(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Apesar do medo, havia uma breve e amarga satisfação: as lições que tantas vezes desprezara tinham acabado de lhe oferecer um caminho. Pela primeira vez os enigmas do pai mostravam-se úteis.
O contentamento, porém, foi substituído pela raiva. Se o pai conhecia aqueles símbolos, se sabia o que existia sob a colina e até o preparara para os decifrar, porque nunca lhe dissera simplesmente a verdade? Em vez disso, dera-lhe enigmas, proibições e meias palavras!
Agora, sozinho debaixo da terra, tentava completar uma explicação que morrera com o patriarca.
Mesmo morto, Afonso continuava a obrigá-lo a obedecer sem lhe conceder o direito de compreender.
Tornou a olhar para o túnel de onde saíra, que conduzia ao poço. Para já, era a única garantia e a única fração que já conhecia daquele mundo subterrâneo. Tudo o resto era medo e incerteza.
— Freixo! — Gritou novamente. O nome percorreu os três túneis e regressou-lhe deformado. Ficou na dúvida se escutara um latido distante.
Não sabia o que o esperava nos caminhos errados, mas o símbolo apontava para o túnel do centro. Era pouco para chamar certeza; ainda assim, naquele labirinto, era a única orientação em que podia apoiar-se. E se Freixo tivesse seguido por uma das outras passagens?
Estava consciente da sua situação, que piorava a cada centímetro que descia, mas naquele momento não havia mais opções senão continuar. Fora um erro monumental ter ido atrás de Freixo.
Com um suspiro e mais um “Raios partam” entre dentes, começou a sua aventura pelo túnel do meio.
A lanterna ameaçava falhar a todo o momento e quando isso acontecesse estaria limitado à bateria do telemóvel. Tinha consciência que deveria poupá-la o mais possível para a eventualidade de encontrar um ponto onde a rede chegasse.
O túnel era praticamente igual ao anterior, as paredes calcárias eram irregulares e intercalavam com extensas porções feridas por picaretas onde a passagem fora alargada. A água escorria pela rocha e desaparecia no cascalho do chão. Ao longe, ressoava um ruído semelhante à trovoada.
A um certo ponto o túnel estreitava e havia como que um pórtico escavado e polido simulando colunas. Por cima, havia um pentalfa gravado. Não se lembrava do significado exato, associava-o a uma saída, ao caminho da luz, ou qualquer coisa semelhante.
A lanterna projetava uma luz cada vez mais fraca e parecia ainda iluminar uma parede ao fundo do caminho que continuava em declive. Seria o fim do caminho? Mas escutava-se a água a correr e os ecos indicavam uma gruta.
Hesitou e iluminou o caminho de onde viera, ponderando recuar e tentar outro caminho, ou mesmo arranjar forma de escalar o poço.
— Freixo! — Gritou, o som abafado pelo teto baixo. Mas apenas o som das águas furiosas lhe respondia.
Iluminou o chão depois do pórtico. Transformava-se em degraus de calcário gastos pela passagem da água.
— Raios… — Resmungou uma vez mais antes de avançar temerosamente.
Estava quase a chegar à parede que iluminara, o som da torrente era mais forte.
Ao dar mais um passo, confiante nas escadas que descia, não se apercebeu que o degrau estava quase dissolvido e a partir daquele ponto não havia mais nenhum.
Escorregou e caiu de costas começando a deslizar pelo túnel abaixo cada vez mais rápido. Tentava desesperadamente agarrar-se a algo, mas era tudo pedra lisa e húmida.
Foi lançado no vazio e bateu quase imediatamente com força em chão firme.
Estava escuro. Perdera a lanterna na queda.
O estrondo da água estava agora muito perto, percebeu que se encontrava numa imensa gruta.
De joelhos, tateou o chão em volta na tentativa de encontrar a lanterna. Abriu a boca para praguejar, mas conteve-se: até a voz parecia um desperdício naquela escuridão.
Agora, sem a luz artificial, percebia que a escuridão não era completa. O próprio calcário emitia uma fraca e fosforescência verde-azulada. Era o suficiente para conseguir lentamente distinguir as margens do rio e fazer a água cintilar.
Uma larga torrente brotava debaixo de uma enorme fraga, atravessava a gruta num canal revolto e desaparecia por baixo de outra massa de pedra. Para além dessa massa, parecia haver claridade.
Relutante, Tomás usou o telemóvel para iluminar o local e analisar as paredes: se este era o “caminho bom”, não podia ser um fim de linha.
Ergueu-se com dificuldade, resmungando baixinho. O corpo inteiro protestava; naquele dia, o subterrâneo já lhe cobrara demasiadas vezes a imprudência.
Olhou o local de onde caíra. As paredes lisas e molhadas, sem pontos de apoio. Voltar atrás e tentar um dos “caminhos errados” estava fora de equação.
A poucos metros de si viu a lâmpada e o suporte de fecho da lanterna. Uma das três baterias estava mais à frente, mas as restantes, assim como o corpo da lanterna, não estavam à vista. Deveriam ter rolado para o rio.
Voltou a iluminar todo o espaço até chegar ao ponto em que as águas desapareciam e a luz incidiu sobre uma gravação no calcário — uma linha ondulante com três pontos por baixo.
Desta vez a tradução surgiu-lhe naturalmente: um corpo de água, passar por baixo.
Olhou para o rio. Subir a corrente era impossível, voltar atrás também, teria de passar por baixo da fraga onde a torrente desaparecia.
«Nem pensar.» O corpo recusou antes de ele conseguir raciocinar. Apagou a luz do telemóvel para poupar a bateria e sentou-se no chão. Até ali, porém, as indicações tinham funcionado, e o símbolo era inequívoco: os pontos indicavam uma passagem por baixo da água.
Tudo até ali fazia crer que estava no tipo de um caminho iniciático que os templários, que o seu pai tanto adorava, utilizavam para iniciar os noviços. Não deveria de haver ali nada de realmente mortal… ou haveria?
Se fosse um caminho iniciático talvez estivesse concebido para não permitir o regresso. Escolher um dos caminhos errados, ou desistir, seria a mesma coisa? O único sucesso é seguir em frente armado com a Fé.
De qualquer forma, se não arriscar a passagem para o desconhecido, qual é a alternativa? Ficar ali e morrer de fome à espera de que o encontrem?
Com o cérebro a gritar que não o fizesse, obrigou o corpo a entrar gradualmente na água gelada.
Agarrou-se às pedras da margem e mergulhou a cabeça para espreitar sob a fraga. A rocha lisa a que se ancorara escapou-se-lhe das mãos. Num instante, a corrente selvagem atirou-o para a escuridão.
Episódio Seguinte - Sacrum – VI SEX
By Manuel Amaro Mendonça 19 de Setembro, 2026
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
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