(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Iluminado pela luz tremeluzente, Tomás conseguiu discernir na parede uma pintura quase apagada. Representava um homem de ricas vestes e com uma coroa na cabeça, com um joelho em terra e a cabeça baixa, entregava uma pequena caixa a um cavaleiro templário. Este recebia-a em pé, mas com as duas mãos e a cabeça também curvada.
Olhou, nervoso, para o objeto de madeira quase desfeito pelo tempo. Pequenas tiras de couro serviam de dobradiças. Não media mais de vinte por quinze centímetros, mas parecia importante o suficiente para ocupar o lugar central do altar.
Com as pontas dos dedos, abriu caixa.
Havia o que pareciam três pontas de ferro deformado que ele pegou com cuidado.
Sentiu uma vertigem que o fez vacilar. Por segundos conseguia ouvir choros e gritos e pareceu-lhe estar num ponto alto de onde via mulheres que choravam aos seus pés e uma multidão que parecia gritar e insultá-lo. Dores excruciantes atingiam-no por todo o corpo e o ar fugia-lhe dos pulmões.
Largou os ferros com um arquejo, confundido e alarmado.
Com o coração a bater descompassadamente, abriu muito os olhos ao perceber a forma de longos pregos ao estilo romano, nos pedaços de ferro.
Não era muito religioso, mas a visão atingira-o com violência. A cena surgira-lhe sem aviso e com uma nitidez impossível de ignorar; ainda assim, recusava-se a decidir se tocara uma memória, uma alucinação ou alguma coisa para a qual não tinha nome.
Engoliu em seco e a tremer, aproximou novamente a mão dos cravos e tocou-lhe muito rápido.
Nada aconteceu.
Tentou o gesto novamente, mas demorou o toque mais tempo.
Uma breve náusea fê-lo oscilar, enquanto sentia o coração a querer saltar-lhe do peito.
Prendeu a respiração e agarrou os três cravos de uma vez e fechou os olhos esperando a repetição da violenta visão que tivera.
Tirando a sentir a cabeça às voltas e um cansaço imenso, nada mais o atingiu, mas havia gotas geladas a correr-lhe da testa.
Observou os pregos com mais atenção: pareciam muito mais pesados do que deveriam de ser, eram claramente muito antigos e ostentavam manchas escuras.
“Estarei mesmo a tocar o sangue de Cristo?” — Perguntou-se, assoberbado pela ideia.
Então percebeu um pequeno pergaminho dobrado e queimado pelo tempo no fundo da caixa.
Com os cravos na mão esquerda, encostados ao peito, pegou o pergaminho e abriu-o.
Uma simples frase em latim fora escrita com as estranhas cruzes dos guardiões em cima em baixo. Era trabalho medieval sem dúvida.
Tomás tentou ler:
— In nóminé éius… — acenou negativamente com a cabeça — In nominé éus… — novo aceno — In nómini éus…
Nada.
Percebeu finalmente o que queria dizer: “Em nome Dele”
Percebido o significado, foi mais fácil pronunciar:
— In nó-mi-ne é-ius.
Um estalido profundo percorreu a sala e o chão tremeu. Caliça caiu das paredes.
Um ronco pareceu erguer-se das profundezas.
Percebeu que iniciara alguma coisa com as suas palavras e atirou os cravos de volta para a caixa.
Escutavam-se fortes pancadas na água e, repentinamente, escutou o ladrar alarmado de Freixo que parecia ecoar na gruta.
Voltou-se e deparou com o guardião de pedra em pé frente a ele, com a espada erguida. As letras hebraicas no capacete pareciam emitir uma luminiscência vermelha.
Freixo continuava a ladrar insistentemente.
Tomás esquivou-se ao golpe da espada de pedra que desfez o altar com uma pancada só.
O golém era lento, o que lhe permitiu correr pelo lado dele antes que reagisse, mas a verdade é que ele não parecia preocupar-se com o fugitivo. Destruía metodicamente tudo dentro do cubículo, começando pelo altar e atacando os bojos das colunas.
Cá fora o caos alastrava. As estalactites fluorescentes tombavam uma após outra no lago, extinguindo a luz e bloqueando o sorvedouro. A água, impedida de sair, começava a subir pelas margens lisas.
Os atlantes das colunas, com as letras que tinham gravadas nos pulsos a brilhar como fogo, moviam-se quebrando os suportes e fazendo tombar enormes blocos de granito que se despedaçavam e abriam grandes buracos no chão de calcário.
O outro golém atacava outra coluna mais à frente.
Apavorado, Tomás percebeu que não era o alvo das criaturas. Os guardiões destruíam colunas, altares e passagens com uma finalidade única: fazer desaparecer aquele lugar. Ao pronunciar as palavras, ativara a armadilha que apagaria o segredo — e o enterraria com ele.
Tornou a ouvir o ladrar urgente de Freixo e acabou por o distinguir numa das grutas no dado contrário da lagoa.
Correu para lá.
Episódio Seguinte - Sacrum – VIII OCTO
By Manuel Amaro Mendonça 29 de Setembro, 2026
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
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