Nas fotografias, a gravata quase sempre resulta. Dá compostura, cria uma ilusão de sofisticação e transmite autoridade. Durante décadas foi tratada como um verdadeiro passaporte social. Quem usava gravata era levado mais a sério. Em certos meios, sem a gravata, parecia faltar estatuto, educação ou até competência. E ainda hoje há empresas, cerimónias e instituições que continuam agarradas a essa ideia quase sagrada de que a gravata “faz o homem”.
Mas será mesmo assim… ou estaremos apenas perante uma tradição envelhecida, mantida à força pelo hábito e pela aparência? A alguns dará jeito para poderem disfarçar o que lhes falta e que é o mais importante…
Porque, sejamos honestos, para muitos homens, a gravata não passa de um incómodo socialmente aceite. Um acessório que aperta o pescoço, limita os movimentos e obriga a suportar horas de desconforto apenas para corresponder a expectativas alheias. Há quem a descreva como uma espécie de coleira, elegante à vista dos outros, mas sufocante para quem a usa. Um símbolo subtil de submissão ao protocolo, à hierarquia e ao “parecer bem”.
E o mais curioso é que quase todos fingem gostar dela… até ao momento em que entram no carro, chegam a casa ou termina a cerimónia. Aí acontece o gesto automático e revelador. Toca a desapertar o nó com um enorme suspiro de alívio, como quem recupera finalmente a liberdade. É um ritual que diz muito, que diz tudo. Afinal, se fosse assim tão confortável e indispensável, porque é que a primeira vontade é sempre tirá-la?
A gravata vive desta contradição permanente. Representa charme e opressão. Elegância e vaidade. Distinção e hipocrisia social. Para uns, é uma extensão da personalidade, um detalhe que acrescenta classe e confiança. Para outros, é apenas um frete mascarado de etiqueta, suportado porque “a ocasião exige”, porque “fica mal não a usar” ou porque “sempre foi assim”.
Talvez a grande verdade seja esta. A gravata raramente serve quem a usa e serve sobretudo quem a olha. É um acessório criado para impressionar os outros, não para dar conforto a quem a carrega ao pescoço durante muitas horas, e isso diz muito sobre a sociedade em que vivemos, uma sociedade onde a aparência continua, demasiadas vezes, a valer mais do que a autenticidade.
Parece-me que cada um deve vestir-se como se sente bem, sem se deixar aprisionar por convenções nem pela necessidade de agradar. A elegância não está num nó apertado ao pescoço, mas na liberdade de ser genuíno. E talvez o homem mais elegante da sala seja precisamente aquele que já não precisa de usar uma gravata para provar seja o que for.
Veio este “escrito” na sequência do meu anterior texto sobre o “vestir” nos anos 70.
Na foto uma das poucas vezes em que usei gravata. Muito sinceramente, no final do dia não me senti nem mais inteligente nem mais competente. Senti-me, isso sim, sem sede nenhuma... nem fome...
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