(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Antes que pudesse arrepender-se da decisão, tinha sido arrastado muitos metros debaixo de água.
Emergiu numa extensa lagoa, a esbracejar e a tossir, tentado expelir a água que ameaçava os pulmões.
Agarrou-se febrilmente a uma escada de madeira apodrecida que lhe surgiu em frente e arrastou-se penosamente para a área seca.
Durante alguns segundos só conseguia ouvir o próprio coração e o rugido da água à sua volta.
Ofegante e ainda a tremer verificou que conseguia ver perfeitamente. A água escorria das roupas e do cabelo; cada inspiração doía-lhe no peito.
Deitado de costas, apreciou o ambiente.
Estava numa ampla gruta. A luz fraca que a iluminava parecia irradiar de estalactites descomunais que pendiam do teto. Em redor delas, uma abóboda de pedra escura reforçava a rocha natural. Oito pilares colossais talhados como Atlantes que pareciam sustentar a própria montanha; nos pulsos e no peito das figuras distinguiam-se palavras esculpidas.
Apesar de ainda fortemente perturbado pela terrível experiência da passagem pelo túnel submerso, a sua mente começara de imediato a captar cada um dos pormenores.
Havia uma estranha similitude com a charola do Convento de Cristo, como se aquela fosse uma imitação reduzida desta e não o contrário.
O som da água em movimento enchia a camara de ecos.
Sentou-se.
A gruta fora transformada numa sala circular em redor do lago. Num extremo, a torrente irrompia sob a rocha e chocava contra um maciço de calcário, que a desviava ao longo da margem. A água contornava a bacia quase redonda, acelerava e desaparecia com um rugido num sorvedouro próximo do centro.
O corpo de água tinha as margens lisas como uma piscina e a agitação da corrente refletia-se nas paredes escuras. A mão humana e a natureza pareciam confundir-se: de um lado, rústicas entradas de tuneis que desembocavam naquele espaço misterioso e do outro erguiam-se três portais de pedra trabalhada.
O portal central era ladeado por duas esculturas de guerreiros templários em tamanho natural. As estátuas tinham o rosto erguido, cada uma com a espada desembainhada sobre o peito, como sentinelas a aguardar ordens.
O som da água era omnipresente e parecia, além de encher toda a enorme gruta, instalar-se dentro do próprio cérebro.
Ergueu-se cambaleante e, após alguma hesitação, dirigiu-se para o grupo de portais.
O primeiro deles era um compartimento oval, de teto arredondado e paredes lisas. Em cada um dos lados sobressaía uma singela pedra tumular medieval com um nome esculpido.
Tentou usar o telemóvel encharcado para iluminar o texto, mas o dispositivo já não reagia. Procurou no bolso o pequeno isqueiro metálico e sorriu quando conseguiu produzir uma pequena chama.
Na primeira tumba havia a seguinte inscrição” HIC IACET GVILLELMVS RICARDI • MAGISTER PRIMVS • IN TENEBRIS SALVVS”
Tentou perceber no seu latim mal aprendido “Hic iacet…” (Ok, esta ele sabia de cor dos cemitérios: Aqui jaz). “Gvillelmvs Ricardi” (Guilherme Ricardo). “Magister Primus” (Mestre Primeiro). “In tenebris…” (Nas trevas… em segredo?). “Salvus” (Salvo ou seguro).
O nome não lhe era estranho, mas dedicou-se de seguida à segunda tumba “
HIC IACET HVGO MARTINI • MILES ET DOMINVS • SILETE ET CAVETE”
Mais outro difícil de perceber “Hvgo Martini” (Hugo Martins). “Miles” (Soldado… ou Cavaleiro). “Et dominus” (E senhor/mestre). “Silete…” (Silêncio… vem de silenciar). “Et cavete” (Esta ele lembra-se de ouvir o pai: Cuidado ou Atenção).
Quereria dizer que o cavaleiro era atento ou que ele próprio devia ter cuidado? Estes nomes eram-lhe verdadeiramente familiares, mas ainda não se recordava onde os vira.
Passou em frente ao primeiro guardião de pedra com um estranho desconforto. Parecia-lhe que a estátua tinha vida e, apesar de imóvel, estava atenta a todos os seus movimentos.
Observou-a com atenção; estava esculpida com um enorme grau de perfeição. Compleição robusta, rosto severo, capacete enterrado na cabeça. Até os elos da cota de malha estavam finamente gravados. Na faixa frontal dos capacetes, quase escondidos pela pedra escurecida distinguiam-se três caracteres hebraicos. Conseguiu lembrar-se do nome do primeiro deles, álef, mas não os outros.
As três letras hebraicas e a postura vigilante fizeram-lhe recordar as histórias do pai sobre goléms, guardiões de pedra chamados para defender pessoas ou lugares. Uma dessas histórias falava em apagar o álef para lhes dar ou retirar vida — mas Tomás já não conseguia lembrar-se de qual dos gestos os despertava. Uma crendice qualquer dos judeus, desinteressou-se.
Já se ia afastar quando outra coisa lhe chamou a atenção: espreitou para o peito da escultura, o símbolo que ostentava não era a tradicional cruz templária. — Acendeu o isqueiro para ter a certeza. — A chama do isqueiro iluminou o peito do guardião.
Tomás franziu o sobrolho.
Parecia uma cruz, mas os quatro braços terminavam em pegas de chave. Apenas dois deles possuíam dentes. A cruz pátea sobrepunha-se no centro.
O coração falhou-lhe uma batida.
Conhecia aquele sinal.
Estivera toda a vida no anel do pai.
A ligação inequívoca do progenitor àquele local estava ali; no peito do guardião.
Ainda a digerir a informação, continuou a explorar.
O compartimento central era mais pequeno e continha apenas uma pedra como uma prateleira ou um altar, cravado nas paredes. Sobre ela, dois candelabros com tocos de vela guardavam uma pequena caixa coberta de pó.
Passou pelo segundo guardião com o mesmo receio e entrou noutro compartimento semelhante ao primeiro em tudo, inclusive nas duas tumbas que o ladeavam.
Novamente o isqueiro para ler as inscrições “HIC IACET GVALDIMVS PAIS • SANCTVS TEMPLI • NON NOBIS DOMINE”.
Aqui o reconhecimento bateu-lhe como uma pedra: “Gualdim Pais! São os túmulos dos grão-mestres!”
Se as inscrições diziam a verdade, aquelas podiam ser as tumbas de alguns dos mais importantes mestres templários portugueses. Mas então quem fora sepultado em Santa Maria dos Olivais, a igreja que durante séculos guardara a memória daqueles homens?
Interpretou a inscrição “Gvaldimvs Pais” (Gualdim Pais! O maior de todos). “Sanctus Templi” (Santo do Templo… o guardião). “Non nobis Domine…” (qualquer pessoa que tenha visto um filme sobre os Templários conhece: Não a nós, Senhor).
Ansioso, voltou-se para o último túmulo “FERNANDVS DIAZ • CVSTOS IANVAE • AD LVCEM”
Esforçou-se “Fernandvs Diaz” (Fernando Dias). “Custos…” (Guardião ou custódio). “Ianvae” (Esta ele arranha… significa Porta ou Entrada). “Ad lucem” (Para a luz).
Aquilo podia ser uma descoberta extraordinária, capaz de alterar o que se sabia sobre a história dos Templários em Portugal. Se aquelas inscrições fossem autênticas, a cripta sugeria que a ordem escondera ali os seus mestres — e que muito permanecia por descobrir.
Repentinamente, o sorriso desapareceu do seu rosto; o seu pai sabia de tudo, não podia ser de outra forma. Afonso de Rochaforte não era um velho proprietário da região de Tomar, era um guardião do segredo dos Templários!
Fora isso que o pai tentara passar-lhe a vida toda: o conhecimento, a responsabilidade e a função. Tomás compreendera-o tarde demais — e da pior maneira possível.
Quando o achasse pronto, o patriarca deveria iniciá-lo naqueles segredos e atribuir-lhe as funções que ele próprio desempenhava.
— Mas porque não o disse claramente?! — Deixou a voz ecoar no vazio, sobrepondo-se por segundos ao ruído da torrente.
Os olhos pousaram-se então no pórtico central e a suspeição instalou-se: “As tumbas não são o segredo.”
Não havia dúvidas — dois guerreiros de pedra e quatro grão-mestres dos templários a guardar o que quer que esteja, ou esteve, no altar do pórtico central.
A descoberta fizera-o esquecer por instantes o perigo que correra, mas não Freixo: fora o cão que o conduzira até ali e continuava perdido algures naquelas galerias. Ainda assim, a hipótese de compreender finalmente o pai — e, em última análise, a própria família — puxou-o para o altar.
A divisão era bastante reduzida. O bojo de dois dos enormes pilares que suportavam o teto ocupavam as paredes laterais. O corpo de Tomás na entrada escurecia o espaço.
Ele acendeu o seu fiel isqueiro chegou a chama aos cotos das velas nos castiçais. Não conseguiu deixar de pensar se aquelas velas teriam realmente mais de setecentos anos… quando a luz fraca se impôs no cubículo pareceu-lhe escutar um suspiro.
Episódio Seguinte - Sacrum – VII SEPTEM
By Manuel Amaro Mendonça 22 de Setembro, 2026
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
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