(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Hoje, 15 de janeiro de 2026, a três dias das eleições presidenciais, impõe-se, num mero exercício de reflexão, fazer uso da máxima charliechapliana, segundo a qual “o dia que não rimos é um dia perdido”. Isto porque anda aí muita gente nervosa; sendo que a vida é demasiado preciosa para a vivermos com amargura e azedume.
No pretérito fim de semana, desabafei com um grande amigo sobre aquele tema tabu que a nossa sociedade, por vergonha, raramente partilha: a depressão. Como, pois, nestas “doenças” silenciosas, quem delas padece não admite estar doente, tive a coragem de me constituir como excepção, à “luz” do avisado princípio de que “só se cura, quem admite estar doente”.
Este meu amigo, por quem tenho devota consideração (daqueles por quem os males não vêm ao mundo), ouviu atentamente os meus sintomas e, segundos depois, o diagnóstico estava feito, tendo o “clínico” reagido com o optimismo que todos lhe reconhecemos: “não te preocupes, que eu arranjo-te uma das melhores clínicas do país, em patologia dos recalcamentos e dos traumas!”. E continuou: “Em pouco mais de 90 minutos, vences todos esses demónios que, abusivamente, entraram no teu corpo e mente, e te atormentam.
Fui p´ra casa a pensar se a solução passaria por uma ida ao bruxo de Nozelos, pequeníssima aldeia do concelho de Macedo, a pouco mais de 3 quilómetros das Arcas, ou por Vilar de Perdizes, numa consulta “aberta” com o famigerado Padre Fontes.
No dia seguinte, e para estupefacção minha, o meu amigo ligou-me a comunicar que a sessão “espírita” estava marcada para as 20H45, do dia 14 de janeiro, na “clinica” Dragão/Alameda. Como, já diz o povo, a saúde está sempre em primeiro lugar, lá fui até à Invicta, no dia e hora marcados.
Antes de entrar para a Catedral do Dragão, na companhia do meu amigo, reforcei-me com duas imponentes bifanas de rolote, que, embora o “espaço comercial móvel” estivesse mais perto de receber uma visita da ASAE do que de receber uma estrela Michelin, soube-me pela “bida”.
Ornamentado, a rigor, com as cores azul e branco, já dentro da “clínica”, infiltrei-me na claque draconina. Mal o Veríssimo apitou para dar início à partida, o animal transfigurado que desconhecia existir dentro de mim, mesmo sem motivos, esgotou, pelo uso verbalizado, o extenso e poético rol do mais puro dos vernáculos, entre o “oh filho da p…!”, “és um gatuno” e o “SLB, SLB, filhos…”. A minha cegueira era tanta, que, convictamente, reclamava faltas a favor do FCP, sem sequer ter visto os lances.
Na verdade, senti-me um Arménio - o trolha d`Areosa, personagem - tipo imortalizado pelo Rui Veloso -, em cima dum vertiginoso andaime tabular, a dirigir impropérios às garinas. Senti-me mais um dentro do rebanho, mentalmente inimputável, irracional, selvagem e descerebrado.
O Fábio, ao minuto 97, deu-me ordens para regressar a Bragança. No final do jogo, completamente curado do mal que me atormentava, e já com a mente revigorada e leve, pelo ambiente indescritível que ali vivi, fui à conferência de imprensa dizer que “foi um bom jogo” e “o adversário um digno vencido”.
Conclusão, não devemos evitar as grandes excitações da vida, por mais insanas que possam parecer, porque não há nada mais premente e prioritário do que ter a alma preenchida.
António Pires
António Pires, natural de Vale de Frades/S. Joanico, Vimioso.
Residente em Bragança.
Liceu Nacional de Bragança, FLUP, DRAPN.

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