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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 6 de abril de 2014

Desertificação, abandono, solidão

António Luis Pereira
Crónicas do Nordeste
Todos estamos convencidos do contrário, mas o tempo derrete a matéria mais áspera que a natureza criou. E talvez por isso em todas as épocas emudecemos as casas onde viveram e vivemos, até as transformarmos em pedaços de quase nada , como em quase nada se transformam as vidas que lhes deram as antigas formas. Hoje, agora, no instante, o passado não nos seduz, porque estamos quase sempre ocupados a olhar o circo da vida.
Mas perante uma aldeia derruída sentimos o movimento dos fantasmas e o arfar das pedras onde cristalizaram os últimos suspiros dos homens e das mulheres que a habitaram.
E para nos recordar que há passado,  há também  sempre um cemitério, esse último reduto e guardião da história. Mas quando abandonado um local, abandonamos também o culto dos mortos,  e a pouco e pouco  as lembranças desses homens e mulheres de outrora. Morremos. É assim que se morre. É assim que “desnascemos”. E já como espectros sem áurea agonizamos, lentamente agonizamos na memória dos vindouros e finalmente findamos.
Hoje estou aqui, perante casas que já não o são. Um moinho sem nada, um engenho já podre. Apeteceu-me aqui vir para imaginar, para ver as ruas com gentes desenhadas na loucura desta perseguição que faço ao passado. Não conheço ninguém, nunca conheci ninguém e já não há quem se lembre de quem aqui tenha vivido.
Mas mesmo assim posso observar as pessoas, ouvi-las, ver aquele grupo de crianças que brinca à sombra do castanheiro; o homem que passa de enxada ao ombro, a mulher de caneco sobre um rosto de xisto. E de repente os sons, todos os sons que ouvi logo que parido pelas seis horas de uma tarde de abril. E todos aqui estão, como desabrochados de um filme antigo mixado com o choro de crianças, o balir de ovelhas e o latir de cães engasgados de fome. Até quase respondi ao simpático “boa tarde” daquela mulher que passou de lenço na cabeça e rosto granjeado a sol e geada.
O silêncio entranha-se-me no corpo, encharca-me os poros do cérebro. São agora sete horas da tarde. Ecoa por todo o lado este silêncio medonho, em sereno conflito com os debilíssimos gemidos que brotam de entre os derrubes das pedras onde sucumbe o passado. Esta aldeia teve tanta vida, tanta gente e hoje é isto! Silêncio, Arqueologia!
Vim aqui porque gosto de ler. Sempre os livros. Sempre os livros  a determinar esta minha banal e insignificante existência. Os livros, esses “malditos objetos” que não me deixam sossegar o pensamento. Vim aqui porque precisei de assemelhar. Precisei de comparar a minha imaginação, a realidade destas ruínas, com a imaginação e a realidade vertida no magnifico livro de Julio Llammazares, onde se fala de extinção, de esvaziamento, de finitude.
“A chuva amarela” é já um livro antigo que estava ancorado na fila das intenções de leitura que tenho para fazer. Finalmente deitei-lhe mão e logo ao fim das duas primeiras páginas o monólogo do último habitante de um povoado abandonado do Pirineu aragonês prendeu-me a atenção. Também ele, esse tal último habitante, agora aqui está, em Gavião, mas com o nome de José.
José olha-me daquela porta entreaberta, com os pés já assentes no derrube do telhado que aconchegou a sua casa. José fala-me da solidão. Foi o último a partir. Há sempre um último a partir. Resistiu. Resistiu o quanto pôde e já sem sequer poder continuou a resistir. Quase enlouqueceu com o silêncio sepulcral que lhe encheu os últimos anos da vida. José fala-me agora da solidão que está em toda a parte desta região e que de região apenas mantém o nome. Fala-me desta solidão que impregna as pessoas, as casas, as palavras, as árvores, o sol e as próprias sombras.
Em “ A Chuva Amarela” José não fala só de “Ainielle”, fala também de nós, de Gavião, de Trás-os-Montes.
Por isso vim até aqui, para confrontar, para sentir, para escrever. E enquanto o sol varre o rosto deformado da aldeia, as sombras vão lambendo lentamente Gavião. Depois, a pouco e pouco, surge o anoitecer. E agora, “A chuva Amarela” impregna-se na minha alma e esta pardez árida e granítica acaba por me desesperar.
Nota: Este texto é escrito com base nas sensações despoletadas pela leitura de um livro chamado "Chuva Amarela" do escritor  e jornalista espanhol Julio Llammazares. Um livro que fala do processo de desertificação do mundo rural; um livro muito poderoso pela forma como nos é apresentado  o sentir do último camponês de uma aldeia que entrou num processo irreversível de desertificação populacional.

in:noticiasdonordeste.pt

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