quinta-feira, 13 de julho de 2017

ACTAS NOTURNAS – NOTÍCIAS DO BRASIL

Nota:
Antecipando a instalação, em Bragança, do Museu da Língua Portuguesa, o Memórias e Outras Coisas... vai construir uma ponte entre Bragança e o Brasil através da colaboração de Antônio Carlos Affonso dos Santos


Apresentação:
ACTAS NOTURNAS – NOTÍCIAS DO BRASIL

- Como fiz contato com o blogue “Memórias e Outras Coisas”, de Henrique Martins?

Eu sequer sabia da existência do blogue, como pouco ou nada sei da região de Bragança, seus costumes e seu povo. Tampouco sabia do maravilhoso trabalho feito por Amadeu Ferreira, no seu afã de criar regras, anotar e interpretar e divulgar os verbetes adotados pelo povo mirandês há vários séculos. 
Porém, devido ao meu trabalho de pesquisa do principal dialeto genuinamente brasileiro, o “Caipirês”, acabei por participar por alguns anos de um site de literatura de Portugal, onde tive a possibilidade de fazer contato com pessoas do mundo lusófono, tanto das Américas, como da própria Europa, África e Ásia.
Surpreendo-me, todo dia, com a importância e a beleza da Língua Portuguesa. Durante os últimos quarenta anos tenho pesquisado sobre as origens do Caipirês e as influências que sofreu (e sofre). Falta-me o conhecimento de um filólogo, como foi Câmara Cascudo ou Antônio Houaiss, para criar regras gramaticais para o Caipirês. Minha cultura literária é básica apenas; infelizmente! Sou um caipira [1}, com pais caipiras, de prole enorme, pouca instrução escolar  e nenhuma condição econômica. 
Ouso fazer o esforço que faço, muitas vezes gastando meus tostões [2] nessa epopeia, nesse momento econômico por que passa meu país, para demonstrar o quão errado estão aqueles que desprezam a importância que tem o Caipirês para o Brasil (e por extensão, o Caipirês enriquece ainda mais a “Última Flor do Lácio” [3]). O Caipirês, dialeto que dedico mais da metade de minha vida, é o equivalente brasileiro do Mirandês, de Bragança e Portugal. Outros dedicados escritores e pesquisadores já tentaram montar um dicionário, um mosaico com as palavras do dialeto Caipirês; pessoas como Cornélio Pires, em 1910 e Amadeu Amaral, em 1920 (este montou uma base gramatical, porém faz-se necessário atualizá-la). Outros pesquisadores, nominados no final do presente texto, também cooperaram com meu trabalho até aqui. Pena que meu livro esteja inédito!
Volta-e-meia me deparava com menções ao dialeto mirandês. No entanto, talvez pelo fato de estar ocioso no momento (no Brasil há 14 milhões de desempregados; sou um deles), tenho pesquisado mais amiúde. Através da internet, tomei conhecimento do trabalho executado por Amadeu Ferreira e me identifiquei. Algumas horas depois fiquei estarrecido ao saber que o mesmo havia falecido. Pesquisando um pouco mais, entrei no site “Memórias e Outras Coisas”, do iminente Henrique Martins. 
Sou pessoa séria e gosto de tratar com quem tem compromisso com a verdade e que sejam sérios. Apostei minhas fichas, como se diz no jargão, no Henrique. Vi que existem mais pessoas trabalhando para o desenvolvimento do trabalho iniciado por Amadeu Ferreira. Tenho a convicção de que os textos em Mirandês podem me ilustrar (e aos lusófonos), para conhecermos mais sobre o povo transmontano; pelo mesmo motivo, creio que o blog do Henrique pode ser uma janela que pretendo descerrar, enviando meus textos em Português culto ou textos “caipiras”. Acho que o blogue referido acima merece essa oportunidade de servir de meio, encantador, incitador e libelo, os dialetos que realmente enriquecem a Língua Portuguesa.

 PS: a título de ilustração, passo algumas das Referências Pesquisadas por mim (algumas delas talvez sejam úteis para aqueles que também fazem pesquisas sobre o “Mirandês”)

Jerônimo Soares Barbosa - Grammatica Philosóphica da Língua Portugueza – 1822. (Primeira gramática que pesquisei, centrada na obra de Camões; Os Lusíadas).
Auguste de Saint Hilaire – Segunda Viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais – 1822.
Júlio Ribeiro – Grammatica Portugueza – 1881.
Sílvio Romero – História da Literatura Brasileira – 1888.
Cornélio Pires - Musa Caipira -1910.
Fausto Barreto – Visão Sintática da Grammatica Portugueza – 1911.
Maximino Maciel – Grammatica Descriptiva – 1914.
Antônio Cândido – Os Parceiros do Rio Bonito – 1918.
Amadeu Amaral – O Dialecto Caipira – 1920.
Cornélio Pires – As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho         (O Queima Campo) – 1924.
Valdomiro Silveira – Nas Serras e nas Furnas – 1931.
Cecílio Elias Netto – Dicionário do Dialeto Caipiracicabano - 2001
Antônio Houaiss - Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa - 2001
RIBEIRO, José Hamilton. Música Caipira – As 270 Maiores Modas de Todos os Tempos – 2006.
Wulcino Teixeira de Carvalho – Bravuras e Bravatas de um Caipira - 2009

Glossário para os mirandenses:
[1]: caipira, por definição, em língua Tupi, significa “cortador de mato”, ou aquele campesino que cuida de suas terras, que planta e colhe e que é autossustentável (e que fala em Caipirês).
[2]: o menor valor das moedas do antigo dinheiro brasileiro, o Cruzeiro; equivalente a um décimo.
[3]: a expressão, que se refere à Língua Portuguesa, é mencionada no poema do parnasianista Olavo Bilac, cujo título é: “Ode à Língua Portuguesa”.


Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS. Nascido em julho de 1946, é natural da zona rural de Cravinhos-SP (Brasil). Nascido e criado numa fazenda de café; vive na cidade de São Paulo (Brasil), desde os 13. Formou-se em Física, trabalhou até recentemente no ramo de engenharia, especialista em equipamentos petroquímicos.  É escritor amador diletante, cronista, poeta, contista e pesquisador do dialeto “Caipirês”. Tem textos publicados em 8 livros, sendo 4 “solos” e quatro em antologias, junto com outros escritores amadores brasileiros. São seus livros: “Pequeno Dicionário de Caipirês (recém reciclado e aguardando interesse de editoras), o livro infantil “A Sementinha”, um livro de contos, poesias e crônicas “Fragmentos” e o romance infanto-juvenil “Y2K: samba lelê”.

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