Por: Paula Freire
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)
Recordo hoje, um dia em que a minha filha me surgiu com uma curiosa expressão da sua autoria, a propósito de um livro que andava a ler. Ainda que nada a propósito de religião, deixou-me a considerar que as suas palavras vieram mesmo a propósito. Disse-me ela que lhe parecia apropriado concluir, após a leitura do dito livro, que “o pão vem da árvore”. Ouvi-a e fiquei curiosa. Como é que o pão vem de uma árvore? Curiosidade minha não satisfeita, pois se foi sem quaisquer justificações.
Mas o pensamento não se me deu por vencido e procurei compreender o fenómeno à minha maneira. Por vezes, no meio do improvável, até existem acasos que nos fazem algum sentido. Afinal, encontramo-nos precisamente a viver uma época especial. E, enquanto cristãos, refletimos no tema da morte e da ressurreição e no que isso representa para nós…. Será que refletimos mesmo?
Tradições, comemorações e umas quantas outras questões se levantam quando tentamos perceber onde, no meio de tudo, fica a fé de cada um.
Fé, uma palavra pequena para um sentimento grandioso e que, por esta altura, vemos reduzida à Páscoa dos ovos de chocolate e de tantas iguarias, eventuais prazeres tão distantes da suposta contenção própria desta celebração. A Páscoa tão vazia por dentro como os tais ovinhos ocos de casca fina. A Páscoa tão distante de um tempo em que, quem sabe, talvez se acreditasse mais.
Aquela Páscoa em que o pão simbolizava vida; em que o pão, além de alimento para o corpo, era considerado também alimento para a alma em gestos de humildade, de bondade, de união, de partilha. E com estes se procurava a renovação. Em particular a renovação interior, o aperfeiçoamento de um modo de estar e de ser.
Acredito pois, então, que o pão possa mesmo vir da árvore, como afiançava a minha filha. É que as árvores da vida presentes neste mundo, desde a sua génesis até ao seu apocalipse, fazem-me sempre lembrar a alegoria perfeita da caminhada de cada ser humano.
Seremos nós como os olmos, dignos e confiáveis, a espalhar a magnífica beleza dos nossos ramos e folhagem ao olhar dos que connosco se cruzam? Ou como os fortes e perseverantes Carvalhos que resistem às intempéries do tempo? Ou ainda como os majestosos ciprestes de olhos postos no infinito a tocar as mãos da esperança? Ou teremos semelhanças com os vigorosos cedros que ladeiam as ruas e jardins da vida? Ou seremos tantas vezes como orgulhosos álamos, incapazes de se curvarem perante o sofrimento daqueles que padecem?
Árvores que procuram naturalmente a luz. Árvores com raízes profundas de firmeza e segurança, capazes de resistir às tribulações do seu percurso. Árvores capazes de dar frutos com verdadeiro significado.
A Páscoa de hoje não mostra produzir frutos dignos desse nome. Vive da aparência. E muitas árvores que existem parecem querer contar-nos a parábola do homem e da figueira plantada na sua vinha. São árvores sem vida que terminam cortadas nos lugares que vão ocupando inutilmente. O seu espaço, então deserto, é como o deserto na vida de tantas pessoas.
Porque é tempo de Páscoa, mais importante do que abundante banquete, diria ser maior outro repasto que nos sustenta. E talvez o deserto não fosse o desse silêncio em que cada ser se afunda pela dor, pelo medo e pela solidão. Mas sim o silêncio que se faz experiência de reencontro dentro de nós e nos conduz à aceitação das nossas verdades e à valorização das nossas limitações e daqueles que fazem parte da nossa viagem. E, se assim for, talvez a fé não esteja dentro de quatro paredes, mas sim no interior do coração de cada um.
Posso dizer-te, filha, que terias a tua razão. É da flor e do fruto que nasce o perfume de cada um de nós. É da árvore que vem o pão.
- Paula Freire -
Paula Freire - Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021, “Cultura Sem Fronteiras” (coletânea de literatura e artes) e “Nunca é Tarde” (poesia), e da obra solidária “Anima Verbi” (coletânea de prosa e poesia) editada pela Comendadoria Templária D. João IV de Vila Viçosa, em 2023. Prefaciadora dos romances “Amor Pecador”, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021), “As Lágrimas da Poesia”, de Tchiza (Katongonoxi HQ, Angola, 2023), “Amar Perdidamente”, de Mary Foles (Punto Rojo Libros, 2023) e das obras poéticas “Pedaços de Mim”, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021) e “Grito de Mulher”, de Maria Fernanda Moreira (Editora Imagem e Publicações, 2023). Autora dos livros de poesia: Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022) e As Dúvidas da Existência - na heteronímia de nós (Farol Lusitano Editora, 2024, em coautoria com Rui Fonseca).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."- Bragança e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.


Nestas épocas festivas a solidão que muitos sentem é um tema profundo e multifacetado que toca a vida de muitas pessoas. Para alguns, pode ser um estado de tristeza e isolamento, enquanto para outros pode ser uma oportunidade de autoconhecimento e reflexão. A solidão é uma experiência complexa que nos pode ensinar muito sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos rodeia.
ResponderEliminarPáscoa Feliz Paula.
Tão bom ler este teu comentário, Henrique! Encontro nas tuas palavras uma consciência sensível que me toca profundamente. Como bem referes, a solidão tem várias faces. Acredito que tocá-la com lucidez e sabedoria pode ser, por si só, um gesto de companhia.
EliminarQue esta época nos aproxime com sentido e presença, ainda que em silêncio, porque é isso o que realmente importa. Uma Páscoa luminosa também para ti, querido amigo.