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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

APRESENTAÇÃO DOS PARALELOS E PROBLEMÂTICA ACERCA DA CERÂMICA MEDIEVAL E MODERNA DE BRAGANÇA


Embora o objectivo deste trabalho não seja apenas outro que o de esboçar uma primeira apresentação dos conjuntos cerâmicos das épocas medieval e moderna exumados nos mencionados trabalhos de escavação, é obrigatório indicar alguns aspectos que permitam contextualizar as produções.
Como já foi indicado, a escassez de investigações centradas no estudo destas manufacturas determinou a necessidade de consultar trabalhos de outras zonas com maior tradição bibliográfica sobre o tema, neste caso, as províncias espanholas de Zamora, Leão e Valladolid, com as quais, por outro lado, era previsível uma possivel identidade no consumo de peças cerâmicas. Contudo, não podemos esquecer que o propósito destas linhas era o de realizar uma primeira aproximação que necessariamente deverá ser confrontada em trabalhos futuros.
Assim, entre as principais referências bibliográficas utilizadas é possível citar a Tese de Mestrado de Miguel Rodrigues sobre os conjuntos cerâmicos dos povoados medievais de Santa Cruz de Vilariça e Baldoeiro, junto de Torre de Moncorvo (RODRIGUES, 1994) e a análise do espólio cerâmico exumado nos trabalhos arqueológicos da Vila Velha de Vila Real entre 1995 e 1996, do mesmo autor e de Anabela Lebre (RODRIGUES e LEBRE, 2003: 151-159). No que diz respeito à bibliografia espanhola consultada, foi utilizado, principalmente, o trabalho de síntese que sobre a cerâmica medieval e moderna da cidade de Zamora, editou em 1994 Araceli Turina (TURINA, 1994), para além de outros artigos mais específicos, citados neste trabalho, empregues na pesquisa de paralelos concretos para algumas das produções do conjunto.
CERÂMICA MEDIEVAL
As talhas micáceas pertencentes ao primeiro grupo cerâmico da produção medieval mostram perfis bastante habituais, tanto na época medieval como na moderna, apresentando também uma ampla dispersão geográfica.
Contudo, é possível encontrar, talvez, algumas similitudes formais e decorativas em alguns exemplares procedentes de contextos medievais das províncias espanholas de Zamora (LARRÉN, 1989: 261-284) ou Valladolid (SÁEZ et alii, 1989:161-171).
O púcaro carenado, também de pasta micácea, apresenta um certo parentesco, do ponto de vista formal, com os púcaros do tipo 4 de Turina (TURINA, 1994: 63-70), datados de finais do século XIII, excepto no que diz respeito ao tipo de pasta utilizada na sua elaboração.
As panelas medievais integradas nos grupos cerâmicos 2 e 3 descrevem, como acontece com as talhas, uma tipologia frequente durante toda a Idade Media peninsular. Alguns exemplares recuperados nos citados povoados medievais da região próxima de Moncorvo partilham, talvez, com os de Bragança, as melhores similitudes tipológicas e decorativas (RODRIGUES, 1994).
Os fragmentos correspondentes às tampas, tipo 1 de Turina (TURINA, 1994: 58), aparecem com certa frequência nas escavações realizadas nos centros urbanos da província de Zamora. Do ponto de vista decorativo mostram, sem dúvida, uma grande semelhança com alguns dos exemplares exumados nos trabalhos arqueológicos realizados na Vila Velha de Vila Real (RODRIGUES e LEBRE, 2003: 151-159).
O quarto grupo, integrado principalmente pelas jarritas bitroncocónicas, está especialmente representado nas cidades espanholas de Benavente, Zamora e Valladolid (tipo 5 de Turina) (TURINA, 1994: 64). Parece existir unanimidade quanto às datas propostas para esta forma, que abrangeriam os séculos XIII e XIV. Não acontece o mesmo, no que diz respeito a sua funcionalidade: para alguns autores, como J. J. Fernández, tratar-se-ia de recipientes para especiaria ou de farmácia (FERNÁNDEZ, 1984: 25-47), enquanto para outros como Turina tratar-se-ia de simples copos para beber (TURINA, 1994: 64).
Para o fundo do púcaro com pé, incluído no grupo cerâmico 4, encontram-se paralelos nalgumas peças procedentes de lugares medievais do Noroeste espanhol. Nestes casos foi proposto como hipótese o vínculo entre os oleiros mudéjares e este tipo de produção cerâmica, datada, certamente, entre o século XIV e inícios do XVI (GUTIÉRREZ et alii, 1995: 316-324). Foram recuperados em contextos muito variados: lixeiras de olarias, enchimentos de fossos, lixeiras domésticas e até formando parte de uma inumação junto à igreja de Palat del Rey na cidade de Leão. Pelo que respeita à funcionalidade, defende-se a utilização destes recipientes como contentores de líquidos, como copos para beber ou até como possíveis medidas de capacidade aparecendo com três tamanhos diferentes. Esta última proposta é também adoptada por Olatz Villanueva de acordo com várias ordenanças municipais reguladoras da venda de produtos públicos em cidades de Castela, que fixam os poderes outorgados a algumas oficinas de olaria para fabricar medidas de barro para a venda de produtos como o vinho (VILLANUEVA, 2002:168).
Finalmente, fragmentos de louça esmaltada decorados em verde e manganésio, similares ao encontrado em Bragança, foram recolhidos em muitos contextos arqueológicos da cidade de Zamora (MARTÍN et alii 2003: 245-263).
Tradicionalmente este tipo de achado foi relacionado com as primeiras produções cerâmicas de Paterna (MESQUIDA, 2002: 16-34) ou Teruel (ÁLVARO, 1999: 221-287), datadas dos séculos XIII-XIV. Propostas mais recentes abrem a hipótese da existência de outras oficinas dedicadas a esta produção cerâmica associadas, seguramente, a povoações mudéjares, localizadas em Talavera de la Reina, Alcalá de Henares ou Valladolid (VILLANUEVA, 1998: 271-277). Uma linha de trabalho, neste momento apenas uma hipótese, que se deverá ter em conta em futuros trabalhos de investigação.
CERÂMICA MODERNA
As produções cerâmicas de época moderna encontram, como aconteceu com as anteriores, fortes paralelismos em contextos espanhóis, sistematizados no mencionado estudo sobre a cerâmica medieval e moderna da cidade de Zamora elaborado por Turina.
Os cântaros elaborados em pasta micácea, de corpo globular ou ovóide, colo emoldurado e bordo introvertido, apresentam similitudes formais com os exemplares descritos no tipo 4 desta autora (TURINA, 1994: 38).
O fragmento de talha micácea, embora pertencente a um contexto estratigráfico pouco revelador, reúne uma série de características — técnicas e decorativas — que permitem a sua catalogação neste período. Do ponto de vista formal, está próximo dos exemplares descritos no tipo 4 de Turina que, apesar de constituir um modelo com origens medievais, deverá corresponder a tempos mais recentes (TURINA, 1994: 46).
As tigelas de pasta micácea, fundo plano e pequena inflexão na parte superior do ombro, apresentam parentescos formais com exemplares representativos do tipo 2 de Turina, embora aqueles sensivelmente mais antigos que os aqui estudados (TURINA, 1994: 89-90).
A tipologia cerâmica de Turina serve, igualmente, para enquadrar os testos registados em ambas as produções modernas, que mostram similitudes formais e decorativas com as tampas de base plana, com pega e lábio arredondado ou ligeiramente apontado, e decoração incisa incluídas nos tipos 1 e 2 (TURINA, 1994: 58).
No que respeita aos achados de louça esmaltada, fragmentos de faiança decorada a azul (louça nacional) estão amplamente documentados em contextos urbanos seiscentistas de todo Portugal. Os fragmentos recuperados em Bragança apresentam, do ponto de vista decorativo, motivos de rendas em azul ou azul e vinoso pendurados dos bordos, círculos concêntricos em azul sobre os fundos e bordos, motivos de semicírculos concêntricos que acompanham outros de contas, elementos vegetalistas e geométricos adornando tigelas e pratos, muito similares a alguns dos recuperados nas escavações arqueológicas realizadas na Casa do Infante (DORDIO, TEIXEIRA e SÁ, 2001: 117-164) ou na Arca de Água do Campo 24 de Agosto do Porto (GOMES e BOTELHO TELES, 2001: 148-149), datados da segunda metade do século XVII.
Mais estranhos são, sem dúvida, os escassos fragmentos achados de louça talaverana recuperados nas escavações, correspondentes à série tricolor de cenefa oriental, para os
quais contamos com algum paralelo próximo na rua Zapatería da cidade de Zamora (ESTREMERA e CRUZ, 2002: 141-163). As últimas linhas de investigação avançam na hipótese de que nem todos os exemplares desta produção tenham procedência de Talavera de la Reina, podendo tratar-se, em certos casos, de imitações elaboradas noutras olarias peninsulares (MORATINOS e VILLANUEVA, 2003: 62-79).
Finalmente, as louças de Olivares aparecem, logicamente, de forma habitual na cidade de Zamora1, uma vez que se trata, certamente, de uma produção vinculada a um dos seus bairros mais populares. Apesar de se tratar de uma manufactura ainda pouco sistematizada, parece que teve uma grande aceitação ultrapassando os limites da cidade de Zamora, chegando a algumas cidades próximas como Bragança, onde foram encontrados abundantes vestígios com características similares aos de Zamora.
CONCLUSÕES
As nove campanhas arqueológicas realizadas, dentro do plano de protecção do património integrado no Programa de Trabalhos da Sociedade Bragança Polis, proporcionaram um grande conjunto de material cerâmico das épocas medieval e moderna. Uma vez que grande parte deste espólio estava em contextos estratigráficos pouco reveladores, a estratégia adoptada foi a de abordar o estudo a partir, quase de forma exclusiva, do material procedente de estratigrafias bem definidas — Praça Camões e Cidadela —, na prática uma pequena amostra do total exumado. Sendo assim, não há dúvidas de que a caracterização e classificação das diferentes produções cerâmicas aqui proposta poderá estar condicionada por tal circunstância, facto que se verá confirmado, ou não, em futuros trabalhos de investigação. Desta forma, uma primeira análise destas manufacturas permitiu extrair as seguintes impressões:
O conjunto cerâmico da época medieval está integrado basicamente por produções de cerâmica comum, estando praticamente ausente a louça esmaltada.
O grupo predominante é constituído tecnicamente por pastas porosas, cozidas em ambientes redutores que proporcionam às peças intensas tonalidades pretas. A panela de perfil em “S”, decorada com motivos incisos ou impressos, constitui a forma melhor representada.
A enraizada tradição micácea da cerâmica regional fica testemunhada através do registo arqueológico já desde o século XIII, com tipologias em que se integram grandes talhas de armazenamento e canecas de diferentes tamanhos. É neste conjunto medieval que se encontra o maior e mais variado repertório de técnicas e motivos decorativos (cordões aplicados associados a retícula romboidal incisa, incisões horizontais, oblíquas e onduladas,…).
O achado de um fragmento correspondente a um púcaro com pé destacado poderia indicar a presença, em Bragança, de produções cerâmicas associadas eventualmente a populações mudéjares, semelhantes às constatadas nalgumas cidades espanholas do ocidente e centro da Meseta.
Outras tipologias representadas de forma minoritária — por exemplo as jarritas bitroncocónicas —, vêm completar o panorama cerâmico da época medieval da cidade, caracterizado, sem dúvida, por uma forte regionalização no que diz respeito ao consumo.
No conjunto cerâmico da época moderna sobressaem as produções de cerâmica comum, esmaltadas ou vidradas, a par de alguns exemplares de azulejaria, nacionais ou de importação.
A cerâmica comum foi elaborada, na sua maior parte, com pastas micáceas de tom amarelado ou com pastas arenosas de tonalidades vermelhas, encontrando-se praticamente ausentes, contrastando com o anterior período, as cerâmicas negras.
O leque de tipos encontra-se dominado pelo cântaro — de corpo ovóide ou globular, colo emoldurado no exterior e bordo introvertido, com grandes asas decoradas com pequenas impressões —, e pelo alguidar — de paredes extrovertidas e bordos revirados —.
Destaca-se neste período, o especial cuidado no acabamento das peças, traduzido na presença de numerosas superfícies intensamente brunidas e, em menor medida, impregnadas por finos banhos de engobe de tonalidades escuras.
O aparecimento no conjunto exumado de vários fragmentos de louças “importadas” — tipo Paterna ou Talavera de la Reina — denuncia a aceitação, também aqui, de bens de reconhecido prestígio nos mercados internacionais, e a inclusão da cidade dentro das redes comerciais abastecedoras destas produções.

Bragança um olhar sobre a História
Publicação da C.M.B.

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