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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 4 de outubro de 2026

Quando os olhos se calam

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


 "Ali, à minha frente, assisto às sensações íntimas do ser. O astro-rei encosta a sua cabeça cansada sobre a linha do horizonte." 

Encontrei-o, nos passos que dava pela praia, quando os sons começam a refugiar-se na intimidade do entardecer. Aquele breve intervalo em que o dia chama pela noite para a abraçar.

    Sentado na nudez da areia calma, parece escutar. Só mais próxima percebo que não segue o sol com o olhar porque não o usa para isso. A luz entra-lhe pela pele. O seu mundo não precisa de ver, apenas de encontrar. Como os que tateiam a beleza das palavras na escuridão antes de lhe traduzirem a música secreta da alma.

    A brisa muda... uma porta aberta ao tempo. Frágil, indecisa, a aprender a despedir-se.

    As aves, num desapego lento do dia, velhas senhoras sem pressas em gritos piedosos.

    A maré e o aroma líquido da terra a chorar sobre o infinito, misturada com o frio da humidade que chega mansamente.

    E depois, aquele sabor cru do sal. A continuidade da água, que não existe nos seus olhos, pousada sobre os lábios.

    Não há cores nem exuberâncias. Somente a textura delicada da claridade que nasce dentro dele enquanto a paisagem o aconchega, devagar.

    Descubro, seduzida, que já não é só aquilo que ele absorve, é tudo aquilo que o toca numa outra linguagem. Porque quando os olhos se calam, o corpo entende muito antes do pensamento. E transforma em encontro.

    Ali, à minha frente, assisto às sensações íntimas do ser. O astro-rei encosta a sua cabeça cansada sobre a linha do horizonte. E eu reconheço a verdadeira memória de infância que permanece naquela escuridão sem formas definidas, mas plena de sentidos.

    Tão simples, afinal: só se começa a ver por inteiro... quando o céu deixa de ser o limite.


Paula Freire
. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome. 
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua. 
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

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