Vou utilizar estas duas palavras tão marcantes do eterno Jorge Palma, para me darem balanço, e embalarem, para vos dizer que antevejo no movimento associativo um futuro sem alma e sem valores.As exceções não fazem a regra.
Sinto-me frágil e por vezes desiludido. Olho para trás e pergunto-me, muitas vezes. Será que valeu a pena?
Não falo da vida.
Falo do tempo, da dedicação, das horas roubadas à família, dos fins de semana, dos sonhos, das discussões, das vitórias e também das muitas derrotas vividas em nome de algo que, para mim, sempre foi maior do que cada um de nós. Falo do movimento associativo.
Durante anos, entreguei-me, de forma desinteressada e sempre pro bono, a associações de Bragança e nas mais variadas áreas.
Fui Presidente, Vice-Presidente, Secretário, Vogal… de Direcções e Assembleias Gerais, curiosamente e apesar de por vezes ser quase forçado, nunca aceitei ser Tesoureiro de nenhuma. Manias, sei lá se até preconceitos, mas sobretudo maneiras de estar na vida. O dinheiro, que não é meu, sempre me fez comichão. Fui e continuo a ser sócio de várias associações locais e com as quotas em dia. Representei Bragança em Associações de âmbito nacional.
Fi-lo porque acreditava, e ainda quero acreditar, que uma associação é, antes de tudo, um espaço de cidadania. Um lugar onde pessoas diferentes conseguem juntar-se em torno de uma causa comum. Um lugar onde o nós deve sempre ser mais importante do que o eu.
E é precisamente por acreditar nisso que, hoje, me sinto frágil e, às vezes, triste.
Olho à minha volta e tenho dificuldade em reconhecer o associativismo em que cresci. Vejo instituições e associações onde parece existir uma crescente promiscuidade entre a vida associativa e os interesses partidários, de grupos ou quase seitas. Vejo dirigentes que chegam aos lugares não necessariamente pela sua ligação à causa, pela sua entrega ou pela vontade de servir, mas porque são próximos de determinadas estruturas ou porque alguém, algures, entendeu que era conveniente que ali estivessem os chamados Testas de Ferro. As “vocações” já não são oriundas da sociedade civil, nascem no seio contaminado das estruturas partidárias… dos Donos Disto Tudo!
Posso estar enganado. Aliás, gostava de acreditar que estou.
Sei perfeitamente que há exceções, felizmente, mas não tantas como seria desejável. Pessoas que continuam a dar o seu tempo, o seu conhecimento e a sua energia sem esperar nada em troca. Mas talvez as exceções sejam precisamente aquilo que nos deve fazer pensar na regra. Não vou referir nenhuma associação nem nenhum dirigente associativo porque também eles, devem aproveitar para refletir sobre o que poderiam fazer melhor.
No meu tempo, perdoai-me a expressão, e não digo isto por achar que o passado era perfeito, porque não era, lembro-me de uma rapaziada que entrava numa associação com uma ideia muito simples. Fazer alguma coisa pela associação e pelos objetivos a que a mesma se propunha. Não era para aparecer e dar nas vistas. Não era para construir uma carreira. Não era para conquistar um lugar. Não era para receber favores. E muito menos para servir interesses partidários.
Como ajudei a fundar algumas Associações, sei mais uma vez do que falo. Entrávamos porque gostávamos da causa. Porque gostávamos das pessoas. Noutras, porque acreditávamos que podíamos deixar a associação um pouco melhor.
Percebíamos que dirigir uma associação não era um privilégio. Era uma responsabilidade. É esta ideia que sinto estar, em alguns casos, perigosamente esquecida.
Uma associação não deveria ser um degrau. Não deveria ser um espaço para ambições pessoais. Não deveria ser uma extensão de qualquer partido político. Muito menos deveria servir para aumentarmos o “pecúlio” bancário ou para encher a despensa ou o frigorífico de lá de casa.
O mesmo se passa nalgumas instituições que acabam por se confundir com estâncias de férias de alguns "iluminados". Não preciso de vos dar exemplos. É só pensar nos anos (décadas) em que alguns indivíduos andam a pisar os mesmos corredores e a subir e descer as mesmas escadas. Não o fazem voluntariamente. São pagos. Alguns até saltitam de Associação para Associação, de Instituição para Instituição.
Uma associação deve ser livre. Livre para pensar. Livre para discordar. Livre para acolher. Livre para criticar. Livre para servir a comunidade.
Quando uma associação deixa de ter pensamento próprio e passa a obedecer a interesses que lhe são exteriores, perde uma parte essencial daquilo que lhe dá sentido e motivo para existir. Perde a cidadania.
É aqui que está, para mim, o essencial desta reflexão. As associações cívicas não podem ter por detrás o “cérebro” de nenhum partido. Têm de ter cérebro de cidadania. O querer e a vontade dos cidadãos.
Podemos ter diferentes convicções políticas. Podemos votar em partidos diferentes. Podemos pensar de maneira diferente sobre quase tudo. Mas, quando entramos numa associação, deveríamos ser capazes de deixar à porta aquilo que nos divide e levar connosco aquilo que nos une. A vontade de fazer. A vontade de participar. A vontade de servir. A vontade de deixar alguma coisa aos que vêm depois de nós.
Talvez seja por isso que continuo a sentir alguma tristeza quando olho para trás e pergunto se valeu a pena.
A resposta, apesar de tudo, continua a ser sim.
Valeu a pena cada hora. Valeu a pena cada treino. Valeu a pena cada saída de campo. Cada reunião. Cada discussão. Cada cartaz colado. Cada pintura mural. Cada fim de semana passado a rebocar a parede da futura sede, a assentar tijolo. Cada amizade. Cada projeto. Cada derrota. Cada pequena vitória.
Mesmo que hoje algumas coisas me desiludam, não me arrependo de ter acreditado. Não me arrependo de ter servido sem esperar dividendos. Não me arrependo de ter colocado tantas vezes o coletivo à frente do individual… quase sempre!
Talvez seja essa a minha maior fragilidade. Continuar a acreditar. Continuo a acreditar que Bragança precisa de associações e coletividades fortes, independentes, participadas e livres.
Continuo a acreditar que há homens e mulheres capazes de assumir responsabilidades sem perguntarem primeiro o que podem ganhar com isso ou sem serem indicadas (obrigadas) pelo partido à espera de contrapartidas para elas ou para os familiares.
Continuo a acreditar que o associativismo pode ser uma das mais bonitas formas de cidadania e de estar na vida. Mas, para isso, precisamos de recuperar uma palavra que parece estar cada vez mais esquecida. SERVIR.
Servir sem esperar recompensas. Servir sem esperar reconhecimento. Servir sem esperar um lugar…um tacho ou um emprego. Servir porque acreditamos que a nossa terra, a nossa comunidade e as nossas associações merecem mais do que têm mostrado.
E talvez seja por isso que, apesar de tudo, ainda não desisti. Sinto-me frágil, sim. Mas não quero sentir-me indiferente.
Enquanto houver alguém disposto a dar o seu tempo por uma causa sem ser obrigado, e sem perguntar o que recebe em troca, o verdadeiro movimento associativo continuará vivo.
Podeis crer que é possível. Bragança precisa e merece.
Este texto é só mais uma reflexão, das muitas que tenho vontade de fazer e vou fazendo. Espero bem que não seja a última.
Não me levem a mal. E se, de alguma maneira, puderem ajudar a fazer a diferença, não hesitem!
Forte abraço a todos os que têm paciência para me ler.

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