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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A gravata entre o charme, a vaidade e a prisão social


A gravata continua a ser um dos maiores paradoxos da moda masculina. Há quem a veja como um símbolo absoluto de elegância, distinção e poder. Um simples pedaço de tecido pendurado ao pescoço transforma imediatamente um homem comum em alguém “apresentável”, “respeitável” e até, curiosamente, mais inteligente aos olhos da sociedade. Basta apertar o nó, alinhar o colarinho e, de repente, surge aquela imagem clássica do profissional competente, do político credível, do empresário de sucesso ou do noivo impecável.

Nas fotografias, a gravata quase sempre resulta. Dá compostura, cria uma ilusão de sofisticação e transmite autoridade. Durante décadas foi tratada como um verdadeiro passaporte social. Quem usava gravata era levado mais a sério. Em certos meios, sem a gravata, parecia faltar estatuto, educação ou até competência. E ainda hoje há empresas, cerimónias e instituições que continuam agarradas a essa ideia quase sagrada de que a gravata “faz o homem”.

Mas será mesmo assim… ou estaremos apenas perante uma tradição envelhecida, mantida à força pelo hábito e pela aparência? A alguns dará jeito para poderem disfarçar o que lhes falta e que é o mais importante…

Porque, sejamos honestos, para muitos homens, a gravata não passa de um incómodo socialmente aceite. Um acessório que aperta o pescoço, limita os movimentos e obriga a suportar horas de desconforto apenas para corresponder a expectativas alheias. Há quem a descreva como uma espécie de coleira, elegante à vista dos outros, mas sufocante para quem a usa. Um símbolo subtil de submissão ao protocolo, à hierarquia e ao “parecer bem”.

E o mais curioso é que quase todos fingem gostar dela… até ao momento em que entram no carro, chegam a casa ou termina a cerimónia. Aí acontece o gesto automático e revelador. Toca a desapertar o nó com um enorme suspiro de alívio, como quem recupera finalmente a liberdade. É um ritual que diz muito, que diz tudo. Afinal, se fosse assim tão confortável e indispensável, porque é que a primeira vontade é sempre tirá-la?

A gravata vive desta contradição permanente. Representa charme e opressão. Elegância e vaidade. Distinção e hipocrisia social. Para uns, é uma extensão da personalidade, um detalhe que acrescenta classe e confiança. Para outros, é apenas um frete mascarado de etiqueta, suportado porque “a ocasião exige”, porque “fica mal não a usar” ou porque “sempre foi assim”.

Talvez a grande verdade seja esta. A gravata raramente serve quem a usa e serve sobretudo quem a olha. É um acessório criado para impressionar os outros, não para dar conforto a quem a carrega ao pescoço durante muitas horas, e isso diz muito sobre a sociedade em que vivemos, uma sociedade onde a aparência continua, demasiadas vezes, a valer mais do que a autenticidade.

Parece-me que cada um deve vestir-se como se sente bem, sem se deixar aprisionar por convenções nem pela necessidade de agradar. A elegância não está num nó apertado ao pescoço, mas na liberdade de ser genuíno. E talvez o homem mais elegante da sala seja precisamente aquele que já não precisa de usar uma gravata para provar seja o que for.

Veio este “escrito” na sequência do meu anterior texto sobre o “vestir” nos anos 70. 

Na foto uma das poucas vezes em que usei gravata. Muito sinceramente, no final do dia não me senti nem mais inteligente nem mais competente. Senti-me, isso sim, sem sede nenhuma... nem fome...

HM
18 de Maio de 2026

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