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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 7 de novembro de 2026

Sacrum – VII SEPTEM

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

Iluminado pela luz tremeluzente, Tomás conseguiu discernir na parede uma pintura quase apagada. Representava um homem de ricas vestes e com uma coroa na cabeça, com um joelho em terra e a cabeça baixa, entregava uma pequena caixa a um cavaleiro templário. Este recebia-a em pé, mas com as duas mãos e a cabeça também curvada.

Olhou, nervoso, para o objeto de madeira quase desfeito pelo tempo. Pequenas tiras de couro serviam de dobradiças. Não media mais de vinte por quinze centímetros, mas parecia importante o suficiente para ocupar o lugar central do altar.

Com as pontas dos dedos, abriu caixa.

Havia o que pareciam três pontas de ferro deformado que ele pegou com cuidado.

Sentiu uma vertigem que o fez vacilar. Por segundos conseguia ouvir choros e gritos e pareceu-lhe estar num ponto alto de onde via mulheres que choravam aos seus pés e uma multidão que parecia gritar e insultá-lo. Dores excruciantes atingiam-no por todo o corpo e o ar fugia-lhe dos pulmões.

Largou os ferros com um arquejo, confundido e alarmado.

Com o coração a bater descompassadamente, abriu muito os olhos ao perceber a forma de longos pregos ao estilo romano, nos pedaços de ferro.

Não era muito religioso, mas a visão atingira-o com violência. A cena surgira-lhe sem aviso e com uma nitidez impossível de ignorar; ainda assim, recusava-se a decidir se tocara uma memória, uma alucinação ou alguma coisa para a qual não tinha nome.

Engoliu em seco e a tremer, aproximou novamente a mão dos cravos e tocou-lhe muito rápido.

Nada aconteceu.

Tentou o gesto novamente, mas demorou o toque mais tempo.

Uma breve náusea fê-lo oscilar, enquanto sentia o coração a querer saltar-lhe do peito.

Prendeu a respiração e agarrou os três cravos de uma vez e fechou os olhos esperando a repetição da violenta visão que tivera.

Tirando a sentir a cabeça às voltas e um cansaço imenso, nada mais o atingiu, mas havia gotas geladas a correr-lhe da testa.

Observou os pregos com mais atenção: pareciam muito mais pesados do que deveriam de ser, eram claramente muito antigos e ostentavam manchas escuras.

“Estarei mesmo a tocar o sangue de Cristo?” — Perguntou-se, assoberbado pela ideia.

Então percebeu um pequeno pergaminho dobrado e queimado pelo tempo no fundo da caixa.

Com os cravos na mão esquerda, encostados ao peito, pegou o pergaminho e abriu-o.

Uma simples frase em latim fora escrita com as estranhas cruzes dos guardiões em cima em baixo. Era trabalho medieval sem dúvida.

Tomás tentou ler:

— In nóminé éius… — acenou negativamente com a cabeça — In nominé éus… — novo aceno — In nómini éus…

Nada.

Percebeu finalmente o que queria dizer: “Em nome Dele”

Percebido o significado, foi mais fácil pronunciar:

— In nó-mi-ne é-ius.

Um estalido profundo percorreu a sala e o chão tremeu. Caliça caiu das paredes.

Um ronco pareceu erguer-se das profundezas.

Percebeu que iniciara alguma coisa com as suas palavras e atirou os cravos de volta para a caixa.

Escutavam-se fortes pancadas na água e, repentinamente, escutou o ladrar alarmado de Freixo que parecia ecoar na gruta.

Voltou-se e deparou com o guardião de pedra em pé frente a ele, com a espada erguida. As letras hebraicas no capacete pareciam emitir uma luminiscência vermelha.

Freixo continuava a ladrar insistentemente.

Tomás esquivou-se ao golpe da espada de pedra que desfez o altar com uma pancada só.

O golém era lento, o que lhe permitiu correr pelo lado dele antes que reagisse, mas a verdade é que ele não parecia preocupar-se com o fugitivo. Destruía metodicamente tudo dentro do cubículo, começando pelo altar e atacando os bojos das colunas.

Cá fora o caos alastrava. As estalactites fluorescentes tombavam uma após outra no lago, extinguindo a luz e bloqueando o sorvedouro. A água, impedida de sair, começava a subir pelas margens lisas.

Os atlantes das colunas, com as letras que tinham gravadas nos pulsos a brilhar como fogo, moviam-se quebrando os suportes e fazendo tombar enormes blocos de granito que se despedaçavam e abriam grandes buracos no chão de calcário.

O outro golém atacava outra coluna mais à frente.

Apavorado, Tomás percebeu que não era o alvo das criaturas. Os guardiões destruíam colunas, altares e passagens com uma finalidade única: fazer desaparecer aquele lugar. Ao pronunciar as palavras, ativara a armadilha que apagaria o segredo — e o enterraria com ele.

Tornou a ouvir o ladrar urgente de Freixo e acabou por o distinguir numa das grutas no dado contrário da lagoa.

Correu para lá.

Episódio Seguinte - Sacrum – VIII OCTO

By Manuel Amaro Mendonça 29 de Setembro, 2026

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Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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