (“tarde, na minha opinião”), depois tornou-se ele próprio professor. “Não é que eu seja velhito, mas orgulho-me de ter ensinado vários dos actuais músicos de Barcelos a tocar.” Com 35 anos em 2017, Afonso Dorido diz que nasceu “no ano do disco Por Este Rio Acima, do Fausto. É outro artista de que eu gosto muito, embora não se note no que eu faço todas essas influências. Arranjei há dias um vinil do Carlos do Carmo e tenho andado a ouvi-lo. Gosto disso, de tudo o que é nosso, não por ser nosso mas por me sentir parte disso. Cresci a ouvir muita mais directa, mais punk, e foi por volta de 2010 que comecei a compor coisas diferentes. Porque eu sempre escrevi, comecei a partilhar poesia com o Valter Hugo Mãe ainda ele não tinha a projecção mediática que tem hoje.” E há o Brasil, que ele diz que é preciso ter em conta na expansão da música portuguesa. “Dois músicos que me influenciam são o Marcelo Camelo e o Rodrigo Amarante.”
Produzido por Filipe Miranda (fundador dos Kafka, que também tocou bateria e percussões no disco), Viagem Interior foi gravado por Álvaro Ramos (Capicua, Clã, Peixe:Avião) e masterizado por Miguel Pinheiro Marques (Capitão Fausto, Keep Razors Sharp, Filho da Mãe). “Um porto quando é alegre, é o certo para atracar”, canta ele em Portalegre. Experimentem e confirmem.




Nuno Pacheco
Jornal Público

Encontro de Gerações

Novidade ou Novidades

“Novidade” ou melhor ainda “Novidades” são palavras que têm um significado muito importante para quem, com trabalho árduo, vê o resultado desse labor levado a cabo durante dias e dias, semana a semana com todos os cuidados que dizem respeito à faina agrícola, permitindo agora colherem-se as novidades, tantas e tão saborosas. Algumas delas vão servir diretamente as pessoas, agricultores e seus familiares, amigos, mesmo os das cidades, sabedores da qualidade dos produtos naturais das aldeias, das suas aldeias, com os sabores genuínos que não encontram nas grandes superfícies comerciais durante o inverno que se aproxima.
“Novidade” ou “Novidades” são palavras que significam “notícia”, “qualidade de novo”, “raridade”; mas significam também “novos frutos do ano”, “searas” – campos com cereais prontos a alcançar. Estas são as novidades que o pequeno agricultor, o chamado agricultor que pratica a tal agricultura de subsistência, retira para o seu sustento. Na realidade sobrevive, evidentemente sem atingir quaisquer riquezas, mas é detentor de um privilégio inestimável, pois o lucro da sua subsistência é a excelência dos produtos que obtém, nos dias de hoje intensamente procurados nas grandes cidades de todo o mundo, os chamados produtos “Gourmet”, palavra francesa que indica a elevada qualidade e o requinte de produtos para a atividade culinária.
Apresentamos como exemplos o milho, o branco e o amarelo, que depois de moído e cozida a sua farinha dá como resultado a broa de milho, servindo também de alimento ao gado de bico; o feijão, feijões de todas as cores e géneros, por muitos conhecidos apenas nas latas de conservação, já cozidos e salgados; as uvas de todas as castas, ótimas uvas de mesa, moscatel, mourisca, gouveio, praça, formosa e as uvas mais adequadas para o fabrico de bons vinhos; os marmelos – que rica marmelada se confeciona com os marmelos; os pêssegos e tantas outras novidades!
Junte pêssegos aos marmelos, maçãs e peras, partidos aos pedaços. A esta mistura adicione-se açúcar. Em lume branco, o açúcar vai-se liquidificando. Mexe-se de vez em quando até o cozimento e apuramento atingirem o ponto de gosto. Resultado? Uma compota denominada “marmeladão” de cheiro e sabor deliciosos!

A. Fernando Vilela
in:atelier.arteazul.net

Caçadores ainda não sabem quais as áreas onde não podem caçar

O Instituto de Conservação da Natureza e Florestas ainda não publicou quais são as zonas de caça que estão proibidas da actividade de caçar. A lei que proíbe a caça em terrenos afectados pelos incêndios durante toda a época 2017/2018, já entrou em vigor no passado sábado, mas o ICNF continua sem determinar quais as áreas abrangidas pela lei.
Fernando Castanheira Pinto, da Federação das associações de Caçadores da 1ª Região Cinegética, diz que é importante que essa informação seja avançada aos caçadores rapidamente.

“Só falta identificar as zonas de caça que estão abrangidas por essa medida, já há uma listagem provisória para se saber concretamente onde não se pode caçar. E essa informação tem de ser o ICNF a pôr cá fora rapidamente senão, mais uma vez, estamos perante legislação em cima da hora que os caçadores andam completamente perdidos sem saber onde podem caçar e onde não podem. Portanto, é urgente que a informação seja posta cá fora rapidamente e que as próprias federações as possam divulgar ou as pessoas possam consultar no portal do ICNF.”
É de lembrar que o decreto-lei publicado pelo Ministério da Agricultura especifica, que “Durante a época venatória de 2017/2018 não é permitido o exercício da caça a qualquer espécie cinegética terrenos situados no interior da linha perimetral da área percorrida por incêndio, ou grupos de incêndios contínuos de área superior a 1000 hectares, bem como numa faixa de protecção de 250 metros”.

No próximo ano, as zonas de caça associativas e turísticas concessionadas cujos terrenos se encontrem abrangidos pela proibição de caça “ficam isentas do pagamento da taxa anual (…) proporcionalmente aos hectares, ou fração de hectare, afetados pela proibição de caçar.

Fernando Castanheira Pinto, diz que os caçadores aplaudem a medida mas acha que apenas 1 ano de isenção de taxa é pouco para as despesas que a proibição vai significar, para os gestores dessas zonas

” A questão que se coloca é se, de facto, um ano pode ser uma boa medida para não se caçar e, eventualmente, nos anos seguintes, os próprios gestores das zonas de caça, em função da flora e da maneira como a zona de caça se irá comportar, passem mais anos sem caçar.

Aquilo que eu considero é que a isenção de apenas um ano, onde nenhuma zona de caça,  terá condições de reposição da própria fauna, as empresas titulares das zonas de caça turísticas deviam ter aqui uma proteção nesse aspeto, na parte financeira e de maior dimensão.”
Sabe-se, para já, que as zonas de caça abragidas por esta lei no Nordeste transmontano se encontram nos concelhos de Carrazeda de Ansiães, Freixo de Espada à Cinta, Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Mogadouro e Torre de Moncorvo.

INFORMAÇÃO CIR (Rádio Brigantia)

Chaves eleita destino para Passeio-Convívio da Azimute

Destinado aos Mestres da Aldeia Pedagógica de Portela e aos seus familiares, este passeio promovido pela Azimute contou com a participação de 24 pessoas, entre adultos e crianças.
Apoiada pela Câmara Municipal de Bragança, pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Instituto Português do Desporto e Juventude, decorreu no passado sábado mais uma edição do Passeio-Convívio destinado aos Mestres da Aldeia Pedagógica de Portela e aos seus familiares.

Esta ação, que contou com a participação de 24 pessoas, entre adultos e crianças, foi de acordo com a Associação de Desporto de Aventura, Juventude e Ambiente - Azimute, entidade responsável pela promoção da iniciativa, “uma forma de reconhecimento e de agradecimento aos mestres da Aldeia Pedagógica de Portela e aos seus familiares, proporcionando momentos de convívio e partilha entre os participantes”.

O passeio, este ano, teve como destino a cidade de Chaves e o Parque de Pedras Salgadas. Na cidade flaviense, os participantes puderam observar a Fonte do Povo, fonte ao ar livre onde a água termal sai a 73 graus centígrados, e beber um copo de água quente no parque termal. Depois, seguiu-se uma visita ao centro histórico, onde a comitiva teve a oportunidade de visitar a Igreja da Misericórdia com os seus painéis de azulejos e retábulo em talha dourada, o jardim junto à Torre de Menagem do Castelo e a Igreja de Santa Maria Maior, bem como a Igreja de São João de Deus, também conhecida por Igreja da Madalena.

Mais tarde, o Passeio-Convívio levou os Mestres da Aldeia Pedagógica de Portela e seus familiares a atravessarem aquele que é considerado por muitos como “o monumento mais emblemático de Chaves”, a Ponte Romana de Trajano.

Já depois de almoço, teve lugar uma visita ao Museu Ferroviário, tendo o passeio terminado com uma visita ao Parque de Pedras Salgadas, onde os participantes puderam desfrutar da beleza natural do parque e contemplar as fontes de Pedras Salgadas.

Bruno Mateus Filena
in:diariodetrasosmontes.com

Vale do Côa vai investir 450 mil euros

A Fundação Côa Parque conseguiu a aprovação de uma candidatura a fundos comunitários no montante de cerca de 450 mil euros,  que se destinam a projetos de valorização turística do Parque e Museu do Côa, no concelho de Vila Nova de Foz Côa.
A candidatura foi financiada em 90% do seu total pelo Programa de Apoio à Valorização e Qualificação do Destino, promovido pelo Turismo de Portugal, anunciou aquela fundação. 

APA e SEPNA investigam causas da mudança de cor no rio Tua

O rio Tua na cidade de Mirandela está por estes dias verde... A situação está a ser acompanhada pela Agência Portuguesa do Ambiente e pelo SEPNA -  Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente da GNR que já fizeram recolhas de amostras de água para detectar a origem da alteração da coloração do curso de água.
O director Regional da APA, Pimenta Machado, explicou à Brigantia que esta situação pode estar relacionada com o baixo caudal e as altas temperaturas, que favorecem o aparecimento de algas.

“Verificamos numa primeira avaliação que há ali um crescimento de algas, que tem duas causas evidentes, por um lado os reduzidos efluentes, o rio tem um baixo caudal, combinado com o aumento de temperaturas que favorece o crescimento de algas”, destacou.

Para já não há indícios de descargas poluentes no rio, mas a hipótese está a ser investigada, garante o responsável da Agência Portuguesa de Ambiente.

“Não temos indicação (de nenhuma descarga), estamos a percorrer todo o rio e a analisar em particular as fontes poluidoras, fontes potenciais que possam fazer alguma descarga não controlada, vamos aguardar que o laboratório tenha resultados para a partir daí perceber qual a dimensão do problema as origens para tomarmos medidas”, destacou.

Entretanto o Bloco de Esquerda já alertou também, através de comunicado, para esta situação que suspeita ter origem numa descarga poluente. O partido anunciou que vai “questionar o Ministério do Ambiente através do seu grupo parlamentar e fará todas as diligências para apurar responsabilidades”. 

Escrito por Brigantia

Brigada Victor Jara - "Marião"* Tradicional de Trás-os-Montes

Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça mostraram que a música tradicional portuguesa tem qualidade e dignidade.

SALVO

Por: Manuel Amaro Mendonça
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Mariano Bento olhou o céu, de agitadas nuvens escuras, enquanto apressava o passo. Calcorreava o caminho que ia de Alijó a Sanfins, naqueles últimos dias do mês de setembro. Pela arreata, levava a sua mula cor de carvão, a Sedosa, com abundante carregamento de tecidos que lhe encomendaram entregar.
Bem que Acindina, sua mulher, lhe disse várias vezes que não saísse hoje, que se avizinhava tempestade, mas ele podia lá deixar que ela lhe desse ordens? Ainda para mais, à frente do Manel do Telheiro e do Quim de Ribatua? Excomungada mulher, que tem sempre que dar uma opinião, mesmo que ninguém lha pedisse. Ele próprio estava para recusar fazer o trabalho naquele dia… agora estava ali, a meio caminho entre um sítio e o outro, com o céu a fazer caretas cada vez mais medonhas, o vento a uivar e o eco longínquo, mas ameaçador, dos trovões. Ele até nem era ganancioso, embora o dinheiro que ganhará com este transporte lhe faça falta.
Se bem se recordava do trajeto, não estava longe, bastaria passar o maciço do monte da Senhora da Piedade, e Sanfins seria logo a seguir.
Do alto do caminho ascendente, olhou com pena os casebres, a poucas centenas de metros do sopé do monte. Pensou se não deveria reconsiderar e abrigar-se por lá à espera que o tempo melhorasse. As rabanadas de vento, obrigaram-no a segurar o chapéu, cujas abas drapejavam perigosamente.
Já embrenhado na mata de sobreiros e castanheiros, que cobria o imponente monte, o céu parecia escurecer ainda mais e, apesar de serem pouco mais que 17:00h, a luz desvanecia-se e parecia que a noite caíra rapidamente. A Sedosa, quiçá mais inteligente que o dono, a espaços fincava as patas na terra dura do caminho e não se queria mover. Só depois de alguns puxões e a ameaça da chibata, erguida alto sobre os olhos, é que se deixava convencer a dar mais umas passadas.
Também Bento se sentia mais preocupado agora, bem no coração do monte, com os altos ramos a esbracejar furiosamente, para o demover do caminho que tomava. Parou a olhar o céu e uma grossa pinga caiu-lhe sobre a testa. Depois outra e outra. Num instante, uma chuva torrencial abatia-se sem contemplações sobre a dupla, que se arrastava miseravelmente sobre o chão enlameado. Ao longe, escutava-se o toque de um sino empurrado pelo vento. “Deve ser a ermida da senhora da Piedade.” Pensou de si para si enquanto dava nova mirada para trás. Nada se via a não ser o caminho ladeado por árvores que desaparecia no escuro. “Estará muito longe, a ermida? Fica no topo do monte, bem sei, mas com certeza terá um telheiro, ou alguma sorte de abrigo.” Hesitou ao notar um carreiro estreito, ascendente, à sua esquerda. Possivelmente um atalho para a ermida. O monte deve estar cheio deles, para os romeiros e os peregrinos que vêm de toda a região. Entrou no carreiro, puxando a mula atrás de si.
A chuva e o vento não davam tréguas e, para ajudar, as nuvens negras que escureciam o céu, eram iluminadas de tempos a tempos por flashes que se repercutiam em longínquos trovões. A Sedosa estava próximo do pânico absoluto, quando eles desembocaram numa clareira sem saída. O carreiro não levava a lado nenhum, embora o fraco tinir do sino parecesse mais perto. A cavalgadura resfolegava e batia os cascos nervosamente. 
A chuva que conseguia passar pelos ramos das árvores, batia com força no rosto, as horas passavam-se e, com as nuvens tão cerradas, em breve seria noite escura. Resolveu voltar ao caminho, de onde não deveria ter saído. Teve que puxar várias vezes a arreata para que o teimoso animal, de olhos esbugalhados e narinas dilatadas, o seguisse. Rápido percebeu que não estava no trilho correto e viu-se numa área com várias paredes em socalcos, possivelmente de um vinha abandonada. Mais à frente, havia um pequeno casebre. Seria o local para se abrigar e se calhar passar a noite.
Como naquele sitio a densidade das árvores era menor, ele conseguiu divisar o teto de nuvens revoltas e foi nesse momento que um enorme raio cruzou o céu. Por longos segundos, tudo ficou iluminado com uma luz branca cegante, logo diluída nas trevas. No mesmo minuto um portentoso trovão estrondeou na montanha, ensurdecendo a dupla. Foi demais para a pobre mula que, com um apavorado coice, projetou Bento num tombo rodopiante, pelas velhas paredes cheias de cotos de vinhas mortas, antes de fugir desenfreada.
Não sabe quanto tempo esteve ali caído, mas despertou, cheio de dores no corpo e na cabeça, com um ruído estranho. Já era noite e a chuva parara. Sentou-se, dolorosamente e escutou uma vez mais o som que o despertara, um rosnar ameaçador; um lobo, com os pelos do dorso eriçados, enfrentava-o a poucos metros. Conseguia ainda divisar o brilho dos olhos de mais uns quantos.
Percebeu que a sua hora chegara. Mesmo que conseguisse salvar-se contra um deles, não tinha qualquer hipótese contra a alcateia. Involuntariamente, vendo os restantes quatro predadores abandonando as sombras, uma prece saiu espontânea dos seus lábios trementes:
-    Oh minha Senhora da Piedade, acudi a este pecador nesta hora de aflição, não deixeis que morra aqui nos dentes destas feras.
Ergueu-se cautelosamente, empunhando um bocado de uma videira e procurou colocar-se de forma a dificultar o salto que o mais próximo dos animais preparava.
De repente, a atitude dos lobos pareceu alterar-se e, mesmo o mais próximo, passou de uma posição de ataque para outra de hesitação. Por fim, resolveu virar costas ao seu “jantar” e desatou a fugir, seguido de perto pelo resto da alcateia.
Atónito, Bento não percebia o que estava a acontecer e olhou para trás para descobrir uma jovem e pálida mulher. Os cabelos negros, estavam caídos sobre os ombros, tapados por um longo vestido azul que não deixava ver os pés. Empunhava um varapau com uma mão e uma tocha flamejante na outra. Ele deixou-se cair de joelhos e de rosto em terra. Não podia ser outra, senão a resposta à sua prece!
A mulher segurou-o por um braço e obrigou-o a erguer-se. De perto, era ainda mais bela. Ele tentou balbuciar um aparvalhado agradecimento, mas ela, exibiu um sorriso maravilhoso, que pareceu tornar a noite em dia e pousou um dos seus delicados dedos sobre os seus lábios. Obedientemente, deixou-se guiar até uma gruta formada por um enorme bloco de granito aparentemente suportado por duas contorcidas oliveiras de aspeto centenário. Todas as árvores em redor eram também oliveiras, muito velhas, envoltas em mato e silvas.
A senhora apontou-lhe o fundo da pala e fez um gesto, com as duas mãos debaixo do rosto, indicando que deveria descansar ali. Em seguida, com a tocha que empunhava, acendeu o molho de gravetos à entrada da gruta.
Hesitante, ele obedeceu e contornou a aconchegante fogueira, sentando-se numa fofa capa de folhas secas. Tentou agradecer novamente mas, uma vez mais, aquele sorriso desarmante deixou-o sem fala e ela repetiu o gesto de silêncio completando-o com outro, com a palma da mão voltada para baixo, indicando que esperasse. Depois, voltou-lhe as costas afastando-se silenciosamente ainda com o varapau e a tocha. Ele ficou, imóvel, a ver a luz bruxuleante a desaparecer nas trevas.
O tempo passou-se e ela não voltava. Bento, aquecido pela fogueira, atenuados o medo e as dores da queda, acabou por adormecer na cama de eremita.
Já tinha nascido o sol quando acordou. O céu continuava coberto de nuvens e um nevoeiro denso escapava-se do chão atapetado por séculos de folhas. A fogueira apagara-se e não havia sinal da mulher que o salvara, que não podia ser outra senão a Senhora da Piedade que era venerada na ermida no cume daquela serra.
Ergueu-se, com as pernas trementes, esperando, mas ao mesmo tempo temendo, encontrar a mulher. Percebeu então, aos seus pés, um saco de lona de aspeto bastante usado. Pegou-lhe e abriu-o; tinha um punhado de bolotas de ouro maciço! Ficou estarrecido e pousou o saco onde estava, vendo então que havia um outro em tudo igual, mesmo ao lado. Abriu-o e estava meio de figos, apetitosos figos, que o seu estômago, que não comia nada desde o meio da manhã do dia anterior, reclamou.
Ficou-se sem saber o que fazer, mas, por fim, a fome mandou mais forte. Pegou uma mão cheia de figos, não todos e fechou novamente o saco. Colocou-os no bolso e saiu da gruta a mastigar um deles.
Vagueou em volta mas não viu ninguém, nem vestígios da passagem de quem quer que seja no olival abandonado onde se encontrava. Acabou por achar o caminho de onde se perdera na tarde anterior e tomou a direção que achava ser a de Sanfins. Tinha um aspeto miserável, com o rosto cortado e com sangue seco em vários sítios, nódoas negras e roupas rasgadas. Comeu mais um figo, que pareceu dar-lhe alento e apercebeu-se que estava já a sair da parte mais densa da mata e o caminho iniciava um declive suave no sentido descendente.
Abandonou a proteção das árvores e contemplou o enorme vale que se estendia à sua frente, meio encoberto pelo nevoeiro baixo. Mais ao fundo, no caminho que o levaria à povoação, viu dois homens que traziam pela arreata a sua mula Sedosa.
Quase correu para junto dos homens.
-    Oh, Deus seja louvado! - Exclamou, felicíssimo a afagar o focinho do animal. - Encontraram a minha Sedosa! - Muito obrigado aos senhores!
-    Deus dê um santo dia a vosmecê! - Saudou o homem mais velho com um sorriso. - Porque a noite não deve ter sido nada boa, da forma como está “embuldrigado”!
-    Eu não disse “ca” mula vinha da serra, pai? - Perguntou o mais novo.
-    Oh, sim, espantou-se ontem à tarde, com a trovoada! - Explicou Bento. - “Amandou-me” com um coice aqui do lado, que é de admirar não me ter “arrebentado” as costelas!
-    Ontem, pela noitinha, demos por ela a pastar lá à porta, percebemos que devia haver alguém em trabalhos, mas a serra não é um bom lugar para se andar à noite. - Continuou o mais novo. - Guardamos para ver o que se passava agora pela manhã.
-    Ainda bem que o bom Deus olhou por vosmecê. Andam coisas muito estranhas por esta serra à noite, ninguém gosta de ser apanhado por lá! - Afirmou o mais velho.
-    Pois vosmecês não querem saber que ia sendo comido por lobos?
O homem mais velho benzeu-se enquanto o mais novo arregalou os olhos e perguntou:
-    Atacaram vosmecê? E morderam-no?
-    Não, Deus seja louvado! Pedi ajuda à Senhora da Piedade e não querem saber que uma mulher com um varapau e um archote correu com os lobos?
Os dois estranhos olharam-se com expressões de incredulidade.
-    Juro! Não sou nenhum “aldrúbias”, nem “borrachão”! - Exclamou Bento.
-    E… apareceu a Nossa Senhora? - O mais velho fez uma careta.
-    Pois, quando ela apareceu, também pensei que sim. Era muito bonita, com cabelos compridos e um vestido azul. Mas ela não me deixou ajoelhar e levou-me para uma pala para descansar. Ao fim e ao cabo, “tiranto” aparecer não sei de onde, não fez nenhum milagre, os lobos fugiram foi da tocha que trazia!
-    Levou-o para uma pala, diz? - Perguntou o mais novo com uma expressão de desconfiança.
-    Sim! - Bento foi convicto. - Achou-me no meio de umas vinhas velhas e levou-me para uma pala ao pé de um olival abandonado.
-    A pala da moira! - Exclamaram o velho e o novo em uníssono!
-    Moira? Qual moira?
-    Como era a mulher que viu vosmecê? - Interrogou o velho.
-    Muito branca, cabelos pretos e um vestido comprido azul! Levou-me para uma pala onde tinha um saco de figos.
-    Figos! - Riu-se o mais novo. - Não há figueiras umas boas léguas em redor!
-    Que demónio… - Bento perdeu a paciência e mergulhou a mão no bolso. - Vejam, ainda aqui trago alguns! - Mas a mão estava preta de carvão e o que ele segurava eram apenas algumas pedras pretas que atirou para o chão. - Que m** é esta?!?
Os dois estranhos soltaram uma gargalhada.
-    “Caçoais” de mim?!? Estou a dizer-vos! Foi uma mulher que vive na serra que me ajudou! Ainda há pouco comi um dos figos que estavam na pala!
-    Escute, amigo! - O mais velho parou de rir e explicou. - Não vive ninguém nesse monte! Lá para cima, há umas vinhas e olivais muito “intigos” que dizem que eram dum rei mouro que aí vivia com a filha e que foram mortos pelos cristãos. As ruínas do castelo, nunca ninguém as achou, embora se diga que a ermida foi construída nas suas fundações. O que é certo, é que acontecem coisas muito estranhas nesse monte e é por isso que ninguém gosta de andar por lá, se o puder evitar. Contam-se histórias de gente que achou muito ouro, mas nunca conseguiu sair do monte...
-    Mas eu... 
-    … por isso, bom homem, - Continuou o velho. - se está vivo, de saúde e recuperou os seus pertences também, dê Graças a Deus e deixe o que aconteceu entre vosmecê e Ele. Por mim, fico “sastisfeito” que esteja “bô” e que possa seguir a sua vida. Se precisar de alguma coisa, pergunte pelo Quim Moleiro, vivemos mesmo ali à entrada de Sanfins.
E com isto, sem aguardar resposta, deixaram-no com a mula e afastaram-se a conversar um com o outro.
Obrigado… - Bento agradeceu, quase distraidamente, enquanto olhava para o chão, para o local onde atirara as pedras negras, que antes eram figos… e que agora eram bolotas de oiro.


Manuel Amaro Mendonça nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016) e "Daqueles Além Marão" (Abril 2017), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.
Ganhou um 1º e um 3º prémio em dois concursos de escrita e os seus textos já foram seleccionados para mais de uma dezena de antologias de contos, de diversas editoras.
Outros trabalhos estão em projeto e saírão em breve, mantenha-se atento às novidades AQUI.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Da Penumbra à Luz. O Antes e o Depois

O Memórias...e outras coisas... alertou aqui e aqui para a perigosidade de uma passadeira para peões junto ao Quartel dos Bombeiros Voluntários de Bragança.
Para além da "irracional" localização da passadeira, as ramas de um pinheiro impossibilitavam os automobilistas de verem o sinal vertical de trânsito que indica a existência e proximidade da mesma.
O sentido de cidadania e a ação de uma amiga, sempre atenta aos "pequenos" problemas que reduzem a qualidade de vida e a segurança na nossa cidade, impulsionou a resolução de parte da perigosidade da situação.
Os nossos estimados Bombeiros Voluntários, que nunca falham, procederam ao corte das ramas do pinheiro que impediam a visibilidade do sinal de trânsito.
Os meus agradecimentos aos nossos Bombeiros e à minha querida amiga...sempre atenta, e que mais uma vez foi fundamental na resolução de mais uma questão que aqui foi colocada. Obrigado N.

HM

Procissão do Senhor dos Passos em Duas Igrejas - 17 de abril de 1973

Preparativos e cerimónia da Procissão do Senhor dos Passos, realizada na aldeia de Duas Igrejas, no concelho Miranda do Douro.
clica na imagem para aceder ao video

Jovens decoram mesa de altar no adro da Igreja de Santa Eufémia; torre sineira da Igreja; jovens mulheres aplicam galão na toalha para a mesa de altar; escadas, cruz de madeira e cartazes alusivos ao Passos da Paixão de Cristo apoiados na fachada da Igreja; ramos de oliveira no chão; mulher montada em burro atravessa a praça; grupo de mulheres dirige-se para o adro da Igreja; jovem mulher coloca cartaz com descrição do I Passo na fachada de casa; mulheres decoram capela do I Passo; populares observam o trabalho; mãos de mulher a coser rendas sobre a estrutura da capela; rostos das mulheres que executam a decoração da capela do I Passo; mulheres dão indicações; manada de vacas atravessa a praça; pelourinho de Duas Igrejas; mulher sentada na soleira da porta de casa; púlpito colocado na fachada de casa; homens colocam cartaz do II Passo segundo as orientações de mulheres; mulher aplica renda no púlpito; grupo de mulheres decora estrutura da capela do II Passo; grupo de mulheres inicia a decoração de outra capela, cosem tecidos e rendas à estrutura de madeira; mãos de mulher a segurar colchas e novelos de linha. 12m51: Vista geral das casas da aldeia; mulheres decoram a capela do V Passo; duas crianças sentadas sobre manta; rosto de mulheres jovens e idosas responsáveis pela decoração da capela do V Passo; rua da aldeia; mulheres compõem capela; capela e mesa de altar em ruína; cruzeiro; fachada lateral e principal da Igreja de Nossa Senhora do Monte; homens conversam e tomam notas; populares assistem à celebração da missa no adro da Igreja de Santa Eufémia; padre diz missa; grupo de crianças trajadas para participar na encenação de episódio bíblico; grupo de rapazes trajados de soldados romanos; rostos de populares e crianças; vista geral da cerimónia; operador de gravação de som a dormir. 21m45: Saída da procissão; homens carregando cruzes de madeira ajoelham-se perante a capela do I Passo; andor do Senhor dos Passos percorre ruas da aldeia e pára nas capelas; capela do II Passo; populares acompanham o cortejo; padre diz oração (sem som) na passagem do Senhor dos Passos pelo V Passo; altar com representação da Última Ceia; padre dirige-se aos fiéis no púlpito; andores de Nossa Senhora e Maria Madalena vão ao encontro do Senhor dos Passos; fiéis com os andores ajoelham em sinal de veneração; fiéis com andor do Senhor dos Passos ajoelham-se perante o altar da Última Ceia; cartaz com descrição do IV Passo; mulher a atar atacadores dos sapatos de menina; menina trajada de santa sobe ao púlpito do IV Passo e exibe estandarte com representação do rosto de Cristo; rostos e mãos de homens que transportam andores; homem a andar com auxílio de muletas; homens transportam lanternas processionais e Cruz com resplendor; padre transporta custódia; banda acompanha o cortejo; cartaz com descrição do V Passo; homens carregam cruz e ajoelham-se na capela; menina vestida de santa discursa (sem som); populares assistem ao discurso. 32m16: Cortejo encaminha-se para a Igreja do Santuário de Nossa Senhora do Monte; penitente a carregar Cruz; vista geral do cortejo da procissão e dos populares a acompanhar o cortejo; cortejo e populares entram na Igreja de Nossa Senhora do Monte; cartaz com descrição do VII Passo no portal da Igreja; cartaz com descrição do VI Passo; altar da capela do VI Passo; populares observam chegada da imagem do Senhor dos Passos ao VI Passo; cortejo percorre a aldeia; mulher caminha descalça com carga às costas. 39m43: Padre António Maria Mourinho presta declarações (sem som); declarações ilustradas com imagens do altar-mor da Igreja do Santuário de Nossa Senhora do Monte; encenação do episódio da Crucificação de Cristo; padre dirige-se aos fiéis a partir do púlpito da Igreja; vista geral dos fiéis a assistir à encenação; descida de Cristo da Cruz; Cristo na mortalha; deposição do corpo de Cristo no túmulo; cortejo sai da Igreja e dirige-se para a aldeia.

Notícias da cidade

Por: Fernando Calado
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)
A cidade envelhece. Pesa-me o peso dos anos dos idosos. Pesa-me tanto! 
Uma réstia de sol amornece o jardim José de Almeida. Os idosos cismam. Uma cidade de militares. A banda do Regimento de Infantaria 10 toca no coreto da Praça da Sé. A minha mãe nunca me deixava ir aos bailes… depois fui servir para a casa da Dª Aninhas Cepeda… aí a vida já era diferente! Gente rica… milionária!.... Havia uma taberna ao fundo da Costa Pequena íamos lá todos os dias comprar pão. O meu pai nunca nos deixou faltar nada… trabalhava na moagem do Sr. Mariano…. fazia tão boa farinha. Depois fui trabalhar para casa duma senhora… o senhor deve conhecer… recebia estudantes à merenda… não sei se já teria morrido… Íamos ao leite à Quinta dos Mirandelas… tanta vaca… boa gente! Casei-me… o meu homem era tão lindo! Tantos filhos… os mais velhos ajudavam a criar os mais novos… O rio Sabor faz tanta falta… tantas sacadas de roupa lavei… água limpinha!… O Cabo Pardal era o chefe dos corneteiros… tão bem fardado… parece que o estou a ver… não sei se já teria morrido! Os panelões do rancho do Batalhão de Caçadores 3 alimentava meia cidade… era tão boa gente! O Senhor coronel… acho que já morreu. Os meus filhos estão todos muito bem… e tantos netos… não sei quantos! A cadeia era junto ao Principal… andavam por ali as galinhas e tínhamos um porco numa loja da Costa Grande… A cidade era tão bonita… agora só há invejas!
… os idosos… pesam-me os idosos… pesam-me as memórias… já me lembro de tanta coisa!
… envelheço!


Fernando Calado nasceu em 1951, em Milhão, Bragança. É licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto e foi professor de Filosofia na Escola Secundária Abade de Baçal em Bragança. Curriculares do doutoramento na Universidade de Valladolid. Foi ainda professor na Escola Superior de Saúde de Bragança e no Instituto Jean Piaget de Macedo de Cavaleiros. Exerceu os cargos de Delegado dos Assuntos Consulares, Coordenador do Centro da Área Educativa e de Diretor do Centro de Formação Profissional do IEFP em Bragança. 
Publicou com assiduidade artigos de opinião e literários em vários Jornais. Foi diretor da revista cultural e etnográfica “Amigos de Bragança”. 

Francisco Botelho de Morais e Vasconcelos

...ou só Francisco Botelho de Vasconcelos – Nasceu em Moncorvo; ignora-se o dia, mas foi baptizado a 6 de Agosto de 1670 (os baptizados, como atrás referimos, regulavam então por oito dias após o nascimento) e faleceu em Salamanca, Espanha, em 1747.
Era filho de Francisco Botelho de Morais (ver o respectivo artigo) e de D. Beatriz (outros dizem Brites) Vasconcelos Saraiva; neto paterno de Paulo Botelho de Morais, cavaleiro da ordem de Cristo, e de D. Isabel Coelho; bisneto de Francisco Botelho de Matos, que em África, segundo o uso do tempo, foi armado cavaleiro pelo seu parente Francisco Botelho, capitão-general de Tânger, e de sua prima D. Luísa de Morais, filho de Pedro Botelho de Matos, cavaleiro da ordem de Santiago, e de D. Helena de Morais, filha de Fernando de Morais, secretário de Estado de Filipe II, no conselho de Portugal, e quarto neto de Estêvão Mendes de Távora, senhor do Vimioso.
Pelo lado materno não é menos nobre a sua ascendência, e o irmão primogénito do nosso biografado desfrutava em Moncorvo dois opulentos morgadios.
Desde tenra idade foi para a companhia de um tio em Madrid, onde fez a sua educação literária, regressando depois a Portugal, sendo então agraciado por D. João V com o hábito de Cristo em atenção aos seus méritos literários. Viajou pela Europa; esteve em Roma; voltou a Portugal e desgostos vários passados na corte obrigaram-no a regressar a Moncorvo, onde viveu retirado numa sua quinta, em casa por ele mandada edificar pelos anos de 1730, conforme escreveu Bernardino Pereira de Arosa, cavaleiro da ordem de Cristo, natural de Moncorvo, na Notícia, que anda adjunta em algumas edições de El Alfonso.
Foi secretário do embaixador a Roma, marquês de Abrantes, em 1711.
As suas obras gozaram de grande aceitação no seu tempo, e mesmo hoje não desmerecem totalmente – diz Inocêncio F. da Silva – por sua originalidade e por mostrarem bem claramente o engenho de seu autor.

Escreveu em castelhano:
El nuevo mundo. Poema heroico, con las alegorias de D. Pedro de Castro, caballero andaluz. Barcelona, 1701. 4.º de XXVIII-476 págs. Consta de dez livros ou cantos em oitava rimada. Tem por assunto a descoberta da América por Colombo. Deste fez-se 2.ª edição em Madrid em ano incerto.
El Alfonso del caballero Don Francisco Botelho de Moraes y Vasconcelos.
Dedicado a la Majestade de D. Juan el V, rey de Portugal, etc. Paris, 1712. 12.º grande de 365 págs. A segunda edição deste livro fez-se em 1731 na cidade de Salamanca, em 4.º com este título: El Affonso, o la fundación del reino de Portugal, assegurado y perfecto en la conquista de Lisboa. Poema épico. Dirigele su autor a la presencia de la serenissima Doña Maria, princeza de las Asturias, etc. Com XX-284-VIII págs. Fez-se terceira edição em 1737. 8.º de 386 págs.; tem o título igual ao da segunda e traz no fim uma sátira em latim que não vem nas outras.
Estas três edições diferem notavelmente por causa das modificações que sofreu o poema, que na primeira consta de doze cantos em oitava rimada e nas outras apenas de dez. O autor da Biblioteca Lusitana ainda menciona outra edição feita em 1716 que ficou incompleta.
A propósito desta obra diz o Mapa de Portugal: «O autor teve furor e enthusiasmo poetico de grande elevação e especie maravilhosa. O seu poema epico intitulado El Affonso, feliz imitação de Lucano, enobreceu a lingua castelhana, acreditou o parnasso, a nação e o autor, pois por elle mereceu que D. João V lhe fizesse mercê do habito de Christo com uma pensão na commenda de Folgosinho, valendo-lhe mais esta benignidade do soberano, do que se o mesmo Apollo coroasse o autor de louro. Alguns legisladores da poetica lhe fizeram varios reparos sobre a contextura, maquina e artificio do poema, a que elle talvez respondeu no “Prologo” da ultima impressão. D. Ignacio de Luzan, na sua Poetica, livro IV, nota de impropriedade n’este poema, que os anjos assaltem as muralhas de uma cidade, pois isto era empenho proprio do heroe e de seus soldados.
Maior critica e mais rigorosa é a que lhe faz o autor do Verdadeiro Methodo de Estudar, Luiz Antonio Verney, tomo I, pág. 269, onde diz que este poema não tem artificio algum de epopêa, que as fabulas são affectadas e com bastantes inverosimilidades, que os versos são duros e que em todo o poema reina uma escuridão insofrivel».
Historia de las cuevas de Salamanca. Salamanca, 1734. 8.º É uma espécie de romance; dele diz o Mapa de Portugal: «Esta producção, segundo a intelligencia do autor, era muito do seu agrado, como filho gerado na sua velhice e filho travesso e faceto que muito o fazia rir. A verdade é que similhante obra bem indica o genio e engenho do autor fecundo e erudito».
Um exemplar desta obra em espanhol que vimos tinha este título: Las cuevas de Salamanca registradas, y descritas por el caballero... y dedicadas por el mismo al preclaro y mas que heroico Amadis de Gaula. Salamanca, sem ano de impressão, mas as licenças para se imprimir são de 1732. No fim diz que a segunda parte desta obra já estava composta e que se ia imprimir brevemente.
Joaquim Manuel de Araújo Correia de Morais, professor de filosofia no liceu de Santarém, deixou impressa a seguinte obra: História das covas de Salamanca, do cavaleiro Francisco Botelho de Morais e Vasconcelos, cronista-mor dos estudantes, trasgos e feiticeiros, abreviada e traduzida em português. Coimbra, Imp. da Universidade, 1838. 8.º
Discurso político, histórico e crítico, que em forma de carta escreveu a certo amigo, passando deste reino para o de Espanha, sobre alguns abusos que notou em Portugal. Lisboa, por Francisco Luís Ameno, 1752. 4.º de 22 págs. Pela data da impressão parece ter saído póstumo.
Carta de Francisco Botelho de Vasconcelos a seu primo, acerca do poema «El Alfonso». Compreende nove folhas.
Deixou escritas mais outras obras mencionadas na Biblioteca Lusitana.
Inocêncio refere como deste autor algumas anedotas que bem provam o seu grande espírito; duas para amostra: numa das suas vindas a Lisboa encontrou-se com o conde da Ericeira, D. Francisco Xavier de Meneses, autor da Henriqueida. Este ilustre fidalgo tinha-se em conta de grande poeta e perguntou a Botelho: 

«Que dizem de mim lá em Castela?» «Que sois um grande cá de Portugal» – volveu-lhe Vasconcelos. «Não digo isso – objectou-lhe o conde –; falo a respeito dos meus versos». «Ó! isso é cousa em que ninguém fala!» – tornou-lhe o nosso biografado.
Quando ofereceu El Alfonso a D. João V, o monarca, como fica dito, fez-lhe mercê do hábito de Cristo; porém, como lhe não pagassem a pensão, Botelho não fez caso do hábito, e aparecendo um dia sem ele no Paço perguntou-lhe el-rei por que o não trazia. «Para ser cireneu, volveu-lhe o poeta, é preciso que me paguem».

O Sumário da Biblioteca Lusitana atribui-lhe mais estas obras:
Loa para la comedia, etc. Lisboa, 1709. 4.º
Tres Hymnii in Laudem Beati Joanni a Cruce. Romae, 1715. 4.º
Poema en loor de S. Juan de Sabagun. Gratas expresiones a Clemente XI. Luca, 1716.
Panegírico historial da família de Sousa. Córdova.
Relação de como se ensinam em Salamanca as três línguas.
Vida de um sargento-mor de dragões.
Pinheiro Chagas (no Dicionário Popular, artigo «Vasconcelos») acha que este escritor «disfructou no seu tempo uma reputação, que não nos parece extremamente justificada», e quanto às anedotas, que lhe atribuem, diz que «denunciam antes um malcreado, ou um jogral, ou um pedante, do que um d’esses cortezãos de agudo engenho e de esmerada cortezia, que eram por esses tempos a gloria e o encanto da côrte de Paris, e que tambem
o seriam da de Lisboa».
Satyranom equitis Domini Francisci Botello de Moraes et Vasconcellos, liber unicus. 8.º de 55 págs. seguidas de Notae doctoris Domini Joannis Gonzalez de Dios, in Salmanticensi Academia primarii Humaniorum Literarum Magistre. Estas notas vão de pág. 55 até além da 101, pois ao exemplar que vimos faltavam as restantes.
Do Discurso político, histórico e crítico, atrás mencionado, extraímos as seguintes notas, por conterem espécies interessantes: «Meu amigo. Como Vossa Mercê pela minha mão remeteo ao Lente de Prima de Leys da Universidade de Salamanca huns livros de outro Lente da Universidade de Coimbra, me parece da minha obrigação, e de boa amisade avisar a Vossa Mercê, que determino passar a Salamanca. Poderia ser, que o Lente de Prima Português, amigo de Vossa Mercê, ou Vossa Mercê mesmo quizessem alguma cousa para aquella Cidade, e nenhum portador será mais effectivo, e mais affectuoso do que eu.
Devera ser breve esta carta, por ser expressão de despedida. Porém peccará em dilatada, porque na nossa Provincia, de donde quero sair, estranhey algumas cousas; e como não careceria de culpa insinuallas fóra do Reyno, é melhor dizellas a Vossa Mercê: sendo muito dificultoso, que depois de apprehendidas as tenha em silencio, quem como eu gosta da conversação.
Estando contente e respeitado em Madrid, onde passey a melhor parte da minha vida, voltey a Portugal ao principio da guerra passada. E estando da mesma sorte em Salamanca, onde assisti cinco annos, deixey as minhas commodidades, e o meu gosto, quando pelos actuaes rumores, e prevenções militares, se me representou indecorosa a minha permanencia em Castella.
Em ambas occasiões imitei a meu avô Paulo Botelho, o qual de ordem de Filippe IV marchava a Catalunha, commandando um regimento de Infantaria (então se chamavão Terços); e tendo noticia da Acclamação do nosso grande Rey D. João IV, se restituio a Portugal, e nelle não desajudarão a publica felicidade a sua Pessoa, e o seu Regimento. De sorte que duas vezes o nosso Reyno me causou os prejuizos de me desterrar das Nações estrangeiras para o nosso Reyno. Digo prejuizos, mas não violencias; pois amando
com a mais exacta fidelidade ao meu Rey, e á minha Patria, seguem sem repugnancia aos impulsos da minha obrigação as resignações do meu animo.
Nestas jornadas, e outras, passey pela Torre de Moncorvo, onde nasci, e onde tenho algumas fazendas; e foy o meu primeiro cuidado ser util aos meus Compatriotas em tudo o que me fosse possivel. Achey-os discordes, e desapplicados, e para o remedio os juntava em uma casa de campo, que edifiquey, e onde vivi alguns meses. Alli lhes dava abundantes merendas, em que com muita reiteração nos acompanhou o Senhor de Villa Flor. Fundey também uma Academia dos Unidos, dizendo-lhes, que assim havião de chamar-se, e assim havião de ser. Pelos estatutos da referida Academia deputey dias, em que devião escrever em prosa, e verso papeis eruditos, e discretos; dias em que se exercitassem no manejo dos cavallos; e dias para o exercicio da Musica, e Dança. Estes empregos, como louvaveis, nobres, e convenientes, se aprendem fóra de Portugal, e na mesma Italia em Collegios dirigidos por sujeitos do mayor talento, e das mayores virtudes. Tambem intentey, e não sem difficuldade consegui, que se renovasse a deixada imagem da equestre batalha entre duas oppostas Nações, que vulgarmente chamamos Mourisca, festejo antiquissimo, em que já Virgilio deu adulto louvor á idade não adulta do seu Ascanio. Passando eu a Salamanca, fizeram os meus Patricios se pozesse na gazeta de Portugal, que era de outro a minha Academia; ingratidão de que facilmente me esqueci, pois o mundo me sabe o nome com estimação, sem que para a conseguir me fosse necessaria a gazeta de Portugal, ou o titulo de Fundador da Academia da Torre de Moncorvo.
Esta ultima vez, que vim á minha Patria, estavão os meus Patricios adormecidos de novo em outra desapplicadissima inacção. E desejando eu, que daquelle nada tornassem a sahir à luz, lhes trouxe á memoria, que a Torre de Moncorvo se fez conhecida (entre outras boas qualidades) pelos seus genios festivos. Disse em Lisboa huma das mayores Pessoas do Reyno, que não havia festa comparavel a hum dia de S. João da Torre de Moncorvo, com Mourisca de manhã, e Comedia de tarde. E como hoje, pelos marciaes aprestos, faltão os cavallos, aconselhey á Nobreza da Nossa Villa, que sem deixar a Dança, e a Musica, se não dedignasse das applicações á Comedia.
Tambem me admirou ver na Torre de Moncorvo, povoação de pouco mais de trezentos visinhos, caibão, vivão, e se acommodem sessenta e uma pessoas occupadas no ministerio judicial, ou administração da justiça».

Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança