segunda-feira, 7 de julho de 2014

Notícias da aldeia

A seara é a mesma. Eu mudei. Ficam as emoções e as memórias. A chegada dos segadores vindos de Argozelo e Carção. Ficam as sopas de vinho, doces como o mel. Fica a burra, o caminho, os alforges e o almoço para os segadores. Ficam as canções dolentes cheias de sol… e a sesta… e a rapariga trigueira como o trigo e o copo da água… e os beijos com sabor a espigas cheias de grão. Ficam os carros de bois cantando, ou chorando carregados de molhos de trigo. Fica a eira, a meda, os medeiros e os malhos batendo pesados ao som cadente do ritmo dos malhadores. Fica a arca cheia de trigo e de esperança. Fica a chegada do médico, do barbeiro, do padre, do ferrador, do alfaiate, do ferreiro que vêm cobrar a quarta de cereal. Fica o tempo e o medo dos Invernos. Fica o sonho, as tardes longas cheias de calmaria e dos saltos dos gafanhotos. Ficam as cigarras nas infindas tardes de Verão. Ficam as fontes e as cântaras de Pinela. Ficam as crianças, os homens e mulheres da nossa aldeia. Ficam as novenas da Senhora da Serra no final das colheitas…e fico eu, para numa noite de solidão e de Julho, juntar palavras…desesperadamente … tentando agarrar a nossa Terra que como a água do ribeiro me escapa por entre os dedos.

Fernando Calado

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